sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 29

Kylie olhou em volta e levou a mão à têmpora, presumindo que talvez devesse começar desde já a fingir uma dor de cabeça.
— Quem?
— Eu — disse uma voz masculina familiar ao seu lado.
Kylie se virou e deu de cara com Perry. Baixou a mão. Perry não merecia sequer que ela fizesse uma encenação.
— Prometa que não vai me pegar pelas orelhas — brincou Perry, mas Kylie percebeu em seus olhos que ele tentava se desculpar.
— Está bem, mas não vá se transformar em outra coisa. Isso me irrita.
— Você não tem senso de humor — reclamou Perry, mas olhando principalmente para Miranda.
— Tudo bem — murmurou Miranda, virando-se para Kylie. — Chris pegou meu nome. Deseje-me sorte — levou a mão aos cabelos e os soltou.
— Boa sorte — disse Kylie, notando a cara feia de Perry.
— Então aonde quer ir para conversarmos? — perguntou ele, observando Miranda e Chris se afastarem. Kylie nunca tinha visto um metamorfo com um olhar tão triste.
— Para mim tanto faz... — de repente, uma ideia sacudiu-a com a sutileza de um trator. Era errado, muito errado, mas não conseguiu se conter. — Conheço um lugarzinho perto de um riacho.


No dia seguinte, as dez em ponto, Kylie aguardava no refeitório a chegada do pai. Já sabia de cor como abordar o assunto de ir morar com ele. E seria mais fácil do que havia pensado. Na noite anterior, sua mãe tinha lhe contado que recebera uma promoção e isso a obrigaria a viajar de vez em quando. Fazia sentido, portanto que Kylie ficasse com o pai. Não disse nada à mãe, é claro. Isso podia esperar.
Derek cruzou a porta do refeitório. Ao vê-la, aproximou-se. Kylie enrubesceu ao se lembrar de que tinha levado Perry até o riacho na esperança de encontrar Derek e Mandy fazendo sabe-se lá o quê. Mas ele não estava lá. Por isso, Kylie simplesmente contornou a grande rocha e conduziu Perry pelo meio da mata mais meio quilômetro à frente, até pararem para conversar.
Kylie não queria, pura e simplesmente, corromper a lembrança do lugar onde ela e Derek começaram de fato a se conhecer. E, embora se sentisse aliviada ao constatar que Derek não tinha levado Mandy ao seu lugarzinho especial, não era idiota a ponto de supor que não a tivesse levado a outra parte para fazerem... Sabe-se lá o quê. Nem suficientemente idiota para censurá-lo por isso. Como poderia fazer isso se fora ela própria quem tinha sugerido que fossem apenas amigos? No entanto...
— Chegou cedo — disse Derek, com um sorriso amigável.
Kylie se perguntou que tipo de sorriso ele insinuou para Mandy quando ficaram sozinhos. Será que a beijou? Teria levado a garota até a pedra?
— Meu pai me garantiu que estaria aqui as dez em ponto.
— Sua mãe vai vir depois? — perguntou ele.
— Não. Minha mãe não quer correr o risco de encontrá-lo. O mundo acabaria se isso acontecesse.
— Sinto muito por isso. Situação difícil — Derek falou com tanta sinceridade que o coração de Kylie acelerou. Na noite anterior, o viu sentado juntinho de Mandy, os dois rindo sem parar. Gostaria de voltar atrás e nunca ter dito que deveriam ser apenas amigos. Mas, considerando que talvez fosse embora logo, sem dúvida tinha feito a coisa certa.
— E a sua mãe, vem? — perguntou Kylie, confiante, uma vez que ele já havia contado a ela sobre o seu passado. Teria contado também a Mandy?
— Parece que sim — suspirou ele. — Minha mãe é um pouquinho superprotetora. Tem sido assim desde...
— Que seu pai se foi? — arriscou Kylie, baixando a voz.
Derek assentiu e, no mesmo instante, as portas da frente do refeitório se abriram para dar passagem a um grupo de pais, além de mais alguns campistas.
— Aí vem ela — disse Derek. — Melhor eu ir.
— Boa sorte — desejou Kylie. E, incapaz de se conter, esticou o braço e apertou sua mão. Tocá-lo foi ótimo e... Errado. O formigamento que lhe correu pelo braço não era do tipo provocado por um amigo. Derek se deteve e olhou para ela.
Seu sorriso parecia ainda mais envolvente.
— Para você também.
Kylie o viu se afastando e admitiu que, quando fosse para casa, sentiria falta dele. Caramba! De Miranda e Della, também. Não de suas brigas, mas delas. Tentando se livrar da melancolia, procurou o pai em outro grupo que entrava. Não o viu, mas reparou em duas pessoas que deviam ser os pais de Della. Uma mulher estava ao lado de um homem com traços asiáticos, observando a multidão. Sabendo que Della não os esperava tão cedo e tinha ficado na cabana, aproximou-se do casal.
— Oi, sou Kylie. São os pais de Della?
— Sim. Onde ela está? — perguntou a mulher.
— Esperava que vocês só chegassem daqui à uma hora. Se quiserem posso pedir que alguém vá avisá-la na cabana.
— Ela ainda está dormindo? — perguntou o pai. — Meu Deus, acha que este acampamento iria discipliná-la! — olhou para a esposa. — Quero ver o resultado do exame antidrogas. Se não tiverem, vou tirá-la daqui e colocá-la num lugar melhor.
Kylie achou mais prudente não reagir à dureza do tom daquele homem. Mas, no fundo, deu graças a Deus por ter um pai como o seu. Ele não se deu ao trabalho de buscá-la na delegacia nem apareceu antes que ela fosse despachada para o acampamento, mas sem dúvida era bem melhor do que o pai resmungão de Della.
— Ah, não, ela já se levantou — disse Kylie, sabendo que aquilo provavelmente não era verdade, mas ansiosa por proteger a amiga da ira paterna. Dando outra olhada no recinto em busca do pai, prontificou-se: — Sabem, acho que vou até lá buscá-la.
Caminhou devagar para a porta e depois saiu em disparada a fim de arrancar Della da cama e fazê-la se vestir. Uma hora depois, Kylie estava sentada nos fundos do refeitório observando outras pessoas conversarem. Tinha feito Della se levantar e comparecer em tempo recorde. No caminho, parou no escritório para ver Holiday e avisá-la de que o pai de Della queria ver o teste antidrogas.
Agora, contemplava Della conversando com a irmã enquanto os pais ouviam atentamente. À distância, o encontro não parecia caminhar nada bem. Della temia esse encontro e, depois de conhecer o pai dela, Kylie não a censurava.
O pai e a mãe de Miranda apareceram cerca de vinte minutos depois dos de Della. Kylie nunca tinha visto Miranda tão insegura quanto na presença deles. Sentou-se de ombros caídos, sem sorrir. Miranda vivia sorrindo e sempre andava ereta, mas agora, perto dos pais, mais parecia uma criança com medo. Kylie pensou em ir até lá e dizer aos pais de Della e Miranda como era feliz por tê-las como colegas de alojamento, mas, por alguma razão, aquilo não lhe pareceu apropriado.
Derek e a mãe tinham saído para um passeio. Ele a apresentou a Kylie, que teve de conter o riso quando ela tirou uma mecha dos cabelos do filho de sua testa, fazendo-o ficar roxo de vergonha. Os garotos não gostam de ser mimados em público pelas mães.
— Olá — Holiday aproximou-se do lugar onde Kylie estava sentada. — Seu pai ainda não veio?
— Ainda não. Deve ter calculado mal a distância. Mamãe que consultava os mapas e coisas assim. Você conhece os homens: dirigem horas a fio antes de parar para pedir informações.
Kylie sabia que aquilo não passava de conversa fiada, mas não conseguiu se conter. Era melhor dizer qualquer coisa do que pensar na possibilidade de seu pai não cumprir o prometido.
Holiday sorriu.
— Homens. Não podemos viver com eles. E não tem graça nenhuma viver sem eles.
— Você tem... Alguém? — perguntou Kylie, sem saber ao certo se o assunto não era pessoal demais para discutir com a líder do acampamento. — Não estou vendo aliança ou anel de compromisso.
Holiday deu de ombros.
— Bem, às vezes não vale a pena tolerá-los.
— Então é divorciada?
— Não, nunca chegamos a nos casar. Eu tinha a aliança, a data e o vestido de noiva. Uma hora antes da cerimônia, descobri que não tinha noivo.
— Isso deve ter sido terrível — observou Kylie.
— É, foi.
— Ele te explicou o motivo?
— Disse que tinha encontrado alguém mais compatível. Uma vampira como ele.
— Ah, meu Deus, não é Burnett, é? — alarmou-se Kylie.
Holiday arregalou os olhos.
— Não. Por que pensou...
— Burnett gosta de você — disse Kylie. — Sempre que está distraída, ele devora você com os olhos.
— Ah, fala sério, esse sujeito é tão arrogante que eu nunca...
— Eu acho que ele é bem bonito — confessou Kylie.
— Ele é mesmo, meu Deus do céu — resmungou Holiday. — Eu o odeio por isso também.
As duas caíram na risada. Holiday observou Della e a família.
— Obrigada por quebrar o meu galho. O pai dela é muito chato.
— Eu sei — concordou Kylie. — Ele me fez perceber como eu tenho sorte. Espere até conhecer o meu pai. É muito diferente.
— Estou ansiosa — disse Holiday.
Kylie sabia que Holiday esperava examinar seu pai e declará-lo sobrenatural. Kylie não acreditava naquilo. Seu pai não tinha dons. Ou melhor, seus dons eram de outra natureza.
Kylie suspirou e olhou de novo para a porta, na esperança de vê-lo entrar. Precisava ao menos de um de seus abraços. Avistou novamente Della entre a multidão e perguntou a si mesma se seu pai já a abraçara alguma vez.
— Você acha que Della deveria ir morar com outros vampiros? — perguntou a Holiday.
— É muito difícil, para um vampiro novo, conviver com gente normal — respondeu Holiday, suspirando. — Principalmente quando essa gente é controladora. Mas Della gosta da família e deixá-la também não seria nada fácil. Receio que qualquer dessas escolhas seja um problema.
— Odeio isso — disse Kylie, com o coração doendo pela amiga.
Nesse instante as portas se abriram de novo e Kylie conteve a respiração, esperando que fosse o pai. Mas quem entrou foi Lucas Parker, acompanhado por uma mulher mais velha, cujo braço apertava carinhosamente.
— Quem é? — perguntou Kylie.
Holiday olhou na direção que ela apontava.
— A avó de Lucas.
Kylie não tinha pensado na possibilidade de encontrar os pais de Lucas. A última coisa que desejava era ser reconhecida por eles – principalmente porque o próprio Lucas não a tinha reconhecido.
— Então os pais dele virão?
— Não. Morreram pouco depois de ele nascer. A avó o criou.
— Não, pouco depois de ele nascer, não — disse Kylie, sem pensar.
— É, é terrível — concordou Holiday, achando que Kylie estava lamentando a morte deles, não fazendo uma afirmação. — Acho que Lucas tinha só uma ou duas semanas de vida quando aconteceu.
— Nossa! — exclamou Kylie, olhando para o outro lado. Lembrou-se então do que Miranda dissera sobre filhos de malandros. Será que Lucas tinha mentido a respeito dos pais porque, de outro modo, o veriam com maus olhos? E seria verdadeiro o provérbio de que quem nasce malandro morre malandro?
— Ah, não, de novo não! — gemeu Holiday.
Kylie se virou e viu Burnett entrando na sala. Vinha carrancudo e não era preciso ser sobrenatural para perceber que alguma coisa de muito ruim tinha acontecido. Holiday pegou seu celular e discou um número. Franziu as sobrancelhas e recolocou o aparelho no bolso.
— Por que será que, quando ele vem, Sky desaparece e tenho que aguentá-lo sozinha?
Como, sem dúvida, Holiday não esperava resposta, Kylie apenas deu de ombros e não disse nada.
— Com licença — desabafou Holiday. — Parece que tenho mais uma batalha a travar.
Segundos depois, Kylie viu Holiday e Burnett saindo juntos da sala. Consultou o relógio e achou melhor ligar para o pai e saber se ele não estava com um pneu furado ou coisa parecida. Ele era capaz, é claro, de trocar um pneu, pois já tinha passado horas ensinando Kylie a fazer isso.
Minha filha nunca vai ficar na mão.
Kylie sorriu, lembrando-se de quando haviam apostado para ver quem trocava um pneu mais depressa. Com essas boas recordações na cabeça, decidiu que tinha de perdoá-lo pelos deslizes recentes. Merecia isso, por ter sido um bom pai. Kylie sorriu de novo. Certa de que ele concordaria plenamente com a ideia de acolhê-la quando a mãe estivesse viajando.
Kylie, porém, já não sorria uma hora depois. O pai não apareceu. Pensando coisas malucas como acidentes de carro e outras desgraças, pegou o celular e ligou para ele. O pai atendeu ao terceiro toque.
— Oi, docinho! — disse ele.
Kylie ficou aliviada só de ouvi-lo.
— Oi, papai! Já está perto?
— Perto de onde?
Kylie sentiu um nó na garganta. Lembrou-se do que ele dissera: Estarei aí às dez em ponto.
— Não se lembra?
— Lembrar do quê?
Um nó começou a se formar na sua garganta; suas narinas começaram a arder.
— Hoje é o dia da visita dos pais aqui no acampamento. Você disse... — mordeu o lábio, rezando para que ele desse uma risada e contasse que já estava chegando.
Mas ele não fez isso.
— Puxa vida! — Kylie o ouviu respirar pesadamente. — Querida, não posso ir aí hoje. Estou de trabalho até o pescoço aqui no escritório. Foi uma semana daquelas.
— Mas você disse... — Kylie se levantou de um salto e começou a andar pelo refeitório antes que perdesse o controle e começasse a chorar diante de todos aqueles pais.
— O que foi que eu disse?
— Preciso desligar.
Kylie fechou o aparelho e disparou porta afora em busca de um lugar onde pudesse ficar sozinha. Mas não estava sozinha. Sentiu a presença fria seguindo-a passo a passo até a cabana. A raiva e a decepção enchiam seu peito de tal maneira que ela mal conseguia respirar. Com a mão no trinco da porta, parou por um instante. O frio parecia comprimir suas costas, então resolveu olhar por cima do ombro. Ele não apenas estava lá como chorava também. A diferença era que as lágrimas tinham cor de sangue.
O medo tentou encontrar espaço no peito de Kylie, mas sua raiva o expulsou.
— Vá embora! — gritou para o fantasma. — Me deixe em paz!

Nenhum comentário:

Postar um comentário