domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 10

Comecei a achar que talvez realmente tivesse uma possibilidade de sair daquela viva.
Acho que Lucia pensou o mesmo; os dedos gelados como tentáculos em volta de meu tornozelo se afrouxaram. Eu a escutei soltar um último chiado furioso, então, com um show final de bolhas, como se a piscina inteira tivesse de repente virado o caldeirão de uma bruxa, ela desapareceu.
Depois disso, a água cristalina da piscina ficou tão estática quanto antes de eu mergulhar. Fora o filtro da piscina, os grilos e minha própria respiração pesada, a piscina do Condomínio Paisagem Montanha Carmel estava completamente silenciosa.
Até que Ryan, o vizinho do 2-B, chamou a gente da varanda.
— Ei! Vocês estão bem?
Jesse ainda me segurava pelo punho, me mantendo com metade do corpo fora d'água.
— Ela está bem — berrou ele para Ryan. — É só cãibra.
— Diz para ela que é por isso que se deve esperar meia hora depois de comer até entrar na piscina — respondeu o vizinho de brincadeira, e voltou ao programa a que estava assistindo.
Jesse não esperou nem um segundo para me puxar, encharcando a camisa e a gravata ainda mais, e me levar para a espreguiçadeira mais próxima.
— Suzannah, está tudo bem — disse ele, com uma expressão adorável que misturava raiva e ansiedade. — Ela foi embora.
— Eu sei que ela foi embora — respondi. Meus dentes começaram a bater involuntariamente. — Pare de ser dramático. Está molhando suas roupas de trabalho.
— Danem-se minhas roupas — disse ele. Era muito raro ouvi-lo xingar, pelo menos em inglês. Sou eu que tenho a boca suja nesse relacionamento.
Ele pegou a toalha, que estava em cima de minhas roupas, e me envolveu nela. A espreguiçadeira reclamou com nosso peso. A gerência do prédio não investiu muito alto na decoração ao redor da piscina.
— Você está tremendo — constatou ele. — Ela te machucou?
— Não. É só uma criança.
— Uma criança? — Ele riu, mas não havia humor na risada. — Uma criança que quase a matou. A gente vai descobrir quem ela é, e aí vamos... — Ele começou a xingar fluidamente, em espanhol.
— Jesse, pare com isso. O que está acontecendo? Sua especialidade é pediatria. Você devia sentir pena de criancinhas.
— Não dessa. Essa não tem chance alguma de ir para o céu. Ela vai ser exorcizada por mim diretamente para o inferno, que é de onde veio.
— Ela não veio do inferno. Está assustada e sofrendo.
— Acho que você a está confundindo com você mesma, amada.
— Não estou, não. A tia de Cee Cee falou isso. Ela tentou me alertar hoje na porta do café, mas não prestei atenção.
Jesse praguejou de maneira bem detalhada sobre a tia Pru. Embora tivesse falado em espanhol, entendi a ideia geral.
— Ela só estava tentando ajudar — falei em defesa de Pru —, e você sabe que ela está certa. Por que está fazendo isso? — Ele esfregava minha pele por cima da toalha.
— Você está em choque — disse ele. — Está com frio, molhada e tremendo. Estou tentando normalizar a temperatura e a circulação em suas extremidades. Não discuta comigo, sou médico.
— Não estou em choque — respondi. — Estou bem. Engoli muita água, mas ainda estou inteira. Pelo menos desta vez não estraguei minhas botas.
— Suas o quê?
— Minhas... esquece. E agora, o que você está fazendo?
— Compartilhando meu calor corporal para que você não tenha hipotermia. — Ele havia me colocado no colo dele. — Você se opõe?
— Ah, não, nem um pouco. — Passei os braços ao redor de seu pescoço e afundei o rosto em seu ombro, aproveitando o calor do corpo forte e o cheiro levemente antisséptico, sempre presente graças à quantidade de vezes que ele tinha de lavar as mãos. Acho que eu também não cheirava tão bem depois do banho de cloro que recebi de Lucia. — Como você soube que eu estava em perigo?
— Eu sempre sei. — Ele me abraçou mais forte, os lábios bem perto de minha orelha. — Eu a senti desde que saí do hospital. Ou senti alguma coisa. E quando tentei ligar e você não atendeu...
— Eu vim nadar. Meu telefone está no apartamento.
— Eu sabia que tinha alguma coisa errada quando perguntei se você queria brincar de médico mais tarde e você não respondeu — disse ele.
— Isso não é verdade. — Virei o rosto para que a boca de Jesse ficasse perto da minha, em vez de perto da orelha. — Respondi mucho gusto.
— Não recebi isso. Como seu espanhol consegue ser tão terrível depois desses anos todos?
Ele colocou a mão embaixo da toalha e tocou minha pele. Prendi a respiração.
— Você faz isso com todos os pacientes em choque?
— Não. — Ele me puxou mais para perto. — Só com você. Você tem tratamento especial.
Jesse me beijou.
Senti nossos corações batendo forte, separados apenas pela microfibra fina e úmida do maiô e pela camisa branca que ele havia usado para trabalhar. Ele pressionou meu corpo contra a espreguiçadeira, língua quente dentro de minha boca, mão quente em minha pele – e outro tipo de calor irradiando da frente do jeans justo.
Aquele jeans justo. Sempre me causando problemas. Quando não era o olhar que eu tinha de desviar, eram as mãos. Como naquele instante, por exemplo, ainda mais porque eu podia sentir o que fazia volume de maneira tão urgente na frente da calça, praticamente estampando os botões em minha coxa.
Mas eu sabia que, se abrisse aqueles botões e segurasse toda aquela glória masculina, a única coisa que receberia de volta seria um gemido e um pedido educado para que eu parasse de fazer o que estava fazendo. Eu tinha certeza porque já havia acontecido milhões de vezes. A determinação de Jesse em permanecer puro era admirável, porém bastante frustrante.
Eu sabia que ele não ia tirar minha roupa de banho e fazer aquilo em cima da espreguiçadeira bem no meio do pátio de meu condomínio. Primeiro porque seria meio nojento. Qualquer pessoa, incluindo Ryan, do segundo andar, podia ver a gente da varanda. Segundo, não foi assim que eu ou ele imaginamos nossa primeira vez.
Se bem que devo admitir: naquele momento, eu não estava dando a mínima. Eu gostaria de estar em qualquer lugar que não fosse naquela maldita piscina. Em meu quarto, por exemplo, ou no quarto dele na casa de Jake. Se bem que até mesmo nesses lugares ele sempre conseguia se conter e não tirar minhas roupas, ao passo que eu tinha muita dificuldade em fazer o mesmo. Talvez a maldição estivesse errada, e eu fosse a pessoa com um demônio no corpo...
— Suzannah — sussurrou Jesse em minha orelha depois de certo tempo.
— Eu sei. — Tirei a mão.
Ele se afastou de mim ao som dos protestos da espreguiçadeira e se virou de costas. Era difícil ter certeza sem ver o rosto dele, mas senti que estava sofrendo. Era um sentimento familiar.
— Não precisa ser assim — falei, depois de alguns momentos de silêncio total, a não ser pelos grilos.
— Precisa, sim — garantiu ele, olhando para o chão. — O casamento é só ano que vem.
— Dane-se o casamento.
— Seus pais adorariam ouvir isso depois de terem feito o depósito para a basílica e a festa.
— Você entendeu. Sei que não sou tão religiosa quanto você, mas realmente não acho que Deus vá se importar.
— Eu me importo.
— Mas a maioria das pessoas hoje em dia não espera até o casamento...
— A maioria das pessoas não deve tanto à noiva e à família dela quanto eu.
— Ah, pelo amor de Deus. Ninguém liga para isso.
— Eu ligo. O pior é que vim aqui para salvá-la, não para me aproveitar.
— Acho que nós dois tiramos uma casquinha, e o pouquinho que eu tive, gostei muito.
— Mesmo assim, você merece mais que isso.
— Tenho certeza de que sou a melhor pessoa para julgar isso. E decidi que mereço a honra de ser a esposa do Dr. Jesse de Silva há muito tempo. Não tem honra maior, em minha opinião.
O sorriso torto que ele me deu não tinha a menor pontada de humor.
— Obrigado pelas palavras carinhosas, mas o que tenho para oferecer a uma esposa? Não tenho família, não tenho dinheiro, só tenho dívidas; mais de 200 mil. Você sabe que, como residente, vou ganhar uma média de 12 dólares por hora, e para trabalhar oito horas por dia. É menos que o pessoal da limpeza ganha.
Fiz carinho no cabelo escuro e o afastei da testa dele.
— Sei o que você vai dizer porque já repetiu tantas vezes, mas lembre-se de que meus investimentos são suficientes para quitar as prestações mensais de seu empréstimo estudantil. Se você pelo menos...
Ele segurou minha mão tão repentinamente que por um momento vislumbrei a escuridão que Paul havia mencionado e que Jesse sempre mantém tão sob controle.
No entanto, um segundo depois ela já não estava mais ali, e ele colocou os dedos sobre os lábios.
— Obrigado de novo, mas você e sua família já me deram o suficiente.
— Está se esquecendo do quanto você me deu. Como agora há pouco, por exemplo.
Ele franziu as sobrancelhas, confuso.
— Agora há pouco?
— Minha vida, Jesse. Você me deu minha vida hoje. Como já fez um milhão de vezes antes, lembra? Um milhão e um se contar hoje.
Ele relaxou as sobrancelhas, e, dessa vez, quando sorriu, havia calor e bom humor.
— Ah, isso. Bem, foi o mínimo que pude fazer. Você acabou retornando o favor.
— Retornei. Então pode parar com essa merdinha de autopiedade e de só ter dívidas para oferecer a uma esposa. Você tem muito a oferecer. Ainda não no lado material, talvez, mas você é bem bonito, em minha opinião, e tem também essa coisa de salvar minha vida. E é claro que também tem isso aí dentro das calças. Também é bem impressionante.
O sorriso virou desaprovação.
— Que elegante, Suzannah. Pena que minha mãe está morta, ela ficaria tão orgulhosa.
— E deveria mesmo. — Endireitei a gravata dele (era obrigado a usá-la no trabalho, e ficava lindo com ela) e acabei tocando a gola da camisa. — Nossa. Você ficou encharcado mesmo, hein? Não pode voltar para o plantão com as roupas molhadas. Vai pegar um resfriado. Melhor tirar a camisa e subir comigo para que eu seque tudo para você.
— Você não tem máquina de secar no apartamento — disse ele. — Está tentando me ver pelado, Srta. Simon?
— É secadora, não máquina de secar... e sim, Dr. De Silva, estou.
— A gente vai conversar sobre o que aconteceu aqui, Suzannah?
— Bem — respondi —, quando um homem e uma mulher se gostam muito, eles começam a se beijar e sentem uma coisinha estranha na barriga. Num relacionamento normal, o homem vai para a casa da mulher e eles ficam pelados e se ajudam a se livrar da coisinha estranha. A não ser que o homem insista em esperar até que se casem, e aí a mulher tem um ataque nervoso...
— Não isso — interrompeu ele. — Mas foi uma boa explicação, gostei. Estou falando da criança demônio.
— Ah, ela. É um fantasma altamente protetor em relação àquela aluna de quem eu estava falando; que por acaso é afilhada de Kelly Prescott. Não achei que ela fosse me seguir da escola até aqui. Foi culpa minha, na verdade. Devia ter tomado mais cuidado.
— Culpa sua? Nada disso é culpa sua. — Os olhos castanhos geralmente amenos de Jesse não pareciam tão amenos agora. Seu currículo tinha um buraco bem grande, onde devia constar passou um século e meio assombrando uma casa em forma de espectro. — Por que sempre que o nome de Kelly Prescott aparece, tem confusão no meio?
— Porque ela é uma vaca?
Os cantos dos lábios de Jesse se curvaram para cima. A escuridão sumiu com a mesma rapidez que apareceu. Ele se levantou e me ofereceu uma das mãos.
— Posso ver que já está melhor. O que é muito bom porque preciso voltar. Falei para eles que ia comprar cigarro, mas já estou fora tempo demais.
— Cigarro? — Dei a mão para ele e permiti que me levantasse. —Jesse, você não fuma.
— Não, mas várias enfermeiras fumam. Precisei que elas cobrissem o plantão para mim, então meu plano é subornar todo mundo com cigarros. Mas agora vou demorar mais ainda se preciso esperar que pegue suas coisas para acompanhá-la à Cruzada do Caracol.
— Cruzada do Caracol? Por que você teria de me levar até a Cruzada do Caracol?
Fiquei confusa. A Cruzada do Caracol era o nome da casa no estilo rancho que Jake havia comprado no Vale Carmel, e para onde convenceu Jesse a se mudar depois que conseguiu a bolsa no São Francisco (graças a Deus, porque não sei por quanto tempo mais até uma pessoa tão religiosa quanto Jesse teria aguentado morar com o padre Dominic, que o sustentou – com a ajuda da igreja – no primeiro ano de vida nova, antes de entrar para a faculdade).
Chamada de Cruzada do Caracol porque o jardim da frente era tão sombreado pelas árvores que caracóis passavam pelo caminho de entrada a qualquer hora do dia ou da noite, e a casa de Jake havia se tomado nosso ponto de encontro principal, o local de vários churrascos, festas a piscina e conversas intelectuais profundas em volta da fogueira – todos eventos épicos.
Mas isso não queria dizer que eu planejava ir até lá naquela noite. Não foi à toa que ignorei a mensagem de Jake em relação a “beber e tal” e a queda por Gina.
— Você precisa ir até lá, para sua segurança, Suzannah — argumentou Jesse. — Sei que tomou todas as precauções com seu apartamento, que é provavelmente cem por cento seguro contra ataques paranormais. Mas a Cruzada é ainda mais segura agora porque aquela pequena monstra não conhece a casa. E você sabe o tipo de sistema de segurança que Jake tem.
E eu sabia. Assim que a maconha medicinal se tomou legalizada no estado da Califórnia, Jake – a quem sempre me referi, internamente, como Soneca, pois parecia sempre fora de órbita – surpreendeu a todos nós usando o que havia economizado no trabalho de entregador de pizzas para comprar um pedaço de terra em Salinas e uma loja modesta no Vale Carmel.
O resultado – MarErvilhosa – gera números incríveis. Um jornal nacional recentemente nomeou Jake como um dos maiores empresários da baía de Monterrey. Entretanto, o fato de a maconha ter sido legalizada no estado não significava que os bancos tinham permissão para aceitar transações envolvendo a droga. Isso fazia com que Jake tivesse, a qualquer momento, centenas de milhares de dólares no cofre de casa, pois não queria arriscar a vida dos funcionários mantendo a grana na loja. Foi forçado a instalar um sistema moderníssimo de segurança – e comprar uma boa quantidade de armas – para se defender de pessoas que talvez achassem, erroneamente, que o dono de uma loja hippie maconha não sabia proteger nem a si, nem a seu dinheiro.
Sendo assim, além de ter uma piscina grande, uma fogueira e moluscos extraterrestres, a Cruzada do Caracol era quase tão impenetrável quanto Fort Knox.
— Melhor você e Gina ficarem lá — disse Jesse — até a gente resolver isso tudo.
Soltei a mão dele.
— O quê?
— Sei que você não gosta da ideia, mas...
— Não gosto da ideia? Jesse, achei que a gente já tivesse combinado que você ia parar com a palhaçada de machão protetor do século XIX.
— Isso foi antes de eu ver aquela criança demônio vindo atrás de você. Não tente fingir que o que aconteceu não a assustou, Suzannah. Se eu não tivesse chegado quando cheguei...
— Ok, ela me assustou — interrompi, e tirei o braço dele de cima dos ombros. As coisas não iam muito bem. Como eu podia passar no Home Depot antes de fechar para comprar sal se precisava fazer a mala e ir para a Cruzada? Seria mais difícil ainda se Jesse me seguisse. — Mas não a ponto de me tirar de casa. Pelo amor de Deus, Jesse, ela também sabe onde eu trabalho. Vou fazer o quê, não ir à escola amanhã?
— O padre Dominic volta amanhã — disse Jesse. — Ele saberá lidar com ela.
Dei uma risada amarga.
— Ah, claro! Jesse, sem querer ofender, mas o padre Dominic foi a primeira pessoa que deixou de perceber a presença da menina, que deixou que isso tudo acontecesse.
— Por favor. — Colocou as mãos em meus ombros. — Suzannah. Como vou conseguir trabalhar sabendo que está aqui sozinha com aquela coisa querendo machucá-la? E eu sei que jamais deixaria Gina arriscar a vida dela por você. Pelo menos Max está na Cruzada.
— Max?
Um ser ancestral, o cachorro da família Ackerman morava com Jake e Jesse, sempre procurando migalhas pela casa e áreas com sol para dormir.
— Sim, Max — reforçou Jesse. — Você sabe que ele sempre teve uma habilidade paranormal de sentir a presença de espíritos. É só lembrar de como ele evitava seu quarto quando você estava no ensino médio.
— Porque você estava lá.
Era engraçado ver que, agora que a alma de Jesse estava de volta ao corpo, Max era bastante carinhoso com ele. O cachorro certamente não detectava nenhum tipo de maldade em meu namorado. Mas era só o gato de Jesse, Spike, entrar na sala, e o inferno se instalava.
— Você sabe que o mais seguro agora é fazer o que estou pedindo — continuou Jesse, me ignorando. — Se não for por mim, faça pelas crianças.
— Crianças? — repeti, surpresa. — Que crianças? Nossos filhos no futuro? Deixe eu falar uma coisa, Jesse, está ficando cada vez mais e mais difícil imaginar filhos se você nem...
— As crianças que talvez cheguem na emergência do Centro Médico São Francisco hoje — interrompeu ele, olhando para mim com aqueles olhos castanhos enormes. — Como vou conseguir me concentrar nelas enquanto estiver ocupado, me preocupando com você?
Tenho de admitir que me rendi por um minuto, perdida naqueles olhos reluzentes. Eu me derreti. Será que devia contar a ele? Não era justo não falar. Ele merecia saber o que Paul estava tramando. Olhe para ele, tão lindo com aquela gravata, tão profissional, tão angelical. Não havia nem um grama de malevolência ali. Era tão gentil, gostava tanto de crianças. Nunca machucaria Paul...
Então me lembrei do dia em que ele tentou afogar Paul no ofurô da Pine Crest 99, e me dei conta de como ele me manipulava facilmente.
Afastei-o de mim.
— Ai, meu Deus, seu babaca. Ok! Eu vou, mas pelas crianças. Não por você.
— Que bom. — Ele se abaixou com um sorriso, pegou minhas roupas e as jogou para mim. — Depressa. Ela usou muita energia naquele ataque contra você, mas agora vai ter tempo de se recuperar. Vou mandar uma mensagem pra Gina perguntando o que ela precisa do apartamento enquanto você pega Romeo e o resto das coisas.
— Maravilha. — Revirei os olhos. Ele abriu o portão à prova de crianças que levava às escadas de meu apartamento, segurando a porta para mim com uma das mãos enquanto digitava a mensagem para Gina com a outra. — Meu sonho. Finalmente vou dormir em sua cama, e você nem vai estar lá.
Isso fez com que ele desviasse o olhar do celular para mim com uma das sobrancelhas erguidas. Era a sobrancelha com a cicatriz, uma Lua crescente perfeita de pele onde os pelos negros deviam ter crescido.
— Talvez seja melhor assim — disse ele. — Se eu estivesse na cama com você vestida desse jeito, você não dormiria nada.
— Promessas. — Eu esbarrei meus seios no braço dele sem-querer-querendo quando cruzei o portão. — Promessas, promessas. É só o que você...
Ele passou um dos braços por minha cintura e me puxou para perto tão depressa, e com tanta força, que fiquei sem ar por um instante. Deixei minhas roupas caírem no chão.
— Que foi? — Olhei ao redor, assustada, achando que Lucia havia aparecido de novo e ele estivesse me salvando do perigo.
Mas logo percebi que o perigo que eu sentia era de um tipo completamente diferente quando ele me apertou junto ao corpo, tão perto que senti o formato definido dos botões da camisa – e outra coisa definida por trás da calça.
— Eu sempre cumpro o que prometo — disse ele, com uma voz mais grave que o comum.
Então ele se aproximou para me beijar, e senti o perigo – e a promessa – em todos os nervos do corpo. Foi dos lábios até os dedos dos pés, e despertou novamente outras partes que haviam se acalmado recentemente, após serem instigadas na espreguiçadeira.
— V-verdade — respondi. Eu me segurei nele meio sem equilíbrio quando finalmente me deu espaço para respirar. — Você cumpre o que promete sim. Isso é verdade.
— Ei, vocês aí. — Ouvi meu vizinho Ryan berrar da varanda. — Vão para o quarto!
Jesse se afastou de mim com relutância e deu uma olhada hostil para Ryan.
— Estou começando a não gostar dele.
— É, eu também. — Continuei me apoiando na cintura de Jesse. Ainda estava meio mexida. — Vamos sair daqui.

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