sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 18

Kylie puxou o cabelo para trás da orelha. Negue. Negue que algo esteja acontecendo.
— Que... Que lobisomem? — gaguejou, sem nenhuma convicção na voz.
Os olhos de Derek se voltaram diretamente para ela. Aquela expressão lembrava a de Della quando percebia que Kylie estava mentindo.
— Não negue — continuou Derek. — Suas emoções se projetam para todos os lados sempre que olha para ele. Mais ou menos do jeito que você olha para mim, só que... Com uma intensidade maior. Ou você gosta mesmo dele ou... Ele te assusta.
— Achei que pudesse ler emoções...
Derek se endireitou e cruzou os braços.
— Paixão e medo dão uma leitura quase igual.
— Bem, pode acreditar, a segunda opção é com certeza a correta — respondeu Kylie. Mas, depois do sonho da última noite, sabia que a verdade poderia ser resumida numa única palavra: as duas coisas. Entretanto, ainda no havia admitido aquilo nem para si mesma. E não iria admitir agora para Derek.
— De onde vocês se conhecem? — insistiu Derek.
— Quem disse...
Derek ergueu a mão para interrompê-la.
— Não é normal alguém ficar tão assustado com pessoas que não conhece.
Kylie baixou os olhos e percebeu que estava com os punhos cerrados.
— Ele era meu vizinho quando eu era mais nova. Digamos que, já na época, eu notava algo de errado com esse cara. Só não sabia o que era... Essa história toda de lobisomem.
— E ele...
— Chega — era a sua vez de lhe dirigir um olhar firme. — Não vou dizer mais nada. Fale de você agora.
Derek contemplou o riacho e Kylie percebeu que ele, tanto quanto ela, não gostava de falar de si mesmo.
— O que quer saber? — perguntou.
— Apenas... Tudo — respondeu Kylie, com certa descontração na voz para deixá-lo mais à vontade.
— Meu pai era fae. Minha mãe é humana.
— Era? Ele morreu?
Derek arrancou outro raminho do arbusto e ficou torcendo as folhas com os dedos.
— Não sei. E nem quero saber. Ele foi embora quando eu tinha oito anos. Um verdadeiro pai malandro, se é que me entende.
— Sinto muito — murmurou Kylie, percebendo que aquilo mexia mais com ele do que queria demonstrar. — E você sabia que seu pai era fae? — ela continuou, tirando uma formiga do braço.
— Sabia, sempre soube. Mas, depois que meu pai foi embora, nunca mais falamos muito sobre isso ou sobre ele. Minha mãe ficou arrasada.
Não apenas ela. Kylie via nos olhos de Derek a tristeza que ele procurava a todo custo esconder. Ela sentia um peso enorme no peito – por ele e, talvez, um pouco por si mesma. Os problemas com seu próprio pai ainda persistiam: aguardavam na fila junto com tudo o mais que ela tinha de sofrer e enfrentar. Mas lembrou-se de que era a vez de Derek. Ele a ouvira e merecia que ela o ouvisse.
— Lamento — disse Kylie.
— Por quê? Eu, não. Se meu pai não me quis, também não quero saber dele.
Derek não mentia melhor do que ela, pensou Kylie.
— Você sempre soube que tinha dons?
Ele olhou para o raminho que ainda tinha algumas folhas.
— Não. Quer dizer, eu sabia que podia interpretar melhor as pessoas do que muita gente, mas não fazia a menor ideia de que isso era porque... Era fae. Só em torno de um ano atrás minha capacidade de detectar as emoções ficou mais forte. E aí... Finalmente percebi que era diferente.
— Diferente em quê? — ela sentiu seu olhar deslizar para o peito de Derek, onde tinha sido tão bom encostar a cabeça. Um pensamento maluco cruzou sua mente: como seria beijá-lo?
Derek inclinou a cabeça para o lado e estudou o rosto de Kylie.
— Me pareço muito com seu ex-namorado?
Então suas emoções podiam ser lidas com facilidade, pensou ela, sentindo seu rosto queimar.
— Não muito, mas... O suficiente para...
— Se sentir atraída?
Com o rosto queimando mais ainda, Kylie olhou de novo para o riacho.
— Nem tanto.
— E por que não? — o hálito de Derek acariciava de novo sua face. Um hálito quente. Suave. Tentador. Ele já tinha chegado tão perto assim antes? Perturbada com a proximidade dos lábios de Derek e temendo deixá-los se aproximar ainda mais, levantou-se e pulou da pedra.
— Fique parada! — disse ele.
— Que foi? — Kylie virou-se para olhá-lo. — Pensei que a gente...
— Não se mexa! — ordenou Derek numa voz baixa e séria.
— Por quê? Eu...
Alguma coisa se agitou na moita ao seu lado. Kylie baixou os olhos e viu uma cobra rastejando para fora do arbusto espesso. Uma grande cobra cinza-escura de focinho pontudo, o tipo de focinho que, nos seus passeios pelo campo, seu pai lhe aconselhava a observar bem para diferenciar serpentes venenosas e não venenosas. O pânico a dominou logo que reconheceu a espécie: uma moccasin-d’água, nada menos que a cobra mais agressiva do Texas.
E também uma das mais venenosas.
Com movimentos sinuosos e regulares, ela veio se aproximando de Kylie. O medo foi crescendo e ela sufocou um grito na garganta. Pela lógica, não conseguiria se afastar da cobra com rapidez suficiente para não ser picada. Pela lógica, devia ficar imóvel, mas... A lógica que fosse para o inferno. Queria aquela coisa bem longe dela.
A mão de Derek apertou seu ombro.
— Não se preocupe — murmurou ele em voz baixa, suave. — Ela está só passando. Continue parada e deixe que ela passe. Estou aqui. Não vai acontecer nada.
A mão de Derek parecia ainda mais quente, estranhamente quente e logo o medo de Kylie foi diminuindo. Seu coração desacelerou e o gelo no estômago se desfez. Ela observou o corpo volumoso e rechonchudo da cobra deslizar por sobre a ponta de seu tênis como se fosse uma borboleta inofensiva. Algo em seu cérebro lhe dizia que aquela calma e aquela ausência de medo não eram naturais; que, de algum modo, vinham de Derek. Nem essa constatação a perturbou. Foi como se o toque dele tivesse anestesiado sua capacidade de ter medo, deixando-a apenas curiosa.
Curiosa em relação à cobra. Curiosa em relação ao modo como ela deslizava. Curiosa em relação a Derek. Como ele tinha conseguido alterar suas emoções? Como seria se entregar aos seus beijos? Será que despertariam nela o que Trey despertava? Talvez até mais?
— Você vai indo bem. Ela já está se afastando — sussurrou Derek.
E estava mesmo. Seu corpo volumoso escorregou para a água, provocando apenas um leve encrespamento na superfície, enquanto mergulhava e se deixava levar pela corrente. Derek manteve a mão no ombro de Kylie, enquanto ela observava a criatura desaparecer entre as rochas. Depois, lentamente, retirou a mão. A tempestade de emoções a dominou a tal ponto que ela não conseguiu conter um grito. E, como o grito não bastasse, olhou em volta e começou a subir de novo a rocha. O coração lhe saltava no peito, como se fosse explodir e parecia que ia sair pela boca. Derek tentou segurá-la, mas Kylie continuou subindo, pensando apenas em ficar o mais longe possível daquele animal escorregadio.
— Está tudo bem! — exclamou ele, rindo, e caiu de costas na rocha dura, arrastando-a consigo. Kylie aterrissou com metade do corpo em cima do dele. Os braços de Derek a envolveram, sem muita força.
Com as mãos dele pousadas delicadamente em suas costas, Kylie sentiu o pânico evaporar. Seus olhos encontraram os olhos verdes de Derek, cujos os raios dourados pareciam brilhar ainda mais assim de perto. Kylie baixou os olhos para a sua boca, seus lábios tão macios, tão convidativos. O calor do corpo de Derek se fundiu com o dela. O cheiro natural dele invadiu seus sentidos. Kylie conteve a respiração.
— Está melhor agora? — perguntou ele, num tom de voz mais profundo.
— Estou — junto com o pânico, Derek também tinha levado sua força vontade. Agora queria realmente ser beijada por ele. Ou beijá-lo. Isso não lhe pareceu de modo algum uma má ideia. Aproximou-se mais até que os lábios de Derek ficaram tão próximos dos seus que podia sentir seu calor.
— Solte ela! — bradou uma voz masculina às suas costas.

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