terça-feira, 13 de setembro de 2016

Capítulo 11

— A sua mãe nunca alertou você sobre o que pode acontecer quando moças entram no quarto de rapazes durante reuniões sociais? — perguntou Jesse enquanto tirava Zack Farhat de cima de mim. — Pode ser prejudicial à saúde.
— Ah, claro. — Agora que conseguia respirar de novo, me sentei e avaliei a situação das minhas costelas com cuidado. Nenhuma parecia quebrada, mas eu certamente ficaria com hematomas. Não daria para nadar nas próximas semanas. — Bota a culpa na vítima. É o que todo mundo faz.
— Não estou falando de você, mi amada — disse Jesse. O seu olhar escuro, geralmente tão cheio de calor (exceto quando ele estava pensando sobre o tempo em que era membro dos mortos-vivos, é claro), estava frio de tanto desprezo, mais do que eu me lembrava de ter visto antes, e focado em Zack. — Quis dizer que pode ser prejudicial à saúde dos rapazes.
Ele acendeu as luzes do quarto – a eletricidade parecia funcionar perfeitamente agora que a tempestade havia acabado – e vi que ele não havia soltado o punho do Zack.
Na verdade, ele o torceu, dobrando o braço do garoto em direção às costas em uma submissão dolorosa que eu sabia que meu meio-irmão Brad, que ainda era obcecado por lutas, provavelmente admiraria.
— Me solta, babaca. — Zack lutou contra o seu captor, mas logo percebeu que quanto mais lutava, mais doloroso ficava o aperto de Jesse. — Sério, para. Tá machucando mesmo. Quer que eu chame o meu pai? Porque vou chamar, seu filho da...
— Eu estou bem aqui, Zakaria — disse uma voz séria à porta.
Embora fosse um pouco doloroso virar a cabeça, olhei na direção da voz e vi que um senhor bem-vestido – pela sua expressão de horror, presumi que era o Dr. Farhat – havia subido as escadas atrás de Jesse, assim como a mãe do Zack.
Assim como o prefeito. Assim como o procurador público. Assim como o chefe de polícia.
Nossa. Era tipo uma coleção de profissões de Carmel-by-the-Sea.
— Nós ouvimos um barulho terrível — disse a Sra. Farhat, pálida por debaixo da maquiagem elegante. Ficou olhando para mim, sentada nos escombros da estante do filho dela. Zack ainda tinha livros da infância: a coleção completa de Harry Potter, e Good Dog Carl. Eu devia estar ridícula sentada no meio deles.
Mas não devo ter parecido tão ridícula quando eles abriram a porta e viram o Zack em cima de mim com o punho fechado no ar.
— Resolvemos vir checar o que diabos estava acontecendo aqui. Mas não sei se quero saber. — A Sra. Farhat parecia tão horrorizada quanto o marido. — O que você estava fazendo com ela, Zakaria?
— Eu? — choramingou Zack. — Mãe, você não pode estar falando sério. Foi ela quem começou. Estava tentando dizer que eu matei a Jasmin! Como se eu fosse fazer uma coisa dessas. Você sabe o quanto eu amava a Jasmin. A gente tinha uma conexão especial. Até você e o papai viam. Vocês costumavam dizer que achavam que a gente ia se casar um dia...
— Ah, Zakaria. — Os olhos escuros da Sra. Farhat estavam cheios de compaixão pelo filho... mas havia outro sentimento também.
Um que eu reconheci.
Receio. Ela sabia. Sabia o que estava por vir.
— Seu pai e eu só falávamos isso brincando, Zakaria — continuou ela. — Era só uma brincadeira entre nós dois porque, quando vocês eram pequenos, se davam tão bem. Mas era só uma maneira de falar. Não havia intenção nenhuma quando falamos...
— Não havia intenção nenhuma? — Zack estava irado. — Mas a Jasmin e eu tínhamos uma coisa especial, sim. E aí ela teve que estragar tudo quando...
— Zakaria! — Os olhos da Sra. Farhat se arregalaram. O receio estava virando medo.
Meu coração se encheu de pena da pobre mulher. Como deve ser quando você percebe que deu à luz um monstro?
— Não estou entendendo o que está acontecendo aqui — disse o Dr. Farhat.
Estava claro que ele ainda não havia percebido o mesmo que a esposa, o que o filho deles realmente era. Via apenas a devastação no quarto, as folhas e partículas que foram trazidas pela tempestade, a tela de plasma estourada, a prateleira destruída e eu no chão...
...e as fotos de Jasmin Ahmadi, que tomavam quase todo o chão, até o carpete aos pés do chefe de polícia. Algumas voaram até o corredor quando Jesse abriu a porta.
Ele ainda não entendia o que as fotos significavam, e também não conseguia ver – porque ninguém conseguia, a não ser eu e Jesse – o fantasma de Mark Rodgers, ainda de pé às portas francesas, observando, esperando para ver se a justiça realmente seria feita, como eu havia prometido.
— O que aconteceu? — perguntou o Dr. Farhat, lançando olhares nervosos para a mesa onde as velas de devoção ainda estavam. A única foto que restou foi a de Zack e Jasmin vestindo fantasias de Halloween. O médico parecia estar começando a juntar os pontos. — Por que essa garota diria que o Zakaria matou a Jasmin?
— Porque ela é uma vaca mentirosa! — berrou Zack, e tentou vir para cima de mim.
Mas o aperto do Jesse era forte demais, e ele só conseguiu se machucar ainda mais. Berrou outros alguns palavrões para mim, no entanto, fazendo com que o pai o interrompesse, furioso.
— Chega! Não admito esse tipo de linguagem na minha casa!
O Dr. Farhat se virou para o prefeito e o chefe de polícia e falou educadamente:
— Peço desculpas. Não sei o que deu no meu filho. Talvez seja a tempestade. Ou talvez... bem, ele passou por um choque muito grande. Na verdade, vem agindo dessa forma desde a morte da prima, Jasmin Ahmadi. Ele levou um baque (todos nós levamos) muito forte.
A Sra. Farhat olhou para mim. Seus bonitos olhos escuros estavam cheios de compaixão e resignação.
— E você está bem, querida?
— Não muito — falei. Eu não queria fazer aquilo, ainda mais com ela, que parecia tão gentil, mas era preciso. Prometi para o Mark. E matar monstros é o meu trabalho. — Eu virei no corredor errado a caminho do banheiro, seu filho e eu começamos a conversar, e de repente, do nada, ele teve um surto e tentou me matar.
— Sinto muito — murmurou a Sra. Farhat, ainda que o filho tivesse voltado a berrar que eu era mentirosa.
Só que dessa vez, todo mundo ignorou. O promotor público ofereceu a mão e me ajudou a me levantar. Senti o olhar preocupado do Jesse em mim, então tentei não me apoiar tanto quanto queria na mão do homem alto. Em vez disso, me apoiei casualmente na parede quando ele soltou a minha mão, tentando parecer como se eu sempre me apoiasse em paredes, e não como se estivesse machucada da porrada que eu havia acabado de levar.
A julgar pela expressão do Jesse, vi que pelo menos ele não se deixou enganar.
— Eu pensei em cancelar a festa — continuou a Sra. Farhat, olhando para baixo. — Talvez fosse melhor. Mas é tão popular, e arrecada tanto dinheiro pra caridade...
— Não precisa se desculpar, senhora — disse o chefe de polícia. — Nós entendemos. — Ele havia se inclinado para pegar uma das fotos da Jasmin, a qual estava examinando. Ela havia pegado chuva, e as pontas estavam danificadas por causa do vento. — Posso ver que os dois jovens eram bem próximos.
— É, eram — disse o Dr. Farhat distraidamente. Parecia ainda estar tentando entender o que via e ouvia, como se o filho mais novo fosse um coração que abriu na mesa de operação e descobriu que estava doente demais para ser curado. — Quando eram bem novinhos. Não tão próximos quando envelheceram, é claro, mas...
— A culpa é sua — retrucou Zack. — Talvez, se você e os pais dela tivessem sido mais rígidos, ela teria feito o que tinha que fazer e aceitado se casar comigo em vez de com aquele...
Ele disse uma palavra tão imunda que todo mundo se virou de súbito em sua direção, especialmente o promotor público, que, assim como Mark Rodgers, era da raça que o palavrão atacava.
Foi quando a Sra. Farhat avançou dois passos e deu um tapa na cara do filho. Agora que a chuva havia parado – e a festa lá embaixo também estava estranhamente silenciosa – o único som ambiente era o bater rítmico das ondas do oceano. Desse modo, o som estalado do tapa soou surpreendentemente alto. Pareceu chocar as pessoas no quarto mais do que a palavra que Zack usou.
— Como você ousa falar isso? — indagou a Sra. Farhat, olhos negros cheio de fúria. — Como ousa usar essa palavra na minha casa?
— Mas é verdade — insistiu Zack. Seus olhos estavam brilhando, e eu sabia que não era por vergonha de si mesmo. Ele era incapaz de sentir vergonha. Suas lágrimas eram uma mera reação à dor que a mãe causou. — Ela ia desgraçar a nossa família. Ia humilhar todo mundo, especialmente a mim. Ela ia me humilhar. Você não percebe isso? Por que nenhum de vocês percebe isso?
O chefe de polícia e o promotor público com certeza perceberam alguma coisa, isso é certo. Tive certeza disso por causa do olhar que eles trocaram. O chefe de polícia tossiu para limpar a garganta.
— Hum, com licença, filho — disse ele com uma indiferença elaborada. — Você por acaso se lembra de onde estava na noite em que sua prima morreu?
— Com a sua esposa — respondeu Zack com um sorriso sarcástico.
O Dr. Farhat tapou o rosto com as mãos.
— Zakaria — murmurou. — Ai, Zakaria.
A Sra. Farhat havia retomado sua cor natural... e o instinto materno.
— Meu filho é um tolo, é verdade. Mas não há provas de que seja um assassino.
— Na verdade, há, sim. — A voz grave de Jesse foi gentil.
E antes que o garoto pudesse resistir, Jesse puxou uma das correntes de ouro em seu pescoço até que o objeto preso nela saísse de dentro da gola.
Era um anel. Um diamante solitário em um aro de ouro.
O promotor público atravessou o quarto em um segundo. Segurou o anel com dedos fortes.
— Este é o anel de noivado que o menino Rodgers deu pra namorada — disse ele para ninguém em especial. Ele se inclinou para examiná-lo mais de perto. Zack tentou se afastar, mas Jesse o segurou com mais força ainda. — Tem as iniciais deles exatamente como o menino descreveu. MR e JA 4EVER.
Mark, que finalmente havia saído do lado das portas e estava no centro do quarto, murmurou os dizeres junto com o promotor.
As lágrimas reluziam nos seus olhos por trás dos óculos.
— Eu arrumei dois empregos depois das aulas pra comprar esse anel — disse ele. — Custou 2 mil dólares. Mas a Jasmin vale. — Ele se engasgou. — Valia. Diamantes duram pra sempre.
Ele começou a chorar.
— Você deve ter uma boa explicação sobre onde encontrou esse anel, garoto — disse o chefe de polícia. Segurou o braço do Zack e fez um gesto de cabeça para Jesse indicando que estava no controle dali em diante.
— Talvez a sua esposa tenha dado o anel pra ele — disse o promotor. — Enquanto eles estavam juntos na cama na noite do acidente.
— Isso teria sido uma grande mágica — disse o chefe de polícia — porque ela estava comigo, vendo o jogo do Lakers.
— Não se preocupa, Zakaria — disse a Sra. Farhat enquanto o filho era levado do quarto pelos dois homens, relutante. — Nós vamos contratar o melhor advogado que pudermos. Rashid — ela deu um soco no braço do marido, que parecia hipnotizado — liga pro seu irmão. — Olhou para mim antes de sair do quarto, quase como se tivesse se esquecido de perguntar. — Você está bem mesmo?
Jesse havia atravessado o quarto para passar um braço pelos meus ombros. Eu acho que conseguiria ficar de pé sozinha, mas era bom ter um braço forte e masculino onde me apoiar – ainda mais um que vinha com um corpo tão alto e atraente.
— Estou bem — falei, embora soubesse que estava exagerando. Eu ia ficar dolorida no dia seguinte... mais do que estava naquele momento.
Ainda assim, ela era uma senhora gentil, e tinha preocupações o suficiente.
— Que bom — disse ela, e conseguiu dar um sorriso que era tão caloroso quanto pesaroso. — Peço desculpas pelo... pelo... bem, pelo meu filho. Tenho outro menino, o irmão mais velho do Zakaria. Ele faz faculdade em outra cidade, como o seu amigo. — Ela olhou para Jesse, e o sorriso se iluminou. — Temos muito orgulho dele. Está estudando para virar pianista. É muito talentoso. — O sorriso diminuiu. — O Zakaria sempre deu dor de cabeça. E agora... — O sorriso desapareceu completamente. — Me diz uma coisa... você vai prestar queixa contra o meu filho? Eu entenderia se fizesse isso. Mas eu gostaria... bem, gostaria de estar preparada.
— Não — falei. — Não vou prestar queixa contra o seu filho, Sra. Farhat.
Ela pareceu aliviada... mas apenas até ouvir o que falei em seguida.
— Mas, Sra. Farhat, acho que a senhora precisa se preparar pra outra coisa. A senhora pagou por algum conserto na caminhonete do seu filho recentemente? Ele fez algum retoque na tinta, ou trocou o para-choque? Alguma coisa desse tipo?
— A caminhonete dele...
Uma nuvem negra – mais negra do que as que estavam lá fora durante a tempestade – passou pelo rosto dela. Eu tive a certeza de que nesse momento ela soube a verdade, sem sombra de dúvida. O anel era uma coisa. Ninguém jamais conseguiria provar que o filho dela tirou o anel dos dedos da Jasmin enquanto ela estava morta nos escombros do veículo incendiado do Mark, embora eu não tivesse dúvida alguma de que tenha sido isso o que aconteceu. Zack poderia dizer que foi visitar o local do acidente enquanto lamentava a morte da prima e encontrou o anel jogado na beira da estrada.
Mas os consertos na caminhonete – que tenho certeza de que os Farhat bancaram sem fazer perguntas, como faziam com todas as contas do filho – eram outra coisa. Eles jamais conseguiriam justificá-los. Cobranças de oficina no cartão de crédito, assim como diamantes, eram para sempre.
E, por causa delas, a Sra. Farhat faria a coisa certa – não pelo filho, mas pela Jasmin – e garantiria que Zack recebesse o que merecia.
— Deus nos ajude — disse ela. — Sim. Sim, entendi. Obrigada. Tenho que ir agora. Vocês podem sair sozinhos. Tenham uma boa noite.
Ela foi embora, deixando Jesse e eu no quarto quebrado do filho... com o fantasma do menino que ele matou, e que passou a noite toda tentando assassiná-lo para compensar.

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