sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 21

— Dois sujeitos querem falar com você — avisou Holiday, fazendo-a entrar para no escritório.
— Quem? — perguntou Kylie, desejando que Della tivesse se enganado.
— São da UPF.
Kylie já tinha ouvido essa sigla várias vezes desde que chegara ao Acampamento Shadow Falls. Mas agora, quando as três letras se entrelaçaram em sua mente, uma nova versão lhe ocorreu: União de Pessoas Fantásticas.
— Eles patrocinam este lugar — acrescentou Holiday, ajudando-a a subir os degraus.
— Por quê? — quis saber Kylie, parando à porta. — Por que querem conversar comigo? — Não estava certa de ser uma pessoa “fantástica”.
O olhar de Holiday se suavizou.
— Principalmente curiosidade. Eles nunca viram ninguém que não pudessem ler.
— Mas você não me disse que isso era comum com pessoas que veem fantasmas?
Holiday parecia buscar as palavras.
— Não é só porque não a conseguem ler, Kylie. É também porque consideram um tanto bizarro o que conseguem captar de seu padrão cerebral.
A dor de cabeça de Kylie voltou. E o medo de ter mesmo um tumor agitou-lhe o peito. Viu-se de cabeça raspada e com cicatrizes imensas e horrendas serpenteando por seu couro cabeludo. Era horrível. Mas igualmente horrível seria admitir que fosse tão bizarra quanto outros.
— Você é especial e eles sentem isso. Portanto, venha logo. Só vai levar um minuto e depois poderemos ter nossa própria conversa.
A mão de Holiday nas costas de Kylie ficou mais quente. Kylie soube de imediato que a líder do acampamento podia manipular emoções tanto quanto Derek. Todo o seu medo de ter um tumor e de entrar em contato com a União de Pessoas Fantásticas se desvaneceu quando o calor da mão de Holiday a penetrou.
— Por que está fazendo isto? — Kylie afastou-se um pouco.
— Fazendo o quê?
— Tentando me acalmar — procurou ficar longe do alcance de Holiday.
Holiday arregalou os olhos.
— Uau! Pode sentir isto? Impressionante — tocou Kylie de novo. — Significa então...
— Pare — Kylie recuou novamente. Não lhe interessava o significado de “impressionante”, ao menos no momento; estava, isto sim, preocupada o que lhe pudesse acontecer dentro do escritório e com a possibilidade ter um tumor no cérebro. — Você quase me faz achar que devia ter medo.
Holiday discordou com a cabeça.
— Não há motivo para ter medo de nada — aproximou-se de novo e ficou olhando para sua mão.
Holiday ergueu as mãos.
— Confie em mim.
— Sinto muito — disse Kylie —, mas tenho passado maus bocados do em pessoas que podem manipular minhas emoções — de certa forma, referia-se também a Derek.
Holiday suspirou.
— Acredite ou não, Kylie, respeito sua atitude. Mas agora você deve com aqueles homens. Nada de ruim vai acontecer a você. Dou minha palavra.
Embora ainda não estivesse completamente convencida, ao olhar note para a expressão de Holiday, grande parte das preocupações de desapareceram. Mas isso se devia agora à sua própria intuição e não à influência da líder. Por algum motivo, seus instintos lhe diziam que podia confiar em Holiday – talvez, por falta de opção. Em vários sentidos, Kylie era uma prisioneira no acampamento.
As apresentações foram tão estranhas quanto Kylie esperava. Os dois homens esgotaram sua quota de arquear de sobrancelhas, o que só fez Kylie se sentir ainda menos à vontade. Queria lhes dizer que perdiam seu tempo tentando arrancar alguma coisa dela. Mas não disse, é claro. De novo, a síndrome da boa moça. Em vez disso, sentou-se a uma mesa e procurou não se incomodar com seus olhares intensos.
O homem mais alto, de cabelos escuros, chamava-se Burnett James o outro, Austin Pearson. De perto, Kylie não pôde deixar de reparar que tinham boa aparência. Não que gostasse de caras mais velhos – ou pudesse chamá-los assim por terem uns dez anos a mais que ela – costumava admirar a perfeição.
Kylie notou também que Burnett lançava olhares disfarçados para Holiday quando ela não estava reparando nele. Sem dúvida, aquela mulher o atraía. Holiday, ao que tudo indicava, não havia percebido seu interesse verdade, parecia até que achava os dois homens uns chatos. Principalmente Burnett.
— Então... — Burnett puxou uma cadeira e se sentou. Holiday olhou para ele e franziu a testa, como se não gostasse de vê-lo tão à vontade. — Esta é a sua primeira vez no Acampamento Shadow Falls, não é? — perguntou Burnett.
Kylie assentiu. Mas, lembrando-se da crença da mãe de que responder sem palavras era falta de educação, completou:
— Sim... Senhor — o “senhor” demorou um pouco para sair e Kylie logo se arrependeu de ter deixado escapar a palavra, pois poderia parecer sarcástica. Não tinha sido essa a sua intenção, mas eles talvez a interpretassem mal.
Burnett fincou os cotovelos nos braços da cadeira, entrelaçou os dedos e estudou-a sem pressa. Depois de alguns segundos que demoraram a passar, inclinou de leve a cabeça como se ouvisse algo que ninguém mais ali pudesse ouvir. As batidas do coração de Kylie, por exemplo. Que tipo de sobrenaturais seriam aqueles dois? Detectores de mentiras humanos, como Della? Kylie suspeitava que sim, fosse lá por que fosse. Devia, portanto, ser cuidadosa para não ser apanhada tentando enganá-los.
— O que trouxe você a Shadow Falls, senhorita Galen?
Holiday aproximou-se.
— Ela foi enviada aqui por...
Burnett ergueu a mão, interrompendo-a e Holiday fez uma cara feia.
— Gostaria que a senhorita Galen respondesse — a frase não era hostil, mas o tom demonstrava impaciência.
Holiday também devia ter notado. Fulminou o homem com um olhar que sem dúvida dizia coisas que ela provavelmente jamais diria na presença um campista. Kylie teve a sensação de que aquela não era a primeira vez os dois batiam de frente. Talvez até tivessem feito mais que isso: talvez fosse ex-amantes. Austin pigarreou como que para aliviar a tensão que deixava pesada a atmosfera do lugar.
— Kylie, é melhor responder — incentivou-a Holiday e todos se voltam para a garota.
Ela se endireitou ligeiramente na cadeira, procurando não se alarmar.
— Segundo me disse... Holiday, foi minha analista que recomendou à minha mãe me inscrever. Talvez ela a tenha convencido de que este era um acampamento para adolescentes problemáticos.
— E você é? — disparou Burnett.
— O quê? — estranhou Kylie.
— Uma adolescente problemática? — o tom de voz dele parecia carregado de acusações.
— Claro que não — insistiu Holiday.
Burnett olhou feio para a líder do acampamento.
— Por gentileza, permiti que você estivesse presente, mas se continuar rompendo...
— Vá se ferrar, Sr. James — rugiu Holiday, obviamente furiosa o bastante para não se importar que Kylie ouvisse aquela linguagem vulgar.
— Não me provoque — replicou Burnett.
— Provocá-lo seria a última coisa que me passaria pela cabeça — devolveu Holiday. — Você tem sido uma besta classe A desde que o conheço.
Kylie fez um esforço para não rir. A tensão entre aqueles dois não convencia. O tipo de tensão que se vê num filminho romântico.
— Talvez isso se deva à fria recepção que você me proporcionou sem nenhum motivo. Acho que tem preconceito contra vampiros.
Então ele era um vampiro!
Kylie se sentiu realmente orgulhosa por ter adivinhado.
— Não se iluda — disse Holiday, dando de ombros. — O meu problema não é com vampiros. É com homens inconsequentes a ponto de supor que seus distintivos lhes dão o direito de intimidar os outros. Desde que você pôs os pés no meu acampamento, agiu como se devêssemos lhe fazer reverências. E, como se isso não bastasse, agora acusa meus garotos de...
Austin pigarreou de novo, dessa vez mais alto.
— Acho que devemos nos concentrar na senhorita Galen.
Ou não. Kylie gostaria muito de saber exatamente do que a UPF estava acusando os campistas. Mas sua curiosidade logo se desvaneceu quando todos se viraram de novo para ela, lembrando-lhe a pergunta de Burnett.
— Não, não me considero uma adolescente problemática.
Burnett arqueou a sobrancelha direita.
— Já pertenceu a alguma gangue?
— Não — respondeu Kylie, imaginando se ele se referia à Confraria do Sangue. — Nunca me meti em confusão.
— Mas não foi levada a uma delegacia depois de uma batida policial?
Kylie percebeu de repente o motivo da antipatia de Holiday pelo Sr. Alto Moreno e Bonitão. Ele conseguia fazer as pessoas se sentirem pequenas. Talvez o modo como Holiday havia enfrentado o vampiro tivesse dado coragem a Kylie. Ou, depois de tudo o que havia acontecido a ela naquele dia, sua capacidade de dar a volta por cima tivesse vindo à tona. Ou, enfim, o tumor seria o responsável por ela fazer coisas que normalmente não faria. Levantando o queixo, deixou que as palavras saíssem de sua boca sem remorsos.
— Se tivessem lido o boletim de ocorrência, veriam que eu não tinha consumido drogas nem bebido.
Os cantos dos olhos de Burnett se estreitaram. Mas Kylie preferiu concentrar-se no sorriso agradável de Holiday.
— Já terminaram? — perguntou a líder do acampamento.
— Só mais umas perguntinhas — o olhar aguçado de Burnett não afastava de Kylie. — O que acha deste lugar, senhorita Galen?
— Muito bom — o coração de Kylie deu um salto quando ela se lembrou de que não podia mentir. — Pelo menos, todas as pessoas que encontrei parecem gostar daqui.
— E você?
Não minta.
— Preferiria estar em casa.
— E por quê? — os olhos de Burnett ficaram quase pretos.
— Tudo é tão... Novo para mim!
— O quê, por exemplo?
— O fato de pessoas como o senhor existirem — era verdade... Embora Kylie não tivesse intenção alguma de ofendê-lo.
— Como eu? Vampiros? — perguntou ele, obviamente ofendido.
— Sobrenaturais — corrigiu Kylie.
— E você, o que pensa que é? — continuou Burnett, em tom presunçoso.
— Não sei bem — confessou ela. — Mas espero não ser nada. Apenas eu — Com um tumor no cérebro. Pôs essa ideia de lado para refletir mais tarde.
O olhar de Burnett era duro e Kylie perdeu a coragem. Ele balançou a cabeça e franziu a testa.
— Por que tem a mente tão fechada?
— Não tenho. Mas acreditar em tudo isso... — ocorreu-lhe, de repente, Burnett não estava se referindo à capacidade dela de aceitar aquelas coisas, mas à incapacidade dele próprio de ler sua mente.
— Não é culpa de Kylie — Holiday adiantou-se. — É a condição de um dom. Ela fala com espíritos.
Kylie assentiu com a cabeça. Os dois homens arregalaram os olhos.
— Fala com espíritos? — estranhou Austin, virando-se para Holiday; mas antes que ele voltasse à posição anterior, Kylie julgou ver uma sombra em seu rosto.
— Como você — Burnett olhou de relance para a líder do acampamento.
— Leu meus arquivos? — perguntou Holiday.
— Preciso saber com quem estou trabalhando.
— Engraçado, os seus arquivos você não me mandou — observou Holiday. — E espera que eu trabalhe...
— Posso mandá-los, se eles realmente forem de seu interesse — contra-atacou Burnett, com um tom de sarcasmo na voz.
— Pensando bem, não precisa se incomodar — retrucou Holiday. — Mas, voltando ao seu comentário anterior... Sim, Kylie fala com fantasmas, assim como eu — se o tom de voz de Holiday já não tinha a firmeza antes, seu breve sorriso tinha muito mais.
— Você também? — perguntou Austin, estremecendo. — Odeio fantasmas.
— Ela é fada? — Burnett voltou-se de novo para Kylie, olhando-a fixamente como se procurasse lê-la.
— Ainda não chegamos a uma conclusão — explicou Holiday.
— Então seus pais não estão registrados como sobrenaturais? — quis saber Burnett.
— Não — respondeu Holiday.
— Talvez sejam malandros.
— Talvez sejam o quê? — interrompeu Kylie.
— Jamais a mandariam para cá se fossem — respondeu Holiday a Burnett, deixando a pergunta de Kylie no ar.
O celular de Kylie tocou, mas ela não atendeu para não perder nada do que estavam dizendo a seu respeito.
— Talvez por isso ela tenha vindo — o olhar severo de Burnett se fixou de novo em Kylie. — Foi mandada para cá com um propósito, senhorita Galen?
— Não, e meus pais não fizeram nada de errado — insistiu Kylie.
Holiday deu mais um passo à frente.
— Se sua audição não estivesse desligada, você poderia confirmar se ela diz a verdade.
Burnett assentiu, levantou-se e encarou Holiday.
— Você está certa. Ela não parece envolvida. Mas quero ficar a par.
Holiday fechou a cara.
— Não creio que seja necessário.
— Nem eu — falou Kylie sem pensar, não gostando nada de vê-los discutindo a seu respeito como se ela não estivesse presente.
Burnett, ignorando Kylie, continuava voltado para Holiday.
— Atenderá às minhas solicitações, senhorita Brandon, ou farei com que meus superiores encontrem outra líder de acampamento mais flexível.
Pela primeira vez Holiday ficou sem palavras, dando a entender a Kylie que se preocupava mais com o emprego do que com o orgulho.
— Gostaria apenas de saber por que se interessam tanto por ela.
— Além de supervisionar este projeto, fui encarregado de detectar quaisquer anomalias por aqui. A senhorita Galen se enquadra.
— Sou uma anomalia? — espantou-se Kylie, incrédula.
— Muito bem, você ficará a par de tudo — disse Holiday, ainda ignorando Kylie.
Burnett parecia orgulhoso, como se soubesse que era o vencedor. Voltara-se para Kylie:
— Agora você já pode ir.
Kylie olhou para Holiday:
— Pensei que...
Holiday a interrompeu:
— Nós duas temos uma reunião. Eu apreciaria se os senhores se retirassem.
Burnett cruzou os braços sobre o peito largo.
— Sua reunião terá de ser adiada — disse ele. — Preciso que me leve até os arquivos. Como, ao que parece, a senhorita Galen não é a nossa suspeita, precisamos descobrir quem é.
— E presume que seja um de meus garotos — perguntou Holiday, furiosa. — Acaso já lhe ocorreu...
— Sim, presumo. Todas as evidências apontam para este lugar — disparou Burnett.
Evidencias de quê?
A pergunta estava na ponta da língua de Kylie, mas algo a advertiu para não fazê-la.
Holiday tinha os lábios apertados quando se voltou para Kylie:
— Nos encontramos depois do almoço, está bem?
Kylie concordou com um aceno de cabeça, desapontada ao perceber as suas perguntas teriam de esperar. Isso não significava, porém, pudesse obter outras respostas enquanto isso. Levantando-se, fez de despedida e caminhou de peito erguido para fora da sala. Tinha fazer. Coisas a descobrir. E a primeira da lista era encontrar uma a para lhe pedir que checasse seu cérebro à procura de tumores.
Saiu do escritório sem saber bem como encontrar Helen, a curadora. O telefone tocou de novo e ela o tirou do bolso. Era uma mensagem de Sara. Uma palavra se destacava na tela.
“Negativo”, leu Kylie em voz alta, sorrindo de alívio pela amiga.
Começava a digitar o número de Sara quando alguém se colocou ao se lado. Um corpo alto e largo projetava uma sombra larga e alta. Antes mesmo de erguer os olhos, Kylie de algum modo concluiu que o dono da sombra tinha cabelos muito pretos e olhos azul-claros. Respirando fundo, levantou a cabeça.
Odiou ter adivinhado.

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