domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 16

— Não acho que seja uma boa ideia — disse Jesse.
— Sua objeção já foi registrada. E você não é o único, obviamente. Debbie também não gostou muito.
Era bem mais tarde. Jesse e eu estávamos sentados em cadeiras desconfortáveis ao lado da fogueira no jardim da casa de três quartos de Brad e Debbie no Rancho Vale Carmel.
A fogueira de Brad não era nada perto da que seu irmão mais velho havia construído na Cruzada do Caramujo. A de Jake era feita de calcário e ficava embutida no solo, cercada de sofás luxuosos no deque do jardim da Cruzada, não muito longe do ofurô de pau-brasil (onde dez pessoas cabiam confortavelmente).
A fogueira de Brad era uma caçamba de metal virada ao contrário, que ele havia colocado não muito longe dos balanços das meninas, o que despertou a ira da esposa, que não achava aquilo seguro.
E não foi apenas isso que despertou a ira de Debbie.
— Você não precisa ficar — sussurrei para Jesse pela décima quinta vez desde que entramos na comunidade do resort de golfe onde meu meio-irmão e a esposa moravam.
— É claro que preciso. Não vou deixar minha futura esposa sozinha em uma casa que está sendo assombrada por um demônio-mirim assassino.
— A gente não tem certeza de que ela está assombrando esta casa. E achei que a gente já havia estabelecido que ela não é assassina, apenas superprotetora. Parece bastante com outra pessoa que conheço... — falei, de forma sugestiva.
Jesse me ignorou.
— Então por que estamos aqui mesmo?
— Para ter certeza de que as meninas estão bem.
Tínhamos de manter a voz baixa porque Brad e Debbie estavam dentro da casa tendo o que chamavam de “uma discussão”, mas que eu considerava uma briga doméstica. Debbie não ficou muito feliz quando chegou do Pilates e descobriu que tinha visitas.
Era compreensível. Eu provavelmente não ficaria muito feliz se chegasse em casa depois de uma sessão de exercícios e encontrasse minha cunhada e o namorado preparados para passar a noite.
No entanto, era por uma boa causa. Pena que eu não podia explicar o que era.
De vez em quando a gente conseguia escutar as vozes de Brad e de Debbie pelas paredes finas e pelas portas corrediças de vinil no primeiro andar. A casa deles era linda, mas não foi feita com um material muito forte. Eu me perguntei se a Propriedades Slater tinha alguma coisa a ver com isso.
— Por que você tinha de escolher esta noite, dentre tantas outras, para trazê-los aqui? — Dava para ouvir Debbie falando muito claramente na cozinha (toda equipada com aparelhos de aço inoxidável, apesar de a lava-louças e o compactador de lixo quebrarem com frequência, muitas vezes simultaneamente).
— Já falei. Eles se convidaram, Debbie. — Brad soava cansado. — É alguma coisa a ver com uma aula de Suze. Ela precisa observar crianças no ambiente delas durante uma noite.
— Que ótimo. Então ela escolheu hoje? Sem avisar antes?
— Ela é minha irmã. O que você quer que eu faça?
— Ela é sua meia-irmã. E você podia ter falado não. Meu Deus, você é tão fraco, Brad. Deixa todo mundo passar por cima de você. Você perdeu as bolas com o cérebro naquela contusão de futebol no ensino médio?
— Ei — disse Brad. — Dá para falar mais baixo? Eles devem estar te ouvindo. E foi luta greco-romana, não futebol.
— Pergunta se faz diferença para mim, Brad.
— Sabe, eu realmente não entendo — falei para Jesse, tomando um gole do vinho que nós havíamos levado com duas pizzas. — Como você acha que isso aconteceu?
— O padre Dominic deve ter sido pego desprevenido — disse Jesse. Ele apertou minha mão para me dar confiança. — Mas, como falei antes, ele é forte. Os sinais vitais estavam bem melhores quando saímos de lá.
Eu me lembrei do rosto pálido e abatido do padre sob as luzes fluorescentes do quarto de hospital, de como seus olhos pareciam fundos sob as pálpebras finas como papel, suas mãos frágeis sobre o cobertor azul com um emaranhado de sondas fluindo delas.
Se aquilo era “bem melhor”, eu jamais queria saber o que era “pior”.
— E usamos bem os itens que peguei “emprestado” da igreja — continuou Jesse. — A Medalha de Maria que nós colocamos sobre a cama deve mantê-lo seguro esta noite, assim como toda a água benta.
— Não foi isso que quis dizer — expliquei. — Estou falando das meninas. Como acha que isso aconteceu? Como elas podem ser mediadoras?
— Ah, isso — disse Jesse. — Bem, como você me explicou de maneira tão astuta ontem à noite, Suzannah, quando um homem e uma mulher se gostam muito, eles fazem amor, e, se não usam proteção, como seu meio-irmão e sua cunhada, às vezes o esperma do homem pode fertilizar o óvulo da mulher e, se algum deles têm o cromossomo genético que corresponde a comunicar-se com os mortos, há uma chance de os filhos deles se tornarem...
Dei um soco em seu ombro, o que o fez derramar um pouco do vinho. Mas tudo bem, visto que Max – que fomos buscar na Cruzada por ser um detector de fantasmas tão excelente – imediatamente deu um pulo, ansioso com a possibilidade de que alguma comida pudesse ter sido derramada. No entanto, desapontado por ter sido apenas vinho, ele se deitou de novo aos nossos pés com um suspiro.
— Ai! — disse Jesse, massageando o ombro onde eu havia acertado o soco.
— Não bati tão forte assim. E foi exatamente isso que quis dizer. Não acho que a família Ackerman ou os Mancuso têm o gene mediador. Não conheci nenhuma pessoa no casamento dos dois que parecesse remotamente intuitiva. Você conheceu?
— Não. — Jesse botou mais vinho no copo. — E às vezes eu acho que você não tem noção da própria força. Mas sempre achei que seu meio-irmão David era bem perceptivo. Até cheguei a me comunicar com ele quando eu estava...
—... morto — terminei a frase ao ver que ele hesitou para dizer a palavra.
— Isso. Obrigado.
— Sem problemas.
Tomei um gole do vinho e olhei para as estrelas – as que eram visíveis através dos vários fios de eletricidade das casas dos vizinhos que cruzavam o jardim. Eu me perguntei como conseguiria voltar a Carmel Hills e botar sal na casa antiga. Senti que o destino, na forma de Lucia Martinez, conspirava contra mim.
— Concordo, David é realmente uma criança perceptiva — disse. Eu estava falando bem baixo para que nem as meninas, que já haviam aberto a janela do quarto para nos espiar depois que foram postas para dormir, nem Debbie ou Brad me escutassem. — Mas David não é o pai daquelas garotas. Brad é. E Debbie é a mãe. Brad é bem menos intuitivo que Max aqui, e Debbie acha que vacinas causam doenças. Então como essas crianças são capazes de ver fantasmas? E como vamos explicar isso para os pais delas?
— Não vamos explicar — disse Jesse. — Da mesma maneira que não vou explicar que na vida passada vi famílias inteiras morrerem de caxumba. Se Debbie não acredita nas provas científicas substanciais de que as vacinas vão proteger as filhas, qual a possibilidade de ela acreditar que elas (e eu e você) são capazes de ver e falar com fantasmas?
— Hum, há uma possibilidade, sim. Ainda mais agora, que o brinquedo que as meninas estavam usando pertence a um fantasma que morreu antes de elas nascerem... uma criança que tentou assassinar o diretor da escola esta tarde. As meninas não deveriam conseguir ver o brinquedo, muito menos tocá-lo, a não ser que sejam mediadoras; o que não podem ser, pois ninguém em nenhum lado das famílias foi mediador...
— Até onde a gente sabe.
— Ok, até onde a gente sabe. E, mesmo assim, elas viram o brinquedo. E pelo visto também viram Lucia.
Jesse não tinha como negar que era verdade. Quando peguei o brinquedo e perguntei para as trigêmeas de onde tinha vindo, Rabo de Algodão respondeu:
— É de nossa amiga Lucy. Mas ela empresta pra gente de vez em quando.
— É — disse Flocos. — Sempre que a gente quer, basicamente.
Senti um calafrio naquele momento, mesmo que estivesse usando minha jaqueta de couro. Ele se intensificou quando o pai delas riu e perguntou:
— Você nunca conheceu Lucy, Suze? Como assim? Lucy é a nova melhor amiga delas. Elas brincam com Lucy na escola o tempo todo, não é, meninas?
— Às vezes — corrigiu Flux. — Às vezes ela vai pra escola, às vezes não. Ela não estava na escola hoje.
— Mas ela está aqui agora, não está? — perguntou Brad. — Lucy está bem ali, não está, Emma?
Ele apontou para os arbustos de buganvília à esquerda de Flocos.
As meninas olharam na direção que o pai indicou, depois viraram o rosto, rindo com escárnio.
— Não, papai — respondeu Flux, com uma voz que expressava pena. — Lucy não está ali agora. Ela foi pra casa.
Brad me deu outra risada sem graça e deu de ombros.
— Opa, desculpe. Lucy não está aqui agora. Deve ter esquecido o brinquedo dela. — Falou brinquedo como se a palavra estivesse entre aspas.
Olhei para as meninas e para o pai, meu sentimento de horror se transformando em incredulidade.
— Espere um pouco — falei para meu meio-irmão. — Você consegue ver isto? — Levantei o cavalo de pelúcia.
— Claro — disse Brad. — É claro que consigo ver. — E me deu uma piscadela.
Eu ainda não tinha conseguido entender se Brad estava vendo o brinquedo ou se estava fingindo para as meninas.
— Se você consegue ver este brinquedo — falei para ele —, me diz o que é.
— Um elefante, é claro — disse Brad.
As meninas morreram de rir ao ver que o pai delas, tão alto e invencível, errou a resposta.
Então as filhas de Debbie e Brad eram mediadoras. Como não vi os sinais antes que um fantasma bastante perigoso – e irritado – decidisse usá-las para me mandar uma mensagem? Eu não conseguia me conformar.
Mas era isso que Lucia estava fazendo, dando o brinquedo para minhas sobrinhas no hospital, bem na minha cara, tinha de ser. Uma mensagem. Sobre o quê? Para dizer o quê? Que podia atingir as pessoas que eu amava – as mais inocentes e vulneráveis – a qualquer momento que quisesse? Ela já não havia enviado essa mensagem quando quase matou o padre Dominic?
Tantas coisas estavam começando a fazer sentido. Tipo a bisavó que as meninas sempre mencionavam, a que quebrou a bacia e morreu de pneumonia. Quando mencionaram as coisas que ela falou, não foram coisas que disse antes de morrer, mas sim depois.
E os níveis elevadíssimos de energia que tinham, com surtos frequentes, incluindo o do dia anterior, quando sentiram lá da sala do jardim de infância que Lucia estava me atacando no escritório, e a irmã Ernestine foi chamada para acalmá-las. Tudo isso era sinal não de que tinham déficit de atenção, como a irmã Ernestine sugeriu, mas de que podiam se comunicar com os mortos – o que de fato faziam de vez em quando.
O dom – como o padre Dominic gostava de chamar – afetava pessoas diferentes de maneiras diferentes. Fez com que o irmão mais novo de Paul, Jack, se fechasse, gerando terrores noturnos e, mais tarde, agorafobia. Tenho certeza de que a Dra. Jo, minha terapeuta, teria dito que lhe faltava a “resiliência interna” para lidar com tanta energia psíquica de uma só vez, até que eu mostrei para ele como processar aquilo.
Outras pessoas, no entanto – como Paul e minhas sobrinhas – achavam essa energia psíquica estimulante em vez de exaustiva, e gostavam de ter duas vezes mais amigos que os que existiam (mesmo que ninguém pudesse vê-los)... ou de fazer duas vezes mais dinheiro por causa disso.
Eu já estava me sentindo muito culpada por não ter percebido mais cedo todas as indicações sobre as trigêmeas, e pelas várias coisas que eu havia feito com PMNOs na frente delas.
A questão agora era o quanto elas haviam compreendido e qual era a relação delas, exatamente, com Lucia. Será que de fato a vida delas estava em perigo por causa da menininha? Ou ela era apenas uma amiga, como disseram? Era difícil acreditar que aquela criatura que tentou me afogar, quase matou o padre Dominic e parecia sugar a vida de Becca Walters lentamente era legal com alguém.
Pela centésima vez naquela noite, desejei que o padre Dominic não estivesse deitado, inconsciente, no terceiro andar do Centro Médico São Francisco. Ele saberia exatamente o que fazer – não apenas com as trigêmeas, mas com Lucia também.
Se bem que foi a convicção dele de que sabia o que fazer com ela que o levou à UTI.
Dessa vez estávamos sozinhos.
Fazer perguntas às meninas no hospital não deu em nada, nem mais tarde, quando chegamos com pizzas. Brad estava ansioso para lhes dar banho e comida antes que a mãe chegasse, e as meninas estavam animadas demais por ter o tio Jesse e a tia Suze em casa para responder racionalmente qualquer pergunta sobre a nova amiguinha delas.
Então mamãe chegou. Debbie não ficou muito feliz em nos ver ali, mesmo que tivéssemos levado pizza e seu vinho preferido – de ótima qualidade, do vinhedo local, que vendia garrafas para restaurantes caros em Nova York por três vezes mais que valiam se comprados ali. Debbie bebeu uma garrafa toda sozinha, e estava indo para a segunda.
— Eu simplesmente não consigo entender — eu falei para Jesse enquanto ele me dava mais do excelente vinho extra que escondemos no carro. — Brad costumava me sacanear na época do ensino médio dizendo que sabia que tinha um menino em meu quarto; dizia que escutava a gente conversando. Mas acho que ele só escutava minha voz nas conversas. Ele nunca chegou a ver você. Nem Debbie. Então como as meninas podem ser mediadoras?
— Seus pais também não viam espíritos. É obvio que o talento pode pular uma geração. Talvez até duas, ou mais. — Jesse se serviu de um pouco do pinot noir. — E não temos certeza de se as meninas são mediadoras completas. Crianças tendem a ser mais sensíveis a fenômenos paranormais que adultos em geral. São mais imaginativas, mais mente aberta.
— Sensíveis? Você viu as meninas brigando pelo brinquedo, Jesse? Cada uma pegou uma perna do cavalo e puxou. Se eu não tivesse interferido, teriam rasgado o bichinho e se matado. Eu não diria que as meninas Ackerman sejam muito sensíveis.
— Bem... talvez seja melhor dizer animadas, como a tia delas.
— Eu não tenho nem relação de sangue com elas, lembra? Nada daquilo vem de mim.
Ali no vento frio da noite, tremi. A fogueira de Brad não parecia muito eficaz em liquidar o frio, apesar do cheiro pungente da fumaça ser agradável, assim como o som da madeira estalando.
— O que eu não entendo é como que isso pôde acontecer bem na nossa cara sem que percebêssemos. Eu não fazia ideia. Você fazia?
— As meninas tinham aquela língua inventada — lembrou ele. — Elas se comunicavam assim até ano passado.
Estiquei as costas.
— Verdade! Como pude esquecer? Você até escreveu aquele artigo sobre isso... criptofasia. Debbie ficou preocupada achando que a missão ia colocar as meninas numa escola de educação especial.
— Mas isso não é raro em gêmeos. Existem vários casos de irmãos, principalmente gêmeos, mas também trigêmeos e quadrigêmeos em alguns casos, que desenvolvem a própria linguagem. E, como aconteceu com suas sobrinhas, eles param quando entram na escola.
— Foi por isso que demorou tanto para a gente perceber. — Relaxei um pouco. — E o fato de todo mundo achar fofo deve as ter incentivado a usarem a língua mais ainda, e a ser mais secretas. Quero dizer, todo mundo menos Debbie. Ela não achou fofo. E tinha razão! Jesse, elas deviam conversar sobre os fantasmas que viam. Será que a gente poderia ter sido mais imbecil do que foi?
— Acho que está sendo um pouquinho dura demais consigo mesma — disse Jesse, com calma.
— Você acha que Lucia brinca mesmo com elas, como elas falaram, ou ela está armando para jogar as três da escada também, quando menos suspeitarem?
— Você é quem fica insistindo que ela é uma criança inocente em sofrimento.
— Ela é — falei logo. — Tenho certeza.
— É melhor que seja mesmo. Senão, se ela matar Brad e Debbie enquanto dormem, eu e você vamos acabar recebendo a custódia de suas sobrinhas, como somos os guardiões legais.
— E por que você acha que estamos aqui? Brad e Debbie não têm seguro de vida. Não podemos deixar que morram. A gente vai ter de desistir de ter nossos filhos para criar as filhas deles.
Ele olhou para a grama careca e cheia de brinquedos, e murmurou alguma coisa rapidamente em espanhol. Eu não entendi o que ele disse, mas interpretei o tom.
— Ai, meu Deus, Jesse. Eu estava brincando! Dá para parar de se preocupar tanto assim com dinheiro? Já falei que tenho o suficiente. E a gente pode dar um jeito na questão de ter nossos próprios filhos hoje mesmo se você quiser. — Botei a mão na perna dele. — Tenho certeza de que o quarto de hóspedes tem chave.
Ele me lançou um olhar devastador.
— Sério, Suzannah? É assim que gostaria de nossa primeira vez, no quarto de hóspedes do seu irmão Brad, onde ele guarda os troféus de luta greco-romana?
— Meio-irmão. Meu Deus. — Recolhi a mão. — Que talento para arruinar as coisas. Quando você vai...
Max se levantou de repente. Mas dessa vez não foi porque deixamos alguma comida cair, nem porque derramamos vinho. Ele sentiu alguma coisa da qual não gostou no canto mais escuro do jardim, ao lado da casinha cor-de-rosa e branca de fadas, que só tinha espaço para três garotinhas pequenas (e uma meia-tia constrangida), todas apertadas.
— O quê...? — comecei a falar, mas Jesse pediu silêncio. Todos os pelos nas costas de Max estavam de pé, e ele começou a rosnar, um som que vinha do fundo da garganta. Para um cachorro velho de temperamento tão ameno e amigável, ele se transformou com uma rapidez assustadora em um de seus ancestrais lupinos. Seus lábios se contorceram e revelaram caninos amarelados que eu podia jurar jamais ter visto.
Agora foi Jesse quem colocou a mão em meu joelho, mas infelizmente foi apenas para me manter sentada, visto que minha reação instintiva era me levantar e ir direto para a casinha, que parecia tão inofensiva na escuridão.
— Fique aí — sussurrou Jesse, sem tirar o olhar da estrutura inócua de plástico. Ele se levantou e começou a seguir Max, que havia se agachado e se arrastava na direção do canto escuro do jardim, como um lobo à espreita.
— Tenho certeza de que é só um guaxinim — falei, sem acreditar nem um pouco que era só um guaxinim.
Jesse confirmou minha suspeita.
— Max nunca rosnou assim para guaxinins. — Ele colocou a mão no bolso do casaco e tirou um objeto pequeno e brilhante que apontou na direção da casinha.
Meu coração parou de bater por um segundo. Eu não sabia distinguir se estava mais assustada ou impressionada.
— Isso é uma arma?
— Claro que não, Suzannah. É uma lâmpada sem fio. — Jesse notou que eu não havia obedecido seu comando de ficar onde eu estava e que o seguia. — O que você está fazendo? Volte já para casa.
— Deixe de ser idiota. O que é uma lâmpada sem fio? Ah, uma lanterna? Meu Jesus.
Jesse havia ligado a lanterna e apontado o feixe azulado para a casa de brinquedo. Isso assustou o que estava lá dentro, fosse o que fosse.
Foi tudo muito rápido depois. Max rosnou e se jogou na coisa que saía rapidamente por uma das janelas da casinha.
A princípio, por causa do tipo de barulho, achei que fosse um pássaro. Mas visto que também era bem grande e brilhava com a intensidade de faróis de carro bem dentro de meus olhos, e que deu um berro tão estridente e alto quanto o de uma chaleira que foi deixada no fogão por muito tempo, notei que não era um pássaro. Era alguma coisa de outro mundo.
E estava bem insatisfeita por ter sido perturbada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário