domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 18

Foi mais difícil que nunca cair no sono naquela noite.
Em parte, porque Debbie se livrou da cama no quarto de hóspedes – assim como dos prêmios de luta de Brad, que foram colocados na garagem – para que pudesse converter o quarto em seu “centro de artesanato”.
Sendo assim, tive de dividir uma cama com Flocos, ao passo que Jesse foi banido para o sofá duro e desconfortável da sala (que não tinha porta, com ou sem tranca, para mais privacidade).
Provavelmente poderíamos ter voltado para nossas próprias camas – a minha em meu apartamento, e a de Jesse na Cruzada do Caramujo – visto que tudo indicava que as meninas não estavam mais em perigo. Mas eu ainda precisava fazer o “estudo” para minha aula.
E, mesmo que tivéssemos ido embora, eu não teria conseguido escapar da pergunta que Jesse fez quando voltamos para dentro depois de colocarmos as garrafas de vinho nas latas de reciclagem.
— Suzannah, o que você ia me falar mais cedo no jardim? O que você achou que ia me deixar com raiva?
Eu ri.
— Já falei, não era nada. Era uma ideia que eu tive para o casamento, só isso, mas mudei de ideia. Você não quer karaoquê na festa, quer?
— Karaokê?
— Viu? Eu sabia. Ainda bem que o depósito é reembolsável.
— Ok. Não acredito em você, mas tudo bem. Falando nisso, quem mandou aquelas flores que vi na sua mesa quando fui ao escritório esta tarde?
— Ah, ninguém — falei. — Só um pai de aluno que queria agradecer.
Não sei como consegui falar com tanta calma, ainda mas quando sabia claramente que ele estava lendo minha mente de novo.
Ele sabia. Ele sabia perfeitamente bem quem mandou as flores, e talvez até o que eu ia falar para ele no jardim. Talvez eu tivesse implantado a mensagem na cabeça dele por me preocupar tanto com Paul, e por ter ficado tão mexida com as flores de Lucia no chão da casa de brinquedo das amigas dela, com os rostos das bonecas.
Flores mortas de uma menina morta. Flores vivas de um homem vivo... que não parava de me assombrar por causa de um ex-fantasma.
Ele não falou mais nada sobre o assunto, no entanto, e o beijo de boa-noite que me deu quando nos despedimos para dormir, eu no segundo andar, ele no primeiro, foi tão caloroso quanto sempre.
Não foi isso que me deixou sem sono.
Também não acho que foi a mensagem que Jake mandou dizendo que “acompanharia” Gina do Médium Feliz ate a Cruzada. Disse que estava preocupado que o “maníaco” de nosso prédio tivesse descoberto onde ela trabalhava. Queria ter certeza de que ela chegaria em casa com segurança.
Nem a mensagem que recebi de Gina dizendo que ela e Jake decidiram comer depois do trabalho, e que ela não queria que isso fizesse com que as coisas “ficassem estranhas” entre nós.
Além disso, ela sabia que não tinha nenhum “maníaco”, que era apenas mais uma de minhas “coisas com fantasmas” (uma vidente em uma feira contou a ela sobre meu “dom” quando éramos crianças). Ela não contaria ao Jake, entretanto, adicionou ela com uma carinha piscando e sorrindo.
Maravilha, era tudo de que eu precisava – minha melhor amiga saindo com um de meus meios-irmãos. Como se já não bastasse que uma rival da escola tivesse se casado com o outro.
Isso foi o suficiente para me fazer ir até a cozinha de Brad e Debbie para tomar um copo de leite (mesmo que isso jamais tivesse me ajudado a “sentir as ondas calmantes da sonolência”, conforme os peritos diziam que acontecia, eu continuava tentando).
O que eu realmente gostaria de fazer era sair dali e ir até a casa 99 na Pine Crest Road para espalhar o pouco de sal grosso que eu havia conseguido comprar. No entanto, quando olhei para a sala ao passar, tive certeza de que seria impossível.
Só o som do copo que coloquei na lava-louças depois de beber o leite já fez com que Jesse se virasse no sofá – curto e estreito demais para seu corpo que, em comparação, era enorme – e murmurasse alguma coisa incompreensível. Com um dos braços pendurado no chão e o outro jogado de qualquer jeito acima da cabeça, ele parecia tão confortável quanto o pobre Max, que ainda estava trancado na garagem.
Jesse não usava camiseta, e a coberta que a Debbie lhe dera havia se enroscado em suas pernas durante o sono. Seu peito e grande parte da cueca boxer estavam expostos, assim como a trama de cabelo escuro sobre os músculos do peito, que depois se afinava em uma estrada tentadora até o elástico do short, embaixo do qual dava para ver claramente o volume que eu sentia quase todos os dias, mas que era (em geral) proibido ao toque até o dia de nosso casamento.
Foi quando percebi que nem todo o leite do mundo me faria dormir.
A casa estava completamente silenciosa. Debbie e Brad recolheram (brigando de novo) havia horas, e as meninas estavam dormindo profundamente quando deixei o quarto.
O que aconteceria, imaginei, se eu me ajoelhasse ao lado do sofá, beijasse Jesse e colocasse a mão dentro do short?
E agora, quem tinha um lado obscuro? Eu. Eu tinha!
E não havia sal grosso suficiente em nenhuma loja que pudesse contê-lo.
Jesse deve ter sentido isso também porque abaixou o braço e se virou, quase caindo do sofá. Eu me assustei e fui correndo escada acima – não queria que me pegasse ali de pé, olhando para ele enquanto dormia.
Eu estava passando pelo “centro de artesanato” de Debbie a caminho do quarto das meninas quando a vi – a coisa que me manteria acordada o resto da noite (como se pensar no que estava embaixo daquele short não fosse o bastante).
Primeiro foi apenas um vislumbre, algo que eu nem tive certeza de ter visto. Passei direto pela porta, concentrada em meus pensamentos impuros, antes de registrar a imagem.
Então congelei onde estava, sentindo um frio na espinha que não tinha nada a ver com a noite gelada.
Lucia.
Voltei dois passos e olhei pela porta.
Ali estava ela, solenemente parada no meio do quarto, o rosto redondo e angelical com seu brilho de sempre.
— Lucia. — Botei a mão sobre o coração, que batia forte. — Você não devia pegar as pessoas desprevenidas assim. Quase me matou de susto.
Ela não respondeu. Apenas ficou parada com sua roupa de montaria, calcanhares unidos, franja encaracolada batendo nos olhos escuros, a boca parecendo um pequeno botão de rosa.
— Olhe — falei, entrando no quarto e fechando a porta para que ninguém me escutasse. — Desculpe pelo cachorro. Ele está na garagem agora, então não vai mais te incomodar. E obrigada pelas flores, mas você não devia ter feito o que fez com o padre Dominic. Ele é um homem bom, e não estava lá para machucar Becca. E ninguém quer te machucar também, Lucia. A gente só quer...
Ela levantou um dos braços. Instintivamente, eu me encolhi e dei um passo desajeitado na direção da porta. Geralmente não sou tão covarde, mas eu me lembrava muito bem da força naqueles bracinhos fofos.
Mas ela não estava tentando me machucar. Estava apontando para alguma coisa na parede.
Olhei para a direção que ela indicava. Era o “mural de inspiração” de Debbie.
Debbie havia me mostrado o mural mais cedo, mas não prestei muita atenção. Era uma de suas criações. E cada uma das meninas criou alguma coisa também. As delas foram mais interessantes. Rabo de Algodão, pelo que parecia, foi bastante inspirada pelo trabalho teatral do Grilo Falante.
— Que foi? — perguntei a Lucia, e fui até o mural de Debbie. — Tem alguma coisa aqui sobre o que aconteceu com você?
Lucia parecia estar com raiva, e pelo visto essa era sua expressão habitual.
Mas antes que eu pudesse me encolher de novo, ela desapareceu, o que devo admitir que foi um alívio. Eu tinha de dar crédito à menina: ela estava aprendendo a lidar com suas emoções. Em vez de surtar, ela foi para seu lugar tranquilo, fosse onde fosse. Para mim tanto fazia, contanto que fosse longe de mim.
Liguei uma luminária para examinar o mural de Debbie com mais cuidado, procurando pelo que Lucia estava tentando me mostrar. Era um mural de decoração elaborada, uma cortiça coberta de papel de presente creme, com bordas de laços dourados e fios de pérolas falsas. Ela havia prendido fotos de modelos usando alfinetes com coroas na ponta, e havia fotos das meninas aqui e ali; em algumas elas eram bebês, mas a maioria era de fotos recentes e de eventos que reconheci. Não havia foto nenhuma de Brad, nem de mim. Tentei não levar para o lado pessoal.
No início, não entendi para o que Lucia podia ter apontado. Nada ali tinha a ver com ela, nada relacionado a cavalos, ao Sagrada Trindade, a Becca, nem a Kelly Prescott Walters, a madrasta de Becca e melhor amiga de Debbie.
Então percebi que Lucia não apontara para nada conectado a ela. Era alguma coisa que Lucia queria que eu visse porque achava que tinha a ver comigo. Talvez fosse outra maneira de pedir desculpas? Ela deve ter sentido que as buganvílias não fizeram tanto sucesso, mas aquilo, aquilo realmente me ajudaria.
Era uma notícia que Cee Cee escreveu, impressa do computador de Brad e Debbie, e aberta em uma página com uma foto de Paul Slater, os cabelos negros, os olhos azuis, bronzeado e rosto relaxado. Estava encostado em um carro esportivo com os braços musculosos cruzados e um sorrisinho de satisfação consigo mesmo naquele rosto bonito. O carro era um Porsche. (Claro que era. Ele sempre dirigiu carros esportivos caros.)
O texto embaixo da foto dizia “Os negócios vão bem para um dos alunos da Academia da Missão.” E o artigo começava dizendo; “Paul Slater se torna um sucesso do dia para a noite.”
Ai. Sério, Cee Cee? Eu teria de bater um papo com ela sobre esses textos hiperbólicos.
Ao lado da foto estava pendurado o pompom de formatura do ensino médio de Debbie. Eu o reconheci porque tinha um igual.
Quero dizer, tive um igual. Ele desapareceu na noite em que Paul me jogou contra a parede e eu dei uma joelhada no meio das pernas dele, depois passei correndo pela Debbie, que ficou muito feliz em encontrá-lo ali, visto que seu namorado, Brad, estava ocupado demais vomitando nos Louboutins de Kelly Prescott.
Como foi que Paul disse mesmo?
Ah, sim. Eu o deixei sob os cuidados não tão delicados de Debbie. “Ela subiu em cima de mim como se eu fosse um maldito gigolô,” explicou Paul.
E daí se Paul e Debbie se divertiram na noite da formatura? Foi Brad quem se casou com ela. E, sete meses depois, ela deu à luz as trigêmeas.
Então, subitamente, entendi o que Lúcia tentava me dizer – e por que achou que aquilo me ajudaria.
Mas não me ajudou. Somente fez com que eu ficasse acordada a noite toda.
Provavelmente me manteria acordada pelo resto da vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário