sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 19

— Solte ela agora! — a voz, profunda e inflexível, lembrava a de alguém, mas antes que seu cérebro pudesse dar uma resposta, Derek se levantou com tamanho ímpeto que a fez rolar até a beira da rocha.
Segurou-a, porém, antes que despencasse. Logo que se sentiu segura, Kylie ergueu a cabeça. Lucas observava-os da margem do riacho. Um jogo de luz e sombra o envolvia, tornando sua presença ainda mais assustadora. Seus olhos azul-claros fixavam-se nos dois com uma expressão carregada de violência.
— Ela está bem — disse Derek, num tom áspero que condizia com a rigidez de seu rosto.
Sentindo-se um tanto tola, Kylie achou que era necessário explicar o acontecido:
— Vi uma cobra.
Lucas respirou fundo e olhou para o chão:
— Era uma moccasin-d’água.
— Eu sei — disse Kylie. — Por isso gritei.
— Ela já foi — disse Derek, parecendo insinuar que Lucas deveria fazer o mesmo.
— Ouvi o grito dela — continuou Lucas, como se ele também sentisse a necessidade de explicar seu comportamento.
Os dois garotos ficaram olhando um para o outro, sem dizer uma palavra. Kylie teve a sensação nítida de que não se suportavam. Imaginou se faes e lobisomens por acaso não seriam inimigos naturais. Que droga! Pelo que sabia, a Segunda Guerra Mundial...
— Ela não está gritando mais — disse Derek.
— Está tudo bem — Kylie saltou da rocha. Mas não sem antes checar se não havia cobras no chão. Quando ergueu a cabeça, percebeu que Lucas olhava para ela com um ar de desaprovação.
— Se tem tanto medo de cobras, não deveria andar pelo mato.
— Não tenho tanto medo assim, é só que...
— Estou cuidando dela — interrompeu Derek. Seu tom de voz era sombrio quase agressivo.
— É, vi muito bem o que você estava fazendo.
Derek endireitou o corpo como se fosse saltar da rocha.
— Olha aqui, se você tem algum problema...
Lucas aparentemente não estava interessado no que Derek tinha a dizer porque se virou e em menos de um segundo desapareceu. Kylie sentiu-se enrubescer imaginando o que Lucas tinha pensado da situação. Então, vendo a expressão infeliz no rosto de Derek, disse:
— Foi mal. Não deveria ter gritado, mas acontece que...
— Você não fez nada de errado, Kylie — disse Derek, oferecendo a mão a puxá-la para cima. — Ele exagerou, agindo como um imbecil. Não havia nada que vir aqui. Eu não ia deixar que nada de mal acontecesse a você.
Kylie lembrou-se de como todo o seu medo tinha desaparecido ao toque intenso daquela mão.
— O que foi isso que acabou de acontecer?
— Ele apenas teve uma reação exagerada...
— Não. Não me refiro a Lucas. Com o seu toque...
— Meu toque? O que quer dizer?
Outras perguntas flutuavam no ar, como abelhas enfurecidas.
— Como você sabia que a cobra estava aqui?
O mesmo olhar, indicando que ele não gostava de falar de si mesmo, apareceu no rosto de Derek, mas Kylie não deixaria por menos. Não dessa vez.
— Foi você que chamou a cobra? — perguntou.
Derek franziu a testa:
— Então acha que eu colocaria você em perigo só por brincadeira?
Ela poderia acreditar nas palavras dele?
— Não. Não acho. Mas você sabia que a cobra estava aqui. Sabia antes que ela aparecesse.
— Só percebi um segundo antes. Se soubesse antes, não deixaria que você descesse da pedra.
O sol projetou um novo feixe de raios faiscantes por entre as árvores e ofuscou os olhos de Kylie, impedindo-a de enxergar direito.
— Mas como sabia?
Derek saltou da rocha, pousando firmemente no chão ao seu lado.
— Faz parte do meu dom — disse ele, não parecendo nada orgulho do fato.
— Consegue prever o futuro?
— Gostaria.
— Então faz o quê?
— Leio as emoções de animais e de outras criaturas — Derek enfiou as pontas dos dedos nos bolsos.
— Uau! — exclamou Kylie, tentando entender bem o caso. — Isso é...
— Estranho, eu sei — murmurou ele. — Como se eu fosse Tarzan ou coisa parecida. Holiday diz que posso ser normal se eu quiser e é por isso estou aqui. Para descobrir como. Mas Holiday não está muito entusiasmada com minha busca. Acha que vou decepcionar algum deus fae se renunciar ao meu dom. Ora, o deus fae que vá para o inferno. Não pedi isso. O único fae da minha vida abandonou a mim e à minha mãe. Então por que eu devo querer ser como ele?
Kylie percebeu o sofrimento em sua voz e se sentiu profundamente tocada.
— Você tem razão. Sinto muito.
Estava sendo sincera. Não apenas porque agora entendia tudo sobre ressentimentos familiares, mas porque, como ele, caso fosse mesmo sobrenatural, devolveria o dom ao remetente. Se o problema de Derek continha uma pesada carga emocional, o dela pressupunha um monte de perguntas. E o desconhecido já era, por si só, uma inquietação. Embora a verdade pudesse ser dolorosa, ela precisava de respostas.
De pé ali no meio do mato, envolvida em luz e sombra, imersa no mundo sobrenatural, decidiu de uma vez por todas procurar as tais respostas. Encontrou de novo o olhar de Derek.
— Comunicar-se com animais não pode ser pior do que... Outras coisas.
Derek atirou um seixo na água. O ruído que fez ao bater na superfície misturou-se aos outros da floresta.
— Como ver fantasmas? — perguntou, adivinhando mais do que ela teria desejado.
— Também — concordou Kylie, honestamente. — Não posso me imaginar levantando cedo e indo beber... Sangue — a simples menção da palavra trouxe à memória o que Derek tinha feito para ficar com ela durante aquela hora.
Não poderia permitir que ele fosse adiante com aquilo. Não sabia como, mas ao menos tentaria. Kylie consultou o relógio.
— Acho que é hora de voltarmos.
Derek segurou a mão de Kylie e virou seu pulso para ver as horas. O toque daquela mão fez uma suave corrente elétrica subir pelo braço de Kylie e ela se lembrou do quanto estivera perto de deixar que ele a beijasse. Ou teria sido Kylie que quase o beijara?
— Ainda temos meia hora — tranquilizou-a Derek, apertando a mão dela.
Kylie se desvencilhou, recordando que o toque dele tinha controlado suas emoções quando ela vira a cobra. Provavelmente ele salvara sua vida, mas não era essa a questão. Não gostava de pensar que alguém pudesse controlá-la. Ou manipulá-la.
— É — disse ela —, mas ainda temos de descobrir um modo de você não dar seu sangue.
Derek fechou a cara.
— O acordo está feito e não há como desfazê-lo. E, além disso, não é problema.
— E se ele transformar você num vampiro?
Derek arregalou os olhos.
— Ah, fala sério, você pensa que vou deixá-lo me morder? De jeito nenhum. É arriscado e parece coisa de gay.
Kylie enrubesceu, sentindo-se uma completa ignorante.
— Então como será?
— Do mesmo modo que você doaria sangue num ambulatório. Com uma agulha esterilizada e uma bolsa plástica.
Kylie ficou olhando para ele, com perguntas surgindo depressa demais para que conseguisse ordená-las.
— Vai a um consultório médico para fazer isso? Mas como...
— Não — riu Derek. — A maioria dos vampiros carrega seus próprios apetrechos. São mais habilidosos em encontrar uma veia do que muitas enfermeiras. Uma das primeiras coisas que eles aprendem é tirar sangue sem matar o doador.
Será que Della tinha trazido seu próprio equipamento de transfusão?
— Como sabe de que modo os vampiros...
— Se alimentam? Já fiz isso algumas vezes — o sorriso dele a deixou ainda mais confusa.
— Então já deu sangue para um vampiro antes?
Derek assentiu:
— Como disse, não é o fim do mundo.
— Para quem? E como você sabia da existência de vampiros?
— Ela se chamava Ellie. Fomos colegas de escola. Você está se esquecendo de que sobrenaturais se reconhecem facilmente.
Sim, ela tinha se esquecido do gesto de arquear as sobrancelhas. Mas por uma boa razão. Kylie não “lia” sobrenaturais, o que lhe dava um pouco mais de esperança de não ser um deles. Será que ela também tinha colegas sobrenaturais na escola? Além de Lucas, por aquele curto espaço de tempo?
— Quantos sobrenaturais existem? — perguntou Kylie, embora com medo de ouvir a resposta. — Quantos são em comparação com os humanos?
— Por consenso geral, somos menos de um por cento. Mas esse número está aumentando. Por quê?
— Eu me perguntava se fui colega de algum deles na escola.
— Pode ter sido — disse Derek. — Mas não é provável. A maioria dos sobrenaturais frequenta escolas particulares ou é educada em casa. Por motivos óbvios.
— Quais?
— Quase sempre têm muito dinheiro. Muitos acreditam que devem aprender uma história diferente. E podem se dar esse luxo, porque eles usam seus dons para ficarem ricos.
Eles?
Kylie percebeu que Derek também não se considerava cem por cento um sobrenatural.
— Então você estudou em escola particular?
Derek sacudiu a cabeça.
— Meu pai deu no pé, lembra?
— Ah, é — e Kylie passou a outra pergunta: — E aquela garota? Ellie, não é? Foi sua colega?
— Ela é uma vampira recente — disse ele. — Ainda não decidiu se vai morar com seus iguais.
Kylie pensou em Della.
— Todos eles vão viver com outros de sua própria espécie?
— Pelo que Ellie diz, não. Mas sei que, para ela, não é nada fácil se misturar com os humanos.
Kylie notou o carinho na voz dele e, esquecendo rapidamente os problemas de Della e das outras criaturas estranhas, resolveu se preocupar com assuntos mais pessoais.
— Você e Ellie são muito próximos? — temendo parecer enciumada, sacudiu a cabeça, mas não conseguiu conter a curiosidade. — Ah, você deu seu sangue pra ela. É claro que são próximos.
Derek arqueou as sobrancelhas e outro daqueles quase sorrisos desenhou-se em seus lábios, deixando ainda mais intenso o brilho do seu olhar.
— Esse é o seu jeito de perguntar se ainda estamos juntos? — a cintilação verde de seus olhos revelava que ele apreciava o interesse de Kylie.
— Não — pelo menos, supunha que não fosse, mas não estava completamente certa.
— Terminamos há uns seis meses.
— Por quê? — perguntou Kylie, para logo se arrepender.
— Ela conheceu um lobisomem — havia ressentimento em sua voz.
— Lucas?
— Não, não ele.
— Pensei que vampiros e lobisomens não se dessem bem — observou Kylie.
— Os Capuleto e os Montecchio também não se davam bem — soprou uma brisa leve e uma mecha dos cabelos de Kylie roçou em sua face, ficando presa entre seus lábios.
Derek a desprendeu dos seus lábios e colocou-a atrás da orelha. As pontas de seus dedos deslizaram pelo queixo de Kylie, provocando um formigamento em seu pescoço. Ela segurou sua mão e, sentindo que o formigamento aumentava, largou-a imediatamente.
— O que aconteceu àquela hora? — apressou-se a perguntar antes perdesse o controle. — Quando você me tocou?
Derek meteu as duas mãos nos bolsos, como que para evitar a tentação de tocá-la de novo.
— Não sei o que quer dizer — disfarçou, mas Kylie sabia que ele esta mentindo.
— Não minta para mim, Derek — disse ela, sacudindo a cabeça. — Quando você me tocou, mudou meus sentimentos e nós dois sabemos disso muito bem.
Derek parecia não acreditar que Kylie pudesse ter percebido.
— Apenas impedi que tivesse medo, para que não fizesse uma besteira e fosse picada.
— Então, quando você toca alguém, passa a controlar suas emoções?
— É — disse ele, como se aquilo não fosse grande coisa.
Mas era uma grande coisa, ao menos para Kylie. Até onde a atração que sentia por ele era verdadeira? Até onde tinha sido ele quem provocara aquela atração? Uma sensação fria e incisiva oprimiu seu coração.
— Você já fez isso antes?
— O quê? — agora ele parecia mesmo confuso. Ou estaria fingindo?
— Controlar minhas emoções.
Derek a observou com atenção.
— Por acaso está com raiva?
— Fez isso ou não, Derek? Induzir-me a sentir aquilo por você?
Ele pareceu ofendido.
— Não — respondeu com firmeza, embora sem convencê-la.
Kylie pôs a mão no peito dele.
— Então me ajude, Derek, se...
Ele segurou sua mão e ela teve um sobressalto.
— Mais essa! Agora está com medo de mim? — Derek sacudiu a cabeça, inconformado. — Primeiro, você justificou o que sentia dizendo que eu lembrava o seu ex-namorado; agora, me acusa de estar controlando suas emoções. Por que é tão difícil reconhecer que simplesmente gosta de mim?
— Porque você tem o poder de fazer isso, não tem? Tem o poder de me fazer gostar de você — respirou fundo e prosseguiu: — Já usou seus dons para convencer uma garota a fazer coisas que ela normalmente não faria?
Derek enrijeceu.
— Uau! — exclamou, num tom de acusação. — Está procurando um motivo para implicar comigo, hein? Esse seu ex-namorado foi mesmo bem mau-caráter com você.
Talvez. Mas a questão não era essa. Kylie tinha quase certeza de que seus sentimentos agora não tinham mais a ver com Trey, mas com o próprio Derek. A verdade nua e crua era que, se passasse a gostar de Derek, isso complicaria muito seus próximos meses. Já tinha problemas suficientes e não precisava de mais um.
— Você não respondeu à minha pergunta — insistiu ela, endireitando o corpo. — Já usou seus dons para convencer uma garota a fazer coisas que normalmente não faria?
A expressão de Derek era quase de raiva, mas Kylie podia jurar que também havia culpa nos olhos dele. Ele olhou para o outro lado.
— Se não responder, vou ter que presumir o pior — avisou ela.
— Está bem — Derek a encarou. — Já usei meu dom para chamar a atenção de uma garota, mas não para fazê-la dormir comigo. Isso seria desonesto. E não me interessa saber até que ponto você quer implicar comigo, Kylie. Não vou me fingir de mau só para fazê-la se sentir melhor — apontou o caminho por onde tinham vindo. — Acho que agora devemos voltar.
Kylie percebeu mágoa em sua voz. Embaraçada, de repente percebeu o quanto estava sendo dura e insensível. Deus, talvez ela não fosse melhor que sua mãe! Derek abriu caminho e ela o seguiu. Andaram em silêncio.
— Ei — chamou ela finalmente, sem conseguir mais se conter.
— Que foi? — perguntou Derek, sem se virar e continuando a descer a trilha.
— Eu não quis insinuar que você fosse algum tipo de estuprador.
— Então quis insinuar o quê? — respondeu, ainda sem olhar para ela.
Kylie procurou escolher bem as palavras. Odiava ter de apelar velho clichê, mas no momento não poderia fazer melhor.
— Gosto de você, Derek. Gosto mesmo. Mas acho que deveríamos ser apenas bons amigos.
Derek riu, sem, no entanto, parecer achar graça nenhuma naquilo.
— Vai negar então que sente alguma coisa por mim? — acelerou o passo. — Vai negar que quase me beijou agora há pouco, que queria me beijar?
Acelerando também o passo, Kylie ia negar e quase fez isso; mas se conteve para não mentir.
— Não, não vou. Só não sei bem o que estou sentindo neste momento.
Derek finalmente se virou para ela.
— Porque acha que estou controlando suas emoções...
— Não, não é isso. Quer dizer, talvez em parte... Mas também porque você me lembra Trey. Olha, muitas outras coisas vêm acontecendo comigo nos últimos dias — a emoção tomou conta da sua voz. — A situação em casa está péssima. Comecei a ver fantasmas. Pessoas vivem me dizendo que não sou totalmente humana e quase peço para ser apenas maluca ou ter um tumor no cérebro — apertou as pálpebras para não chorar de novo. — Preciso disso também — agitou as mãos entre ambos. — Mas realmente um amigo me faz falta.
Derek olhou para ela com resignação.
— Está bem. Se amizade é só o que tem a oferecer, eu aceito. A contra gosto, mas aceito.
— Obrigada — murmurou Kylie com sinceridade.
Derek respondeu com um aceno de cabeça e a estudou como se procurasse de novo ler suas emoções. Céus, talvez, depois de lê-las, ele pudesse lhe explicar o que significavam – pois, no momento, tudo parecia confuso demais para ela.
— Tudo vai ficar bem — disse ele.
— Verdade? — Kylie fez uma pausa. — O problema é que não sei onde começar para obter respostas.
Derek respirou profundamente e olhou em volta como se temesse que alguém pudesse ouvi-los, embora ninguém estivesse à vista. Aproximou-se dela.
— Não tenho todas as respostas — confessou, baixando a voz até transformá-la num sussurro. — Na verdade, nem sei se isso é mesmo um problema. No entanto... Há uma coisa que você precisa tentar.

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