domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 12

— Acho que me lembro dos médicos dizendo que ela morreu asfixiada — disse o padre Dominic.
— Asfixiada? — Fiquei confusa. — Quem a estrangulou, o cavalo?
— Suzannah, você assiste a televisão demais.
Isso não era verdade. Não assisto a televisão tanto quanto devia. Nunca tenho tempo por causa dos estudos, da carreira, da vida afetiva, e, é claro, por causa da agenda para PMNOs.
— Quando ela caiu do cavalo — continuou o padre Dominic antes que eu pudesse argumentar —, acho que a coluna foi afetada, o que interrompeu a respiração. Acho que poderia ter sido salva se tivesse sido encontrada logo, mas não foi... Enfim, ela morreu por falta de oxigênio, que é o que os médicos chamam de asfixia.
— Eca! — Meu corpo tremeu involuntariamente quando pensei no rosto de Lucia, que, embora estivesse sempre franzido de raiva quando nos encontrávamos, era redondo como o de um anjo. Sua boca, ao contrário das de minhas sobrinhas, tinha o formato igual ao das flores que Paul havia me mandado, só que menor e cor-de-rosa, não branca.
— Que jeito horrível de morrer — falei.
— Concordo. Mas duvido que a menina tenha sofrido por muito tempo, se é que sofreu. Um ferimento daqueles a teria deixado paralítica instantaneamente. — O corpo dele também tremeu. — A alma da menina nunca se revelou para mim, pedindo ajuda... ou justiça. No entanto, parece que ela escolheu se revelar para você agora, não é, Suzannah?
— Ela tentou me matar. É o oposto de pedir ajuda, padre D.
— Os espíritos nem sempre sabem que temos a habilidade de ajudá-los — disse o padre Dominic. — E, mesmo que sim, geralmente estão assustados demais (ou são muito teimosos) para aceitar nossa instrução. Você deve se lembrar de que Jesse não teria sonhado em aceitar sua ajuda quando ainda era espírito. Era ele quem sempre corria para defender você. E, no entanto, no final das contas, foi você quem...
— Jesse não aceitaria ajuda nem se estivesse sangrando na beira da estrada. Ele odeia o fato de que teve de aceitar uma bolsa e empréstimos para pagar a faculdade.
E esse era outro motivo que me impedia de falar sobre o que estava acontecendo com Paul. Ele tentaria lidar com a situação sozinho, o que, é claro, terminaria em desastre.
— E, se a menina de quem você está falando e a que eu conheci ontem são a mesma — continuei — ela vai preferir me estrangular até a morte que me deixar ajudá-la.
— Mesmo assim — disse o padre Dominic depois de um segundo de silêncio — você sabe que temos a obrigação de...
— Ajudar a enteada de Kelly — falei. — Eu sei. E de ajudar Lúcia também. — Eu já havia ligado o computador e digitado Lúcia, asfixia e cavalo no meu site de busca. — Ah, que ótimo — falei, quando vi o resultado. — Pornografia. Por que sempre aparece pornografia? Obrigada, internet.
O padre se encolheu.
— Suzannah, por favor.
— Não, olhe, padre, se sua menina morta e a minha são a mesma, acho que ela tem razão de estar puta. — Comecei a caçar o celular na bolsa a fim de mandar uma mensagem para Cee Cee. Suas habilidades investigativas eram superiores às minhas. — O senhor sabe mais alguma coisa sobre a morte dela? Qualquer coisa?
— Faz muito tempo, Suzannah. Foi antes de você se mudar para Carmel. Acho que posso perguntar ao padre Francisco... ele ainda é o diretor da Sagrada Trindade. Acho que o funeral foi realizado lá. Queria me lembrar do sobrenome da menina. E acho que o padre Francisco me disse que a família se mudou depois do acidente. O que é compreensível. Quem ficaria no mesmo lugar depois de uma coisa dessas?
— Ah, sim, quem ficaria? — Eu nem tentei esconder o sarcasmo. — Eles atiraram no cavalo depois? Porque tenho certeza de que todo mundo botou a culpa no bicho. Sempre botam.

Oi C.C., mais info sobre Lucia. Frequentou a Sagrada Trindade há tipo 9-10 anos. Morreu num acidente de cavalo. Médicos disseram que foi de asfixia.
PS: Está todo mundo louco? Sem contar você, é claro. E Jesse.
Nov 17 12:45 PM

— Becca estava lá quando o acidente aconteceu? — perguntei ao padre Dom.
— Aqui no arquivo diz que ela estudou na Academia da Sagrada Trindade, a escola católica só pra meninas na praia Pebble, no primeiro e segundo ano. Como falei, deve ter sido na época da tragédia. Ela foi transferida para a Escola Stevenson no ano seguinte. Deve ter tido um bom motivo para uma mudança tão abrupta.
— Becca mencionou um acidente — comentei, pensando na conversa que havíamos tido no dia anterior. — Disse que a mãe foi embora “depois do acidente”.
— Coitada da criança. — Padre Dominic balançou a cabeça. — Tanta tristeza na vida, em tão pouco tempo.
— Acho que foi Lucia quem se deu pior na história, padre.
— Verdade. Um ano depois, Becca mudou da Stevenson para um internato, mas pelo visto isso também deu errado, porque agora ela está aqui.
Minha mente girava. Era informação demais. Informação demais que não estava na internet.
Bem, fazia sentido. A Sagrada Trindade não ia querer ser associada a um evento tão triste, e tinham o dinheiro para garantir que qualquer referência ao evento fosse tirada do Google.
— O senhor se lembra de onde aconteceu o acidente? — perguntei. — Foi na Sagrada Trindade?
— Honestamente não me lembro — disse o padre Dominic. — Acho que faz sentido ter sido na Sagrada Trindade. Eles têm estábulos para as alunas manterem seus próprios cavalos ali.
— Eles deviam ter um lugar para as alunas guardarem suas próprias espaçonaves, com aquela matrícula absurda.
A Sagrada Trindade era uma das várias escolas particulares locais que competia com a Academia da Missão. Mas, com a localização chique da Trindade, na exclusiva 17-Mile Drive, praia Pebble, a piscina olímpica, as quadras de tênis e lacrosse, os campos de futebol e, é claro, os estábulos e trilhas para cavalgar, não havia competição. A Academia Missão nem estava na mesma liga. Tudo que tínhamos para oferecer como atividade extracurricular era basquete, clube de matemática e o musical de primavera.
Não era de se espantar que a irmã Ernestine evitasse irritar Lance Arthur Walters. As filhas da realeza e das celebridades estudavam na Sagrada Trindade. As netas de Andy Ackerman, apresentador de “Em casa com Andy”, cursavam a Academia da Missão.
— Mas a Sagrada Trindade fica na comunidade da praia Pebble, e o resort localizado ali também tem um centro equestre — disse o padre Dominic, lealmente tentando defender a outra escola católica. — O acidente pode muito bem ter acontecido naquelas trilhas, e não na Trindade. Cavalgar é um esporte tão popular hoje em dia, ainda mais entre os mais ricos. Parece que todo mundo está praticando, mesmo que possa ser tão perigoso. E acho que não há leis que exijam uso de capacete em esportes equestres na Califórnia.
Olhei para ele com ceticismo afetuoso.
— Ah, tá bom, padre D. Tenho certeza de que esse é o motivo para Lucia permanecer em contato por tanto tempo, tentando proteger Becca; porque está aborrecida com as leis de uso de capacetes em esportes equestres.
— Não há razão para sarcasmo, Suzannah. A Sagrada Trindade é uma das principais escolas para meninas no país. E a praia Pebble é um resort cinco estrelas. É claro que o que aconteceu com a coitadinha da criança só pode ter sido um acidente trágico, e não... o que você está pensando, seja o que for.
— Sabe, uma das coisas que mais amo no senhor, padre D, é que sempre vê o melhor nas pessoas. — Sorri e lhe dei um tapinha no ombro. — Até mesmo em escolas famosas para meninas e resorts cinco estrelas.
— E uma das coisas que mais me preocupa em você, Suzannah, é que está sempre pronta a ver o pior nas pessoas. Você não trabalhou no Resort Praia Pebble durante um verão quando estava no ensino médio?
— Trabalhei — respondi. — É por isso que sei o quanto estão longe da perfeição.
— A falsa modéstia não é uma qualidade muito atraente, Suzannah.
— Ok. Sim, eles me contrataram para trabalhar como babá no resort.
O padre Dominic pareceu se iluminar.
— Isso, claro. Foi assim que você conheceu o irmãozinho de Paul Slater. Como está Jack? O que tem feito?
Dei um sorriso com uma tranquilidade que não correspondia ao que sentia de verdade quando ouvia o nome de Paul.
— Jack? Da última vez que tive notícias, ele parecia bem. Bem melhor agora que não está mais morando com os pais.
— E ele... ele se comunica sempre com os falecidos?
— Acho que não. Na verdade, acho que ainda tenta evitar o máximo que pode. Ele começou a escrever... roteiros de filmes, eu acho.
— Ah, que pena — disse o padre Dominic.
— Pena? Por quê?
— Ah, ele tinha tanto potencial como mediador. Mas talvez fosse um pouco sensível demais para a tarefa. Talvez seja mais adequado para as artes. Ao contrário do irmão... Como está Paul? Vocês dois tiveram suas desavenças, mas, pelo que me lembro, voltaram a se dar bem perto da época da graduação. Tem notícias dele?
É claro que essa era a oportunidade perfeita para contar ao padre Dominic o motivo real de eu ter ligado na noite anterior. Que meu interesse na Maldição dos Mortos não era meramente intelectual, mas que tinha a ver com Paul Slater, que estava basicamente tentando me chantagear para que eu dormisse com ele.
— Não sei — falei, sem emoção. — Não tenho notícias dele há anos.
— É mesmo? Fico surpreso. Ele sempre pareceu gostar tanto de você. Sei que esse sentimento não era reciproco, mas...
— Sem querer ofender, padre, mas podemos continuar no assunto anterior? O que vamos fazer quanto à enteada de Kelly Prescott?
O padre Dominic piscou os olhos em sinal de surpresa.
— Claro. Perdão. Não quis me intrometer...
— Sem problemas. Só precisamos decidir como vamos lidar com isso. Sei que Jesse provavelmente falou para o senhor no telefone que quer exorcizar a menina...
— Sim, mas ele só disse isso porque está muito chateado com o que aconteceu com você. É óbvio que está fora de questão. Ela é uma jovem alma atormentada.
— Que vem atormentando outra jovem alma há anos, pelo visto, e que tentou me afogar ontem à noite. Por mais que eu goste de dormir na cama de meu noivo, prefiro não fazer isso com Gina.
— Não — disse o padre com tom seco. — E imagino que dormir com você também não seja uma experiência tão agradável para Gina.
— Nossa, obrigada. Sabe de uma coisa, isso é tudo culpa minha. Se não fosse pela sensação que ele tem de que deve alguma coisa para o senhor e para minha família e para essa droga de igreja — apontei para fora —, Jesse e eu estaríamos dividindo aquela cama feito um casal normal do século XXI. Será que o senhor poderia avisar a ele casualmente que nossas almas não vão realmente ser mandadas para a danação eterna se a gente fizer amor antes de nos casarmos, padre D.?
O padre pareceu entretido.
— Não sou o papa, Suzannah. Não tenho o poder de mudar o que vem sendo a doutrina oficial da igreja há milhares de anos.
— Bem, o senhor sempre fez casamentos entre pessoas do mesmo sexo fora do território da igreja, então não acho que liga tanto em adaptar algumas doutrinas da igreja...
Fiquei surpresa quando ele mudou de expressão e me interrompeu com uma voz animada.
— Suzannah, você está absolutamente certa.
— Perai... estou? — Mal pude acreditar na própria sorte. — O senhor vai falar para Jesse que tudo bem se a gente fizer sexo?
— Não, é claro que não. — Ele fez uma expressão de espanto. — Não seja ridícula. Quis dizer que você está certa quanto a minha culpa em relação a enteada de Kelly. E já passou da hora de eu fazer alguma coisa.
— O quê? Não. — Fiquei olhando para ele, que se levantou e começou a andar pelo escritório. — Como é que isso tudo pode ser culpa sua?
— Suzannah, eu oficializei o casamento dos pais dela e não notei a pobre alma torturada agarrada à menina, assim como não a notei em nenhum outro momento deste semestre desde que Becca começou a estudar aqui. Então é isso, a culpa é minha, e a responsabilidade também.
Uma sensação de medo me tomou. Era bem diferente da que experimentei quando recebi o e-mail de Paul, ou de quando vi que as flores na mesa eram dele, e não de Jesse. Mas a impressão permanecia.
— Padre D, concordo que precisamos fazer alguma coisa, mas o senhor não acha que seria melhor esperar até termos mais informação?
— Besteira. Descubra qual dever de casa foi passado hoje nas aulas de Becca; vou de carro levar tudo na casa dela pessoalmente. Assim consigo falar com ela e com os pais, como devia ter feito vários meses atrás, antes do casamento, ou pelo menos desde que ela se matriculou aqui.
— Padre Dominic, entendo o que o senhor está sentindo. Entendo mesmo. Mas acho que não tem motivo para se sentir culpado. O senhor não fazia ideia de que isso estava acontecendo na época do casamento. Nem mesmo viu Lucia. Como o senhor disse, ela se mostrou para mim, e não para o senhor. Então realmente acho que sou eu que devo...
— Suzannah, não estou me sentindo culpado. Estou simplesmente tentando fazer meu trabalho.
— Sim, eu sei. Mas se lembra do que aconteceu na última vez?
Ele olhou para mim sem entender.
— Última vez?
— A última vez que o fantasma de uma menina irritada destruiu esta escola.
Ele continuou confuso, mas logo se lembrou.
— A menina que quebrou a estátua do padre Serra? Mas o que fez com que você se lembrasse dela?
— O senhor disse que ela era o espírito mais violento que o senhor já vira. — E ainda achavam na escola que eu havia destruído a cabeça do padre Serra. — E olhe o que aconteceu quando o senhor foi se meter com ela.
— Aquilo foi uma situação totalmente diferente, Suzannah, como você bem sabe.
— Talvez. Mas ainda assim acho que é um erro o senhor ir até lá. Por que acha que vai ver Lucia hoje? Não a viu antes.
— Sério, Suzannah, você parece não respeitar muito minhas habilidades, tanto como educador quanto como mediador.
— Isso não é verdade.
Apesar de que, recentemente, era sim.
— Eu garanto a você, Suzannah, que venho lidando com crianças turbulentas há muito mais tempo que você. Será que preciso lembrar que você foi uma delas?
Antes que eu pudesse protestar e dizer que nunca fui “turbulenta”, apenas insubordinada, ele continuou falando.
— E você acabou superando todas as minhas expectativas. Exceto pelo vocabulário bastante enfático (e pela escolha de figurino que, é claro, de vez em quando é lamentável), você se tomou uma jovem mulher maravilhosamente madura e bem-sucedida, que eu teria orgulho de chamar de filha. Quero dizer, talvez neta fosse mais adequado.
Hesitei.
— Bem, obrigada, padre. Isso é muito gentil de sua parte. Mas, ainda assim, não seria melhor que eu...
— Que você o quê? — Ele estava colocando a jaqueta preta e se olhando no espelho para se certificar de que o colarinho clerical estava alinhado. — Que você venha comigo? E quem vai ficar no seu lugar? A irmã Ernestine certamente vai descobrir o caso da Srta. Diaz com o Sr. Gillarte se você não estiver aqui para dar desculpas por eles. Não, Suzannah... — Ele se virou de costas para o espelho e olhou para mim, não parecendo notar minha expressão de espanto. Eu não fazia ideia que ele sabia do caso Diaz-Gillarte. — É responsabilidade minha, e não sua.
— Mas... — eu precisava tentar mais uma vez. — Suponhamos que ela de fato apareça para o senhor. Ela não é normal. Até o senhor admitiu que ela é insanamente forte. Então, se a aborrecer, pode acabar pior que afogado, ou atingido por uma cabeça de estátua...
— Suzannah, eu faço isso há um pouco mais de tempo que você. Acho que já sei como fazer uma mediação a essa altura. Além disso — adicionou ele com um sorriso —, acredite se quiser, mas as crianças gostam de mim. É bem possível que Becca, e até mesmo sua fantasma companheira, escute com calma o que tenho a dizer. A maioria das pessoas escuta, sabe?
Tentei detê-lo o máximo que pude. Agora percebo que devia ter tentado mais. Devia ter ligado para Jesse – mesmo que ele estivesse na Cruzada recuperando o sono que havia perdido nas últimas 48 horas.
Atualmente, vejo que devia ter feito Gina ou Jake acordarem Jesse e mandar que ele impedisse o padre Dominic. Ou eu mesma devia ter ido com ele, ainda mais depois do aviso de tia Pru. Mas ele estava tão confiante, foi tão persistente ao dizer que podia lidar com tudo. E eu também estava cansada por não ter dormido direito, e preocupada, admito, com o que estava acontecendo com meu namorado.
E, na verdade, talvez tivesse sido insensível de minha parte ter tentado impedir a última mediação do padre Dominic (ou tentativa de mediação, na verdade). Foi até preconceito meu. Eu não queria ser acusada de discriminação por causa da idade de uma pessoa.
Sendo assim, tudo que falei foi:
— Ok, padre D. Se o senhor tem tanta certeza. Acho que posso ficar aqui e descobrir mais sobre o acidente a cavalo.
Ele fez que sim com a cabeça.
— Boa ideia.
Não foi uma boa ideia, não. No final das contas, foi uma péssima ideia.
Mas eu só soube disso quando a irmã Ernestine atendeu ao telefone no escritório dela algumas horas depois e exclamou um o quê?!
Só então eu soube o quão errada estava.

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