terça-feira, 13 de setembro de 2016

Capítulo 1

Era Dia dos Namorados, e onde eu estava?
Congelando em um cemitério – essa é a resposta. Romântico, não?
Mas eu tinha um trabalho a fazer, e esse trabalho demandava que eu me sentasse em uma lápide no escuro e esperasse por um fantasma.
Sim. Infelizmente, sou esse tipo de menina.
Não o tipo que gosta de docinhos e ursinhos de pelúcia, mas o tipo que vê pessoas mortas.
Fora o desconforto com o frio, eu até que estava tranquila com a situação. Se eu preferiria estar em um daqueles bistrôs fofos a céu aberto na Ocean Avenue, aconchegada sob o aquecedor e bebendo champanhe em um jantar de Dia dos Namorados com o amor da minha vida?
Claro que sim.
Eu nem teria me incomodado de estar no alojamento curtindo a festa anti-Dia dos Namorados que as meninas que moram comigo fizeram, bebendo drinques de vodca barata com suco de cranberry e fazendo comentários sarcásticos sobre a comédia romântica que todo mundo dizia odiar (e que, é claro, todo mundo amava em segredo).
Mas eu e o amor da minha vida? Nós concordamos em passar o Dia dos Namorados em lugares diferentes.
Mas, ei, tudo bem. Somos adultos maduros.
Não precisamos de um feriado idiota criado por causa de algum santo martirizado para determinar quando vamos dizer eu amo você.
E, tudo bem, o último lugar onde qualquer um quer estar no Dia dos Namorados é um cemitério. Quer dizer, qualquer um menos assombrações, e nós que nascemos com a maldição (ou dom, dependendo de como você escolhe ver a situação) de se comunicar com elas.
Não me importo. O Cementerio El Encinal de Monterey era meio calmante. Éramos apenas eu, as lápides e uma camada de maresia vinda do Pacífico que deixava o ar mais frio do que quando cheguei, meia hora antes, e fazia com que fosse mais difícil ver o túmulo que eu estava vigiando.
E daí que os meus cabelos feitos estivessem murchando por causa da umidade e meu nariz ficando vermelho? Não era como se eu fosse ter um encontro.
Bem, não com alguém que fosse importante para mim.
E eu sabia que aquele cara ia aparecer mais cedo ou mais tarde, como vinha aparecendo toda noite naquela semana, sem falta, para o espanto e pavor da comunidade.
Pelo menos quando eu chegasse em casa teria um belo coquetel esperando por mim.
Mas esse cara que eu estava aguardando?
Não havia nada esperando por ele – pelo menos nada de bom.
Eu só esperava que ele aparecesse antes que as minhas nádegas congelassem naquela lápide onde eu estava sentada. Queria que a Sra. J. Charles Peterson III tivesse escolhido um material mais macio do que granito para decorar o lugar de descanso do marido. Mármore, talvez. Ou caxemira. Caxemira teria sido uma escolha maravilhosa, se bem que provavelmente não duraria muito, considerando os desgastes causados pelo clima da costa norte da Califórnia.
Quando você está no ramo da captura de fantasmas tanto tempo quanto eu (21 anos), você aprende algumas coisas. A primeira é que vigiar espectros é chato.
A segunda é que não há nada que você possa fazer para se distrair durante essas vigílias, porque assim que você coloca fones para ouvir música ou ver um vídeo no iPod, ou assim que começa a mandar mensagem para o namorado (partindo do princípio de que ele vai responder, o que não acontece com o meu namorado porque ele nasceu na época em que a rainha Vitória assumiu o trono e acha que a tecnologia moderna é desumanizadora), a pessoa ou coisa pela qual você está esperando vai aparecer, dar uma porrada na sua cabeça e fugir enquanto você está distraído.
Três, se você levar uma garrafa térmica com alguma bebida quentinha deliciosa – café, ou chocolate quente, ou cidra aquecida com Bacardi – vai ter que fazer xixi em uns quinze minutos, e assim que você abaixar a calça para se aliviar (desculpa, J. Charles), vai literalmente ser pega com as calças nas mãos.
Essas são as coisas que eles nunca contam nos vários filmes e programa de TV sobre pessoas com a minha habilidade. Fazer a mediação entre os vivos e os mortos é um trabalho ingrato, mas alguém precisa fazê-lo.
Eu estava me perguntando por que a Sra. J. Charles Peterson III não instalou uma chama eterna no túmulo do marido para que eu pudesse aquecer as minhas mãos (e a minha bunda), quando finalmente vi o cara – ou a coisa – movendo-se pela neblina como uma aparição.
Mas ele não era uma aparição. Era apenas uma PMNO – Pessoa Morta Não Obediente, pentelha e normal de sempre como o povo da minha área chama aqueles que se recusam a atravessar para o outro lado.
Ele foi direto para o túmulo de J. Charles Peterson. Estava tão fixado nele que mal olhou para mim.
O que era compreensível. Os recém-falecidos têm motivos para se preocuparem. Precisam lidar com toda a questão de terem acabado de morrer.
Mas aquele cara tinha mais do que isso em mente. Eu sabia porque as atividades pós-morte dele vinham causando problemas a mim e à região inteira da baía de Monterey. Até mesmo o jornal local – e vários blogs populares – havia comentado sobre ele.
E é claro que era por isso que eu estava passando o Dia dos Namorados sentada em uma lápide esperando por ele em vez de curtindo a noite com as minhas amigas de alojamento, bebendo Cape Codders e reclamando da Katherine Heigl.
Fiquei observando enquanto o cara – que era apenas alguns anos mais novo do que eu, e com roupas parecidas (camiseta preta, jaqueta de couro, jeans e botas pretas) – se abaixava e tirava as flores frescas que haviam sido colocadas no túmulo com carinho. Hoje, eram rosas vermelhas, e, por causa do feriado, arranjadas em formato de coração.
Tudo bem, em se tratando de arranjos de flores, aquele não era o meu estilo. Eu teria escolhido alguma coisa mais clássica, como rosas de talos bem longos, talvez. Certamente, nada no tema Dia dos Namorados.
Eu achava meio brega.
É claro que espero não morrer tão cedo, e, quando acontecer, duvido muito que eu vá ligar para o que vão colocar no meu túmulo. Além disso, eu quero ser cremada, então esse não vai ser um problema.
Mesmo assim, eu não teria feito o que aquela PMNO do mal fez. Foi uma grosseria, independentemente do quão questionável ele achasse que o arranjo fosse.
Ele pegou o coração de flores, jogou-o para cima e deu um chute, fazendo com que explodisse em uma tempestade delicada de pétalas.
— Legal — falei. — Que comportamento maneiro e maduro. Tenho certeza de que a sua mãe ficaria orgulhosa.
A PMNO se virou, surpresa.
— Que isso! — Os seus olhos estavam arregalados como se ele, e não eu, estivesse vendo um fantasma. — O que você... como consegue... quem é você?
— Eu sou Suze Simon — respondi. — E você achou que estar morto é ruim? Amigão, os seus pesadelos eternos estão apenas começando.

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