domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 27

Paul não teve muito o que dizer no retorno ao hotel. Eu estava dirigindo. Não confiei na direção dele, não apenas porque estava totalmente transtornado com o que havia acabado de acontecer, mas porque também havia tomado todas as cervejas do frigobar e se encontrava, naquele instante, bebendo a quinta dose de uísque, que também havia encontrado em uma gaveta da mesa de Delgado.
A última coisa de que precisávamos então era ser parados pela polícia de Carmel. Se o policial perguntasse de onde estávamos vindo, Paul era capaz de dizer a verdade. Iríamos direto para a cadeia.
— Se anime — falei finalmente. Ele parecia muito infeliz, jogado no assento do carona, olhar morto no para-brisa. — Você fez uma coisa verdadeiramente boa hoje, pelo menos uma vez na vida. Tem menos um assassino de crianças.
Paul apenas gemeu e continuou olhando pela janela.
— É isso que você devia fazer com seus talentos divinos. — Ah, quanta ironia! Se ao menos o padre Dominic pudesse me ouvir naquele instante. — E nós demos uma chance para ele.
Paul riu.
— Mais ou menos.
— Ei. Foi mais que ele deu para Lucia.
Paul gemeu, enojado.
Balancei a cabeça. Foi um erro deixar Paul responsável pelas algemas. Enquanto eu analisava as informações nas memórias, Delgado retomou a consciência, se libertou e tentou pegar a arma que um de nós (Paul) idiotamente deixou sobre a mesa preta.
Felizmente, a espingarda estava próxima de mim.
— Péssima ideia, Jimmy — falei, apontando a boca da arma para o centro da carinha feliz em seu peito.
Aquela carinha feliz. Eu jamais conseguiria olhar para outra sem pensar em... bem, coisas muito desagradáveis.
Era de se pensar que as pancadas que dei teriam convencido Jimmy a fazer o contrário, mas, mesmo assim, ele acordou com a ideia de escapar em mente. Vi o olhar dele ir do porta-valores – arrebentado no chão preto de concreto – para as memórias espalhadas na mesa à minha frente.
— É isso mesmo, Jimmy — falei, segurando a espingarda — Achamos tudo. Já chamei a polícia. Vão chegar a qualquer minuto.
— Há! Pois é. Você pode fazer qualquer performance se acreditar nela o suficiente.
— Então mesmo que você atire em nós dois e saia fugido... o que duvido muito que você vá conseguir fazer porque eu mando muito bem com isto aqui... eles ainda terão todas as provas que precisam para indiciá-lo. Então, qual vai ser, Jimmy?
Vi seus pequenos olhos pretos se movendo enquanto ele pensava bem, considerando as opções. Arriscar e esperar que dê certo? Ficar ali e se deixar ser preso?
Não sei por que nunca pensei na opção três. Se tivesse, talvez pudesse evitá-la. Pare. Espere. Não. Foi o que eu devia ter dito nos segundos antes de vê-lo, como se em câmera lenta, botar a Magnum .44 na própria cabeça e puxar o gatilho.
Mas não houve tempo. Tomei o cuidado de não olhar para o corpo quando mandei Paul me ajudar a arrumar tudo. Fiquei com medo de alguém ter escutado o tiro e chamado a polícia – de verdade, dessa vez.
Mas ninguém fez isso. Lá fora, as luzes nos troncos das palmeiras ao lado da avenida ainda brilhavam, e havia uma canção de Natal tocando alto em algum lugar. “Noite Feliz”.
Paul pegou a garrafa de uísque debaixo do para-brisa e tomou um gole. Ainda bem que éramos o único carro no bulevar, e todas as lojas da avenida Ocean estavam fechadas.
— Olhe — falei para Paul —, assassinos de crianças, e principalmente molestadores de crianças, não se dão muito bem nas prisões da Califórnia. Elas são cheias de gangues. Cada uma tem seu próprio código de ética, e eliminar um pedófilo pode dar mais respeito a um membro que matar um dedo-duro ou um membro da gangue rival.
Paul riu pelo nariz.
— Aprendeu isso em sua escolinha de aconselhamento?
— Não. — Eu me recusava a deixar que ele me irritasse. — Jake me falou isso. E Delgado também sabia. Foi por isso que fez aquela escolha. Ele sabia que ia morrer de qualquer forma.
— Sensacional, Suze — disse Paul. — E se ele voltar hoje à noite em forma de espírito querendo vingança, a gente vai fazer o quê?
Dei uma olhada nele, sem acreditar.
— Aquele cara? Vingança? Ele deu um tiro na própria cabeça porque era covarde demais para encarar as consequências de suas ações. Acredite em mim, ele vai ficar exatamente onde está agora, seja onde for. Tomara que reencarne como uma barata.
— Tudo bem. Mas, se acha que vou deixá-la quebrar nosso acordo só por causa daquele drama lá, você está louca. — Ele anunciou isso enquanto eu parava o carro na entrada circular do hotel. — Nós ainda vamos jantar no Mariner's. Não vou perder a reserva que fiz para provar o menu delicioso do chef. Dizem que é um dos dez melhores restaurantes do país. E, juro por Deus, Simon, você vai se sentar na minha frente e fingir que está gostando, como a mulher educada que sei que consegue ser quando quer. Mas antes eu vou ao meu quarto para tomar um banho e queimar este terno. — Ele cheirou a manga do paletó e franziu o rosto. — Eca. Eau de perv.
— Está falando sério? — Fiquei o encarando. — Depois daquilo tudo? Você ainda realmente espera que eu...
— Cumpra seu lado do acordo, Simon? É claro. Mesmo que tudo pelo que você me fez passar hoje tenha mais que compensado qualquer coisa que eu possa ter feito com você na formatura.
— Não estou falando do que você fez comigo na formatura. Estou falando sobre... pode nos dar um minuto?
Falei a última parte para o motorista que veio abrir a porta para mim. Paramos na frente da entrada, que estava muito mais lotada que quando fomos embora. Agora havia uma dúzia de pessoas mais velhas, muito bem-vestidas, esperando por seus carros. Alguns homens vestiam temo, e algumas mulheres usavam casacos de pele para se proteger do frio vigoroso de novembro – aqueles incríveis 15 graus.
As noites de sexta eram mortas no centro de Carmel, porque eram reservadas a festas elegantes no Norte da Califórnia, quando os ricos desfilavam em suas melhores roupas para ver e ser vistos nos melhores salões de hotéis e mansões particulares (com a desculpa de arrecadar dinheiro para caridade).
— Paul — falei, sentindo uma onda de pânico crescendo dentro de mim. — Você não pode estar falando sério. Se pensou por um minuto que vou realmente deixar que...
— Vai sim, Simon. Aquelas coisas que fez? Tem razão. Você é perversa. Não consegue evitar. Tem uma veia maldosa, como eu. E eu amo isso. A gente nasceu um para o outro.
— Não nascemos, não, Paul. Meu tipo de perversidade é para ajudar os outros. O seu é só para machucar.
— Mas a dor é tão boa — murmurou ele, meio bêbado.
— Ai, meu Deus. — Estava tudo dando errado. — Olhe, Paul, você com certeza não está se sentindo bem. Eu te levo para o quarto.
— Excelente plano — disse Paul.
— Acho que seria melhor se você me desse as chaves — disse o motorista.
— Não vou ficar muito tempo — respondi, sem nem olhar para ele.
— Acho que vai ficar, sim — disse o motorista firmemente. — Você e o Sr. Slater não têm uma reserva para jantar?
Isso me fez levantar a cabeça. Alguma coisa naquela voz era estranhamente familiar. Só entendi por que quando olhei para o rosto dele. Um calafrio percorreu meu corpo inteiro.
O homem que abriu a porta não era motorista. Era Jesse de Silva.

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