sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 2

Uma hora depois, Kylie desceu as escadas com a mochila nas costas e a bolsa no ombro. A mãe a deteve na porta.
— Você está bem?
Como eu poderia estar bem?
— Vou sair — foi a única resposta de Kylie. Mais do que tinha conseguido dizer sobre a avó. Na ocasião, ela tinha notado o batom vermelho-brilhante que a funerária tinha aplicado no cadáver da avó.
Por que não tira essa droga da minha boca?, Kylie quase a ouviu resmungar.
Assustada com esse pensamento, virou-se e olhou para a mãe. A mãe viu a mochila de Kylie e uma ruga de preocupação apareceu entre seus olhos.
— Para onde está indo? — quis saber.
— Você disse que eu poderia passar a noite na casa da Sara. Ou estava ocupada demais queimando a cueca do papai para se lembrar disso?
A mãe ignorou a alusão ao churrasco de cueca.
— E o que as duas vão fazer à noite?
— Mark Jameson vai dar uma festa para comemorar o fim das aulas — não que Kylie tivesse a mínima intenção de se divertir. Graças ao fim do namoro com Trey e ao divórcio dos pais, seu verão tinha ido parar no vaso sanitário. E, do jeito que as coisas estavam indo, sem dúvida alguém passaria por lá e daria a descarga.
— Os pais dele vão estar em casa? — a mãe arqueou uma sobrancelha.
Kylie agitou-se por dentro, mas não deixou transparecer.
— Não é lá que sempre estão?
Tudo bem, uma mentira. Quase nunca ia às festas de Mark Jameson justamente por aquele motivo — e era nisso que dava ser tão comportada. Agora precisava esfriar um pouco a cabeça. Além do mais, a mãe também não tinha mentido quando o pai perguntou pela cueca?
— E se você tiver outro daqueles sonhos? — perguntou a mãe, tocando seu braço.
Um toquezinho de leve. Era tudo o que ganhava da mãe nos últimos tempos. Nada de abraços demorados, como os do pai. Nada de passeios juntas. Apenas indiferença e toques rápidos. Mesmo quando a avó materna morreu, sua mãe não a abraçou — e Kylie, na ocasião, precisava muito de um abraço. Ao contrário, foi o pai que a abraçou e acabou ficando com uma mancha de maquiagem no paletó. Agora, papai e todos os seus paletós tinham ido embora.
Respirando fundo, Kylie fincou as unhas na bolsa.
— Avisei a Sara que talvez eu acorde gritando, com sede de sangue. Ela me garantiu que vai cravar um crucifixo de madeira no meu coração e me arrastar de volta para a cama.
— Acho melhor, então, você esconder as estacas antes de dormir — a mãe tentava esboçar um sorriso.
— Farei isso — por um instante, lamentou deixar a mãe sozinha justamente no dia em que o pai foi embora. Bobagem. Ela ficaria bem. Nada abalava a Rainha do Gelo.
Antes de sair, Kylie olhou pela janela para se certificar de que não seria perseguida pelo cara de farda. Achando que o terreno estava livre, cruzou a porta, esperando que a festa da noite a ajudasse a esquecer de tudo de ruim que estava acontecendo em sua vida.


— Tome. Não precisa beber, é só segurar — Sara Jetton colocou uma garrafa de cerveja na mão de Kylie e se afastou.
Dividindo o espaço com pelo menos trinta pessoas que se acotovelavam, todas falando ao mesmo tempo, na pequena sala de Mark Jameson, Kylie segurou firme a garrafa gelada. Conhecia da escola muitas daquelas pessoas. A campainha soou de novo. Sem dúvida, aquela era a festa mais quente da noite. E todos os outros alunos do colégio pensavam o mesmo. Jameson, o veterano cujos pais pareciam não se importar com nada que ele fizesse, dava algumas das melhores festas da cidade.
Dez minutos depois, ainda sem sinal de Sara, todo mundo começou a dançar. Pena que Kylie não estivesse animada. Olhou com desagrado para a garrafa que tinha nas mãos. Alguém esbarrou nela, fazendo com que a cerveja espirrasse em seu peito e descesse pelo decote em V da blusa branca.
— Merda!
— Ai, foi mal! — apressou-se a dizer o desastrado, constrangido.
Kylie encarou os olhos castanhos e calmos de John e tentou sorrir. Pensar que estava sendo educada com um cara legal, que andava perguntando por ela na escola, tornava mais fácil o sorriso. Mas o fato de John ser amigo de Trey diminuía muito seu entusiasmo.
— Não foi nada — disse ela.
— Vou buscar outra pra você — parecendo nervoso, ele se afastou.
— Não precisa! — gritou Kylie; mas, em meio à música e ao alvoroço, ele não ouviu.
De novo, a campainha. Alguns garotos se afastaram e ela pôde ver a porta. Mais especificamente, Trey entrando pela porta. A seu lado — ou grudada nele — vinha a nova namorada, toda exibida.
— Maravilha — olhou em volta, pensando em como seria bom se teletransportar para o Taiti ou, melhor ainda, para casa, especialmente se seu pai estivesse lá.
Pela janela de trás, avistou Sara no quintal e correu para se juntar a ela. Sara ergueu a cabeça. Devia ter percebido o pânico no rosto de Kylie, que chegava esbaforida.
— O que aconteceu?
— Trey e sua piranha estão aqui.
Sara franziu a testa.
— E daí? Vá paquerar alguém para deixá-lo com ciúmes.
Kylie revirou os olhos.
— Não quero ficar vendo Trey e essa vadia se esfregando.
— Eles estavam se esfregando? — perguntou Sara.
— Ainda não. Mas, quando toma uma cerveja, Trey só quer saber de enfiar a mão debaixo da blusa de uma garota. Sei disso porque fazia o mesmo comigo.
— Não esquenta — disse Sara, apontando para a mesa. — Gary trouxe margaritas. Tome uma e vai se sentir melhor.
Kylie mordeu o lábio para não gritar que não ia se sentir melhor. A vida dela já estava um caos.
— Escuta — continuou Sara. — Nós duas sabemos que só o que você tem a fazer para reconquistar Trey é agarrá-lo e ir lá pra cima com ele. Esse cara ainda te ama. Hoje mesmo perguntou de você quando saíamos da escola.
— Você sabia que ele viria? — A traição começava a abalar a pouca sanidade que ainda lhe restava.
— Claro que não. Mas relaxa.
Relaxar?
Kylie olhou para sua melhor amiga e percebeu que as coisas entre elas tinham mudado muito nos últimos seis meses. Não porque Sara, ao contrário dela, adorasse festas ou tivesse perdido a virgindade. Bem, talvez fossem as duas coisas; mas havia mais.
Kylie suspeitava que Sara queria arrastá-la para festas regadas a muito álcool. Mas para quê, se ela achava que cerveja tinha gosto de xixi de cachorro? E não tinha nenhuma intenção de transar?
Tudo bem, não era bem assim: ela queria transar. Com Trey, ela ficou tentada, realmente tentada, mas se lembrou a tempo da conversa com Sara, quando decidiram que a primeira vez tinha que ser especial.
Então lembrou que Sara tinha cedido às “necessidades” de Brad — Brad, o amor de sua vida — e, depois de duas semanas de “pegação”, esse grande amor tinha dado no pé. O que havia de tão especial nisso? Desde então, Sara tinha se envolvido com outros quatro carinhas e transado com dois. Agora, não dizia mais que sexo era especial.
— Ei, sei que está triste por causa dos seus pais — consolou-a Sara. — Mas, por isso mesmo, precisa relaxar e se divertir um pouco — arrumou os longos cabelos castanhos atrás das orelhas. — Vou buscar uma margarita para você. Vai adorar.
Sara foi até a mesa, onde um grupo estava reunido. Kylie fez menção de acompanhá-la, mas deu de cara com o soldado Dude, que parecia mais assustador e esquisito que antes, junto ao bando de bebedores de margarita. Kylie deu meia-volta, preparando-se para fugir, mas bateu de frente com o peito de um garoto... E mais cerveja derramada da garrafa escorreu por entre os seios dela.
— Que maravilha! Meus peitos vão ficar com cheiro de cervejaria.
— O sonho de todo homem — disse uma voz masculina. — Mas sinto muito.
Kylie reconheceu a voz de Trey antes mesmo de ver seus ombros largos e aspirar seu cheiro tipicamente masculino. Ignorando a dor que vê-lo tão perto lhe causaria, levantou os olhos.
— Não foi nada. John já fez isso antes.
Esforçou-se para não reparar nos cabelos castanhos de Trey caídos sobre a testa, em seus olhos verdes que pareciam hipnotizá-la, em sua boca que a tentava a inclinar-se e pressionar os lábios contra os dele.
— Então é verdade — suspirou ele.
— Como assim? — perguntou Kylie.
— Você e John estão juntos.
Kylie pensou em mentir. A ideia de fazê-lo sofrer lhe agradava. Agradava tanto que a fez se lembrar do joguinho idiota que seus pais vinham disputando ultimamente. Ah, não, ela não imitaria as criancices deles.
— Não estou com ninguém — disse, e começou a se afastar.
Ele a segurou. Aquele toque e o calor daquela mão em seu cotovelo enviaram ondas de agonia diretamente ao seu coração. Tão pertinho dele, seu cheiro bom e masculino a embriagava. Ah, meu Deus, como ela gostava daquele cheiro!
— Soube de sua avó — continuou Trey. — E Sara me contou que seus pais estão pensando em se divorciar. Lamento muito, Kylie.
Sentiu um bolo na garganta. Ela estava a ponto de desabar sobre o peito aconchegante de Trey e implorar para que a abraçasse. Nada, no momento, seria melhor que os braços de Trey em volta dela. Mas então viu a garota — o brinquedinho sexual dele — aproximando-se com duas garrafas de cerveja nas mãos. Em menos de cinco minutos, Trey estaria enfiando a mão na sua calcinha. E, observando a blusa curtíssima e a saia minúscula que a garota exibia, ele não teria muito trabalho.
— Obrigada — murmurou Kylie, indo para junto de Sara. Felizmente, o soldado Dude chegou à conclusão de que margaritas não faziam seu gênero e foi embora.
— Tome — disse Sara, tirando a cerveja das mãos de Kylie e substituindo-a por um copo de margarita.
O copo parecia mais frio do que o normal. Kylie inclinou-se um pouco e sussurrou.
— Viu por aí, há um minuto, um sujeito esquisito? Fantasiado de militar?
Sara fitou Kylie com um olhar de interrogação.
— Quanto dessa cerveja você já bebeu? — sua gargalhada encheu o ar da noite.
Kylie apertou o copo gelado com mais força. Talvez estivesse mesmo ficando maluca. Misturar álcool com aquela situação absurda não devia ser uma boa ideia.


Uma hora mais tarde, quando três policiais de Houston entraram no quintal e puseram todos em fila diante do portão dos fundos, Kylie ainda tinha a mesma margarita intacta nas mãos.
— Vamos lá, garotada — disse um dos guardas. — Quanto mais cedo chegarmos à delegacia, mais depressa seus pais aparecerão para levá-los embora.
E foi então que Kylie não teve mais dúvidas: sua vida havia se tornado de fato uma merda. E alguém tinha dado a descarga.
— Onde está o meu pai? — perguntou Kylie à mãe quando ela entrou na delegacia. — Eu chamei o meu pai.
É só me telefonar meu bem, não foi o que ele disse? Então por que não estava ali para levá-la embora?
Os olhos verdes da mãe se apertaram um pouco.
— Ele me pediu para vir.
— Eu queria o papai — insistiu Kylie. Precisava dele; seus olhos se encheram de lágrimas. Precisava de um abraço. Precisava de alguém que a compreendesse.
— Nem sempre temos tudo o que queremos, principalmente quando... Meu Deus, Kylie, como foi fazer isso?
Kylie enxugou as lágrimas do rosto.
— Eu não fiz nada. Não te contaram? Andei em linha reta para provar que não estava bêbada. Fiz mais um teste de equilíbrio e disse o abecedário de trás pra frente. Não fiz nada.
— Acharam drogas lá — insinuou a mãe.
— Não usei drogas.
— E sabe o que não acharam lá, senhorita? — prosseguiu a mãe, com o dedo em riste. — Pais. Você mentiu pra mim.
— Talvez eu tenha puxado a você — disse Kylie, ainda remoendo o pensamento de que o pai não tinha ido buscá-la. Ele devia saber o quanto ela estava aborrecida. Por que não foi buscá-la?
— O que você quer dizer com isso, Kylie?
— Você disse ao papai que não sabia o que tinha acontecido com a cueca dele. Mas tinha acabado de queimá-la na grelha.
A culpa invadiu os olhos da mãe e ela balançou a cabeça.
— A Dra. Day está certa.
— O que a minha analista tem a ver com o que aconteceu hoje à noite? — indagou Kylie. — Não vá me dizer que a chamou. Deus do céu, mãe, se ela aparecer aqui, na frente dos meus amigos...
— Não, ela não vai aparecer. Mas não me refiro apenas a esta noite — respirou fundo. — Não posso fazer isso sozinha.
— Fazer sozinha o quê? — perguntou Kylie, com uma sensação ruim no estômago.
— Vou mandá-la para um acampamento de verão.
— Que acampamento? — exclamou Kylie, apertando a bolsa contra o peito. — Não, não quero ir para acampamento nenhum.
— O que você quer não interessa — empurrou Kylie na direção da porta de saída. — Interessa é aquilo de que precisa. É um acampamento para jovens problemáticos.
— Problemáticos? Você pirou de vez? Eu não tenho problemas — insistiu Kylie. Bem, não do tipo que um acampamento pudesse resolver. Ir para um lugar desses não traria o pai de volta, não faria o soldado Dude sumir e não faria Trey voltar com ela.
— Não tem problemas? Então por que estou aqui nesta delegacia, perto da meia-noite, tirando minha filha de 16 anos da cadeia? Sim, você irá para o acampamento. Vou fazer sua inscrição amanhã mesmo. Sem discussão.
Não vou, ficou repetindo a frase para si mesma enquanto saíam da delegacia.
A mãe podia estar maluca, mas não o pai. Ele de maneira nenhuma deixaria que a mãe a enviasse para um acampamento cheio de delinquentes juvenis. Não deixaria...
Ou deixaria?

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