domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 11

Eu tinha aula às terças e quintas até 11 da manhã, o que era difícil para mim até mesmo quando não dormia tarde por conta de um ataque de uma Pessoa Morta Não Obediente.
Mas aquela quinta-feira de manhã foi especialmente difícil. Jake ficou superanimado com as visitas inesperadas – bem, pelo menos com uma delas. Fez com que eu e Gina ficássemos acordadas conversando durante horas, falando sobre todo e qualquer tema que passasse por sua mente, incluindo, mas não apenas: o que Jake faria se encontrasse o “cara bizarro” que estava seguindo a gente (foi a desculpa que Jesse deu a ele – e a Gina – para justificar os planos repentinos de passar a noite no rancho); a falta de gosto nas pizzas de massa fina; o que fazia com que uma onda fosse perfeita, e por que ele era tão bom em surfar; e como era injusto que não seria o padrinho de honra de meu casamento.
Para evitar qualquer indisposição, Jesse escolheu todos os meus meios-irmãos como padrinhos no casamento, combinando com minhas três madrinhas: Cee Cee, Gina e a esposa de Brad, Debbie. Ninguém estava feliz com a última escolha, mas era um mal necessário, já que minhas sobrinhas eram as daminhas, e precisávamos manter os pais delas por perto para controlá-las durante a cerimônia.
Nem eu, nem Jesse escolhemos um padrinho ou madrinha de honra. Achamos que seria má ideia escolher favoritos.
Jake tinha várias coisas a dizer sobre tudo isso, e foi legal ver Gina rindo das piadas dele (ainda mais sabendo como ela andava deprimida ultimamente por causa da carreira estagnada).
Eu, no entanto, sentia dificuldade em prestar atenção na conversa. Ainda não havia recebido mensagens de Shahbaz nem do padre Dominic e, mesmo que tenha tomado banho assim que cheguei na Cruzada, ainda podia sentir o cheiro de cloro no cabelo.
Além disso, os arranhões que Lucia deixou em meu pescoço estavam ardendo (escondi as marcas embaixo de um casaco de gola alta para não ter de responder a perguntas constrangedoras).
Talvez por causa disso eu não tenha conseguido dormir quando Gina e eu fomos para a cama de Jesse, mesmo que já fossem mais de 3 da manhã. A cama era kingsize; achei que não fazia sentido que uma de nós dormisse no sofá, levando em consideração que provavelmente havia um bebê fantasma homicida nos vigiando.
De qualquer forma, tenho esse problema toda noite. Mesmo que eu torne bem relaxante o ambiente onde vou dormir (seguindo conselhos de revistas e de minha terapeuta), sempre acabo acordada tentando não pensar nos problemas.
No entanto, visto que a maioria de meus problemas eram relacionados a PMNOs e que estas gostavam de fazer visitas noturnas – principalmente ao lado de minha cama – elas provavelmente eram a fonte de minha insônia crônica.
Mas é claro que eu não podia falar isso para minha terapeuta, a Dra. Jo. Nem sobre a discussão que tive com seu falecido marido no estacionamento da faculdade, ao lado da Mercedes dela, depois de nossa primeira consulta. Não há programa de aconselhamento que vá graduar uma aluna que acredita se comunicar com os mortos. Não fica bem nos panfletos sobre os alunos.
Falei para ela que não conseguia dormir por estresse relacionado à escola. A Dra. Jo tinha quase 70 anos e cabelos prateados, mas era bem alerta, bem parecida com o padre Dominic. Mas, ao contrário dele, ela vestia cores fortes e até usava batom vermelho, apesar de ter se tornado viúva recentemente. Seu marido – a PMNO que gostava de ficar no estacionamento da faculdade – disse que ela fazia isso a fim de parecer alegre para os pacientes.
Ela me deu a receita para um remédio – apenas trinta pílulas para dormir, sem direito a reposição – e me avisou que era forte. O melhor seria combater a insônia com exercícios. Eu já havia pensado em fazer yoga? A faculdade oferecia várias aulas. Aceitei o remédio, mas jamais tomei – nem entrei para a aula de yoga. Eu mal conseguia ficar sentada tempo o suficiente para ver um episódio inteiro de The Bachelor (o show favorito de Gina). Seria impossível resolver meus problemas com a posição do cão olhando para baixo.
Por algum motivo, naquela noite em que o sono não vinha, em vez de contar pacientemente as almas dos mortos que ajudei a seguir em frente, como sempre faço, fiz uma coisa mais insana que yoga. Algo que certamente seria meu próximo erro.
Mas é claro que fiz mesmo assim.
A Lua havia aparecido e banhava o quarto de Jesse em uma luz azulada – Spike, seu gato amarelo, observando Romeo pelas barras da gaiola com extremo desinteresse; Gina, respirando de forma profunda e satisfeita ao meu lado. Era difícil acreditar que maldições egípcias, empreendedores malignos e demônios existiam.
Mas existiam, sim. Eu tinha marcas ao redor do pescoço para provar. E na próxima vez, meu noivo talvez não fosse me salvar, pois ele mesmo poderia ser a pessoa fazendo as tais marcas.
Talvez tenha sido esse pensamento que me fez rolar para o lado da cama, pegar o celular de cima da pilha de livros de poesia antiga e textos médicos que Jesse usava como mesa de cabeceira, e mandar uma mensagem para Paul:

OK. A gente se vê na sexta no Mariner's às 8.
Nov 17 3:32 AM


Não era de se espantar que eu não tenha conseguido prestar atenção nenhuma na aula de estatística na manhã seguinte (aula obrigatória, quatro créditos); passei a aula toda procurando por outras referências à Maldição dos Mortos na Internet (havia várias, mas todas relacionadas a filmes com múmias). Eu estava um caco quando finalmente cheguei ao trabalho.
O que eu fiz?
A sensação de horror por mim mesma foi provavelmente o que catalisou minha demora em perceber o enorme vaso de rosas brancas que esperava por mim na mesa.
Isso, e também o fato de que o pessoal da limpeza tinha claramente estado ali. As persianas estavam de volta no lugar – e, como sempre, haviam sido levantadas para deixar que o sol que queimava a neblina da manhã entrasse na sala – e a irmã Ernestine deve ter recebido alguma ajuda dos alunos para arrumar os arquivos.
Foi assim que finalmente percebi as rosas. Deviam ser pelo menos duas dúzias delas, e mais alguns lírios brancos e outras flores tão exóticas que eu nem fazia ideia do que eram, tudo em um vaso enorme – e certamente caro – de cristal em minha mesa.
Não havia ninguém ali – nenhum turista apreciando o jardim, nenhum aluno assistente, todos os escritórios fechados – o que significava que todos já haviam saído para almoçar (eu estava mais atrasada que nunca, visto que parei na loja para comprar sal. Eles não tinham tanto. Eu também teria de ir ao supermercado).
Surpresa, me debrucei para cheirar as flores, algo que eu certamente não teria feito no trabalho se alguém estivesse olhando. Não queria que as pessoas achassem que eu era uma romântica que cheirava flores.
Mal podia acreditar que Jesse fez algo tão inacreditavelmente fofo e extravagante, ainda mais quando eu havia dito na noite anterior que não ligava para coisas materiais.
Mas mandar flores depois de um ataque quase fatal? Isso era exatamente o tipo de coisa que ele faria. Era por isso que eu ia me casar com ele. Como é que alguém podia achar que havia maldade naquele corpo?
Havia um cartão dentro de uma das pétalas. Abri o envelope grosso e caro, ansiosa para ler a mensagem incrível e romântica que Jesse havia escrito.
No entanto, quando vi a mensagem, percebi que não era nada incrível, muito menos romântica. As flores não eram de Jesse. Toda minha animação foi sugada, e eu me senti preenchida por um medo gelado e afiado.

Contando as horas para amanhã.
Obrigada por dizer sim.
Não vai se arrepender.
Paul

Larguei o cartão como se meus dedos tivessem incendiado.
— Que porra é essa?
Só me dei conta de que havia falado alto quando a porta do escritório do padre Dominic se abriu e ele saiu, apressado.
— Suzannah, é você? Ah, que bom, finalmente você chegou. Achei que tivesse ouvido sua voz.
Eu quase dei um pulo.
— Ah, oi, padre D. — Eu me abaixei desajeitadamente para pegar o cartão. — Não percebi que o senhor estava aqui.
— Claro, claro. Estava esperando para falar com você antes de almoçar. Ah, você recebeu flores.
— Recebi; sim. — Engoli saliva. — Quando elas foram entregues?
— Hoje bem cedinho — disse o padre Dominic. — Causaram um grande impacto. Falei para todo mundo que deviam ser de seu noivo, e não como agradecimento de algum pai de aluno. As pessoas aqui sentem ciúmes com muita facilidade.
Eu devo ter feito alguma expressão facial estranha, pois o padre Dominic ergueu uma das sobrancelhas cor de neve e perguntou:
— Elas são de seu noivo, não são, Suzannah?
— Sim, claro que são. — Fiz uma bola com o cartão e a joguei na lata de lixo embaixo de minha mesa. — Não é um fofo? Não devia ter feito isso.
— Depois do que aconteceu ontem à noite? É claro que devia. — O padre Dominic deve ter percebido que eu não estava entendendo. — Acabei de falar com ele ao telefone. Ele me contou o que aconteceu no apartamento. Que experiência assustadora. Ainda bem que você está bem.
— É, ainda bem. — Obrigada, Jesse. — O senhor, hum, mencionou as flores?
— Não, por que faria isso? Você sabe que não gosto de me intrometer em seus assuntos particulares, Suzannah.
Não consegui conter uma risada, o que fez com que ele completasse:
— Não mais do que já faço, é claro. Suzannah, o que você está vestindo?
Olhei para mim mesma.
— O quê, isto? É uma saia.
— O comprimento não é nada modesto.
— Está falando sério? O comprimento é modesto, sim. E isto aqui embaixo da saia é uma legging. O senhor deve conhecer, existe desde que o senhor nasceu; um período também conhecido como Idade Média.
— Mesmo assim, você provavelmente vai ter de se trocar. A irmã Ernestine não vai gostar nada disso.
— Trocar? E colocar o quê, padre D? Eu mal saí de meu apartamento com vida ontem à noite. Não tenho outra roupa. Além do mais, quando Jesse me vir usando isto, talvez exista uma chance de ele mudar de ideia em relação a essa coisa toda de abstinência antes do casamento.
O padre Dominic revirou os olhos.
— Por que você não para de demonizar o menino, Suzannah? Ele já sofreu o suficiente para uma vida, ainda mais para duas.
Eu, demonizando Jesse? Ah, sim.
— Então foi para isso que o senhor deixou de almoçar, padre D, para poder não se envolver em meus assuntos pessoais? — Fui até a cadeira atrás da mesa, onde eu podia me sentar e esconder a saia tão reveladora. — Está se saindo muito bem.
— Você sabe muito bem por que deixei de almoçar. Precisamos conversar sobre o espírito que a atacou.
— É — respondi. — Bem, vamos começar pelo começo. O senhor recebeu minha mensagem sobre o...
— Suzannah, quero pedir desculpas a você.
Isso me fez prestar atenção.
— Desculpas? Por quê? — Eu nem me lembrava da última vez que o padre Dominic me pediu desculpas. Provavelmente nunca. — Porque não respondeu minha mensagem?
— Por causa do que aconteceu ontem à noite. — O padre Dominic se sentou em uma cadeira igual a minha do outro lado da mesa, a mesma em que Becca havia se sentado no dia anterior, enquanto eu fazia o curativo em seu braço. Ele precisou se sentar em um ângulo estranho para conseguir me ver atrás do buquê gigante. — Jesse me deu um belo sermão, e acho que não posso culpá-lo. A irmã Ernestine também me deu a própria versão hoje de manhã, mas, como você sabe, ela não conhece a história toda. Simplesmente não sei como pude deixar passar. Fiz um discurso de boas-vindas há alguns meses para todos os alunos. Fiquei de frente para cada turma e falei com eles pessoalmente. Como deixei de ver que Becca Walters estava sendo vitimada por uma...
Eu o interrompi.
— Ela se esconde, padre. É uma fantasminha traiçoeira mesmo. Ela se esconde até achar que Becca está em perigo, aí ataca. Mal vi que ela estava aqui, e fiquei no escritório sozinha com a garota. Eu não fazia ideia do quão poderosa ela é, até que me pegou sozinha, em casa, em minha piscina.
O padre Dominic balançou a cabeça.
— Mas quem é ela? Do que uma menina tão nova pode ter tanta raiva?
— Não sei, padre. Só sei que o nome dela é Lucia. Cee Cee Webb está tentando descobrir mais. A chave de tudo, eu acho, é Becca. O senhor sabia que Kelly Prescott se casou com o pai da garota?
— Claro. Presidi a cerimônia no verão passado, o que faz com que meu erro seja ainda mais imperdoável. Você não lê o informativo sobre os alunos, Suzannah? Acho que é sua amiga Cee Cee que os escreve.
Peguei uma das pilhas de documentos que uma das assistentes deixou na mesa e, para evitar contato visual, comecei à organizá-la.
— Hum, devo ter pulado essa edição.
Não achei que valia a pena dizer que eu havia sido convidada para o casamento e não fui. Era problema meu.
O mais preocupante era que ele celebrou a cerimônia de casamento e ainda assim não viu a menina fantasma. Eu não ia falar isso em voz alta, mas Jesse parecia estar certo – o padre D estava perdendo o talento. Eu estava apenas tentando fazer com que ele se sentisse melhor quando falei que Lucia era difícil de detectar. Mas um fantasma em um casamento?
Difícil não ver. Muito difícil.
Talvez ele não fosse a melhor pessoa para eu perguntar sobre a Maldição dos Mortos, afinal...
Para um homem da idade dele, o padre Dominic ainda era considerado um bom partido no circuito sênior (se não fosse pelo voto de castidade que fez logo depois de perder o amor de sua vida, uma jovem que, assim como Jesse, estava morta na época. Mas, ao contrário de Jesse, ela permaneceu assim).
O cabelo branco como a neve tinha um corte impecável e nenhuma sugestão de calvície, e, com seus 1,80 metro de altura, ele não era curvado nem usava bengala, graças a uma vida boa e limpa (exceto pelo hábito não tão secreto de fumar). Mas era incurável quando se tratava de eletrônicos (e de músicas modernas), e qualquer piada com sugestões remotamente sexuais o deixava constrangido. E agora, pelo visto, não estava mais tão em contato com o mundo espiritual quanto costumava estar.
Eu não sabia ao certo como lidar com aquilo. Ainda não haviam isolado o cromossomo que determinava se você tinha talento para a mediação, embora algumas evidências indicassem que era um traço herdado. Os cientistas não estão muito interessados em admitir algo como fantasmas, então nenhum deles tem pressa de formular um teste que indique se uma pessoa tem meu “dom”. Ou você vê gente morta, ou não vê – do mesmo jeito que você tem intolerância a glúten, ou não.
O padre Dominic costumava vê-los. Agora, pelo visto, não mais. Pelo menos não quando preciso que o faça.
— Hum, enfim — falei. Achei melhor mudar de assunto. — Acho que realmente consegui estabelecer uma comunicação boa com Becca ontem, então...
— Ah, isso é evidente — disse o padre Dominic, seco. — Principalmente considerando o estado deste lugar quando cheguei hoje de manhã.
Olhei para ele com raiva.
— O senhor se formou em que ano? E quantos diplomas em aconselhamento eles pediam naquela época?
Ele ignorou essa provocação ao fato de que não tinha treinamento formal.
— Então como você sugere que lidemos com essa situação, Suzannah? Preciso admitir que, embora sua metodologia seja diferente da minha às vezes, você geralmente acerta em cheio. Jesse, por outro lado, me parece ter o que chamo de uma visão não muito útil das coisas...
— Ah, eu tenho certeza de que ele tem — respondi, e me lembrei da expressão em seu rosto quando me pescou da piscina. — Pensei em tirar Becca de sala na quarta aula e trazer ela até aqui para uma conversinha amigável. Nada ameaçador, claro. Não quero assustar Lucia.
— Seria um plano excelente se não fosse pelo fato de que Becca não veio à escola hoje.
— Peraí... o quê?
Ele mostrou o arquivo que trazia embaixo do braço.
— Kelly Prescott, quero dizer, Walters, ligou hoje de manhã para avisar que a enteada não estava se sentindo bem e não compareceria à escola hoje.
Desanimador.
— Ah.
— A irmã Ernestine deixou isto sobre minha mesa hoje de manhã. — O padre Dominic tirou o arquivo de baixo do braço e o mostrou para mim. — É o histórico de Becca Walters. Não sei como a irmã conseguiu achar naquela bagunça toda, mas conseguiu. Acho que você não deve ter lido.
— Devo ter deixado passar enquanto fazia o curativo muito necessário em Becca e impedia que sua amiga me matasse.
Eu sabia que não adiantaria muito contar ao padre D que, mesmo que eu tivesse conseguido ler o histórico de Becca, não daria muito crédito para o que diz. Tenho muito respeito pelos professores, que são algumas das pessoas mais trabalhadoras (e mal remuneradas) do mundo.
No entanto, um dos motivos que me faziam gostar do campo de aconselhamento é que me permitia ajudar a crianças que eram como eu fui – crianças que têm dons que não podem ser medidos em testes de aptidão, nem quantificados com notas de testes.
Outro motivo é que, quanto mais pessoas eu puder ajudar a resolver seus problemas agora, enquanto vivas, menos trabalho terei com elas depois, quando morrerem.
E também fazia sentido do ponto de vista financeiro. Enquanto terapeuta, vou ser paga pelo trabalho que faço – por clientes vivos, que têm coisas do tipo seguro e cartões de crédito. Pegar dinheiro de gente morta não me agrada (embora Paul jamais sofresse com esse dilema moral).
— Quatro escolas diferentes na região em dez anos — disse o padre Dominic, os óculos para leitura na ponta do nariz, folheando o arquivo de Becca. — Sendo esta a última. Ela tira boas notas e é bem inteligente... foi por isso que a aceitamos, é claro.
— A bela doação que o pai fez também não deve ter machucado, certo?
Ele me lançou um olhar firme por cima do óculos.
— Não aprecio sarcasmo, Suzannah. Tratamos todos os alunos da mesma forma, como você sabe, independentemente de serem bolsistas ou se pagaram a matrícula integral. Mas me parece que Becca teve problemas emocionais. Pelo visto, sofreu bullying na escola anterior.
— Não é tão difícil entender por quê.
— Mais sarcasmo? As outras crianças não veem que a coitada é assombrada.
— É claro que não. Mas ela tentou talhar a palavra idiota no próprio braço com um compasso no meio da sala. Elas podem até não conseguir ver Lucia, mas com certeza entendem que tem alguma coisa errada com Becca. Os alunos menos iluminados vão naturalmente sacanear a garota por conta disso.
O padre Dominic deu um suspiro.
— Se você falar dessa maneira sobre os alunos na frente da irmã Ernestine, será extremamente difícil convencê-la a contratá-la por tempo integral, com pagamento. Você entende isso, não entende, Suzannah?
Também soltei um suspiro.
— Especialmente se eu me vestir de maneira imodesta. Ok, padre, eu entendo. Eu mando o blá-blá-blá sensível na frente da freira, tá? Mas nesse meio tempo a gente precisa descobrir quem é Lucia, e do que ou de quem ela acha que está protegendo Becca, antes que proteja a menina até a morte. Esse histórico diz alguma coisa sobre cavalos?
— Cavalos? — O padre Dominic ficou surpreso. — Não. Por quê?
— Lucia veste roupas de montaria e está sempre com um cavalo de pelúcia. O senhor sabe que os mortos geralmente aparecem com as roupas que estavam antes de bater as botas. — Ele me censurou com um olhar. — Hum, as roupas nas quais se sentiam mais vivas. Becca tem um pingente de cavalo. Ela fica girando-o quando está nervosa. Os cavalos são a única coisa que encontrei conectando as duas.
— Cavalos — murmurou padre Dominic, e folheou o arquivo Montaria. — Não tem nada aqui sobre... — Ele congelou de repente, como se tivesse visto alguma coisa no papel. — Ai, nossa.
— O quê? Que foi?
— Engraçado você mencionar isso agora, Suzannah. Porque acho que me lembro, sim, de uma menina que...
Os olhos azuis ficaram distantes enquanto observavam, através da vidraça, um grupo de turistas de meia-idade que havia acabado de sair de um ônibus na frente da missão. Agora estavam no jardim, tirando fotos e admirando flores e estátuas e chafarizes. Era estranho estudar numa escola que também era um destino turístico, e mais ainda trabalhar nela – especialmente considerando todo o dinheiro que aqueles visitantes gastavam na lojinha de presentes (e a escola ainda não conseguia arrumar um salário para mim).
Mas o padre Dominic parecia não notar, realmente, os excursionistas do Centro-Oeste.
— Sabe, acho que me lembro de um acidente com uma criança cavalgando. Apareceu há algum tempo no jornal, aquele em que sua amiga, Srta. Webb, trabalha. Pode muito bem ter sido quando os problemas de Becca começaram.
O padre Dominic começou a mexer no arquivo, até que viu alguma coisa. Ele parou de folhear e bateu o dedo em uma das páginas, falando com uma voz mais animada:
— Sim, sim, exatamente, achei. Agora eu me lembro. Aqui diz que Becca estudou na Academia da Sagrada Trindade no primeiro e no segundo ano do ensino fundamental. Deve ter sido na mesma época em que aconteceu.
— Em que o que aconteceu? — Eu o amava como se fosse meu avô, mas, bem como meu próprio avô, de vez em quando ele me enlouquecia. Eu tinha a sensação de que sabia o que ele diria caso eu mencionasse Paul: Bem, o que você tem feito, Suzannah, para provocar o menino?
— O acidente — disse ele. — Não tem nada no arquivo de Becca, o que é estranho. Mas acho, sim, que Becca deve ter conhecido a menina. Deviam ser do mesmo ano... talvez até da mesma aula de montaria. Não tem outra forma de explicar a conexão tão intensa...
— Peraí — falei. — O senhor acha que Lucia é a menina no acidente?
— Explicaria muita coisa. Becca teria ficado traumatizada com uma tragédia dessas.
— Que tragédia? — perguntei. — Não que um acidente com cavalos não seja terrível, e é sempre péssimo quando uma criança morre, mas...
— Não foi um acidente qualquer — revelou o padre Dominic. — Esse foi horroroso, e é por isso que eu me lembro dele, mesmo depois desses anos todos. A menina em questão, que era bem jovem, estava cavalgando com o instrutor quando o cavalo se espantou com alguma coisa. Ele disparou, mas a menininha conseguiu ficar em cima dele.
— Montada. Acho que se diz montada, e não em cima... ela não foi jogada longe?
— Não no começo. Eu me lembro de o artigo dizer que ela possuía bastante habilidade para a idade. Foi como conseguiu se manter montada por tanto tempo, e foi por isso que demoraram tanto para encontrá-la. E quando conseguiram...
— O que aconteceu?
— ... Era tarde demais.

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