sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 25

Naquela tarde, Kylie ficou na cabana enquanto Miranda e Della iam ao encontro musical no refeitório. Alguns garotos iam cantar e tinham levado uns violões; mais tarde, Holiday e Sky trariam CDs para que todos dançassem. Kylie não estava muito a fim de dançar. Nem de ouvir música. Tinha coisas bem mais importantes para fazer. Sentada na pequena mesa da cozinha, releu o e-mail que acabava de digitar, sem saber ainda se o enviaria ou não:

Oi mãe. Agora que temos computadores nas cabanas, acho melhor te mandar e-mails em vez de telefonar.

Na verdade, ela havia chegado à conclusão de que era mais fácil mentir por e-mail do que por telefone.

Você sempre quer saber tudo o que eu faço. Mas está tudo bem.

Outra mentira. Nada estava bem. Exceto, é claro, sua amizade com Miranda e Della.

Tenho uma pergunta. Começamos a fazer aqui umas leituras de horóscopo e precisamos comparar a hora do nosso nascimento com a de nossos pais.

Essa era a mentira que Kylie tinha receio de dizer em voz alta, mas que lhe parecia bem inteligente.

Pode me dizer a que hora você e papai nasceram? Existe algum meio de eu checar também a hora do nascimento do vovô e da vovó? E quanto aos meus avós paternos? A minha avó não montou uma árvore genealógica? Será que ela colocou ali a hora em que nasceram? Obrigada pela ajuda.
Kylie

O dedo de Kylie pousou sobre a tecla “enviar”. Quase acrescentou “Por favor, não demore para responder”, mas decidiu não abusar da sorte. Se parecesse muito ansiosa, sua mãe começaria a fazer perguntas. Melhor se conter. Respirando fundo, apertou a tecla. A excitação a dominou. Se aquilo funcionasse, ela teria sua resposta. Ou, pelo menos, ficaria mais perto da verdade.
Tinha perguntado a Miranda sobre a regra do nascimento à meia-noite e, segundo ela, alguns humanos nasciam nessa hora. E alguns sobrenaturais, não. Estes, porém, eram conhecidos como “intocáveis” – demônios filhos do mal. Kylie considerava sua mãe fria, mas não má. Se algum de seus pais fosse em parte demônio, ela saberia. Certo?
E havia também a possibilidade de uma geração da sua família não ter nenhum dom. Esse era o motivo que levara Kylie a perguntar sobre a hora de nascimento dos avós. Era esperar demais que sua mãe tivesse essas informações ao alcance das mãos, mas Kylie queria respostas.
E as queria agora.
Trinta minutos depois, Kylie continuava diante do computador, clicando obsessivamente na caixa de entrada. Então, o telefone tocou. Correu quarto para atender. Ao atravessar a porta, lembrou-se de que ainda não tinha ouvido as mensagens de Trey. Ele tinha ligado de novo na hora do almoço e Kylie não havia retornado sua ligação.
Disse a si mesma que só não tinha respondido porque estava rodeada de pessoas que poderiam ouvi-la; entretanto, teria sido fácil ir a um local discreto e atender. Teria sido fácil, mas ela não foi. Bem no fundo, sabia que aquilo significava alguma coisa. Mas não o quê. Pegando o telefone que estava sobre a cama, espiou a tela. E, tremendo atendeu à chamada.
— Oi, mãe — sentou-se na extremidade do colchão. — Recebeu meu...
— E-mail? Sim, mas não quero saber de e-mails ou mensagens. Quero falar com você.
— Está bem — Kylie ficou à espera de alguma resposta, mas só o silêncio encheu a linha. Aquele era o problema com ela e a mãe. Na verdade, não tinham nada sobre o que conversar.
— Teve um bom dia? — perguntou a mãe.
— Muito bom — outro momento de suspense. — Você leu o meu e-mail?
— Sim.
— Pode me dizer a que horas você nasceu?
— Bem tarde.
O coração de Kylie quase parou.
— Bem tarde? Quanto?
— Não sei a hora exata. Está comendo direitinho?
Kylie fechou os olhos.
— É comida de acampamento, só um pouquinho melhor do que a da lanchonete da escola. Você tem aí sua certidão de nascimento? Nela deve ter a hora certa.
— Acho que foi por volta das onze da noite. Digamos onze, então.
— Preciso da hora exata, mãe — insistiu Kylie. — Já te disse por quê. É um projeto do acampamento.
— Minha certidão de nascimento está no armário, naquela caixa cheia de outros papéis e fotografias antigas. Eu precisaria de uma eternidade para encontrá-la.
— Por favor!
— Por que isso é tão importante? Você nem sequer acredita em horóscopo.
Eu não acreditava em muita coisa.
— Como eu disse, é para um projeto do acampamento. Todos aqui estão colaborando Não poderia fazer isso por mim? Tem a certidão do papai?
— Você falou com ele? — perguntou a mãe, baixando a voz.
— Não — respondeu Kylie, com uma sensação de abandono enchendo seu peito.
— Não está com raiva dele, está?
Que droga, estou! Ele me deixou com você.
— Para dizer a verdade, não sei o que estou sentindo.
— Ficar com raiva não vai fazer bem a você, Kylie.
Por que não? Você está com raiva dele. E então Kylie percebeu algo que já devia ter percebido. Sua mãe estava sempre com raiva de seu pai. Kylie só não sabia o motivo.
A mãe deu um suspiro.
— Preciso saber se ele estará aí no domingo.
— Por que estão agindo dessa maneira? — uma pergunta que Kylie jamais se atreveu a fazer. Sempre presumiu que sua mãe, sendo sua mãe, durante um daqueles ataques nervosos tinha mandando seu pai passear. Dois anos antes, durante uma briga, ela ouviu a mãe expulsar o pai de casa.
— Agindo como? — perguntou a mãe, parecendo realmente não saber do que se tratava.
— Estou falando do divórcio. Só isso.
Silêncio.
— Kylie, esse é um problema meu e do seu pai.
— E não me afeta? Como pode pensar que não me afeta? — seus olhos encheram de lágrimas.
— Lamento que isso esteja magoando você, Kylie — o tom de voz da mãe era agora rouco. — Jamais quis que se sentisse assim.
A Rainha do Gelo estaria chorando? Kylie fechou os olhos e sentiu algumas lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Por favor, encontre suas certidões de nascimento! — implorou Kylie tentando conter as lágrimas.
— Tudo bem — respondeu a mãe. — Vou procurar e, assim que encontrar, passo a informação pra você por e-mail. Se não hoje à noite, amanhã.
— Hoje à noite seria melhor — Kylie encostou um dos joelhos no peito.
— Vou tentar — garantiu a mãe. Ou seja, Kylie só teria a informação no dia seguinte. — E você, fale com seu pai a respeito do domingo.
— Até mais.
— Kylie, prometa.
Kylie sentiu o nó na garganta se apertar ainda mais.
— Prometo.
Kylie desligou e ficou olhando para o aparelho. Que diria ao pai? Que droga! O melhor era acabar logo com aquilo. Começou a digitar o número, mas logo percebeu que aquele era o antigo número da avó. E então, a dor. A volta da tristeza. Sentia falta da avó. Sempre ligava para quando tinha algum problema com a mãe. E ela sempre a deixava mais tranquila, dizendo: “Tudo vai acabar bem”.
Bateram à porta do quarto.
— Kylie? — era a voz de Della do outro lado.
Kylie fechou o celular e limpou as lágrimas do rosto.
— Estou no telefone — disse ela. — Não posso falar com você agora.
— Mas eu... Eu tenho uma surpresa pra você — insistiu Della.
— Não quero surpresas — não poderiam deixá-la em paz? Ao menos uma vez?
— Vou abrir a porta. Espero que esteja vestida.
A porta do quarto se abriu.
— Eu disse que... — Kylie ficou muda ou talvez tenha engolido as palavras. Essa seria a única maneira de explicar sua incapacidade de falar. Mas bem podia ser por causa do choque que sentiu ao ver quem estava ao lado de Della.

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