domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 19

Levei as meninas à escola de carro na manhã seguinte, e Jesse foi até a Cruzada para deixar Max, depois ao hospital para ver como o padre Dom estava.
Não contei nada a ele – nem a ninguém – sobre minhas suspeitas em relação a minhas sobrinhas. O que eu ia dizer, exatamente? “Adivinha, gente! Ok, vocês nunca vão adivinhar, então vou falar: tenho quase certeza de que as filhas de meu meio-irmão não são dele.”
Não. Simplesmente, não.
E mesmo que a Dra. Jo, durante sua batalha para que eu me abrisse mais nas sessões, sempre me dissesse que manter segredos leva a níveis altos de cortisol, o hormônio do estresse, como eu saberia se o que Lucia sugeriu era verdade? Ela apontou para uma foto de Paul presa no mural de minha cunhada. Isso não prova nada.
De qualquer forma, enquanto as meninas discutiam no banco de trás para decidir quem ia contar que tia Suze e tio Jesse dormiram na casa delas (no momento “conte uma história” da aula), dei uma olhada no retrovisor e não pude deixar de notar que se pareciam muito com um certo mediador que por acaso conheço.
Elas tinham a cor – cabelos pretos e olhos azuis – e o tipo físico esbelto, de jogador de tênis, que tanto Jack quanto Paul Slater exibiam, no lugar da estrutura forte e nórdica dos Ackerman (que, com exceção de David, o ruivo, eram todos louros).
Assim que notei isso, não tive mais como desnotar, por mais que quisesse. Só conseguia me perguntar como jamais reparara antes.
Eu tinha certeza de que Brad não sabia. E Debbie? Ela era fútil, e na escola seguiu os passos da melhor amiga, Kelly, diversas vezes, sendo traiçoeira e até maldosa. Mas nunca a vi cometer um ato de pura crueldade – pelo menos nada tão cruel quanto forçar um homem a criar a filha de outro sem saber... ou filhas, nesse caso.
Por que ela colocou uma fotografia de Paul no mural de inspiração? E por que Lucia apontou para ela com uma expressão tão solene de acusação? Não podia estar acusando Paul de assassinato. Ele nem morava em Carmel na época em que ela morreu.
Mesmo que eu soubesse mais que todo mundo como Paul estava disposto a cometer um assassinato – se pudermos chamar a libertação de um demônio de assassinato – que interesse teria em matar uma criança?
Nenhum. Não era seu estilo.
Faltava metade do caminho até a escola quando meu telefone tocou. Geralmente, nem olho para o celular quando estou dirigindo – ainda mais se as meninas estão no carro, ou se estou dirigindo na neblina, como naquele momento.
Mas e se fosse Jesse, ligando do hospital porque o padre Dom piorou? E se fosse Shahbaz, o blogueiro, avisando que sabia de uma forma de quebrar a maldição? E se fosse Paul, telefonando para dizer que caiu em si e queria pedir desculpas?
Nada disso. Era meu meio-irmão mais novo, David.
Alguma coisa estava errada. David e eu só nos falávamos aos domingos. Atendi abruptamente.
— David? Que foi? O que aconteceu?
— Tio David! — exclamaram as meninas animadamente do assento traseiro. — Oi, tio David!
— Ah, oi. Ah, que bom. As meninas estão com você. — Apesar de gostar das sobrinhas, a falta de entusiasmo na voz dele foi notável. — Estou no viva voz? Queria falar em particular, Suze.
— Dormi na casa de Brad e Debbie ontem à noite, então estou levando as meninas para a escola. O que está acontecendo? Por que você está ligando? Hoje não é domingo.
— Sei que hoje não é domingo, Suze. — Mestre falou comigo como se achasse que eu tinha sido lobotomizada desde a última vez em que nos vimos. — Estou ligando porque soube do que aconteceu com o padre Dominic. Ele está bem?
Relaxei a mão no volante.
— Ah, sim. Jesse está indo visitá-lo agora. Ele já falou com o médico hoje de manhã, e o Dr. Patel disse que o padre Dom passou bem a noite, então tudo deve estar...
— O que aconteceu com ele?
— Ele caiu. Acontece. — Eu sabia que as meninas estavam escutando, então escolhi minhas palavras com cuidado. — Pessoas de idade caem de vez em quando.
— E quebram a bacia e pegam pneumonia — adicionou Flocos, prestativa.
— Sossega aí atrás e assista ao vídeo — mandei, me referindo ao tablet que eu havia comprado para elas usarem no carro (e pararem de ficar puxando o cabelo umas das outras, evitando que eu descontasse nelas minha frustração). — Ou as faço sair e andar até a escola.
As meninas riram. Tenho de admitir que essa ameaça deve ter perdido o efeito, visto que eu a usava toda vez que as levava de carro para algum lugar, e nunca tinha cumprido com a palavra.
— E o que é esse negócio estranho que sua mãe me contou quando liguei ontem à noite, de que nossa antiga casa foi comprada por aquele tal de Paul Slater? — perguntou David. — Tem alguma coisa a ver com o e-mail que você mandou para Shahbaz Effendi sobre uma maldição do Egito?
Quase enterrei o pé no freio, e não só porque uma caminhonete à minha frente, cheia de caixas de romã recém-colhidas, tinha acabado de desviar bruscamente de um ciclista.
— Porra, como você sabe disso?
— Porque Shahbaz estuda comigo, Suze — respondeu David com uma voz paciente, enquanto as trigêmeas celebravam porque falei um palavrão. — Ele faz a graduação no DLCPO, o Departamento de Línguas e Civilizações Próximas ao Oriente. Depois que você mandou o e-mail, ele foi pesquisar na internet quem você era. É claro que você não tem perfil em sites de mídia social, então ele só achou uma página sobre celebridades listando você como afilhada de Andy Ackerman, e eu, como um dos filhos. A página também mencionava que eu estudo aqui, então ele entrou em contato comigo pelo diretório da faculdade para perguntar se você tem desequilíbrio mental, que é o que pareceu pela mensagem...
— Desequilíbrio mental? — interrompi, sentindo-me ofendida. — E o que ele ganha me acusando de ter problemas mentais? Não sou eu que passo o dia sentada, traduzindo maldições escritas em hieróglifos só pra publicar na internet e pessoas olharem e...
— E o quê, Suze?
Bem... tudo bem. Posso ter soado meio mentalmente instável para uma pessoa que frequenta uma faculdade de prestígio e não conhece meu trabalho alternativo.
Dei uma olhada nervosa no retrovisor e vi que as cabecinhas das trigêmeas estavam debruçadas sobre o tablet. No entanto, não me deixei enganar. Eu conhecia aquelas garotas. Elas estavam escutando, com certeza.
Tirei o celular do alto-falante e coloquei o celular no ouvido, arriscando levar uma multa. Mas decidi que o risco de permitir que as meninas escutassem o que David falava era mais grave.
— Olhe, David, não é nada. Contatei Shahbaz para um cliente com quem estou trabalhando.
— Suze, nem tente. Eu fui no blog do Shahbaz e procurei a maldição pela qual você perguntou.
Merda.
— Ela menciona especificamente a escuridão que será lançada sobre qualquer pessoa que ouse ressuscitar uma alma que já partiu, e o que pode acontecer se a casa dessa alma for destruída. Seu “cliente” é obviamente você, e Jesse é a alma que você ressuscitou, e isso tem a ver com o fato de Paul querer demolir nossa velha casa. Então não me diga para parar com isso. Não sou mais criança. E quero ajudar.
Nossa. Comecei a achar que a foto que David me mandou usando roupas de mulher não foi apenas palhaçada – nem um trabalho para uma aula sobre estudos de gênero. David não era mais o pirralho nerd e estranho que apelidei de Mestre. Estava todo crescido agora, e queria que eu soubesse.
— Tá bom — falei. — Mas, David, não tem nada que você possa fazer. Está tudo sob controle.
— Ah, está? Então por que você passou a noite na casa de Brad e Debbie? Você a detesta. Na última vez que jantamos juntos, você a chamou de demônio egoísta e disse que queria que ela pegasse fungo embaixo das unhas postiças.
Nossa. Eu realmente precisava pegar leve no vinho.
— É, tudo bem, talvez eu estivesse tendo um momento de...
— É claro que você acha que as meninas estão passando por algum tipo de perigo.
— Estavam — admiti —, mas não estão mais. E isso não teve nada a ver com...
— Jesse sabe que Paul comprou a casa?
Socorro. David estava mandando bem. Até demais.
— Não, mas só porque ele já tem muita coisa com que se preocupar agora. Ainda está esperando notícias sobre a bolsa. Não quero estressá-lo ou o atrapalhar com coisinhas...
— Ok, já decidi — disse David com firmeza. — Vou mudar minha passagem e ir para casa amanhã em vez de na semana que vem.
— O quê? — Quase bati na caminhonete de romãs. — David, não! Essa ideia é terrível. Totalmente desnecessária.
— Desnecessária? O padre Dominic está no hospital.
— Sim, e sendo muito bem cuidado. Então, por favor, não...
— Não tem problema. Eu já entreguei todos os trabalhos do semestre. Posso falar para os professores que é uma emergência familiar.
É claro que já havia entregado todos os trabalhos do semestre. Podia até estar todo crescido, mas não mudou tanto assim.
— David, não há emergência alguma. O padre Dominic vai ficar bem. O que aconteceu com ele não tem nada a ver com, hum, aquela outra coisa. — Olhei para as meninas. Ainda estavam assistindo ao vídeo, exceto por Flocos. Peguei-a no flagra olhando para mim no retrovisor; ela percebeu e desviou o olhar rapidamente. Muito espertinha. — E não tem nada que possamos fazer sobre aquela outra coisa, a não ser que seu amigo Shahbaz tenha dado alguma informação. Ele deu?
— Não, Suze, Shahbaz disse que nunca ouviu falar de uma maneira de acabar com a Maldição dos Mortos porque maldições não existem. — David parecia exasperado. — Foram escritas para afastar os ladrões de tumbas, e não porque os sacerdotes nas religiões antigas realmente tinham a habilidade de lançar maldições nas pessoas.
— Claro — falei com calma. — Do mesmo modo que fantasmas não existem. Do mesmo modo que pessoas que veem fantasmas não existem. Do mesmo modo que todas aquelas pessoas que violaram a tumba do rei Tut não morreram de mordidas aleatórias de mosquitos e suicídios e assassinatos um ano depois...
— Escute, Suze, eu sei. Mas o que você queria que eu respondesse? Eu não tinha como falar “Veja bem, sei que maldições não existem, mas minha meia-irmã se comunica com mortos, já provou que o princípio dos universos múltiplos é, na verdade, real, e de vez em quando viaja para dimensões paralelas entre a vida e a morte, que ninguém jamais provou que existem.” Não queria que ele achasse que eu sou louco.
Revirei os olhos. Estava cedo demais para conversar com um gênio sensível.
— Tá bom, David — falei. — Obrigada por tentar, mesmo assim. Olhe, preciso ir; como já falei, estou dirigindo...
Ele não ia desistir tão facilmente, no entanto.
— Escute, Suze, pensei em outra maneira de lidar com esse negócio. Uma coisa muito mais fácil que romper uma maldição de múmia.
— Ah, é? O quê?
— Volte no tempo e compre a casa.
Fiquei tão surpresa que quase perdi a rua da escola. Tive de pisar no freio e virar no último segundo, o que fez com que as meninas deslizassem perigosamente no assento de trás, mesmo que estivessem usando cinto de segurança.
Ainda bem que elas não tinham tendência a ficar enjoadas com movimentos – e gostavam de parques de diversão, então elas celebraram em vez de vomitar.
David, alheio ao nosso drama automobilístico, continuou todo animado.
— Olhe, você já criou um universo alternativo com todo mundo, aquele onde Jesse não morreu; o que não faz sentido para mim porque, segundo o Princípio da autoconsistência de Novikov, a gente não devia se lembrar de quando papai e Brad acharam um esqueleto no jardim. Mas todo mundo se lembra. Então faz sentido que você consiga de novo. Só que, dessa vez, faça com que você seja a pessoa comprando a casa, e não Paul. E aí vai ficar tudo bem. Ou pelo menos é o que eu acho. Não é?
Consegui retomar o controle do carro e, apesar das buzinadas irritadas dos outros motoristas, entrei na mão certa.
— David — falei quando minha voz voltou —, é um plano ótimo. Sinceramente. Mas não vai dar certo. Mediadores não podem ficar indo e voltando no tempo sem que paguem as consequências em forma de perdas enormes de células neurais e rasgos cósmicos no universo. — Usar a frase de Paul deixou um gosto amargo em minha boca. — Foi assim que essa confusão toda começou.
— Ah. — David soou decepcionado. — Não pensei nisso.
— Pois é. Além disso, se viajar no tempo fosse tão fácil, você não acha que eu o faria o tempo todo a fim de prevenir acidentes de avião e Hitler e tal?
Agora ele soou chocado.
— Claro que não. Isso seria uma grande violação do paradoxo do avô...
— E, mesmo que eu quisesse, não poderia ter comprado nossa velha casa. Meu pai não me deixou tanto dinheiro assim. E Jesse jamais toparia morar lá.
A voz de David ficou mais aguda.
— Por que não?
— Porque foi em nossa velha casa que Jesse foi A-S-S-A-S-S-l-N-A-D-O, lembra?
As meninas começaram imediatamente a murmurar as letras da palavra que eu havia acabado de soletrar, mas felizmente não chegaram a uma conclusão – era avançada demais para o jardim de infância. Além disso, a leitura era ensinada na Academia por meio da visualização, ou “linguagem completa”, em vez de foneticamente, o que significava que a maioria dos alunos lia bem menos que a série deles determinava (uma opinião que o padre Dominic já havia me pedido para, por favor, manter para mim).
— Então onde vocês dois vão morar depois de se casar? — perguntou David, exigente. — Em alguma comunidade fechada, que nem Brad e Debbie? Claro, já consigo ver isso dando certo. Ei, talvez Jesse pudesse começar a jogar golfe com os outros médicos enquanto você faz compras com as esposas deles.
Eu realmente não queria continuar aquela conversa, não só porque havíamos chegado no estacionamento da escola, mas porque de repente comecei a escutar a voz de minha mãe em minha mente, sugerindo que eu e Jesse fôssemos para Los Angeles. Seria tão mais fácil para eu visitar meus futuros netos se vocês estivessem aqui na cidade...
— Olhe, David — falei —, agradeço pela ajuda com Shabaz, e também pelo conselho, mas, sinceramente, a melhor coisa que você pode fazer agora é ficar exatamente onde está e não falar nenhuma palavra sobre isso para ninguém. Principalmente para Jesse, ok?
— Hum, ok. — Ele não foi muito convincente. — Mande um oi a todo mundo por mim, e diga a todos que os amo. A gente se vê em breve.
— David. Você está me escutando? Por favor não...
Ele já havia desligado.

— Tia Suze — chamou Flocos do assento traseiro —, o que é um mediador?

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