sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 16

Kylie se sentiu como um animal selvagem apanhado no laço do Terno Preto. Caramba! Por que todos tinham que pegar no seu pé? Melhor dizendo, o que poderiam querer com ela? Não tinha nem sido aceita no clube dos sobrenaturais, ainda. E esperava ser expulsa desse clube antes de receber a carteirinha. Por sorte, o celular do grandalhão tocou quando ele estava a uns vinte passos de Kylie e ele parou para atender. Em seguida, virou-se para o parceiro, disse alguma coisa e resolveram ir embora.
Kylie respirou, aliviada.
— Graças a Deus!
— O que disse? — perguntou Miranda, vendo o alívio estampado em seu rosto.
Lembrando-se de que Miranda não era novata ali, devolveu a pergunta:
— Quem são eles? — e acenou para a dupla em retirada, que agora entrava apressadamente num carro preto.
— Quem? — indagou Miranda, olhando para outro grupo de garotos.
— Os caras de terno preto — explicou Kylie.
— Cruzes, são muito velhos para você — disse Miranda, tirando do bolso um elástico e prendendo com ele os cabelos multicoloridos num rabo de cavalo.
Kylie olhou de lado para a colega. Será que Miranda só pensava em garotos?
— Não estou interessada em paquerar ninguém — explicou, pondo-se de novo a caminho. — É apenas curiosidade.
— Ah, aqueles caras são da UPF — disse Miranda, emparelhando-se com ela.
— O que é isso?
— Unidade de Pesquisa de Fallen. Lembra-se? Fallen, Texas. A cidade por onde passamos antes de chegar aqui. A UPF faz parte do FBI. É o departamento que lida com sobrenaturais.
— O quê? — Kylie estancou e pegou Miranda pelo braço. — Então o governo sabe sobre vampiros e coisas assim?
Miranda fez uma careta.
— É claro que sabe. Quem você acha que financia o acampamento?
— Pensei que fossem nossos pais — disse Kylie. E, pondo-se de novo a caminho, reparou que duas pessoas a observavam.
— Bem, eles contribuem com uma parcela, mas é preciso um pouco mais para manter um lugar como este.
— Mas por que o governo está por trás disso?
— A resposta dependerá da pessoa a quem você perguntar. O acampamento tem provocado muita controvérsia na comunidade sobrenatural. Um bando de fanáticos dizendo besteiras, se quer saber.
— Como assim?
— Alguns dos anciãos de cada espécie, a maioria uns chatos que não aceitam os relacionamentos inter-raciais, dizem que o acampamento estimula essa prática e querem que ele seja fechado. Acham que as espécies no devem se misturar. Para mim, é o mesmo que preconceito racial. Na opinião deles, é preciso preservar a pureza das espécies, o que é besteira. As espécies vêm se cruzando desde o início dos tempos.
Kylie tentou processar a informação.
— Então o governo mantém este lugar porque quer que as espécies se cruzem?
Miranda riu.
— Não creio que ele se importe com quem namoramos ou não. Faz isso na tentativa de promover a paz entre as espécies, para que um belo dia não percamos a cabeça e tentemos eliminar as demais espécies da face da Terra. Humanos inclusive.
— Há problemas entre as espécies?
Miranda pareceu surpresa.
— Você realmente não sabe muita coisa, hein?
— Não — admitiu Kylie, sem se sentir nem um pouco incomodada por isso. Quando subiu no ônibus não sabia nem da existência de outras espécies. E como poderia saber?
— Está bem, então aqui vai uma liçãozinha política e histórica — disse Miranda. — Vampiros e lobisomens vêm lutando uns contra os outros desde sempre, por assim dizer. Por que acha que houve a Guerra Civil? — hesitou por uns segundos. — Meus próprios ancestrais não eram muito melhores. A Peste Negra foi espalhada porque queriam acabar com as fadas.
— Está brincando, né? — perguntou Kylie. E pensar que deu ouvidos ao seu professor de história quando ele disse que a peste tinha sido provocada por ratos infectados.
— Nunca falei tão sério! No entanto, em defesa de minha própria espécie, posso afirmar que as bruxas foram as que melhor se adaptaram ao mundo dos humanos. Poucos, hoje em dia, vivem realmente em grupo. Mas isso ocorre justamente porque nossos estilos de vida combinam melhor com os dos humanos. Também não nos reunimos em gangues para causar problemas a vocês.
— Gangues? Como a dos vampiros?
— Então ouviu falar na Confraria do Sangue? — perguntou Miranda.
Não querendo mencionar o primo de Della, Kylie deu de ombros e explicou:
— Della só me disse que as tais gangues existem.
— Claro que existem. E a Confraria do Sangue é provavelmente a pior. Está metida em tudo, pratica todos os tipos de crimes. Assassinatos, assaltos, qualquer coisa.
Roubo de hambúrgueres. Essa ideia girou na cabeça de Kylie.
— Mas como nunca ouvimos falar sobre essas gangues e crimes nos noticiários?
— Você ouviu, sim. Apenas não sabia que os criminosos não eram humanos. Só se fala em assassinos em série, matadores, pessoas desaparecidas. Nunca estranhou o fato de tanta gente sumir todos os anos?
— Um pouco — Kylie sentiu um calafrio percorrer seus ossos. Cruzou braços sobre o peito e estremeceu.
— Para esses vampiros e lobisomens perversos, o resto de nós não passa de comida — disse Miranda.
Kylie se lembrou de que o primo de Della a havia chamado de petisco. Também seria perverso? Lembrou-se ainda dos problemas e preocupações de Della quanto a deixar ou não a família.
— Que gente ruim!
— Mas não pior que a raça humana — ponderou Miranda.
— É, acho que não — reconheceu Kylie, recordando os problemas humanos que enfrentava em sua própria casa.
Mas então lhe ocorreu um problema mais imediato que precisaria enfrentar.
— Como são mesmo as Horas do Encontro com os Colegas de Acampamento?
— Ah, são legais — e Miranda se animou novamente. — Metade de nós escreve o próprio nome num pedaço de papel e coloca numa urna: a outra metade tira a sorte. Ficamos então em pares e passamos uma hora procurando conhecer uns aos outros. Obviamente, é sempre melhor quando ficamos com um cara bem gato.
Com a sorte que tinha, Kylie sem dúvida ficaria com Perry. Enrubesceu ao lembrar que tinha dado uma boa olhada nos genitais do atrevido.
Depois do café da manhã, Kylie saiu do refeitório para falar com Sara, que pouco antes tinha ido a uma farmácia comprar o teste de gravidez. Infelizmente, ela deu de cara com a melhor amiga da mãe no balcão. Sara conseguiu se livrar da embalagem antes que a mulher a visse, mas o encontro a tinha levado de volta ao ponto de partida: continuava sem saber se estava grávida ou não.
— Como está o acampamento? — perguntou Sara.
— Uma maravilha — respondeu Kylie. Gostaria muito de contar à amiga tudo o que havia acontecido, mas desistiu. De modo algum Sara entenderia o que nem ela mesma estava entendendo.
— Muito ruim, hein? — continuou Sara. — Não tem uns caras gostosões por aí?
— Alguns — respondeu Kylie e, então, mudou de assunto novamente e voltou a falar da amiga, cujo dilema rendeu outros dez minutos de conversa.
Kylie ainda tinha o aparelho na mão quando sua mãe ligou, um segundo depois de ela se despedir de Sara.
— Como foi sua primeira noite aí?
— Ótima — mentiu Kylie, sempre na dúvida sobre como lidar com as perguntas da mãe.
— Nada de terrores noturnos?
— Não — assegurou Kylie. Não acordei gritando apavorada. Só desmaiei quando um fantasma sangrento apareceu para me dar um alô, depois da visita de um gato metamorfo e de um sapo pervertido.
— Isso é bom. E o que vai fazer hoje? — a voz da mãe exalava aquela alegria e jovialidade forçadas que Kylie tanto odiava, pois sabia que não eram verdadeiras.
— Vou conversar com uma das líderes do acampamento e passar uma hora com um colega para nos conhecermos melhor. Depois, acho que vai ter algum tipo de programa de artes e uma caminhada à tarde.
— Dia cheio — observou a mãe.
— E meio chato — retrucou Kylie.
A mãe ignorou a observação.
— Falou com o seu pai?
Kylie hesitou.
— Ele ligou e deixou uma mensagem, mas não tive tempo de responder.
Outra mentira. Tivera tempo, sim, mas não sabia se conseguiria mentir para o pai tão bem quanto mentia para a mãe.
— Quando falar com ele, pergunte se pensa em aparecer aí no domingo, no dia da visita dos pais. Se ele for, vou esperar até a próxima semana para visitá-la.
— Será que agora não conseguem nem ficar juntos no mesmo espaço? — perguntou Kylie, sem fazer o mínimo esforço para esconder seus sentimentos. Sentia a garganta apertada de emoção. — Não poderiam ter ao menos ficado juntos até eu ir para a faculdade?
— As coisas são difíceis — suspirou a mãe.
— É, para todos — a emoção comprimiu ainda mais a sua garganta, mas ao erguer os olhos, deparou-se com Della caminhando em sua direção e tentou conter as lágrimas. — Preciso desligar.
— Tudo bem. Tenha um bom dia e me ligue à noite, ok?
— Ok — Kylie fechou o aparelho justamente quando Della parou ao seu lado. — Olá — disse Kylie. — Procurei você durante o café da manhã.
— Comi mais cedo — esclareceu Della, passando a mão na barriga. Kylie tentou não pensar no que Miranda dissera a respeito dos rituais vampirescos. Mas o pensamento não saía de sua cabeça, fazendo com que a metade do pão doce que tinha acabado de comer pesasse no seu estômago.
— Você vai se acostumar com isso — garantiu Della rindo com malícia, como se soubesse muito bem o que tinha provocado a careta da amiga.
— Talvez — disse Kylie. E, para ser muito honesta com Della, acrescentou: — Mas duvido.
Della deu um risinho e logo ficou séria.
— Sinto muito pelos seus pais. Há quanto tempo estão separados?
— Você tem o hábito de espionar os outros? — disse Kylie, guardando o celular no bolso.
— Não estava tentando ouvir o que você dizia — havia ressentimento na voz de Della. — Foi sem querer.
Kylie mordeu o lábio inferior e esqueceu a raiva ao se lembrar de que Della tinha confiado nela quando lhe contou sobre seus próprios problema familiares.
— Desculpe. É que está difícil. Aconteceu na semana passada.
— Posso imaginar — seu rosto exprimia sinceridade. Mas logo sua expressão mudou. — Ah, quase me esquecia do que eu vim lhe dizer. Lembra que eu te contei que Derek estava meio a fim de você? Estava errada. Ele não está meio a fim. Está super a fim.
— Por que diz isso?
— Porque Brian, o vampiro louro, sorteou seu nome para a Hora do Encontro com os Colegas de Acampamento e Derek pediu para trocar com ele.
Kylie comparou uma hora com um vampiro desconhecido com uma hora com Derek, que a fazia sentir saudades de Trey e não soube dizer qual das alternativas seria pior.
— E Brian, concordou? — perguntou Kylie, incapaz de conter a curiosidade.
— Não... A menos que Derek estivesse disposto a pagar.
— Sério?! Não vá me dizer que Derek deu dinheiro para ficar com meu nome!
— Não, dinheiro ele não deu — Della riu e inclinou-se para Kylie como se fosse contar um segredo picante. — Derek está pagando em sangue, meu bem. Meio litro, para ser mais exata.
— Sangue? — Kylie parou, chocada. E o choque logo se transformou em nojo. — Mas ele não podia fazer isso!
— Podia e fez. Fizeram um acordo. E, pode acreditar, com um vampiro não se volta atrás quando o assunto é sangue.
Kylie correu ao refeitório para se encontrar com Derek. Não podia, não queria, deixá-lo fazer aquilo.

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