domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 21

Ótimo. Sensacional. Era de se imaginar que depois de todos esses anos eu já tivesse aprendido a dar esse tipo de notícia sem fazer garotas começarem a chorar. Mas não.
Ainda bem que Jesse não estava ali. Era infinitamente mais delicado e paciente que eu e teria me dado uma estrela dentre cinco para essa mediação, só pelos palavrões.
Peguei um pacote pequeno de lenços da bolsa carteiro e o entreguei a Becca. Uma mediadora precisa estar preparada para qualquer emergência.
— Becca — falei. Eu estava feliz pelo som calmante dos devotos cantando hinos na basílica; eles provavelmente manteriam minha voz e os soluços de Becca inaudíveis para as meninas — Desculpe. Não quis ser tão... direta. Sei que deve ser muito novo para você. Mas o fantasma de Lucia a vem seguindo há anos, provavelmente desde que morreu.
Becca pegou um lenço e secou os olhos encharcados com dedos trêmulos. Sua respiração saía em soluços curtos e fragmentados.
— Mas... mas como isso é possível? — perguntou ela. — Lucia? Aqui? — Ela olhou em volta do jardim como se esperasse que uma assombração fosse aparecer por trás dos rododendros. — Não acredito em você. Isso é uma piada.
— Não é uma piada, e ela não está ali. Está no chafariz, brincando com minhas sobrinhas. Você não consegue vê-la. Mas acredite em mim, ela está aqui. Vestida com roupa de montaria e segurando um cavalo de pelúcia.
Becca arfou. Alguma coisa que eu falei a tocou. Não sei o que foi, mas ela semicerrou os olhos para o chafariz.
— Como você pode vê-la, e eu não?
— É uma coisa genética. Mas acredite, ela está ali. Foi ela quem destruiu o escritório naquele dia.
Becca se surpreendeu tanto que parou de chorar.
— O q-quê?
— Você ouviu certo. Não foi um terremoto. Lucia não gostou quando eu tentei tocar em você, mesmo que eu só estivesse tentando ajudar. — Os olhos de Becca, por trás das lentes, ficaram tão reluzentes e brilhosos quanto as moedas que as meninas catavam no chafariz e apontavam para o sol. — O que você pode me contar sobre a forma como Lucia morreu? Ela não tem ajudado muito. Parece só se preocupar com você.
Pela primeira vez desde que a conheci, ela sorriu – de verdade, com o rosto todo. A expressão a transformou, transformando-a de uma menina comum para outra muito mais interessante que a média... quase bonita.
— Não acredito que ela está preocupada comigo. Não entendo, visto que foi ela que... — Becca parou de falar. O sorriso não durou muito.
— É, eu sei, Becca — respondi com calma. — Foi ela que morreu. Mas os mortos não são conhecidos por terem pensamento lógico. Se fossem, eu não teria emprego. Por que Lucia está tão preocupada com você, ainda mais agora, depois de tantos anos depois da morte dela?
— Eu não sei — disse Becca, os olhos se enchendo de lágrimas outra vez. Ela levantou a mão e segurou o pingente de cavalo. — Ou... ou talvez eu saiba. O que aconteceu com ela foi culpa minha.
— Culpa sua? Como foi culpa sua? Sei que estudaram juntas, mas você era pequena quando...
— Ela morreu por minha causa — disse ela, com os cantos das bocas tremendo. — É por isso que eu uso este colar. Para me lembrar de que é minha culpa o fato de ela estar morta, e que eu... que eu tenho de viver a vida por nós duas. Ela era minha melhor amiga.
— Ok — concordei ceticamente —, mas você me falou outro dia que se odeia. Se realmente quer viver a vida por Lucia, talvez seja uma boa começar a viver por si mesma.
Suas sobrancelhas despenteadas se franziram.
— Eu estou vivendo por mim mesma.
— Não acho que esteja, Becca. Você não cuida muito bem de si. Pediu para sua madrasta levar você a um médico por causa do corte? Sei que não, porque ainda está usando esse curativo velho horroroso. — Ela tentou esconder o punho de tanta vergonha, mas não tinha nenhum lugar onde pudesse colocá-lo, a não ser cruzando os braços. — Esse negócio vai infeccionar se você não limpar, sabe? E esses óculos? Estão imundos. — Eu os tirei do rosto dela antes que pudesse me deter. Dei uma olhada pelas lentes e fiquei surpresa. — Becca, estes óculos não têm nem grau! O que é isso, um disfarce?
Ela os recuperou rapidamente.
— Não. Por que você está falando todas essas coisas ruins? Achei que você deveria me ajudar. Os óculos me deixam mais confortável.
— Como o quê? A menina que ninguém nunca nota? Olhe, Becca, eu entendo. Seu pai se casou com uma mulher que não é nem dez anos mais velha que você e que parece uma modelo. Eu também me sentiria insegura. Mas não vem querendo que eu acredite nessa palhaçada de viver a vida pela Lucia quando você mal vive de verdade. Agora, por que exatamente Lucia morreu por sua causa; o que, por sinal, eu não acho que seja verdade?
Irritada, Becca jogou os óculos em uma glicínia, incomodando duas borboletas, que saíram voando indignadas.
— Por que você não pergunta para ela, se realmente se comunica com fantasmas... o que, por sinal, eu não acho que seja verdade?
— Já falei, os mortos não são conhecidos por terem pensamento lógico. Lucia mal fala comigo. E tenho quase certeza de que, quando o padre Dominic tentou, ela o jogou escada abaixo.
Becca ficou branca.
— Ai, meu Deus. Peraí, ele...
— Sim. O padre Dominic também é um de nós... e isso quase fez com que ele morresse. Está vendo por que ser mediadora não é o que dizem? Lucia é perigosa, Becca. Não porque é má, mas porque está com medo. Ela sente medo por você. Precisa me contar por quê, para que eu impeça que ela machuque mais alguém.
Becca balançou a cabeça com tanta força que os cabelos bateram nas bochechas.
— Não posso. Você não entende? Eu contei pra Lucia sobre ele, e ela morreu.
— Ele? — Fiquei confusa. — Ele quem?
— Ele — sussurrou ela. Os olhos não estavam mais cheios de lágrimas apenas. Estavam cheios de medo. — Ele matou Lucia só porque ela ia contar o que ele fez comigo. Se eu tivesse feito o que ele mandou e não tivesse contado a ninguém, ela ainda estaria viva. É por isso que é tudo culpa minha.
Então eu entendi. É claro. Ele. Não tinha sempre um ele na história? Eu tinha um ele. Por que Becca também não teria? Só que Paul Slater era apenas um maníaco manipulador não um assassino de crianças.
— Becca, tudo bem. — Segurei o braço que não estava machucado. — Você não fez nada de errado. Me fale quem é. Ele não pode mais machucar vo...
— Como assim? — Ela afastou o braço. — É claro que pode. Ele fez com que a morte de Lucia parecesse um acidente. Pode fazer a mesma coisa comigo, ou com você, com a mesma facilidade. — A voz dela estava rouca de tanto choro e desespero. — Você acha que eu não escuto isso praticamente minha vida toda? “Acidentes acontecem.” Mas o que aconteceu com Lucia não foi um acidente. Não tenho como provar, mas eu sei.
— Então me conte. Me conte para eu poder resolver tudo.
— Você não pode.
— Posso, sim, Becca.
Ouvi um sinal tocando e alunos começarem a sair de suas salas para o corredor, indo do primeiro tempo para o segundo. Torci para que Becca não notasse.
— Não posso trazer Lucia de volta à vida, Becca — sussurrei de forma urgente. — Mas posso talvez dar um pouco de paz a ela, e ajudar você a ter a vida que merece. Mas só se você me ajudar. Por favor.
Ela não olhava para mim. Encarava o chafariz, passando o dedo no pingente de cavalo em seu pescoço.
— Ele deve ter assustado aquele cavalo de propósito, depois cavalgado atrás de Lucia e a matado quando estava longe o suficiente do grupo e ninguém conseguia mais ver. — As lágrimas corriam pelas bochechas até a blusa branca do uniforme. Ela nem tentou secá-las. — Ela era boa em montaria, a melhor de nós, mas seu cavalo tinha medo de cobras: todos os cavalos têm, mas o dela tinha mais, e se alguém deixou alguma coisa na trilha que se parecia com uma cobra... — Ela tremeu. — É isso que acho que ele fez. E aí só teve que seguir ela e...
— Por quê, Becca? — perguntei. — Por que ele faria isso com Lucia?
Ela fez que sim com a cabeça, tomando consciência das lágrimas. Pegou um lenço do pacote que dei para ela a fim de secar os olhos e assoar o nariz.
— É por isso que é culpa minha. Foi tão idiota. Simplesmente escapou. Ela viu que eu tinha uma barra de chocolate e queria saber onde eu conseguira, porque a gente não podia comer doce na escola, e eu, que nem uma idiota, falei que ele tinha me dado. E aí ela falou que queria doce também e que ia pedir a ele. Aí eu percebi o que tinha feito, porque é claro que ele me falou que coisas horríveis iam acontecer se eu contasse para alguém. Então eu fiquei com medo porque não queria que ele fizesse com ela o que fez comigo, mesmo que depois ele tivesse me dado doce. Aí falei para ela que não podia contar a ninguém sobre o doce, nem sobre ele, e ela quis saber por quê, e então...
— Você contou a ela.
— I-Isso.
Eu já devia estar acostumada. Esse tipo de história era tão tragicamente comum que não devia me surpreender mais.
No entanto, sentada ali em um dos lugares mais quentes, ensolarados e pacíficos do mundo, celebrado na internet inteira por sua beleza e seus benefícios altamente meditativos, ouvindo a risada de minhas sobrinhas e o som dos hinos sendo tocados na basílica, de repente senti frio.
Viver no vale da sombra da morte deve ter sido exatamente assim para Jesse. Frio, escuro, sem luz do sol para aquecê-lo. Senti uma vontade enorme de pegar o celular e ligar para ele, só para ouvir sua voz. Não podia fazer isso na frente de Becca. Ela não tinha para quem ligar.
— Então Lucia disse que ia denunciá-lo?
— Isso — confirmou Becca, com a aparência mais infeliz que um ser humano pode ter. — Ela era assim, sabe? Sempre tomava a frente das coisas. Não era exatamente mandona, mas... quero dizer, era mais ou menos.
Pensei na sensação das mãos de Lucia em volta de minha garganta. Mandona era uma maneira de descrevê-la.
Os olhos de Becca estavam transbordando.
— Fui tão burra. Eu me lembro de me sentir aliviada. Eu me lembro de pensar “Bem, Lucia vai falar, e aí vai ficar tudo bem.” Mas em vez disso... — Ela parou subitamente.
Não precisava continuar. Eu sabia o que tinha acontecido.
Toquei os dedos dela, que estavam rasgando o lenço de papel nervosamente.
— Qual era o nome dele, Becca?
Ela se sacudiu toda, parecendo sair da sombra escura para onde foi temporariamente.
— Q-Quê?
— O nome dele. O homem que... dava chocolate para você.
— Ah. — Ela teve de pensar. Refletiu por um bom tempo, observando duas borboletas voando juntas. — Jimmy, eu acho. Era como todo mundo o chamava. Jimmy. — Ela falou o nome com um tom de desculpas, como se fosse algo vulgar que não queria ter sido forçada a dizer na minha frente.
— Você se lembra do sobrenome dele?
— Desculpe. Não lembro... não consigo... Ele era alto. Eu me lembro disso. Mas não consigo me lembrar de mais nada em relação a ele.
Ela se lembrava, mas não se permitia ter acesso às lembranças. Devia ter bloqueado tudo, assim como o nome dele, da mesma forma que todos nós tentamos bloquear nossas piores memórias de infância.
— Tudo bem, Becca. Você contou a mais alguém, além de Lucia, sobre ele?
Ela arregalou os olhos.
— Não, claro que não. Não depois... Não depois do que aconteceu a Lucia. Não contei... não podia...
— Eu entendo. — Ela não queria ser a próxima vítima de assassinato.
— Parei de montar depois disso para não o ver mais — falou rapidamente. — Ele trabalhava no estábulo. Acho que era um ajudante, sei lá. Fazia outros trabalhos na escola também.
Ele. Becca não falava o nome.
— Eu tentei evitar o estábulo o máximo que pude. Mas aí um dia... aconteceu. A irmã Regina Claire fez a turma toda ir até lá e deixar um arranjo de flores para Lucia. E ele estava lá. Veio e perguntou se podia falar comigo, e eu tive de dizer que sim, sabe, porque teria sido estranho se eu falasse que não. Mas eu sabia que ele não podia fazer nada porque todos estavam olhando. Enfim, ele sussurrou que era uma pena o que tinha acontecido com Lucia e com o cavalo dela, e que seria uma pena maior ainda se algum dia eu contasse para outra pessoa sobre... sobre o que a gente fez, porque o que aconteceu com Lucia poderia acontecer com meus pais, ou com Shasta, minha égua.
Senti uma onda de raiva quando ela mencionou o cavalo, mesmo que não fosse a primeira vez que eu ouvisse coisa do tipo. Abusadores geralmente ameaçam machucar membros da família e animais de estimação para controlar as vítimas. Sabem que crianças se preocupam mais com quem amam que com a própria segurança pessoal, e que os animais geralmente são tão amados quanto membros da família.
— O que mais ele falou? — perguntei. Estava difícil manter a voz firme.
Becca deu de ombros, cutucando o curativo que eu havia feito, tentando levantar a fita adesiva em um dos lados onde havia perdido a cola.
— Só que ele sabia onde eu morava. Que seria uma pena se um dia meu pai estivesse dirigindo para o trabalho, ou minha mãe indo ao mercado, e o freio não funcionasse, e um deles acabasse em um acidente terrível...
Segurei os dedos dela antes que ela destruísse o curativo completamente, revelando as marcas profundas que havia feito no começo da semana.
— Tudo bem, Becca — falei da maneira mais gentil que podia. — Eu entendo completamente por que você não contou para ninguém.
— Eu devia ter contado. — Sua voz estava baixinha. — Se tivesse, Lucia ainda estaria viva.
— Talvez — falei, e segurei sua mão com mais força. — Ou talvez vocês duas estivessem mortas.
— Talvez fosse melhor assim — disse ela com frieza, olhando para o curativo. — Talvez fosse melhor que isso.
— Não. — Segurei a mão dela com força e pensei na escuridão nos olhos de Jesse. — Não seria. Acredite em mim.
— Sou uma covarde. — As lágrimas correram de novo, quentes e ligeiras, caindo nas nossas mãos entrelaçadas. — Uma covarde idiota e fraca. Fiz com que meus pais vendessem Shasta. Falei que não gostava mais de cavalos, o que não é verdade. Eu amo. Só... achei que Shasta ficaria mais segura vivendo em outro lugar. Eu até... isso vai parecer loucura, mas eu ainda acho que vejo ele no centro da cidade de vez em quando, sabe? Mal me lembro de sua aparência, mas ainda acho que o vejo em todos os lugares que vou. E sabe o que eu faço quando acho que vi? Eu me escondo. Mesmo que seja só atrás de uma parede ou de um carro estacionado. Sou tão idiota!
Ela tentou rir de si mesma, mas apenas engasgou. Meu coração doeu por ela quando me lembrei da palavra que havia talhado no braço.
— Você não é idiota, Becca — falei. — Você era uma criancinha que foi traumatizada e fez o que pôde, dentro de seus limites, para se proteger e proteger as pessoas que ama. — Apertei as duas mãos dela com carinho. Quando senti que estavam finalmente calmas, eu as soltei. — O que eu não entendo, Becca, é que se você continua o vendo, por que ficou? Por que não se mudou pra Nova York com sua mãe, onde ficaria segura?
Ela piscou para mim como se não acreditasse que alguém pudesse fazer uma pergunta tão idiota.
— Mas e meu pai? Ele não pode ir embora porque a empresa fica aqui. Então eu tenho que ficar para ter certeza de que ele está bem.
Claro. Lógica infantil inquestionável. Becca mal podia tomar conta de si mesma, mas ainda achava que era papel dela proteger seu pai do homem que matou a amiga.
— Tá bom, Becca — falei. — Entendi. Agora eu entendo por que você acha que tem de se punir cortando o braço. Mas chega, ok? Jimmy nunca mais vai conseguir machucar você nem ninguém mais.
Ela virou o rosto cheio de lágrimas para mim.
— Sério? Por que não?
— Porque você contou para mim — respondi. — E eu sou uma mediadora.

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