sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 15

Uma sensação de fria umidade percorreu a testa de Kylie, levando-a a um estado de semiconsciência. Estado que trouxe consigo uma série de perguntas: quem, o quê, quando, por que, onde? O cheiro de mofo do travesseiro respondeu à última.
Acampamento. Ainda no acampamento.
A sobrecarga emocional acumulada nos últimos dias era quase insuportável. Ela fez um esforço para abrir os olhos e viu Holiday sentada aos pés da cama. O cabelo ruivo da líder caía solto sobre os ombros e um ar de preocupação sombreava seu rosto, escurecendo seus olhos verdes brilhantes.
— Ela está acordada? — a grave voz masculina, bem conhecida, ecoou nos ouvidos de Kylie, despertando outros ecos ao redor de sua cabeça. Olhou à esquerda.
Droga!
Holiday passou de novo o pano úmido em sua testa.
— Ei, está me ouvindo?
Kylie não ouvia nem olhava para a líder do acampamento. Olhava para... Lucas Parker, matador de gatos nas horas vagas.
E protetor de garotas contra valentões – sussurrou o inconsciente de Kylie. Mas por que seu consciente insistia em defender Lucas?
O que estava acontecendo?
Lucas se inclinou como se fosse tocá-la. Kylie, num movimento brusco, tirou o pano da testa.
— O que houve? — e, de repente, se lembrou.
O fantasma. O sangue. Muito sangue. Outra informação perturbadora lhe ocorreu. Ela devia ter morrido. Aquilo era inquietante.
— Você desmaiou — disse Lucas, sua voz poderosa enchendo o cubículo e fazendo-o parecer ainda menor.
Ele precisava repetir o óbvio? E por que estava ali? Não havia nenhuma regra proibindo garotos no alojamento das garotas? Se não havia, Kylie providenciaria para que houvesse uma.
Olhou para Holiday.
— Acontece, às vezes — disse a líder. — Quando os fantasmas se aproximam demais.
— Estou bem, agora — levantou-se, mas o quarto parecia girar em torno de seu próprio eixo. Girava e girava. Lucas segurou-a pelo cotovelo.
Um toque firme, mas que não chegava a machucar. Um toque ardente, que fez seu braço formigar e sua cabeça ficar ainda mais aérea. Mas pelo menos as coisas pararam de rodopiar. Seu primeiro impulso foi sair correndo, mas, com medo de que isso parecesse descontrole, fez um esforço para ficar calma. Sem dúvida, se pudesse contar suas batidas cardíacas como Della, saberia que estava simplesmente aterrorizada.
E, por falar em Della, onde... Olhou para a porta. Della e Miranda estavam lá, uma ao lado da outra, observando-a como se ela fosse a diversão da noite. Que desgraça! Imaginou as duas saindo em disparada de seu esconderijo – pois tinha a vaga lembrança de ter ouvido passos apressados – para encontrá-la estendida no chão. Mas quem a pusera na cama?
Desviou o olhar das colegas de alojamento e concentrou-se em Lucas. Será que tinha sido ele? Será que a tinha pegado no colo? Seu coração começou a bater ainda mais rápido. Percebeu então que ele continuava segurando seu braço.
— Estou bem — murmurou Kylie, tentando se soltar.
Ele a largou, um dedo de cada vez, como se temesse que ela voltasse a cair. E antes que o último dedo se soltasse, Kylie notou que ele a olhava de cima a baixo. Embora seu pijama não fosse ousado, ela tomou imediatamente consciência do quanto o tecido era fino na parte de cima – e também de que o decote descia bem mais do que o de qualquer outra de suas camisetas. Como diria Sara, seus peitos estavam querendo pular para fora e dizer “alô” com mais entusiasmo do que o normal.
Kylie afastou-se um pouco e cruzou os braços diante do peito.
— Eu gostaria de conversar a sós com Kylie — pediu Holiday a Lucas, que não parava de olhá-la, embora seu olhar tivesse migrado dos seios para o rosto com fria indiferença.
Ele assentiu, mas arqueando de leve as sobrancelhas negras. Portanto, continuava tentando lê-la, certo? Mas agora ela se sentia aliviada, sabendo que Lucas não conseguiria. Nesse momento, outra lembrança do passado veio à tona: Lucas Parker fazendo aquele movimento de sobrancelhas quando ela era criança. Estaria, já na época, tentando lê-la? Esse pensamento trouxe consigo a pergunta que vinha martelando em sua cabeça desde que o vira pela primeira vez no acampamento. Lucas se lembrava dela?
— Terminaremos nossa conversa amanhã — disse Holiday a Lucas, como que para dispensá-lo.
— Tudo bem — concordou ele, sorrindo para Holiday. E saiu. Della e Miranda se afastaram da porta para lhe dar passagem. Kylie não deixou de perceber os olhares pouco amistosos que Della e Lucas trocaram. Será que Della tinha se aborrecido com Lucas por ele ter contado a Holiday a aparição súbita de seu primo Chan no acampamento? Provavelmente.
— Feche a porta — pediu Holiday quando Lucas já estava do lado de fora.
Kylie olhou de novo para a líder, temendo ser castigada por... Por quê? Por ter desmaiado? Ou teria Lucas contado a ela sobre Chan e agora Kylie estava em apuros por não ter contado antes?
— Não precisa ter medo de Lucas — disse Holiday.
Kylie estudou-a.
— Você também consegue ouvir as batidas do meu coração?
Holiday sorriu.
— Leio emoções, não batimentos cardíacos. Assim, pude ler o medo em seu rosto, que ficou branco como papel ao vê-lo.
Kylie quase lhe contou tudo o que sabia de Lucas, mas preferiu ficar calada. Poderia parecer fofoca. Em vez disso, perguntou:
— Por que ele veio aqui?
— Estava no escritório quando Miranda apareceu para me chamar.
Kylie olhou para o relógio; era quase uma da manhã. Que Lucas e Holiday estariam fazendo numa hora dessas? Sem dúvida, a líder do acampamento era mais velha, mas não muito.
— Você e ele são... Próximos?
— Depende de como você interpreta essa palavra — Holiday franziu a testa. — É a terceira vez que ele vem aqui. Ele nos ajuda a resolver algumas coisas e está se preparando para trabalhar conosco no próximo ano. Mas isso é tudo — em seguida, perguntou: — O que aconteceu esta noite?
Kylie engoliu em seco. Até que ponto ela poderia se abrir?
— O fantasma apareceu de novo, não foi? — perguntou Holiday em meio ao silêncio hesitante.
Kylie assentiu, embora quisesse desesperadamente negar.
— Foi, mas Miranda e Della disseram que pessoas meio atrapalhadas ás vezes dão a impressão de não ser humanas. Então talvez eu não tenha nenhum dom e o fantasma seja apenas muito poderoso, como você disse que acontece de vez em quando. Ou talvez eu tenha um tumor no cérebro.
— Duas possibilidades muito remotas — disse Holiday, com um sussurro. — Não acha?
— Talvez. Mas elas existem — insistiu Kylie. — Quero dizer, como você esclareceu, quase sempre a capacidade de ver espíritos é... Hereditária. Um dos meus pais, portanto, deveria ter dons.
— Nenhum deles... Já deu sinais de ser diferente?
— Não. Nunca — mas logo reconsiderou a natureza fria da mãe. Isso seria um sinal de que ela é “diferente”?
— Eu disse também que, em raras situações, uma geração não é sobrenatural.
— Conheci meus avós paternos e maternos. A maioria das pessoas não sabe quando... Quando não é humana?
— Muita gente sabe, mas... — Holiday olhou-a com certo desapontamento e cruzou as mãos sobre o colo. — Acho que deve trabalhar isso enquanto estiver aqui.
— Trabalhar como?
Holiday se levantou.
— Todos aqui procuram alguma coisa. Às vezes, respostas. Creio que sua busca deverá se concentrar em descobrir se é ou não completamente humana. E se for mesmo uma de nós, como suspeito, terá também de decidir se usará seus dons em benefício de outras pessoas ou lhes dará as costas.
Kylie tentou pensar na possibilidade de um de seus pais não ser humano e compreender o que ela estava passando. Mas já não teriam lhe contado? Holiday pousou a mão no ombro de Kylie.
— Agora, tente dormir um pouco. Amanhã será um dia cheio.
Kylie concordou com um aceno de cabeça e acompanhou com o olhar a líder enquanto ela se dirigia para a porta. Então, lhe ocorreu a pergunta:
— Como... Como encontrarei as respostas? Não posso simplesmente perguntar aos meus pais se eles veem fantasmas. Pensariam que fiquei maluca.
Holiday se virou.
— Mas pode ser que um deles lhe conte a verdade.
Kylie balançou a cabeça.
— Mas, se tudo isso for um grande equívoco, não ia adiantar nada. Continuariam insistindo para que eu fosse à psicanalista. Se eu começar a falar de fantasmas, talvez até me internem.
— A busca é sua, Kylie. Só você pode decidir como encaminhará as coisas.


Na manhã seguinte, Kylie e Miranda foram tomar café juntas. Della já tinha saído quando Kylie acordou. Quando perguntou sobre Della, Miranda disse que os vampiros às vezes se reúnem antes do amanhecer para realizar rituais.
— Que tipo de rituais? — quis saber Kylie.
— Não sei exatamente, mas suponho que tenham a ver com beber sangue.
Kylie comprimiu o estômago com uma das mãos, lamentando ter feito a pergunta. Sem dúvida, a sensação ruim podia se dever em parte ao fato de ter dormido pouco. Mas também, é claro, à ideia do sangue, que lhe causa enorme repulsa. Ver aquela coisa vermelha nos copos, durante o jantar da ultima noite, tinha sido demais para ela. Na melhor das hipóteses, pelo menos Kylie poderia perder alguns quilinhos durante o verão.
Caminharam em silêncio durante alguns minutos.
— Dormiu bem? — perguntou Miranda finalmente, embora Kylie soubesse o que a colega de alojamento queria dizer. Ou seja, você está inteira, então o que aconteceu para desmaiar?
Kylie decidiu ignorar as entrelinhas e respondeu à pergunta tal como havia sido formulada.
— Muito bem — disfarçou, ciente de que as mentirinhas funcionavam com Miranda, mas não com Della.
Na verdade, Kylie havia passado a noite medindo o teto e analisando o que Holiday dissera a respeito de sua busca. Não importava como abordasse o problema, parecia impossível descobrir um jeito de perguntar aos pais se eles não eram totalmente humanos. Entretanto, ela podia pensar em muitas outras perguntas que gostaria de fazer sobre si mesma. Como, por exemplo: se sou sobrenatural, a que espécie pertenço? E, se não sou uma de vocês, por acaso terei um tumor no cérebro? Kylie não sabia o que podia ser pior. Então, algo revelador lhe ocorreu. Quem sabe se, obtendo respostas a essas perguntas, não descartaria a possibilidade de ela ser qualquer coisa que não fosse humana? Não era o melhor plano, mas talvez fosse um bom começo. E precisava começar de algum ponto.
— Você não parecia nada bem ontem à noite — observou Miranda.
De fato. Quando Kylie finalmente adormeceu, vieram os sonhos. Sonhos malucos, estranhos, com Lucas Parker e ela. Estavam nadando. Os dois seminus. Tinha acordado sem fôlego, tremendo. Tremendo como Trey a fazia tremer depois de se beijarem por muito tempo. Como seu corpo podia traí-la dessa maneira, fazendo-a achar Lucas desejável? Não que ela fosse deixar seu corpo assumir o comando. Sabia que podia controlar seus desejos. Tinha conseguido deter Trey, mesmo quando essa era a última coisa que desejava.
Isso fez com que estabelecesse outra meta. Não apenas procuraria descobrir se era humana como faria tudo para não ficar muito perto de Lucas.
— A noite foi tranquila — mentiu de novo.
— Não acredito em você, mas vamos deixar assim por enquanto — mirando olhou para o outro lado. — Alerta de vampiro esperto e muito gato à esquerda! — sussurrou, mudando totalmente de conversa.
— O quê?
— O loiro usando camisa de futebol — sussurrou Miranda de novo. — O que eu não daria para ficar com ele!
— Pensei que não gostasse de vampiros.
— Nunca disse isso. E se dissesse, isso não se aplicaria a vampiros do sexo masculino.
Kylie não estava nem aí com vampiros muito gatos e a última coisa em que pensava no momento era sair com alguém, mas ainda assim deu uma olhada. Não viu ninguém.
— Onde?
— Ali — disse Miranda, acenando com a cabeça na direção oposta.
— Então quis dizer direita, não esquerda.
— Direita, esquerda, nunca sei direito. Sou disléxica, lembra? Mas ele é uma graça. Talvez eu descubra seu nome na reunião de hoje da Hora do Encontro com os Colegas de Acampamento.
O garoto loiro conversava com um grupo de amigos. Kylie se lembrava dele, mas não do seu nome. A estatura e o porte lembravam Perry, que não era o tipo de Kylie. Especialmente depois do que tinha acontecido na última noite.
— Você está bem mesmo? — perguntou Miranda depois de passarem grupo de garotos. — Parecia fora de si ontem à noite. Sua aura estava esquisita.
— Estou bem — e, não desejando mais falar sobre o assunto, indagou: — Você é realmente disléxica?
Miranda não respondeu logo.
— Sou. E, segundo minha família, é algo que eu pedi — seu tom de voz perdeu a leveza que a caracterizava.
— Então, na sua família, todos são bruxos?
— Sim, e mamãe também pode ser um osso duro de roer.
— Todas as mães são, não é?
— Talvez — suspirou Miranda. — Não que eu a censure. Decepcionei minha família por muito tempo.
— Como assim? — perguntou Kylie.
— Eu sou a próxima da lista a ocupar o cargo de Alta Sacerdotisa. Mas, antes de receber o título, preciso fazer alguns testes. E testes não são meu forte. Mas minha família poderá perder seu lugar no grupo caso eu não seja aprovada.
— E por que tem que ser você? Por que não pode ser outra pessoa?
Miranda suspirou de novo.
— Não é assim que funciona. Se não for eu, a honra passará a ser de Britney Jones.
— Uau, tudo menos deixar que os Jones passem vocês para trás! — brincou Kylie, para que Miranda se sentisse melhor.
— Isso aí — o tom de Miranda indicava que a tentativa de Kylie falhara.
— Sinto muito — disse Kylie. — Mas do que vai precisar para passar nos testes?
— Apenas superar a dislexia. O que é, basicamente, impossível. Ah, olhe para a esquerda... Quer dizer, para a direita. Seu gatinho vidrado em peitos está aqui. E está corando. Deve ser péssimo para o ego dele ter sido escorraçado por você daquela maneira.
— Assim espero — olhou para Perry, que estava mesmo com o rosto muito vermelho.
Ótimo.
— Não contou a Holiday sobre isso, contou? — Miranda parecia preocupada. Sem dúvida, simpatizava com os bobalhões.
— Não — respondeu Kylie, em tom irritado. — Mas contarei caso ele me apronte de novo — será que Perry tinha superaudição? Se tivesse, ótimo.
Estavam quase no refeitório, depois de terem passado pelo escritório do acampamento, quando os dois sujeitos de terno preto do dia anterior saíram às pressas pela porta. Kylie diminuiu o passo para estudar a linguagem corporal deles. Não estavam nada contentes. Vendo-os caminhar apressados para o estacionamento, alimentou a esperança de que sua visita tivesse algo a ver com o fechamento do lugar.
Então, o mais alto se deteve e olhou para trás. Ficou ali parado, mirando Kylie e arqueando as sobrancelhas. Inclinou-se para o outro e cochichou alguma coisa. Em seguida, continuaram a andar. Na direção de Kylie.
Droga!

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