sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 24

— E... Ah! Os anjos da morte realmente existem?
Essa foi provavelmente a sétima ou oitava pergunta que Kylie fez a Holiday durante seu encontro trinta minutos antes. No momento em que havia pisado no escritório, as perguntas começaram a surgir.
— São... Muitas perguntas — riu a líder, convidando-a a se sentar. Kylie pôs o celular sobre a mesa de Holiday e puxou uma cadeira. Depois de sair do refeitório, tinha passado os últimos cinco minutos falando com Sara, comemorando o resultado negativo do teste de gravidez; agora, porém, tinha voltado a se concentrar em sua própria missão de encontrar respostas.
— É, e estou apenas começando — disse Kylie. — Quero saber também que mais eu poderia ser. Você me explicou...
— Verdade? — Holiday arqueou as sobrancelhas. — Então você aceitou que é uma de nós?
A pergunta ficou pairando em torno da cabeça de Kylie.
— Não. Apenas quero estar preparada para... O que descobrir.
A líder do acampamento atirou seus longos cabelos ruivos, presos num rabo de cavalo, para trás dos ombros.
— Ouvi dizer que Helen te examinou para ver se tinha um tumor no cérebro.
— Quem te contou? — quis saber Kylie, já imaginando o acampamento inteiro gozando da cara dela por causa daquilo. Ou, pior ainda, gozando da cara de Helen. A garota parecia ainda mais tímida que ela própria e a ultima coisa que Kylie queria era vê-la ser infernizada por algo que a tinha induzido a fazer.
Holiday balançou a cabeça. Não querendo parecer um coelhinho assustado diante de um lobo faminto – embora essa situação descrevesse muito bem seus sentimentos
— Não foi bem assim. Helen ficou empolgada por ter descoberto o modo como seu dom funciona e veio conversar comigo.
Kylie aceitou a explicação. Sabia como Helen se sentia e não a censurava por ter ido falar com Holiday.
— Mas você ainda não acredita muito, não é? — perguntou Holiday encarando-a.
— Talvez eu seja...
— Louca ou esquizofrênica.
— Isso — concordou Kylie, aliviada ao perceber que Holiday a entendia.
Holiday suspirou, parecendo exasperada, e o alívio de Kylie se desvaneceu.
— Acontece que não acho que nenhum de meus pais tenha dons. E segundo o que disse, isso costuma ser hereditário. Também não consigo entrar na mente das pessoas e ver seus padrões. Helen disse que sempre fez isso.
— Helen é Helen. Nós, que mantemos contato com fantasmas... Um dia simplesmente acontece — Holiday suspirou de novo. — E pode haver uma série de razões que levaram seu pai ou sua mãe a não lhe contarem nada. Você... — levantou as mãos. — Mas o que estou fazendo? Meu trabalho não é convencê-la. É ajudá-la a encontrar suas próprias respostas.
Kylie quase pediu desculpas por desapontar Holiday, pois realmente gostava dela; mas como poderia acreditar naquilo sem nenhuma prova?
— Voltemos às suas perguntas — Holiday fez uma pausa, como se rememorasse a lista. — Os anjos da morte existem mesmo? Creio que você ouviu falar da lenda em torno do nome Shadow Falls.
— Ouvi — disse Kylie. — É verdadeira?
— Eu nunca vi essas sombras. Mas, é claro, ainda não estava anoitecendo quando estive na cachoeira.
— E os anjos da morte?
— Também nunca vi nenhum. Mas conheço várias pessoas que dizem que viram. Algumas acham que eles só existem nas lendas; mas, como todos os sobrenaturais são considerados lendários, seria difícil afirmar que não existem.
— São maus? — perguntou Kylie. Sua curiosidade vinha tanto do medo de Fredericka quanto da hesitação de Miranda em falar a respeito deles mais tarde.
— Não necessariamente. Acredita-se que sejam fantasmas poderosos que juraram... Vingança. Ao que parece, corrigem os erros dos sobrenaturais. E os julgam.
— Será por isso que todos têm tanto medo de fantasmas?
— Isso mesmo — um sorriso apareceu nos lábios de Holiday. — Francamente, a maioria dos sobrenaturais mete medo. Lembra-se dos sujeitos de terno preto?
Kylie assentiu e, no íntimo, reconheceu que metiam medo nela também. Holiday pousou o cotovelo na mesa e descansou o queixo na palma aberta.
— Para ser sincera com você, Kylie, os anjos da morte, em si, talvez não existam. Mas todos os fantasmas que vejo se parecem muito com a imagem que temos deles. Quer dizer, vários espíritos já me protegeram de diferentes maneiras. Alguns, sem dúvida, precisam de algo que temos a lhes oferecer, mas a maioria aparece para nos ajudar ou nos convencer a ajudar outras pessoas. Por mais assustador que isso pareça, trata-se de uma vocação muito especial, reservada a poucos sobrenaturais. Dizem que só é dada a quem tem valor, bom coração e coragem.
— Mas eu não tenho nada disso! — exclamou Kylie, procurando se defender a todo custo. — No Dia das Bruxas, nem me atrevo a entrar em as mal-assombradas!
Holiday sorriu de leve.
— Eu não disse que você era perfeita, Kylie. Deus sabe que eu também tenho meus defeitos. Mas nossos corações anseiam pela vitória do bem. Temos medo, erramos; mas, se ouvimos nosso coração, encontramos o caminho certo. — E pousou a mão esquerda sobre a de Kylie.
Kylie olhou para suas mãos juntas na mesa.
— Ver fantasmas é um dom comum para fadas e... Duendes? — Kylie se lembrou da motorista do ônibus percebendo a presença do soldado Dude quando ele se apresentou para uma visita. — No almoço, a duende, quer a mulherzinha que dirigiu o ônibus até o acampamento, sabia que o fantasma estava lá.
— Sim, alguns estudos mostram que isso é mais comum com fadas e elfos. Mas outras criaturas também têm a mesma habilidade. Embora espécies diferentes possam ter os mesmos dons, cada criatura pode tê-los em maior ou menor grau, dependendo de seu espírito e de suas ligações com os deuses e deusas.
— Então o que mais posso ser?
— Esta manhã, quando a toquei e você sentiu que eu estava tentando acalmá-la... O fato de poder sentir isso é... Bem, incomum. Falando de um modo geral, outra fada, dependendo de seu nível de poder, poderia sentir, mas... Francamente, nunca conheci ninguém que fosse capaz disso por meio do tato.
— Portanto, presumindo que não sou humana, também não sou fada?
— Eu não disse isso. Só o que posso afirmar é que, independentemente da espécie de onde venham os seus dons, parece que você é de uma linhagem bem mais próxima dos deuses. Acho que está só começando a conhecer seus poderes e ninguém pode afirmar o que vai encontrar pela frente.
Kylie ficou olhando para Holiday, que falava como se suas palavras tivessem o poder de fazê-la se sentir melhor.
— Mas sabemos que... Se eu for uma de vocês... Não pertenço às espécies dos vampiros e dos lobisomens? — Kylie conteve a respiração enquanto aguardava a resposta de Holiday.
A líder do acampamento deu de ombros.
— Acredito que, se você pertencesse a essas espécies, perceberíamos algumas das características normais associadas a elas. Entretanto, há os chamados representantes atípicos da espécie. Sua herança é incontestável, mas eles não têm certas características e possuem outros dons. Os estudos parecem concluir que talvez esses indivíduos sejam os poucos que combinaram a genética de duas ou mais espécies. Mas isso ainda não está provado.
Que consolo! Kylie poderia ser um híbrido. Igual ao carro de seu professor de sociologia, que era elétrico e a gasolina ao mesmo tempo.
— Então... Normalmente, o sobrenatural não é uma mistura de duas espécies? Eu me lembro de Miranda dizer que sua família vem se misturando há tempos.
Holiday sorriu.
— Isso mesmo, mas geralmente a linhagem mais próxima dos deuses é a que passa adiante o DNA. Nesse caso, os dons do filho também podem variar, mas as características básicas parecem permanecer em cada espécie, o a transformação em lobo ou a necessidade de sangue para sobreviver. Quando o vírus é ativo, claro.
A mente de Kylie se esforçava para captar toda essa informação.
— Não há um exame de sangue que possa revelar o que sou?
— Infelizmente, não. Ah! Mas estão tentando, pode acreditar. Dizem que os deuses fizeram nosso sangue parecido com o dos humanos e não identificável por uma questão de sobrevivência. Se os normais, ou mesmo algum sobrenatural, pudessem determinar as espécies, conseguiriam facilidade erradicar certos tipos.
Kylie concordou. Se tivesse descoberto, duas semanas atrás, que vampiros e criaturas semelhantes existiam, também iria querer exterminá-los. Mas agora, depois de conhecer Della, Miranda, Derek, Holiday, Helen e até mesmo Perry – o babaca – jamais concordaria com isso.
Então se lembrou de que não era a única pessoa que não sabia por que estava ali.
— Existe algum tipo de sobrenatural que não seja hereditário?
— Bom, como eu já disse, às vezes uma geração não tem o dom. Principalmente no vampirismo. Existem também humanos que são simplesmente formados por vampiros ou lobisomens, mas suspeita-se que mesmo casos as vítimas que sobrevivem à transformação foram de algum o tocadas pelos deuses. Ou por demônios.
Demônios?!
Não, Kylie ainda não estava pronta para lidar com eles.
— Mas você não acha que eu seja da espécie dos vampiros ou dos lobisomens, certo?
— Acho improvável.
Isso significava basicamente que, se Kylie quisesse chegar ao fim daquela história, teria de procurar seus pais. Mas como faria isso se eles estavam por fora de tudo quanto ela própria? Conhecendo a mãe como conhecia, se começasse a fazer certas perguntas, ela a tiraria imediatamente do acampamento para interná-la num hospício.
Durante a aula de artes, ainda naquela tarde, Kylie ficou com Helen e Jonathon Ele tinha tirado todos os piercings, exceto o da orelha esquerda. Kylie notou também que ele se comportava de modo diferente, como se tornar-se um vampiro tivesse lhe dado uma dose dupla de confiança. Até Helen parecia mais disposta a sorrir e totalmente à vontade com o seu novo papel de fada/curadora.
Kylie lembrou-se do que Holiday tinha dito: o acampamento faria com que quase todos se sentissem aliviados porque sempre souberam que eram diferentes. Percebia esse alívio em Helen e Jonathon, que enfim pareciam ter descoberto quem realmente eram. Ali estava uma coisa, dentre muitas outras, que a tornava diferente de todos os outros campistas, e Kylie não podia deixar de pensar que a incapacidade de se identificar com seu eu sobrenatural talvez fosse outro indício de que ela não passava, afinal de contas, de um ser humano comum.
A tarefa, durante a aula de artes, era fazer uma caminhada em grupos de três, encontrar um lugar propício, sentar-se e desenhar todos a mesma coisa. Kylie, ainda interessada em ver as cachoeiras, sugeriu que fossem até lá. Estava certa de poder encontrar o caminho para o lugar aonde Derek a tinha levado e, dali, seguir o barulho das águas. Kylie podia estar curiosa, mas Helen e Jonathon se recusaram a ir, dizendo que preferiam ficar bem longe daquele local. Desceram então uma das trilhas e se depararam com uma velha árvore dividida ao meio pelo que Kylie supôs só poder ter sido um raio.
Enquanto Helen e Jonathon desenhavam a árvore, Kylie tentou imaginar de que modo conversaria com seus pais. A mãe já a considerava maluca por causa do soldado Dude. Que diria quando Kylie lhe perguntasse, sem rodeios, se tinha fadas como antepassados, se via fantasmas ou podia se transformar num unicórnio?
Mais tarde, quando se encontrou com o resto da turma, ela levou um susto ao ver que Lucas estava liderando o grupo. Então, temendo desagradar Holiday caso se afastasse do grupo, estampou no rosto uma expressão de cordialidade que de fato não sentia e jurou ignorar o garoto. Depois de quinze minutos de caminhada, concluiu que não precisava ignorar Lucas porque ele próprio fazia questão de ignorá-la. Em meia hora de passeio, não se dirigiu a ela sequer uma vez nem olhou para o seu lado. Não que Kylie se importasse.
Infelizmente, Fredericka não estava por perto para ver como os dois se importavam pouco um com o outro. A verdade é que Kylie estava superfeliz por não ter cruzado de novo com Fredericka. Precisava, de algum modo, reunir coragem ou pelo menos aprender a fingir que não tinha medo. Pois, cedo ou tarde, as duas iriam se encontrar de novo cara a cara. A essa simples ideia, as mãos de Kylie começaram a suar.
E pensar que Holiday a julgava corajosa! Quem diria.
No início da caminhada pelos bosques, Kylie ficou a maior parte do tempo ao lado de Miranda, quando a amiga não estava tagarelando com os cinco ou seis garotos do grupo. Em se tratando do sexo oposto, Miranda se parecia um pouco com Sara. E em outros pontos também. Mas talvez Kylie sentisse inveja ao ver com que facilidade as duas paqueravam.
Embora Kylie não se achasse feia, aqueles joguinhos de sedução não eram fáceis para ela. Teve muita sorte de Trey aceitar seu jeito calado. Então ela se lembrou de que ele tinha ligado de novo durante a aula de arte. Tinha deixado também uma mensagem, que ela ainda não ouvira, pois tinha seus próprios problemas para resolver. Mas, mesmo tentando se esquecer de Trey, as palavras que ele dissera durante a primeira conversa lhe vieram à mente: Só quero vê-la. Sinto saudades de você.
Com um aperto no peito, reconheceu que também sentia saudades dele. Miranda a cutucou com o cotovelo.
— Esta é Kylie, minha colega de alojamento — disse Miranda. Kylie acenou para o grupo de garotos que caminhava ao lado de Miranda e logo voltou a examinar a trilha para ver se não havia cobras por ali, fingindo ao mesmo tempo não ouvir o que Lucas dizia a respeito do acampamento.
Segundo ele, ossos autênticos de dinossauros tinham sido encontrados ali nos anos 1960. Minutos depois, Kylie já não fingia mais desinteresse e, como o resto do grupo – menos uns poucos garotos e Miranda – absorvia cada palavra de Lucas.
Lucas os conduziu a um riacho onde um arqueólogo descobrira pegadas pré-históricas. Kylie achava aquela história fascinante. E não porque a voz profunda de Lucas soasse hipnótica: ela sempre tinha achado a arqueologia intrigante.
— Eles continuam escavando o sítio? — perguntou Kylie. — Não pode haver mais ossos de dinossauros por aqui?
Lucas voltou-se para ela.
— No terreno do acampamento, não.
Seu tom de voz perdeu o entusiasmo e ele voltou sua atenção para os outros tão rapidamente que Kylie não teve mais dúvidas: o simples fato de ela estar ali o aborrecia e muito. Sem dúvida, Lucas sabia que ela não tinha se apresentado voluntariamente para participar de sua pequena aventura.
Se Kylie ainda tinha alguma dúvida de que a atitude de Lucas era produto de sua imaginação, essa dúvida se desvaneceu quando Miranda sussurrou:
— Não sei por que aquela piranha da Fredericka pensa que Lucas está interessado em você. Pelo que vejo, ele nem te suporta.
— Eu sei — murmurou Kylie. Mas, ao dizer essas palavras, ela se lembrou do modo como Lucas a olhara na noite anterior, quando ela estava de pijama.
— Estive pensando em Fredericka e, juro, essa garota não presta — continuou Miranda. — Ela não nasceu à meia-noite coisa nenhuma. Alguns sobrenaturais mentem...
Kylie concordou, embora mal a escutasse. E então, teve uma ideia.
— Ah, meu Deus, já sei o que vou fazer! Obrigada — apertou bem forte o braço de Miranda e, pela primeira vez, sentiu que estava prestes a descobrir a verdade.

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