domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 13

É assim que as pessoas velhas morrem. Fraturam a bacia, pegam pneumonia e morrem.
Foi isso que minha sobrinha Flocos me falou na frente da recepção do hospital naquela noite.
— Cale a boca, Emily — falei.
— Mas é verdade. E você não pode dizer cale a boca. Você tem de cantar a música do escutar. Foi o que a irmã Monica ensinou pra gente na escola.
— Eu não vou cantar a porra da música do escutar, Emily.
— Você não pode falar palavrão, tia Suze. Você não pode falar palavrão e não pode dizer cale a boca.
Respirei fundo, lutando por paciência. Minhas sobrinhas só estavam comigo porque uma discussão eclodiu entre seus pais diante da insinuação de irmã Ernestine de que as meninas sofressem déficit de atenção.
Embora nem sempre (ok, nunca) nos déssemos bem, eu achava Debbie uma mãe amável e presente, ainda mais considerando o fato de ter tido as três bebês ao mesmo tempo sem a ajuda de tratamentos de fertilidade. O parto múltiplo era corriqueiro na família de Debbie. Uma de suas primas mais velhas teve trigêmeos duas vezes, tudo naturalmente.
Qualquer um acharia que isso seria aviso bastante para Debbie usar proteção, mas ela fazia o contrário. Era completamente contra todos os tipos de produtos farmacêuticos, incluindo anticoncepcionais – para o desespero eterno de Brad – e vacinas. Jesse já havia dito que era por causa de mulheres como ela que doenças evitáveis (e potencialmente fatais) como sarampo, caxumba e coqueluche, estavam voltando a aparecer na Califórnia.
Debbie não ligava. Estava convencida de que manter Flux, Flocos e Rabo de Algodão (meus apelidos para minhas sobrinhas muito adoráveis, mas agitadas demais) longe de remédios e vacinas era a coisa certa a fazer.
Embora não concordasse (e eu não sabia até quando as escolas da cidade, até mesmo a Academia da Missão, continuariam aceitando as falsas “licenças de saúde” emitidas pelo médico canastrão das meninas), eu ainda meio que admirava seu instinto materno extremamente protetor, mesmo que mal direcionado.
Só que, dessa vez, a discussão entre ela e meu meio-irmão gerou uma falta de comunicação tão vasta que nenhum dos dois se lembrou de pegar as meninas na escola. E foi assim que acabei forçada a jogar as três no banco de trás de minha Land Rover (tão detonada que causava vergonha) e levá-las ao hospital assim que ouvi a notícia sobre o padre Dom.
Que outra escolha me restou? Eu precisava ver o padre Dominic assim que ele se recuperasse. Os médicos decidiram que era melhor operar a bacia imediatamente, pois o “acidente” que aconteceu na casa dos Walters destruiu a região por completo.
Sendo assim, fomos nós quatro para o São Francisco. Já era tarde demais quando percebi que foi uma ideia horrível. Primeiro, quando Flocos abriu a boca para perguntar “porque seu carro é tão velho, tia Suze?” (O carro estava na família havia anos quando o herdei, e não fazia sentido comprar um carro melhor porque ele sofreria com minhas péssimas habilidades de direção, com as trigêmeas, e, é claro, com espíritos resistentes à mediação.) Depois, quando declarou no saguão de entrada do hospital que o padre Dom ia morrer.
O pior de tudo era que a ruiva que estava na recepção do hotel era nova ali, então não me reconheceu nem como noiva de Jesse – eu já havia aparecido no hospital para visitá-lo em alguns intervalos – nem como membro do clero e, portanto, “família” do padre D. Por isso, não me deu detalhes sobre a fratura, não me disse qual era o estado dele e não informou em que andar estava.
— Olhe — falei para a ruiva, ignorando Flocos. Era a filha mais tagarela de Brad e Debbie. — Entendo que não possa dar informações sobre o quarto do padre Dominic por questões de privacidade. Mas pode pelo menos dizer qual é o estado dele? Era para a cirurgia ter acabado há uma hora.
— Eu realmente não posso falar nada. É contra as regras do hospital.
A ruiva – o crachá dizia Peggy – nem olhou para mim. Sua atenção estava toda focada em minhas sobrinhas, que parecem anjos para quem não as conhece – ainda mais quando estão com o uniforme da escola. Com as saias azul-marinho quadriculadas, blusas brancas de manga curta, meias até os joelhos e as tranças francesas que a Debbie insistia em fazer toda manhã (e no final do dia, como naquele momento, sempre estavam destruídas, parecendo cogumelos escuros e ondulados em torno de seus rostinhos angelicais), elas pareciam minimadonas. Na verdade, eram pequenos capetinhas.
— Ai, meu Deus, suas filhas são trigêmeas? — disse Peggy para elas da cabine que imitava uma torre. — Vocês não têm como ser mais fofas!
As meninas a ignoraram, que é o que faziam com qualquer pessoa que perguntava se eram trigêmeas e depois comentavam que eram fofas. Flux cutucou Flocos.
— Velhos não morrem de fratura.
— Morrem, sim. A vovó da mamãe morreu assim.
— A vovó não está morta. A gente viu ela no primeiro dia de aula, lembra? Ela deu adesivos pra gente.
— Não a vovó. A vovó da mamãe. A vovó da mamãe está morta porque fraturou a cintura. Lembra? Ela falou pra gente.
Flocos chutou Flux.
— Cala a boca!
Flux chutou Flocos de volta.
— Cala a boca você!
Flux deu um berro com toda a força, o que fez com que todo mundo na sala de espera olhasse para nós.
— Se as duas não calarem a boca — falei —, vou deixá-las no carro.
— Você não pode fazer isso, tia Suze. — Rabo de Algodão era a prática. — A mamãe disse que é contra a lei, e, se você fizer isso de novo, ela vai chamar a polícia.
Peggy ouviu isso e me olhou com horror.
— Foi uma emergência — expliquei. Mas eu não podia explicar que a emergência foi uma PMNO que apareceu do nada em um parque enquanto eu estava cuidando das meninas, e que elas estavam mais seguras no carro, visto que a PMNO tentou resistir à mediação jogando a lata de lixo da prefeitura em cima de mim. — E eu deixei a janela um pouco aberta.
— Foi tão legal — disse Flocos. — Principalmente quando você jogou a lata de lixo no vidro do carro e ele explodiu!
Eu definitivamente não tinha como explicar que a PMNO estava dentro da lata de lixo.
Olhei para as meninas e falei:
— Será que vocês podem por favor dar um tempo para a tia Suze? Estou tentando falar com a moça.
Ouvi as portas corrediças da entrada principal do hospital se abrirem atrás de mim, e virei o rosto na esperança de que fosse Brad me salvando das meninas – e na esperança ainda maior de que fosse Jesse.
Meu coração afundou quando vi que não era nenhum dos dois, e sim um cara com cavanhaque levando balões para alguém que ia visitar.
Eu não estava entendendo. Sabia que Jesse havia feito dois plantões seguidos (o que é tecnicamente ilegal, mas rotina da maioria dos residentes, não porque querem, mas porque precisam), então não me surpreendeu que ele não tivesse atendido nem o celular, nem o telefone de casa quando liguei para contar o que havia acontecido com o padre Dom.
No entanto, ele geralmente sentia quando eu estava chateada com alguma coisa, até mesmo enquanto dormia, e aparecia, correndo.
Então onde estava ele? Por que não retomou minha ligação?
— Por que a gente precisa te dar um tempo, tia Suze? —perguntou Flux.
— Porque ela está preocupada com o padre Dominic, e você também devia estar, sua burra — informou Flocos. — Ele provavelmente vai morrer.
— Eu não sou burra, você que é.
— Eu não sou burra, você que é.
— Tia Suze, ela me chamou de burra.
— Ei, meninas — falei animadamente e peguei a carteira. — Vocês estão com sede? Por que não vão comprar um refrigerante? Estou vendo umas máquinas ali.
Vibrando de alegria com a ideia de ingerir açúcar, o que não podiam fazer em casa, as meninas pegaram o dinheiro de minha mão e saíram em disparada da recepção, quase batendo nas pessoas que esperavam pela enfermeira de plantão.
— Comprem várias barras de chocolate também — berrei para elas. — O tipo que faz os dentes apodrecerem. E não falem com gente estranha. Olhe aqui. — Voltei a falar com Peggy. Cheguei bem perto e falei baixinho para que só ela me escutasse. — Não estou com saco agora. Você vai me falar para onde levaram esse padre, senão vou deixar aquelas três pestes que você acha tão fofas se encherem de açúcar e se perderem em sua emergência. Vou deixar que elas mexam em tudo, e você não quer isso, sabe por quê? Elas não tomaram vacina nenhuma. Quem sabe quais doenças bizarras elas carregam sem nem mostrar os sintomas? Caxumba. Pólio. Coqueluche. Sarampo. Você sabia que sarampo ainda é uma das maiores causas de morte entre crianças no mundo todo? Que é tão infecciosa que nove entre dez pessoas que não foram vacinadas a contraem se entrarem em contato com alguém infectado? É isso o que você quer? Que todos aqueles bebês vulneráveis e ainda não vacinados na maternidade peguem sarampo em questão de horas?
Os olhos de Peggy se arregalaram até onde podiam, e ela afastou a cadeira de rodinhas de mim.
— Eu vou... eu vou... eu vou... eu vou chamar meu supervisor.
— Faça isso — falei. — Mas lembre-se: quanto mais você me fizer esperar, mais possibilidades de contágio se desenvolvem nas mãozinhas daquelas meninas. Espero que você tenha um carregamento de gel antisséptico por aí.
Quando ela saiu, peguei o celular para tentar falar com Jesse de novo. Eu havia perdido quatro ligações dele, e três mensagens!
Pela primeira vez, as mensagens não estavam em espanhol, o que indicava a seriedade com que ele via a situação. Jesse só falava em inglês quando estava calmo, mas só mandava mensagem no idioma quando não estava.

Jesse
Recebi suas mensagens. Estou tentando ligar, mas você não atende.
Nov 17 4:20 PM

Sério? Dei uma olhada no celular. É claro. Estava no silencioso. E não só isso: a imagem de fundo havia sido mudada; em vez de uma foto de meu rato de estimação, Romeo, dormindo adoravelmente no ombro de meu noivo enquanto ele lia um livro de Medicina, agora havia uma foto de minhas três sobrinhas no banco de trás da Land Rover, rindo para a câmera.
Olhei para a área das máquinas com comidas, onde Flux e Flocos agora brigavam por causa de um pacote de Skittles. Uma das brincadeiras favoritas das trigêmeas era pegar os aparelhos eletrônicos da bolsa ou do bolso de qualquer adulto que estivesse por perto, restaurar todas as configurações e devolvê-los sem que ninguém suspeitasse.
Quando crescessem, acabariam na prisão, ou trabalhando para a Agência de Segurança Nacional.
Dei um suspiro e li a segunda mensagem.

Jesse
Não se preocupe, mi amada. Vai ficar tudo bem. Vou dar um jeito nisso.
Prometo.
Nov 17 4:25 PM

“Vou dar um jeito nisso.”
O que ele quis dizer? O que ele podia fazer que não estava sob meu controle?
A outra mensagem foi apenas um pouco mais esclarecedora.
Uma pessoa normal lendo essa mensagem teria pensado “Ah, que fofo! O namorado dela foi buscar a escova de dente do velhinho, umas cuecas, e talvez um pijama e chinelos, e a última edição do Notícias Católicas”.
Não. Não mesmo. Conhecendo meu namorado, acho que as coisas que Jesse foi buscar foram: a Bíblia do padre, um crucifixo, um rosário, uma medalha da Virgem Maria, água benta e hóstias sagradas roubadas do tabernáculo do altar da igreja.
Porque essas são as coisas de que você precisa para fazer um bom e velho exorcismo.
Ótimo. Maravilha. Embora eu concordasse que nenhum espírito devesse ter a permissão de atacar um senhor gentil e inocente como o padre Dominic, que só quer ajudá-lo, isso não queria dizer que eu achava que sua alma devia ser mandada para a danação eterna. Ainda mais agora que eu sabia alguns detalhes sobre a morte de Lucia – mais ainda através de seu obituário, que Cee Cee havia conseguido encontrar e me enviar mais cedo.
Eu estava pensando em como responder à mensagem – não acredito que você roubaria hóstia sagrada e vinho da igreja, mas não quer fazer sexo comigo – não me parecia uma resposta adequada – quando outra mensagem apareceu. Achei que fosse de Jesse, até que a abri.
Sério? Ele estava curtindo com minha cara? Ele realmente era o demônio.
Comecei a basicamente agredir o telefone para destruir todas as informações conectadas a ele quando uma coisa horrível me ocorreu, uma coisa que me fez sentir ainda mais calafrios que a mensagem de Paul, ou a ideia de meu noivo exorcizando uma fantasminha:
Jesse foi procurar por mim em meu escritório. Isso quer dizer que ele viu as flores na mesa.
Merda!
E o que eu fiz com o cartão que Paul enviara? Depois de tudo que aconteceu, não me lembrava mais.
Eu estava ferrada.
— Suzannah?
Eu me assustei com a voz atrás de mim. Peggy voltara com uma enfermeira que eu reconheci de várias visitas que eu e Jake fizemos a Jesse enquanto ele trabalhava na emergência. A enfermeira também me reconheceu, mas felizmente não como a meia-irmã do cara de cabelos longos que gostava de sacanear os voluntários do hospital, pedindo com toda seriedade que chamassem a “Dra. Pinto, Dra. Dora Pinto” (era chocante ver como caíam nessa piada).
— Suzannah, achei que era você — disse Sherry, com um sorriso. — Peggy me disse que tinha uma louca ameaçando infectar a maternidade com sarampo. Mas aí vi quem era.
— Oi, Sherry. — Quase me derreti de tanto alívio. — É, sou eu. Desculpe pelo drama. Eles trouxeram meu chefe para cá pouco tempo atrás, o padre Dominic da Academia da Missão Junípero Serra?
Ela parou de sorrir, o que nunca era bom sinal.
— Sim, claro.
— Hum, ele está bem, né? Eu preciso muito subir para vê-lo. Quanto mais cedo, melhor.
— Claro. — Sherry usou aquele tom de voz que as enfermeiras usam para te fazer sentir-se melhor, embora você desconfie que elas não acreditem em nada do que acabou de falar. Você não bebe mais que três copos de cerveja por semana? Tá booom. — Peggy, esta é Suze Simon, noiva do Dr. De Silva.
Vi Peggy me dar uma olhada rápida, como se estivesse me enxergando de uma maneira totalmente nova.
— Ah — disse Peggy —, é mesmo?
O tom seco deixou muito evidente que ela não me aprovava.
Isso não me surpreendeu. Jesse era extremamente popular com a equipe de enfermeiros que, em sua maioria, era feminina (mas também com os homens), porque era não apenas bonito, mas também charmoso, bem-humorado e, de vez em quando, levava biscoitos para todos.
Biscoitos que eu fazia, achando que não custava nada ele ser querido pela equipe.
Pensei em pegar Peggy pelos volumosos cabelos ruivos e esmagar seu rosto contra a tela do computador, mas foi um pensamento rápido. Eu jamais faria isso. Acho.
Em vez de agredi-la, falei:
— Prazer em te conhecer, Peggy. Desculpe se fui um pouco, hum, abrupta antes. Só estou muito preocupada com meu chefe.
— Tudo bem — disse Peggy. — Prazer em conhecê-la também. Todo mundo aqui gosta muito do Dr. De Silva, até os pacientes mais velhos. Eles sempre reclamam no começo que ele é jovem demais para ser médico, mas depois olham nos olhos dele. E calam a boca. — Ela riu. — Dizem que ele tem uma “alma antiga”... seja lá o que for isso.
Dei um sorriso reluzente para ela.
— É, já escutei isso sobre ele também. Então, posso ver o padre Dominic agora, Sherry?
— Claro, mas acho que ele não vai falar muito. O Dr. Patel está mantendo ele sob forte sedação para deixá-lo mais confortável.
— Peraí. — Olhei para a enfermeira intensamente. — Ele… O padre Dominic vai morrer?

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