domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 23

— Não entendo por que você não me deixa espancar esse padre até ele confessar — disse Jesse. Estávamos no carro dele, esperando em uma fila na entrada de visitantes que dava acesso à 17-Mile Drive. — Seria mais rápido.
— Hum. — Abaixei o quebra-sol para checar o brilho labial no espelhinho. — Porque estamos nos Estados Unidos do século XXI e não quero que a gente vá para a cadeia?
Não dava para decifrar a expressão dele porque estava de óculos escuros. O sol da tarde nos tostava. O carro de Jesse era uma BMW conversível, um empréstimo de Jake, que decidiu que precisava de um carro com mais espaço para que pudesse transportar a prancha de surfe, Max e qualquer menina que estivesse saindo com ele, tudo ao mesmo tempo. Fez um upgrade comprando uma caminhonete da Mercedes Bens para que Brad ganhasse a comissão.
De qualquer maneira, eu não precisava decifrar a expressão nos olhos de Jesse. Conseguia ouvir a reprovação em sua voz.
— Não sei como acha que alguém vai conseguir identificar e prender você — disse ele. — Ninguém vai reconhecê-la depois que tirar essa fantasia.
— Fantasia? — Olhei para mim mesma. Estava usando um conjunto de blazer e saia preta que havia comprado meses antes na Saks de São Francisco, por cima de uma camisa branca arrumadinha. — Isto não é uma fantasia. Comprei esta roupa há meses para ir a entrevistas de emprego. — E funerais. Eu só esperava que o próximo não fosse o de Jesse.
Eu o convidei para me acompanhar à Sagrada Trindade para que ficasse ocupado e não soubesse que Paul Slater estava de volta na cidade, e por que eu havia dirigido até a Pine Crest Road antes de ir para casa, depois do trabalho, mas a casa estava cheia de inspetores com capacetes. Não teria como entrar de fininho para colocar sal antes de meu jantar no Mariner's naquela noite.
Um aviso enorme, que dava para ler da rua, havia sido colocado na porta:

AVISO: NÃO ENTRE
— DEMOLIÇÃO EM ANDAMENTO —
INTERESSADOS EM CONSERVAR IMÓVEL
CONTACTAR PROPRIEDADES SLATER

Havia um telefone escrito com canetinha embaixo da mensagem.
O aviso – e os homens de capacete – significavam que era verdade. Paul não estava blefando. Não que achei que estivesse, mas...
— E os óculos? — perguntou Jesse, interrompendo meus pensamentos.
Olhei para meu reflexo no espelho. Eu havia trocado os óculos escuros pelos óculos sem grau que Becca abandonou no jardim.
— Ah, estes. É para me deixar com cara de mãe. Você não acha que me envelhecem?
— Sua mãe não usa óculos. Nem sua cunhada. E também não penteiam o cabelo desse jeito. — Coloquei a mão na cabeça. Havia me esquecido do penteado cheio de laquê que eu havia feito quando voltei ao apartamento para trocar de roupa.
— Precisamos parecer ricos o suficiente para poder mandar nossa filha para uma das escolas particulares mais caras do país, Jesse — expliquei. — É assim que vamos entrar na Sagrada Trindade e perguntar sobre o tal Jimmy. Eles não deixam qualquer pessoa entrar em escolas hoje em dia, sabia?
Jesse sorriu.
— Mães ricas penteiam o cabelo assim? E usam óculos de que não precisam?
— Ninguém vai saber que não preciso deles — falei. — E o mais importante é que ninguém do distrito escolar vai me reconhecer com essas coisas horrorosas.
— Então é por isso que estamos em meu carro, e não no seu. Eu estava me perguntando o motivo.
— Exatamente. Nenhum pai que pode pagar a Sagrada Trindade dirigiria meu carro. Lembra de nossos nomes?
Pela maneira como ele inclinou a cabeça, tive a certeza de que estava revirando os olhos.
— Dr. e Sra. Baracus. É para eu ser grego?
— B. A. Baracus não é grego. É um personagem do The A-Team, um programa de TV, interpretado por um homem chamado Sr. T. — Jesse fez uma expressão de reprovação. — Não se preocupe — falei logo. — É muito antigo, ninguém vai lembrar. Quero dizer, tem um filme, mas tive de improvisar. Não achei que fosse conseguir marcar uma visita privada assim tão rápido. Mas... e daí? Deu certo, não deu?
— E se eles decidirem procurar por um Dr. Baracus na internet?
— Só vão encontrar que a palavra baracus significa maus modos. Tem uma espécie de justiça poética nisso, não acha?
— Acho, considerando que tenho todos os instrumentos necessários para dar uma surra nesse padre aqui no porta-malas — disse ele, olhando para a placa do Lexus que estava na nossa frente: CARMEL1. — Tudo que Jake tinha na casa pra subjugar um invasor...
Eu me virei para ele, chocada.
— Jesse, não! Ninguém vai bater em ninguém para arrumar confissão alguma. Estamos numa missão para encontrar fatos, apenas.
Ele ajustou as mãos sobre o volante, os ombros largos se projetando por debaixo do terno escuro.
— Eu acho que a gente poderia descobrir mais fatos, e mais depressa, se algemarmos o padre em um radiador, depois encharcarmos ele e dermos vários choques com o taser de seu meio-irmão.
Você não pode tirar a escuridão do garoto.
— Eu também odeio assassinos de criancinhas, Jesse, mas que tal uma abordagem mais sutil que não vai fazer com que eu e você sejamos indiciados por agressão?
— Seus modos — disse Jesse — realmente não fazem jus ao nosso nome, Sra. Baracus.
— Só estou pedindo que você pense em nossa querida filha, meu amor, a adorável pequena Penélope.
Ele balançou a cabeça.
— Nenhuma filha imaginária minha vai se chamar Penélope.
Mordi o lábio para não dizer que essa criança imaginária talvez fosse a única que viríamos a ter. Para quê? Se Jesse estava disposto a prender um padre em um radiador, eu só conseguia imaginar o que faria com Paul.
— Você não colocou essas coisas todas no porta-malas de verdade, colocou? — perguntei.
— É claro que sim. Junto com o rifle .22 de Brad.
Quando viu que eu mal podia acreditar, deu de ombros.
— O que eu ia fazer com ela? Ele queria caçar guaxinins ontem à noite, lembra? Eu tive de esconder a arma dele em algum lugar.
— Então você resolveu trazê-la hoje? Que ótimo, Jesse. Maravilhoso. — Dei uma olhada no segurança armado que estava checando cada carro antes de coletar o pedágio e mandar que seguissem viagem. A 17-Mile Drive, única via que dava na Sagrada Trindade, era uma estrada estadual, passando pela praia Pebble e pela costa do Pacífico. A possibilidade de ver leões-marinhos e lontras-marinhas tomando sol na praia ao longo da estrada era a mesma de ver mansões de vinte milhões de dólares.
É claro que, se você não era residente, tinha de pagar pelo privilégio de usar a estrada – a taxa atual era de dez dólares – a não ser que você tivesse um passe de convidado, o que, como pais de uma possível aluna da Sagrada Trindade, nós tínhamos.
— Preciso lembrar que você não é o Dr. Baracus de verdade, mas apenas um estudante de Medicina e ex-fantasma, com identidade falsificada? — perguntei a Jesse.
— Na verdade — disse ele, abaixando os óculos escuros para olhar para mim —, sou residente de Medicina, e não estudante. E por que você está de repente tão preocupada com os meus documentos de identidade, Sra. Baracus?
— Só estou me perguntando se dirigir com uma espingarda, algemas e armas de choque no porta-malas de uma BMW, que nem é tecnicamente sua, é tão boa ideia assim.
— Está com medo de eu ser selecionado por causa de minha cor na 17-Mile Drive? Nombre de Dios, Suzannah. — Jesse estalou a língua. — Você confia tão pouco assim na humanidade?
Dei uma risada de escárnio.
— Nada do que tenho escutado recentemente tem ajudado a retomar essa confiança.
Ele sorriu e reposicionou os óculos.
— Vou precisar dar um jeito nisso mais tarde. E enfim, não sou mais Jesse de Silva, residente de Medicina, sou Dr. Baracus, cirurgião plástico bem-sucedido, pai de Penélope, lembra? Eles jamais checariam o porta-malas dele para ver se encontram instrumentos de tortura.
— Engraçadinho. — Nada daquilo estava me parecendo tão engraçado assim. — Então você vai fazer plantão no hospital a noite toda?
— A partir das cinco — disse ele. — Talvez a gente possa jantar junto antes disso se eu terminar de torturar o padre logo, e aí eu posso começar a restituir sua fé na humanidade.
— Claro. — De maneira nenhuma ia mencionar que já tinha planos para o jantar. — Mas a gente não vai torturar o padre. Meu Deus, dá para essa fila ser maior?
— Por que você está tão tensa, Suzannah? É uma tarde perfeita de sexta-feira em Carmel-by-the-Sea. Todo mundo veio passar o fim de semana, curtir o clima e dirigir com uma vista linda ao longo da costa. Você devia estar satisfeita por morar aqui e poder passar por essa estrada com seu futuro marido sempre que quiser.
Eu lhe lancei uma olhada de esguelha. Será que David já havia ligado para ele? Será que estava tentando me fazer sentir culpada de propósito?
Não. Se David tivesse contado o que estava acontecendo, Jesse não estaria parado na fila da 17-Mile Drive. Já teria encontrado Paul e o eletrocutado até a morte.
E Jesse sempre foi mais impaciente que eu para ficar em filas – e entrevistar possíveis suspeitos de assassinatos – provavelmente porque passou tanto tempo preso entre o mundo dos vivos e o dos mortos.
Meu Deus, eu era a pior namorada do mundo.
— Hum, por motivo nenhum — falei rapidamente.
Mas é claro que era porque eu já havia recebido uma mensagem de Paul um pouco mais cedo.

El Diablo
Mal posso esperar até 8. Vamos beber alguma coisa antes de comer. Bar do hotel, 5 da tarde.
Use algo sexy.
Nov. 18 1:20 PM

— Então, 5 da tarde, né? Tenho certeza de que a gente já vai ter terminado aqui antes disso. Posso deixar você no hospital. Como está o padre Dominic, falando nisso? — perguntei, querendo mudar logo de assunto.
— Está melhor. Saiu da UTI. Está retomando a consciência e perfeitamente lúcido. Perguntou sobre você.
— Sério? — Fiquei feliz em saber. — O que ele falou?
Ele deu um sorriso meio torto.
— Ele me disse para te pedir que não exorcize Lucia por tê-lo jogado da escada.
Não pude conter uma risada. Bom saber que o padre Dominic estava melhor.
Jesse olhou para mim.
— Sabe, com esses óculos e com o cabelo assim você se parece com uma professora. Minha primeira professora, na verdade.
— De quando você era pequeno? Na escola que só tinha uma sala?
— Isso. Srta. Boyd. A cidade pagou para que ela saísse de Boston e fosse até lá dar aula às poucas crianças que não precisavam trabalhar nas fazendas e nos ranchos.
Franzi o rosto.
— Não sei se quero parecer uma senhora do século XIX.
Ele me olhou com raiva. Ou pelo menos eu achei que era raiva – mas logo percebi que interpretei mal o calor nos olhos dele. Com certeza, não era nada negativo.
— Mas devia — disse ele. — Ela era uma mulher inteligente e bonita, como você. Mas não falava tanto palavrão. Na verdade, ela nunca falou nada feio na minha presença.
— É mesmo? — Cruzei as pernas com uma casualidade elaborada, fazendo questão de que a fenda da saia revelasse bastante coxa. Isso não era fácil de se fazer em um carro compacto daqueles. — A Srta. Boyd fazia você ficar de pé no canto da sala por ter se comportado mal na sala dela?
— Eu jamais teria sonhado em me comportar mal na sala da Srta. Boyd — disse Jesse com o olhar grudado na fenda da saia. — Eu me sentia privilegiado cada vez que estava na presença dela, recebendo qualquer educação que fosse. Houve vários dias em que meu pai não pôde abrir mão de minha ajuda no rancho.
— Isso deve ter sido bem difícil para você — falei com compaixão, e me inclinei para mais perto.
— Foi difícil. — O olhar dele foi da minha perna para meu peito. Quando eu me inclinei, o cinto de segurança, que sempre passo por baixo dos seios para que não os esmague, realçou o decote. Ponto para mim.
— Mas olhe o quanto você conquistou desde então. A Srta. Boyd ficaria orgulhosa.
Não dava para acreditar. Depois de desfilar tantas vezes na frente dele com biquínis e minissaias, no final das contas o que o excitou foram óculos e meu cabelo em um coque francês torcido.
E é óbvio que eu só descobriria isso em um carro pequeno parado em uma fila a caminho da descoberta da identidade de um assassino, e no dia em que Paul Slater estava na cidade ameaçando libertar uma maldição demoníaca e explodir minha casa.
Se eu não tivesse má sorte, não teria sorte alguma.
— Jesse — falei, e abri um dos botões da camisa branca.
— Sim?
— Você está me dizendo que tinha tesão de professora?
Um carro atrás de nós deu uma buzinada longa e alta.
— Ai, cacete — falei, fechando o botão. — É nossa vez na fila.
Jesse trocou de marcha, parecendo irritado.
— Tesão de professora. Não, eu não tinha tesão de professora. E o que significa isso, tesão de professora? Isso é um desrespeito com as professoras, Suzannah.
— É melhor você deixar que eu fale — informei, e dei um tapinha na mão dele. — Você me parece meio afobado. — Eu me inclinei por cima dele para falar com a segurança quando Jesse se aproximou da cancela.
— Oi, Dr. e Sra. Baracus, para ver o padre Francisco da Academia da Sagrada Trindade. Nossos nomes devem estar na lista.
A segurança olhou para a prancheta enquanto Jesse encarava impacientemente a estrada através dos óculos escuros.
— Tesão de professora — murmurou ele, com escárnio, bem baixinho.
— Ah, sim. Achei vocês! — Ela sorriu e deu um passe para Jesse, com um mapa contendo direções até a escola. — Boa visita, Dr. e Sra. Baracus.
Jesse sorriu de volta para ela, e seu sorriso foi tão encantador, com aqueles dentes brancos e boca tão beijável, que eu não sei como ela não desmaiou quando viu.
— Com certeza vai ser ótima.
A escola ficava num terreno quatro vezes maior que o da Academia da Missão, embora a Sagrada Trindade tivesse metade do número de alunos, visto que era só para meninas. O prédio principal parecia uma mansão saída direto de um daqueles filmes históricos nos quais as pessoas ficam sentadas e os criados servem chá. A paisagem era completa, com uma entrada impressionante (com fileiras de ciprestes italianos) que passava por campos Inclinados, até chegar à escadaria de pedras largas e ornamentadas, que, por sua vez, levava a uma porta dupla ainda mais larga e talhada com ainda mais detalhes.
— Um belo terremoto — falei para Jesse — e isto tudo cai. Quem eles acham que estão tentando impressionar?
— Dr. Maus Modos.
Paramos em um estacionamento que parecia ter sido construído para um museu de arte moderna, e não para uma escola. O jardim era muito bem cuidado, e fomos recebidos na entrada principal pela irmã Mary Margaret, diretora de admissões. Ela com certeza fora avisada sobre nossa chegada pelo guarda no portão – não o da 17-Mile Drive, mas o da escola. No site, dizia que filhas de príncipes de outros países estudavam ali. A segurança era claramente uma prioridade.
Menos quando se tratava de meninas com o sobrenome Martinez.
— Dr. Baracus — disse a freira, brilhando de tanto entusiasmo ao dar um passo à frente para apertar nossas mãos. — Sra. Baracus. Estou muito feliz em conhecê-los. Bem-vindos à Academia da Sagrada Trindade.
Dei uma olhada triunfal para Jesse. Eles realmente não pesquisaram a palavra baracus. Ou, se procuraram, deviam estar apostando que Jesse – ou eu, para não ser sexista – era tão rico que nos mantivemos cuidadosamente fora da internet, como as famílias de várias alunas deles. As pessoas mais ricas do mundo não ficam compartilhando fotos de seus jatos particulares e Rolexes no Instagram, pois não querem que os filhos sejam sequestrados em consequência disso.
A irmã Mary Margaret era o oposto da irmã Ernestine em todos os sentidos. Era jovem, magra e fez um discurso ensaiado, porém com um entusiasmo doce, sobre os benefícios de educar nossa adorável filha Penélope – Jesse franzia o rosto toda vez que ela era mencionada – na Sagrada Trindade.
Recebemos a informação de que a porcentagem de meninas da Sagrada Trindade que faziam faculdades era de cem – a mais alta da região – e a porcentagem que cursava faculdades da Ivy Leage... Bem, a irmã Mary Margaret não queria se gabar, mas era bem alta.
Se não fossem assassinadas antes de terminar o primeiro ano, pensei, mas não falei.
Jesse pareceu irritado durante grande parte do discurso da irmã Mary Margaret, e era de se entender. Estava fazendo o papel do riquíssimo medico cirurgião a especialidade que dava mais dinheiro na época – muito bem. Mas dava para ver que escutar as palavras graças ao padre Francisco tantas vezes começava a enervá-lo. E a mim também.
“Graças ao padre Francisco” a Sagrada Trindade não estava mais prestes a ter um desastre financeiro por causa da falta de gerenciamento do diretor anterior. O padre Francisco tomou sua posição havia uma década, e salvou a instituição com o tanto que sabia de assuntos fiscais.
“Graças ao padre Francisco” o coro do meninas da Sagrada Trindade foi de quase dispensado para o número um do estado. Gravaram até um CD. Nós queríamos uma cópia do CD para levar para Penélope? É claro que sim. Penélope ia amar.
“Graças ao padre Francisco” o chão de madeira importada da biblioteca da escola que o predecessor havia colocado foi trocado. O padre Francisco trocou a madeira antiga por outra mais econômica, doando a diferença em dinheiro para uma caridade que alfabetizava crianças. Ele não era um homem maravilhoso?
— O padre Francisco fez o trabalho todo sozinho? — perguntou Jesse para a irmã Mary Margaret.
Ela pareceu confusa por alguns instantes.
— Hum... não. Ele contratou um mestre de obras.
Jesse não ficou impressionado.
— Então ele provavelmente não economizou tanto dinheiro assim.
Tive de conter uma gargalhada. A irmã Mary Margaret não sabia no que estava se metendo. Toda vez que ia fazer um plantão, Jesse via crianças sofrendo com doenças causadas por dietas inadequadas. Os pais simplesmente não tinham como pagar para alimentá-las de forma correta.
E, no entanto, ali, na mesma comunidade, havia uma escola que pagara 150 dólares por metro quadrado de piso e cobrava de matrícula para a pré-escola o mesmo que Jesse pagava por semestre na faculdade de Medicina... embora ela oferecesse estábulos aquecidos para os cavalos que as alunas queriam acomodar na escola, mesmo que a temperatura em Carmel raramente fosse menor que 10 graus. Descobrimos isso quando fomos levados em um tour pela escola.
A essa altura, a irmã Mary Margaret já havia nos deixado aos cuidados de uma “guia estudante”, uma aluna do primeiro ano do ensino médio, magra e de olhos escuros, chamada Sidney.
Eu conhecia muito bem a psicologia por trás de colocar alunos como guias, visto que tínhamos o mesmo sistema na Academia da Missão. Era mais eficaz para os administradores da escola que alunos socialmente interativos e atraentes, mas não de maneira intimidante, fizessem as visitações com os futuros pais de alunos que pessoas como a irmã Mary Margaret. Os pais viam naquele guia o que seus próprios filhos poderiam se tornar se entrassem para uma instituição tão boa.
E os guias estudantes eram melhores para lidar com perguntas mais incisivas, como a de Jesse:
— Quando podemos conhecer o famoso padre Francisco de quem ouvimos falar tanto?
— Ah, sinto muito — respondeu Sidney, piscando seus cílios longos e escuros (ela usava extensões e uma boa quantidade de delineador, mas com certeza enganava vários pais). — Ele está em San Luis Obispo hoje, em uma conferência.
Eu sabia que a conferência onde o padre Francisco supostamente estava – a mesma da qual o padre Dominic participou – havia terminado na quarta-feira. Então ou ele tinha estendido a viagem para incluir uma jogatina em Vegas, ou não queria perder seu valioso tempo batendo papo com alguns possíveis pais de aluna.
Eu apostaria na primeira opção. A maioria das escolas particulares não se considerava mais instituições educacionais, e sim pequenas corporações lucrativas, e não podiam bancar a perda de investidores em potencial.
Sidney nos explicou com muito charme que fazer os tours era uma de suas coisas favoritas porque “me tira da aula de cálculo” e “vai ficar ótimo no histórico para as faculdades”. O sonho dela era cursar Yale e se tornar “a melhor atriz desde Meryl Streep”.
Sidney não precisava se preocupar. Já estava encaminhada.
— Há quanto tempo você estuda na Sagrada Trindade? — perguntei para Sidney, conforme caminhávamos para os estábulos. Pedi para vê-los, pois “Penélope” tinha um pônei.
— Desde o jardim de infância — disse Sidney. — Eu amo muito este lugar. Meus pais moram em São Francisco e eu os vejo nos fins de semana. Mas prefiro muito mais ficar aqui que na cidade. Gente demais.
Vende, Sidney.
— Então você devia estar aqui quando aquela menina morreu — falei casualmente, conforme o celeiro e os estábulos, assim como o ringue de montaria, apareceram no horizonte. Os estábulos eram grandes, porém organizados, pintados de branco com detalhes em verde, e o celeiro era o clichê tradicional pintado de vermelho, mas de muito bom gosto. — Qual era o nome dela, amor? — Apertei o braço de Jesse. Eu estava apoiada nele porque era difícil andar no chão de pedras da escola com meus saltos altos. — A pobre menina que morreu? Lucy alguma coisa?
— Lucia — disse Jesse, entendendo minha deixa. Parecia imune ao charme de Sidney.
— Ai, meu Deus. — A saia vermelha quadriculada do uniforme da Sidney balançava furtivamente à frente. — Isso. Lucia Martinez. Nunca vou me esquecer. Que pesadelo. Eu era um ano mais velha que ela. Mas, mesmo assim, eles fizeram todo mundo fazer, tipo, aulas de luto para ter certeza de que ninguém ia ficar maluco nem nada.
Então ela pareceu se lembrar de que estava falando conosco e deu um sorriso constrangido por cima do ombro.
— Não que não tenha sido completamente terrível o que aconteceu com ela. Acidente de montaria. Mas nada disso vai acontecer com sua filha. Foi um acidente completamente fora do normal. Jamais aconteceria de novo.
— Claro — falei, me lembrando do que Becca disse estar cansada de ouvir de todo mundo. — “Acidentes acontecem.” Com certeza.
A essa altura, já estávamos nos estábulos. Por sorte, uma aula estava acontecendo. Uma mulher com estrutura forte, vestindo calças de montaria, se encontrava no meio de um ringue de grama, direcionando seis ou sete meninas em cavalos de aparência extremamente saudável.
— Srta. Dunleavy. — Sidney a chamou da cerca branca de madeira. — Tem um pessoal muito gentil aqui querendo conhecê-la.
Jennifer Dunleavy – reconheci o nome do artigo que Cee Cee havia enviado sobre a morte de Lucia – foi até o lado da cerca onde Jesse e eu estávamos apoiados, respirando os cheiros de cavalo e grama recém-aparada e feno, que eram até agradáveis. Removeu uma das luvas para nos cumprimentar enquanto Sidney nos apresentava. O aperto de mão era firme, porém não demais.
— A filha do Dr. e da Sra. Baracus tem um pônei — explicou Sidney. — Se eles decidirem matriculá-la, ficariam interessados em trazer o animal.
— Perfeito — disse Jennifer com um sorriso largo, de aparência sincera. — Nós com certeza temos espaço. Estou dando aula agora, como vocês podem ver, mas Mike pode mostrar as instalações. Mike! — Ela chamou um ajudante que estava segurando uma lata de tinta, dando retoques. Ele sorriu e começou a ir até nós.
— Ah — falei rapidamente —, a enteada de minha amiga fez aulas de equitação aqui durante um tempo e disse que tinha um homem aqui com um toque incrível. Qual era o nome dele mesmo, amor? — Apertei o braço de Jesse de novo.
— Jimmy — disse Jesse sem emoção. Dava para ver que ele estava pronto para bater em alguém, mas em ninguém presente naquele momento.
— Isso mesmo — exclamei. — Jimmy! Jimmy ainda está aqui? Eu adoraria conhecê-lo se fosse possível. Queria que ele mostrasse os campos para nós.
O rosto de Jennifer se franziu. Por um momento, achei que era porque o nome a incomodou, mas depois percebi que podia ser apenas porque ela não estava se lembrando.
— Ah, Jimmy — disse ela finalmente. — Vocês devem estar falando de Jim Delgado.
E assim eu consegui o sobrenome do violentador de Becca e assassino de Lucia.
Tentei não apertar o braço de Jesse demais com a empolgação.
— Ah, isso mesmo — falei. — Delgado. Jimmy Delgado.
— Mas, nossa — continuou Jennifer —, ele não trabalha aqui há quase uma década.
Não me preocupei em esconder a decepção. Achei que uma senhora rica como a Sra. Baracus não esconderia seus sentimentos. Certamente faria biquinho se uma loja não tivesse sua marca favorita, ou se uma rica escola particular não tivesse mais seu assassino de crianças predileto.
— Poxa — falei —, que pena. A Sra. Walters falou tantas coisas boas sobre ele também.
As sobrancelhas da Jennifer se ergueram de forma questionadora diante do nome.
— Sra. Walters?
— É. Essa é minha amiga. Esposa de Lance Arthur Walters, Kelly Walters, da Wal-Con Aeronáutica. A senhora deve se lembrar. A enteada dela estudou aqui um tempo... Becca Walters?
Vi Sidney fazer uma leve expressão de desgosto ao ouvir o nome de Becca.
— Bem... Ela nunca foi uma aluna muito popular.
Mas ninguém sabia que Becca tinha uma boa razão para se fazer o mais invisível possível: Jimmy Delgado.
— Um casal tão querido — continuei. — Nós nos conhecemos em um comitê para arrecadar fundos para a pesquisa contra o câncer. Kelly não conseguia parar de elogiar esta escola, e, é claro, as habilidades de Jimmy com cavalos. Você não deve saber para onde Jimmy foi, sabe?
Senti Jesse apertar meu cotovelo levemente. Sabia que eu estava mentindo quanto a Kelly, e exagerando muito.
Mas o que Jesse não sabe – porque tem integridade demais, e é uma das coisas que mais amo nele – é que não existe exagero quando se trata de pessoas que só estão interessadas no seu dinheiro.
— Bem — disse Jennifer, com uma expressão verdadeira de pena — eu sei, sim, onde ele está, mas acho que não vai ajudar a senhora tanto assim, Sra. Baracus. Jim Delgado não trabalha mais com cavalos.
— A senhora sabe onde ele está? — Jesse não conseguiu conter a surpresa.
— Claro — disse ela com uma risada. — Jimmy mora aqui na cidade. Eu o vejo o tempo todo. Mas boa sorte se forem tentar fazer com que volte a lidar com montaria. Ele ganhou um dinheiro há um tempo e agora tem um negócio próprio. Estúdio de Fotografia Delgado. É especialista em fotografar crianças.

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