domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 20

A primeira coisa que fiz quando cheguei a minha mesa foi jogar as flores de Paul no lixo, com vaso e tudo. A segunda coisa foi checar o horário de Becca Walters. Ela cursava geometria no primeiro tempo. Excelente.
Agora tudo que eu tinha a fazer era torcer para que ela fosse à escola.
— Que desperdício — comentou a irmã Ernestine quando passou pela lata de lixo a caminho de seu escritório.
Olhei para as flores. A freira tinha razão. Cada pétala ainda estava branca feito neve e perfeita.
— O cheiro está me dando dor de cabeça — falei, embora minha dor tivesse começado antes das flores e, de qualquer forma, não fizesse sentido que eu as jogasse na lixeira a 30 centímetros de minha mesa.
— Se você não queria, podia tê-las dado ao pobre padre Dominic no hospital.
— Eu acho que podemos dar algo melhor para o padre D que flores usadas.
— Elas ainda estão perfeitamente boas. Talvez você pudesse colocá-las na basílica para os devotos admirarem.
Fechei os olhos, rezando rapidamente à deusa sem nome das meninas solteiras e mediadoras que me desse força.
— A senhora está totalmente certa, irmã. — Eu me inclinei e peguei o vaso de dentro do lixo. Felizmente, ele ainda estava intacto, então não havia vazado. — A senhora vai fazer a missa matinal hoje na ausência do padre Dominic?
— Vou. — A freira estava ajeitando a touca no mesmo espelho no qual o padre Dom havia ajeitado a veste no dia anterior. — Fui nomeada diretora interina pela arquidiocese até que o padre Dominic se recupere o suficiente para voltar; o que espero que aconteça em breve.
Não aconteceria tão cedo. Seriam semanas, possivelmente meses. Eu jamais seria contratada como funcionária assalariada, a não ser que ajustasse ou minha atitude ou o quanto a Academia da Missão precisava de mim.
E foi por isso que eu espertamente coloquei as flores de Paul na janela do escritório da irmã Ernestine enquanto ela rezava a missa matinal – que incluiu um pedido a todos os alunos para que abaixassem a cabeça em um momento de oração para a recuperação rápida do padre Dominic.
Assim que a missa terminou, tirei Flux, Flocos e Rabo de Algodão da fila de alunos que voltariam às salas.
— Emergência de família — falei para a irmã Monica, que respondeu com uma expressão de alívio.
— Que houve, Suze? — perguntou Flux, conforme eu as levava com pressa pelo corredor a céu aberto, passando por todas as salas de aula, até chegarmos à sala de geometria de Becca. — Qual é a emergência?
— É o tipo de emergência em que preciso que vocês vão para o jardim e brinquem em silêncio com Lucy por um tempinho enquanto falo com Becca. Se vocês fizerem isso sem perturbar a gente, compro o que vocês quiserem para o almoço.
As meninas trocaram olhares animados. Não podiam expressar a alegria da maneira que queriam porque berrar nos corredores era proibido, mas a linguagem corporal delas – pareciam prestes a berrar e dar estrelas – dizia tudo. Frango empanado com batatas fritas era infinitamente melhor que o almoço saudável – wraps de peru e palitinhos de cenoura crua – que a pobre mãe sofredora havia preparado.
Não tem jeito: posso até ter ajudado várias pessoas a ir para o céu, mas estou começando seriamente a duvidar de que eu tenha chances de ir eu mesma.
— A gente pode brincar no chafariz? — sussurrou Flocos para mim com intensidade.
O velho chafariz decorativo no centro do jardim da missão, perto do qual as crianças eram expressamente proibidas de chegar, era o lugar favorito de minhas sobrinhas dentre todos do mundo inteiro. Eu gostaria de poder dizer que isso era porque elas tinham um gosto estético apurado, mas temia que a explicação fosse outra.
— Vocês podem brincar perto dele — respondi —, não dentro dele.
Cerrei os dentes quando as três começaram a fazer biquinho.
— Olhe só, a gente não vai conversar sobre isso de novo. As pessoas que jogam moedas no chafariz fazem desejos. Se vocês pegarem as moedas, é como se estivessem roubando os desejos das pessoas, e isso é tão errado quanto roubar o dinheiro delas; o que é contra a lei, aliás, como já falei várias vezes.
As três já haviam sido levadas para o escritório tantas vezes por terem roubado moedas do chafariz que eram conhecidas na sala das professoras como As Três Bandidas.
Flocos abriu a boca para protestar, mas eu a interrompi perguntando:
— O que o Grilo Falante diz sobre desejos?
Rabo de Algodão respondeu na hora.
— Que eles viram realidade quando você deseja para uma estrela.
— Não tem nada na música sobre chafariz. — Flocos sempre tinha um ponto de vista.
Percebendo que eu jamais conseguiria fazer com que elas brincassem comportadamente, a não ser que caprichasse no suborno – as batatas fritas estavam perdendo o valor de câmbio – falei:
— Olhe, vocês podem pegar moedas desta vez, mas só se prometerem que vão colocar todas de volta quando acabarem. — Os rostinhos se entristeceram, então adicionei entre dentes: — Ok. Pago de volta para vocês com meu próprio dinheiro depois da escola, suas trambiqueiras.
Os rostinhos se iluminaram de novo. A ideia de catar moedas cheias de lodo do fundo de um velho chafariz dava tanta alegria a elas (porque era dinheiro gratuito), que eu tive certeza absoluta de que eram filhas de Paul Slater. Ele amava dinheiro mais que qualquer outra pessoa que eu conhecia.
— Tá bom, agora fiquem quietas e me deixem me concentrar.
Eu me virei e bati com força na porta da sala de aula de Becca. Ninguém havia ligado para avisar que ela ia ficar em casa porque estava doente, o que me surpreendeu. Se o amado diretor de minha escola tivesse quase morrido em minha casa no dia anterior, eu jamais apareceria na aula na manhã seguinte, mesmo que só para evitar perguntas inconvenientes dos outros alunos. Ou essa menina não tinha noção alguma, ou a madrasta queria que ela saísse da casa. Eu suspeitava que a segunda opção era a verdadeira.
Sem esperar resposta, abri a porta e entrei na sala.
— Eu sou Suzannah Simon — falei para a professora, Sra. Temple, que pareceu surpresa. Não a conheci na época em que era aluna. — Sou do administrativo. Preciso que Becca Walters venha comigo. Agora.
Como sempre acontecia quando alguém era chamado à diretoria, a turma inteira começou a fazer barulho. A turma inteira, menos Becca, que estava sentada na penúltima fileira perto da janela com vista para o mar dolorosamente azul. Ela parecia estar dando continuidade à campanha de ser a mais discreta possível. Ainda não havia penteado (nem lavado, ao que parecia) os cabelos, o uniforme servia mal, como sempre, e exibia o mesmo curativo que eu havia feito dois dias antes. Estava cinzento e todo dobrado nos cantos.
Lucia estava ao lado dela com o mesmo rosto solene de sempre. Ao contrário de Becca, a fantasma não pareceu surpresa ao me ver, e seu rosto não ficou corado quando nossos olhares se encontraram.
— Ok, fiquem quietos — disse a Sra. Temple com voz de tédio. — Becca, leve suas coisas, caso você não volte para a segunda aula.
Becca se levantou e pegou os livros com dedos tão trêmulos que foi inevitável que os deixasse cair. Isso fez com que alguns dos meninos falassem coisas mais rudes ainda que antes, e que as meninas rissem e fofocassem.
A Sra. Temple, que parecia apenas um pouco mais velha que eu, não fez nada em relação a isso. Apenas entendeu a interrupção como uma oportunidade de pegar o celular e checar mensagens.
A única pessoa na sala que pareceu um pouco preocupada com Becca – além de mim e da pequena acompanhante fantasma, que estava logo atrás dela – foi Sean Park, o gênio em computação que salvou meu computador. Estava sentado na fileira da frente, olhando para Becca com uma expressão de compaixão e lançando olhares ocasionais cheios de nojo para os colegas de turma.
Eu sentia o mesmo.
Depois de ter certeza de que Becca e sua guarda-costas invisível tinham saído da sala com segurança, eu me virei para olhar a turma. Os alunos ainda estavam eufóricos, e a Sra. Temple ainda checava o celular. Para minha surpresa, vi que ela mandava mensagem para alguém.
Entendo que professores trabalham durante muitas horas e ganham muito pouco. Eu também. Mas fala sério.
— Ei — chamei. Devo ter falado um pouco alto demais, visto que a professora não foi a única a olhar para mim. Minha exclamação chamou a atenção dos alunos também. Todos os olhares estavam sobre mim, então resolvi usar a oportunidade para fazer um breve anúncio. — Caso vocês estejam se perguntando — falei com um sorriso gentil — eu sou a mesma Suze Simon que derrubou a cabeça da estátua do padre Serra há alguns anos. E se eu escutar qualquer um de vocês falando merda para Becca de novo, vou fazer o mesmo com vocês. Tenham uma ótima manhã.
Bati a porta nas caras estupefatas.
No corredor, Becca me olhou com olhos arregalados.
— O q-que você falou para eles? — perguntou ela.
— Nada. — Continuei sorrindo e passei o braço por cima do ombro dela. — Venha. A gente precisa bater um papo.
Becca resistiu a minhas tentativas amigáveis.
— Não diz que não foi nada — falou ela. — Eu ouvi você falando... você disse alguma coisa sobre mim?
— Não. Você se preocupa demais. — Notei que Lucia estava começando a brilhar com fúria espectral. — Ah, fique calma, Gasparzinho. Só vou conversar com ela. Vá ali brincar com suas três muchachas.
Becca olhou para trás, alheia como sempre a companhia fantasma.
— Com quem você está falando?
— É sobre isso que a gente vai conversar. — Acenei para minhas sobrinhas. — Meninas, podem me ajudar aqui?
Elas não precisavam de mais indicações. Flocos foi correndo até Lucia, pegou-a pelo braço e sussurrou alto:
— Minha tia Suze disse que a gente pode pegar as moedas no chafariz!
— Mas temos de colocar tudo de volta — avisou Rabo de Algodão. — É errado roubar desejos.
— E dinheiro — adicionou Flux. — Mas a tia Suze disse que vai pagar tudo que a gente conseguir pegar, do próprio dinheiro dela. Vamos ficar ricas.
Becca ficou olhando para mim como se eu fosse louca enquanto as três meninas – quatro, na verdade, mas ela não conseguia ver a quarta – saíram correndo para o jardim, onde o sol claro da manhã já havia começado a dissipar a neblina pela qual dirigi. A luz reduziu o brilho de Lucia significativamente... embora ela continuasse me dando olhadas solenes, não confiando em mim com Becca... ainda.
Assim que elas chegaram ao grande chafariz de pedra – que naquela hora da manhã ainda não atraía visitantes adultos – as três meninas vivas tiraram os sapatos e meias, e pularam na água (exatamente como eu havia falado para não fazerem). Até Lucia pareceu tentada. Era difícil acreditar que aquele era o mesmo espírito que, havia duas noites, tentou me afogar.
— Quem são elas? — perguntou Becca, olhando as trigêmeas.
— Minhas sobrinhas — falei. — Trouxe as três para que a gente pudesse conversar. Da última vez, fomos interrompidas, e não foi por um terremoto. Elas estão aqui para que aquilo não aconteça de novo.
Becca parecia mais espantada que nunca.
— Não sei do que você está falando. Mas sei sobre você. Minha madrasta me contou...
— Sim, tenho certeza de que Kelly tinha muito a falar sobre mim. — Eu a conduzi pelo braço, e passamos por um dos arcos de pedra. — Bem, eu tenho muitas coisas para falar com você, mas não sobre ela.
Becca parou de andar imediatamente, recusando-se a sair da sombra gelada do corredor.
— A gente não pode ir ali — falou, hesitante, olhando para o jardim quente e ensolarado como se fosse a boca de um vulcão em erupção, e como se ela fosse a missionária infeliz que eu sacrificaria como oferenda aos deuses nativos.
— Pode sim, se estiver acompanhada de um funcionário da escola. E, para sua sorte, eu sou uma funcionária da escola.
Eu a puxei do piso de pedras lisas para o caminho de cascalho que passava pelos vários canteiros do jardim. Ela piscou a caminho do sol com o mesmo cuidado de uma toupeira.
Podia até ser novembro, mas em Carmel esse é um dos meses mais lindos do ano – por isso que Jesse e eu queríamos nos casar em novembro, só que no ano seguinte. Uma explosão de flores ricas em cor – asclépias, buganvílias, azaleias, glicínias e rododendros – formavam fileiras nos caminhos e até nos telhados dos corredores e prédios que circundavam o jardim. As asclépias haviam atraído borboletas-monarcas, que voavam baixo e preguiçosamente em círculos pelo jardim, como se fossem asas-deltas bêbadas.
Embora as paredes de gesso tivessem 90 centímetros de espessura e os pássaros voando no céu azul chamassem uns aos outros ruidosamente, ainda era possível ouvir o órgão sendo tocado na missa matinal da basílica.
— Sente — instruí Becca, quando chegamos a um ancestral banco de pedra em uma alcova cheia de musgo, não muito longe do chafariz onde as meninas faziam uma zona. Coincidentemente, o banco ficava aos pés da estátua do padre Serra que eu fui injustamente acusada de decapitar.
Talvez fosse por isso que Becca estivesse mais nervosa que nunca quando se sentou.
— Eu só estava brincando quando falei de minha madrasta. Ela só disse que...
— Eu não ligo para o que Kelly fala sobre mim. — Sentei ao lado dela. — Só quero saber o que aconteceu de verdade com o padre Dominic. Mas, primeiro, quero saber o que realmente aconteceu com sua amiga Lucia Martinez.
Becca me encarou como se eu tivesse lhe dado um tapa.
— L-Lucia Martinez? Q-Quem?
— Ah, para, Becca, não me faça de idiota. — Eu já havia aguentado tudo que podia daquela garota. — Você sabe exatamente quem Lucia é. Você gosta do jogo Médium? Então, o fantasma de sua amiguinha Lucia a segue há anos. E quer saber como sei disso? Porque sou uma mediadora de verdade, e meu trabalho é mandá-la para o outro mundo.
Becca ficou me olhando sem expressão por vários segundos através das lentes dos óculos.
Depois caiu no choro.

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