domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 15

— Jesse, não.
Eu o levei para baixo do átrio que cobria a entrada circular, onde as famílias paravam o carro a fim de deixar pacientes não emergenciais. Havia um gazebo não muito longe da estátua de São Francisco. Com um banco e cinzeiros ao alcance, a casinha deve ter sido feita para fumantes que precisavam sair da sala de espera a fim de espairecer, mas nós éramos as duas únicas pessoas ocupando o espaço no momento.
O som da água borbulhando no chafariz provavelmente abafaria nossas vozes, e as flores cor-de-rosa e roxas nas trepadeiras de buganvílias nas paredes do gazebo nos protegeriam dos olhares curiosos.
— Jesse, você não pode exorcizá-la. — Eu o arrastei até um banco de concreto dentro do gazebo e me sentei ao seu lado. Ainda bem que eu usava leggings, pois o padre Dominic tinha razão: minha saia era realmente muito curta. Apesar de a calça ser de algodão e lycra, a pedra do banco estava gelada sob minhas pernas. — Você não sabe o que aconteceu para que ela ficasse desse jeito.
— Não me interessa o que aconteceu com ela — disse ele sem emoção. — Só me importa o que ela fez. Ela fez com que aquele homem, o melhor amigo que já tivemos, sofresse uma contusão, quebrasse três costelas e despedaçasse a bacia.
— Mas você não sabe como Lucia morreu.
— Não quero saber como ela morreu. A única coisa que me interessa é ter certeza de que ela não pode mais machucar os vivos, principalmente você ou qualquer outra pessoa que amo. E tenho tudo de que preciso para fazer isso em meu carro neste momento.
— Ah, mas que maravilha, Jesse. E alguém na igreja tentou te deter quando invadiu o tabernáculo?
Ele ergueu uma das sobrancelhas negras.
— Não precisei invadir. O padre Dominic me deu a chave há anos.
Isso machucou. O padre Dominic nunca teve confiança em mim para guardar aquela chave, e ele me conhecia havia mais tempo que conhecia Jesse.
— Além disso — continuou ele —, todo mundo que talvez notasse está lá na UTI, esperando pela recuperação do padre.
— E era o que você também devia estar fazendo em vez de ir ao cemitério exorcizar a alma de uma menininha assustada.
— Aquela “menininha assustada”, como você a chama, quase assassinou minha futura esposa.
Eu tive de conter um sorriso ao ouvir o esposa... não tinha como evitar. Mas ainda estava chateada com ele.
— Cee Cee achou o artigo sobre o suposto acidente que a matou. Você pode ler antes de sair quebrando tudo para condenar o demônio?
A mandíbula dele se enrijeceu. Também estava chateado comigo.
— Só se o artigo revelar onde ela está enterrada.
— Jesse, isso é maldade sua. E se eu tivesse exorcizado você quando nos conhecemos?
— Você fez isso.
— Não de propósito. E eu me senti muito mal depois, quando descobri que você não era tão ruim.
— Que eu não era tão feio.
— Isso não é justo, e você sabe. Eu me apaixonei por você, não por sua aparência. Como não teria me apaixonado, depois de salvar minha vida tantas vezes? — Segurei um dos bíceps dele (incrivelmente musculosos, ainda mais para um médico) por cima da manga de camurça. — É claro que sua aparência ajuda.
Eu devia estar perdendo o dom: ele mal se moveu.
— Essa menina está tentando destruir vidas, Suzannah, não as salvar.
— Concordo. Mas as circunstâncias podem justificar isso. — Peguei o celular de dentro da bolsa. — Leia o artigo. Ele diz onde ela está enterrada.
Ele esticou a mão.
— Então eu leio.
Selecionei o artigo que Cee Cee havia me enviado e passei o celular para ele.
— Duvido que você ainda vá achar que ela é maligna depois de ler isso. Vai achar que está assustada, como disse a tia Pru.
Ele franziu as sobrancelhas em sinal de desaprovação e pegou o celular.
— A tia da Cee Cee sofre de delírio.
— Sei — murmurei. — Médicos. Todo mundo tem uma disfunção.
— Conselheiras — retrucou ele. — Todo mundo precisa de terapia.
Revirei os olhos e coloquei as mãos nos bolsos da jaqueta para mantê-las aquecidas enquanto ele lia. Fiquei olhando para ele e para as trigêmeas, visíveis do outro lado das buganvílias, através das janelas da sala de espera. Elas não tinham mais dinheiro para comprar nada, e agora corriam pela área da triagem, aceleradas por causa de todo o açúcar proibido que consumiram. Peggy, a recepcionista, estava parada atrás do balcão, com uma expressão de sofrimento, implorando para que parassem. As meninas a ignoravam.
Boa sorte, Peggy.
Eu já havia lido o artigo que Cee Cee me mandou tantas vezes que praticamente já sabia o texto de cor – assim como a mensagem.

Cee Cee
Oi, taí a informação que você queria. Lucia Martinez, 7 anos, morreu há nove. Acho que lembro de quando aconteceu. Triste. Você me deve um jantar e um cinema.
PS: Ele ligou!
Nov 17 2:15 PM

O “ele ligou” era em relação a Adam. E ele ligou porque eu o lembrei de que devia fazer isso, mas é claro que ela não precisava saber dessa parte.
Fiquei feliz por ele ter ligado. O artigo, no entanto, não teve nem um pouco o mesmo efeito.

ALUNA DA SAGRADA TRINDADE MORRE EM ACIDENTE COM CAVALO
Carmel, CA — Uma aluna da Academia da Sagrada Trindade, o internato para meninas situado na praia Pebble, morreu no último sábado à tarde após cair de um cavalo.
A delegacia do condado de Monterey confirmou a identidade da aluna. Lucia Martinez tinha 7 anos.
O acidente ocorreu na floresta Del Monte, em uma das várias trilhas equestres mantidas pelo Centro Equestre Sagrada Trindade, onde Martinez fazia aulas de hipismo. Segundo testemunhas, Martinez perdeu controle do animal após ele se assustar durante uma cavalgada rotineira.
“Tanto o cavalo quanto a aluna desapareceram na floresta”, disse Jennifer Dunleavy, porta-voz da Sagrada Trindade. “Um dos nossos instrutores foi atrás. Procurou e chamou a aluna, mas não encontrou nem ela, nem o animal. Há mais de cinquenta quilômetros de trilhas nessa floresta. A escola enviou outras pessoas a cavalo para ajudar na busca, e notificou a polícia também, que enviou reforços. Mesmo que tivessem encontrado a aluna antes... mas não foi o caso.”
O desaparecimento de Martinez foi informado às 10h30 da manhã de sábado, disse o policial Eric Robertson, porta-voz do delegado da cidade. A aluna só foi encontrada às 17h30, a 11 quilômetros de onde foi vista pela última vez.
As autoridades acreditam que Martinez tenha sido jogada da sela quando o cavalo tentou pular um pequeno córrego. A aluna caiu e bateu com a cabeça. Ela usava um capacete, porém sofreu fratura no pescoço.
“Lucia era uma amazona exemplar para a idade”, disse Martin Shorecraft, diretor de atletismo da Sagrada Trindade. “Mesmo assim, sempre tomamos todas as precauções para garantir sua saúde e segurança. Às vezes, acidentes como esse simplesmente acontecem.”
Martinez, que morava em Pacif Grove, foi declarada morta às 20h30 de sábado no Hospital São Francisco, em Monterey. O laudo apontou a causa da morte como asfixia.
Uma porta-voz da Sagrada Trindade, que pediu para não ser identificada, disse que o cavalo que a aluna montava foi sacrificado. A morte de Martinez gerou respostas imediatas de pesar de toda a comunidade. “Lúcia vai viver para sempre nos corações e nas mentes de todas as pessoas que a conheceram aqui na Sagrada Trindade,” disse padre Francisco Rivera, diretor da Sagrada Trindade. “Estamos extremamente tristes com a notícia de seu falecimento.”
“Lúcia era uma menina doce e feliz, que viveu a vida da maneira mais plena que pôde”, disse Anna Martinez, avó da vítima. “Ela sempre quis um cavalo e sempre quis cavalgar. Os dois desejos se realizaram. Ela morreu no momento mais feliz da vida.”
O funeral de Lucia vai acontecer às 13h no próximo sábado, na Capela Sagrada Trindade. Ela será sepultada no cemitério San Carlos, em Monterey, Califórnia.

Havia uma fotografia ao lado do artigo. Nela, uma menininha de rosto solene e redondo, com longa franja loura e cachos que passavam dos ombros, olhava para a câmera. Suas mãozinhas gorduchas estavam entrelaçadas sobre uma mesa à frente. Era uma foto de escola – estava usando o uniforme da Trindade – então sorrir não era necessariamente encorajado, mas as largas sobrancelhas castanhas também não mostravam traços de um sorriso.
Talvez Lúcia fosse o tipo de criança que sempre foi infeliz, apesar da convicção da avó.
Ou talvez tivesse sentido o destino trágico que estava por vir.
Jesse abaixou meu celular.
— Então? Ainda quer matá-la?
— Ela já está morta — respondeu ele com calma. — Não posso matá-la. Mas posso impedir que mate outra pessoa.
— Você entendeu o que eu quis dizer, Jesse. Olhe essa foto. Essa menina estava morrendo de medo de alguma coisa. E não acredito que ela morreu por causa da queda do cavalo.
— Não entendo como você chegou a essa conclusão só lendo esse artigo.
Jesse era teimoso demais. Bem, ele meio que tinha de ser, para sobreviver ao que aconteceu na vida dele e sair da história com a sanidade intacta.
— Cheguei nela pensando logicamente, Jesse. Se Lúcia morreu no momento mais feliz da vida dela, como vovó Martinez disse, então por que ainda não foi para a próxima vida? Por que não está no paraíso comendo algodão-doce e tocando harpa o dia inteiro, ou seja lá o que acontece com as pessoas que morrem sem deixar pendências? Não, ela está aqui na terra, protegendo a amiga Becca com toda a força que possui. Alguma coisa aconteceu naquela floresta, alguma coisa que ninguém na Sagrada Trindade está contando, ou porque não sabem, ou porque estão encobertando a verdade. Mas Lucia sabe. E pode ter sido por isso que ela foi morta. Para ficar de boca fechada.
— E foi por isso que mataram o cavalo também, Suzannah? Para que ele não revelasse nenhuma evidência?
Fiquei olhando para ele sem saber se estava falando sério ou sendo sarcástico. Era difícil ter certeza com Jesse, ainda mais em momentos como aquele, em que sua expressão ficava completamente neutra. Quase completamente neutra. Mesmo que já estivesse escuro o suficiente para que as luzes do jardim estivessem ligadas, assim como as lanternas dos carros que entravam no estacionamento, notei que seus olhos castanhos não tinham mais as sombras que vi mais cedo.
— Sabia que essa parte ia mexer com você. — Não consegui conter um sorriso. — Cavalos são seu ponto fraco.
— Crianças são meu ponto fraco — corrigiu ele. — Ainda mais crianças que foram negligenciadas e tratadas com crueldade.
— E Lucia obviamente foi...
— Eu não diria obviamente. Não temos provas disso... ainda — completou ele, quando peguei fôlego para contestar. — Mas vou admitir que vale a pena investigar se pudermos fazer isso sem parar no hospital, que nem o padre Dominic.
— Tudo bem. — Peguei o celular de volta. — Podemos começar com a investigação que fiz online depois que recebi o artigo de Cee Cee.
— Meu tipo favorito de investigação. — O tom dele era sarcástico. — Ninguém corre perigo de vida fazendo investigações na internet. O que você descobriu?
Dei uma olhada seca para ele.
— Os Martinez se mudaram depois do suposto acidente, como o padre Dominic disse, mas não foram para muito longe, apenas até o condado de Marin. Eles têm alguns vinhedos. Ela tem dois irmãos mais velhos. Não encontrei nada indicando que qualquer coisa tenha acontecido com eles. E, depois da morte, a família ficou tão arrasada que adotou mais duas menininhas. Necessidades especiais. — Mostrei as fotos da família Martinez que eu havia encontrado mais cedo no Facebook. — Viu? Fofas, né? E eles têm lhamas na fazenda. Quem não ama uma lhama?
Jesse olhou as fotos e fez que sim com a cabeça, mas se recusou a dizer as palavras fofa e lhama em voz alta. Ele era macho demais.
— Isso exime a família Martinez de qualquer acusação de violência. Para que possam adotar alguém, o serviço social investiga a fundo e faz visitas constantes. É óbvio que eles passaram.
— E é provavelmente por isso que Lucia não está seguindo os pais. Não está preocupada com eles. Está preocupada com a amiga Becca.
— Claramente — disse ele. — Mas por quê?
— É isso que não consigo entender. A pessoa que conseguiu chegar perto o suficiente para matar Lucia ainda deve ter acesso a Becca... quer ela queira ou não. É a única explicação para Lucia protegê-la tanto.
— Alguém da aula de montaria?
— Pensei nisso. Mas Becca disse que não gosta de cavalos, apesar do pingente que usa, no formato de um cavalo. Chequei o Google Earth; não tem estábulos na propriedade dos Walters, e Becca não está mais inscrita em nenhuma aula de montaria. Eu também não estaria, se fosse ela, depois do que aconteceu com a amiga.
— No hospital, em casos de abuso infantil, é quase sempre alguém de casa. Se não foi ninguém na casa de Lucia... — Jesse parou de falar com um tom sugestivo.
— Lance Arthur Walters? Ele é o suspeito óbvio. Teria acesso a Lucia, caso as meninas realmente fossem amigas na infância. Seria meu suspeito número um se não fosse por um detalhe.
— O quê?
— Se Lance Arthur Walters matou Lucia, por que ela não o empurrou da escada, como fez com o padre Dom? Mas eu chequei e o pai de Becca nunca esteve nesta emergência, nem por causa de uma picada de abelha.
Jesse franziu o rosto em desaprovação.
— Suzannah, como é que você conseguiu essa informação? Os arquivos dos hospitais são confidenciais.
— Ah, faça-me o favor. Nada é confidencial quando se é bilionário. Cada passo que aquele cara e a família dão vai parar no jornal. Foi assim que eu descobri sobre a mãe de Becca.
— O que aconteceu com a mãe dela?
— Quando Becca estava falando sobre a mãe, mencionou um acidente. Achei que estivesse falando do acidente da Lucia, mas não. A primeira Sra. Walters costumava organizar um almoço anual a fim de arrecadar fundos para a pesquisa contra o câncer de mama. No ano em que Lucia morreu, ela cancelou a festa; não por causa do que aconteceu com a menina, mas porque a Sra. Walters quebrou o tornozelo durante uma queda. No ano seguinte, o almoço foi organizado por outra pessoa porque a mãe de Becca não morava mais na praia Pebble. Ela se divorciou e se mudou pra Manhattan.
Jesse pareceu não acreditar.
— Você acha que a pobre mulher foi forçada a sair da própria casa e deixar a filha por causa de um espírito que não podia ver?
— Acho. E, se o que aconteceu com a Sra. Walters foi parecido com o que aconteceu comigo na piscina ontem à noite, eu a entendo. Não se esqueça de que ela não podia ver a pessoa que a atacou. Deve ter sido aterrorizante.
— Mas você não acha que ela matou a menina, acha?
— Não, não acho. Porque dois anos depois disso veio uma nova Sra. Walters... não a Kelly, mas outra. E ela também sofreu uma queda. Não pôde mais organizar o almoço Use Vermelho pelas Mulheres em Carmel-by-the-Sea, para arrecadar fundos para a pesquisa contra doenças cardíacas, por causa de um punho quebrado...
— Realmente escrevem notícias sobre isso? — interrompeu Jesse com nojo. — Por quê?
— Porque esses eventos de caridade servem para as socialites mostrarem seus novos sapatos e bolsas de marca. E, é claro, é por uma boa ação também. — De vez em quando, eu tinha de explicar para Jesse por que certas coisas, por exemplo, o que algumas celebridades vestiam, ou quem estavam namorando ou de quem se divorciaram, viravam notícia. Ele ainda tinha dificuldade em acreditar que algumas pessoas se interessavam. É claro que ele também tinha dificuldade para entender por que os E.U.A. demoraram tanto para entrar na Segunda Guerra Mundial. — Além de ajudar pessoas como eu, que estão tentando descobrir pistas para desvendar um crime. Foi assim que descobri que a segunda Sra. Walters também deve ter deixado o pai de Becca porque estava sendo assombrada por uma força invisível e ameaçadora...
Jesse não conseguiu mais se segurar.
— Se eu recebesse essas mulheres em minha emergência como pacientes, duas esposas seguidas com ossos quebrados — exclamou ele —, eu suspeitaria do marido, Suzannah, e não de uma força invisível e ameaçadora.
— É claro que sim — respondi —, porque você é médico e bom no que faz. E se a gente não tivesse certeza de que a alma torturada de uma criança assassinada vive na casa daquele homem, eu lhe daria razão. Mas a gente sabe que ela está lá. Junte a isso o fato de que o pai de Becca está constantemente no jornal porque está sempre viajando para dar palestras sobre alguma coisa, ou para abrir uma filial nova da empresa, ou para doar um cheque milionário a algum hospital em outro país...
— Não vejo como isso o inocenta de ser agressivo com as esposas, Suzannah.
— Ele nunca está em casa! Tenho a impressão de que mal via as ex-esposas, muito menos a filha. Como pode ter sido ele que as agredia? Não faz sentido. O que faz sentido é: as pessoas que Lucia atacou até então (eu, o padre Dominic e as últimas senhoras Walters) têm só uma coisa em comum: Becca. Eu fui atacada quando Lucia me viu colocando antisséptico no braço de Becca e achou que eu a estava “machucando”. Nós sabemos que o padre Dominic veio parar no hospital porque também estava tentando ajudar Becca. É isso que enfurece Lucia. A tia Pru falou que ela está com medo e sofrendo. Talvez ela não saiba a diferença entre ajudar e machucar.
Jesse continuou desconfiado.
— E o Sr. Walters?
— Talvez ele seja um monstro, mas só para as amigas da filha. Ou talvez seja completamente inocente e não saiba demonstrar afeto, e fica se casando de novo e de novo na esperança de que a nova esposa vá lidar com o problema da filha desajustada. É por isso que Becca está tão deprimida e precisou mudar de escola tantas vezes. Ela não pode ter intimidade com ninguém porque sempre que tenta, Lucia os empurra para longe – literalmente.
A desconfiança nos olhos do Jesse virou preocupação.
— Mas agora sua amiga Kelly mora lá...
— Você acha que eu não pensei nisso? Kelly está correndo perigo. Apesar de que, com base no que vi de seu comportamento perto de Becca, talvez ela seja a última pessoa com quem a gente deva se preocupar, pelo menos em relação a Lucia.
Ele franziu o rosto.
— Suzannah.
— Eu sei, cruel. Mas, Jesse, você não viu Kelly ontem no escritório. Eu vi. Acredite, se é verdade que Lucia ataca todo mundo que chega perto de Becca, então o pai dela escolheu a esposa perfeita. Não que eu queira falar mal de uma antiga colega de turma.
— Kelly não costumava sair com Paul Slater?
— Sim, sim, há muito tempo. — Consegui dar uma gargalhada descontraída. — Isso foi na Idade Média. Meu Deus, Jesse, você não lê os boletins informativos sobre os alunos da Academia da Missão? Se atualiza.
Ele balançou a cabeça, passou um dos braços sobre meus ombros e me apertou em um abraço.
— Como uma pessoa tão jovem e tão linda consegue ser tão sarcástica e cínica?
— Passando tempo demais com gente morta?
Ele afrouxou o abraço, mas manteve o braço sobre meus ombros.
— Não duvido. Tudo bem, acho que faz sentido que Lucia esteja protegendo Becca de quem a machucou. E acho que podemos dizer que não foi um cavalo.
Eu o apertei contra mim.
— Eu sabia que o cavalo era o que ia mudar sua opinião sobre o exorcismo.
— Não foi o cavalo. Foi você, como sabe perfeitamente bem.
— Claro. Você pode enganar todo mundo com sua busca por um diploma médico, Dr. De Silva, mas eu sei a verdade. Você é um vaqueiro de coração. Admita.
— Já falei várias vezes que jamais mexi com gado na vida. Às vezes, acho que é você quem precisa de exorcismo para espantar demônios.
— Você deve estar certo — falei, e curti a vista privilegiada da gola V, além da sensação de seu peitoral firme, moldado solidamente, e dos músculos dos ombros. — Talvez seja melhor ir para seu carro. Já que você tem todo o equipamento, pode começar a exorcizar o demônio dentro de mim agora mesmo.
O risinho lateral que eu amava tanto apareceu.
— Acho que você precisaria de mais que apenas alguns vidrinhos de água benta.
— Não era desse tipo de equipamento que eu falava. — Passei meus lábios por seu pescoço e deslizei a mão de maneira brincalhona em direção à fivela do cinto.
— Suzannah. — Seus dedos seguraram meu punho em um toque de aço. — Preciso lembrar você de que estamos no meu trabalho?
— Ninguém consegue ver a gente aqui.
— Tio Jesse!
De repente, três pequenos projéteis com saias quadriculadas vieram voando pela entrada do gazebo para se jogar em cima de meu namorado. O timingcomo sempre, era terrível.
— Ai! — exclamou Jesse, em sofrimento, quando Flocos bateu com o joelho no mesmo lugar onde eu estava prestes a colocar a mão.
— Você tem chiclete pra gente, tio Jesse? — perguntaram as meninas, tateando os bolsos da jaqueta de camurça.
Jesse sempre foi o favorito de minhas sobrinhas por causa do hábito de carregar chiclete nos bolsos. Foi ele quem as ensinou a fazer e estourar bolas. Foram habilidades que eu havia passado para ele certo dia, enquanto esperávamos em uma fila inacabável do Departamento de Veículos Motorizados. Ele achava que mascar chiclete era um hábito nojento entre adultos (o chiclete ainda não havia sido inventado em sua primeira vida), mas tinha descoberto que era benéfico na hora de entreter pacientes mirins em dolorosos procedimentos médicos.
— Não sei — disse Jesse, fingindo tirar um chiclete da parte detrás da orelha de Flux. — Será que tenho?
As meninas deram gritinhos de alegria. Todas as três tinham a língua manchada de vermelho por conta das balas, sejam lá quais, que compraram nas máquinas.
— Ei. — O pai vinha atrás delas com expressão de constrangimento. — A enfermeira falou que vocês estavam aqui. Foi mal ter demorado tanto tempo. Obrigado por tomar conta delas, principalmente depois do que aconteceu. O padre D. está bem?
Eu me levantei do banco e fui até o lado de Brad para poder falar sem que as meninas ouvissem.
— A gente não sabe — falei. — Jesse disse que se ele sobreviver às próximas 24 horas, ele vai ficar bem. Onde você estava?
— Ah, você sabe. — Brad olhou para a calçada, mãos nos bolsos da calça que não lhe caía bem. Chutou uma buganvília cor-de-rosa que havia caído na grama. — O pai de Debbie não me deixou ir embora, mesmo depois que falei sobre as crianças. Ele me fez registrar todas as SUVs que recebemos hoje. Foi a maneira que encontrou de se vingar de mim, eu acho, por ter brigado com Deb. Mas é claro que isso só serviu para fazer de sua vida um inferno. Mil desculpas. Debbie não pôde vir buscá-las porque ela e Kelly têm Pilates ou yoga ou sei lá que porra que fazem nas quintas à noite.
Estremeci. O fato de que o único emprego que Brad conseguia manter era com o sogro, pai de Debbie Mancuso, Rei das Mercedes de Carmel, não ajudava. Tentar sustentar os pagamentos da casa supervalorizada que Debbie insistiu que eles tinham de ter no campo de golfe no Rancho Vale Carmel (porque era onde todas as amigas dela que não podiam pagar uma casa na praia Pebble moravam), e ainda pagar a mensalidade da escola particular das meninas não era fácil. Minha mãe e Andy ajudavam como podiam, e tanto eu quanto Jake já havíamos feito alguns empréstimos para ele também.
Mas eu não sabia por quanto tempo mais os dois conseguiriam manter aquilo tudo, ainda mais porque Debbie insistia em ser mãe 24 horas por dia, mesmo sabendo que as meninas ficavam fora o dia todo (a missão acreditava que um programa integral de pré-escola aprimorava o desenvolvimento cognitivo. E também aumentava a arrecadação da escola).
Debbie disse que precisava do momento “consigo mesma” para ser a melhor mãe que podia. Grande parte desses momentos pareciam ser gastos malhando com um personal trainer, comprando roupas e almoçando com gente do tipo Kelly Prescott Walters.
É claro que Brad também tirava bastante tempo “consigo mesmo”, jogando golfe e indo a festas na Cruzada do Caramujo.
Eu compreendia perfeitamente a necessidade que os dois tinham de ter momentos “consigo mesmos”, visto que ser pais de trigêmeas descontroladas (e ser casados um com o outro) devia ser extremamente exaustivo.
— Brad, você precisa arrumar outro emprego. Um em que você não dependa de seu sogro para ganhar dinheiro.
— Eu sei. — Ele chutou outra flor. — Mas quem vai querer me contratar? Não tenho formação acadêmica. Mal consegui me formar no ensino médio. Sei que mandei mal. Pelo menos tenho as meninas. — E olhou com carinho para as três filhas, que agora faziam uma competição para ver quem conseguia esticar o chiclete mais longe.
Olhei para Brad – não exatamente com carinho, mas com mais afeto que no passado. Ele me deixava maluca na época em que nossos pais nos forçaram a morar juntos – tanto que dei o apelido de Dunga a ele e desejei a sua morte prematura várias vezes.
No entanto, o amor que ele tinha pelas filhas – e o fato de que eu raramente, ou nunca mais, tinha de vê-lo tomando leite diretamente da caixa – compensava isso.
— Ei! — berrou para as meninas, me assustando. — O que foi que já falei para vocês? Chiclete é para ficar dentro da boca.
Foi então que notei uma coisa ao lado de Jesse no banco, uma coisa que eu não havia notado porque não estava ali antes. Era branco e fofo, com manchas marrons.
Tinha o formato de um cavalo de pelúcia.
Era o cavalinho de Lucia.
Jesse notou a direção de meu olhar. Ele nunca tinha visto o brinquedo, não tinha como saber que era dela. No entanto, ele sabia que não era de minhas sobrinhas porque possuía o brilho fraco e sobrenatural que os objetos paranormais possuem quando acabaram de fazer a viagem do mundo deles pata o nosso.
Foi por isso que Jesse se esticou instantaneamente a fim de jogar o brinquedo para longe do banco, embora o objeto não pudesse machucar as meninas. Por não serem mediadoras, elas não podiam vê-lo. Mesmo assim, seu excesso de zelo não era algo que ele tinha como acionar ou não, como uma tomada.
E, no final das contas, não fez diferença.
— Isso é meu — disse Flocos. Ela pegou o cavalo da mão dele e o abraçou junto ao coração.

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