terça-feira, 13 de setembro de 2016

Capítulo 10

Escancaradas por um vento de força brutal, as portas da varanda permitiram que chuva e folhas entrassem quarto adentro.
A ventania descolou a maioria das fotos da Jasmin do santuário na parede oposta e apagou as velas de devoção, deixando o quarto na escuridão, exceto pela luz da tela de plasma. As cortinas leves e brancas presas na haste acima das portas se esvoaçaram como braços desejosos de uma mãe em direção à sua criança perdida.
Zack soltou um palavrão, jogou o controle do vídeo game no chão e pulou da cama, horrorizado.
Foi uma reação plausível. Eu mesma não estava me sentindo exatamente calma... e o meu trabalho era esperar que coisas daquele tipo acontecessem.
— Viu, Zack? — falei berrando para que ele conseguisse me escutar apesar da tempestade lá fora e das portas francesas batendo devido ao vento. — Eu falei. O Mark tá puto.
Como se para enfatizar a minha frase, um raio tomou o céu inteiro, explodindo tão perto de nós que o breu do quarto ficou claro como o dia, depois escuro de novo, tudo em um piscar de olhos... em seguida entrou em curto circuito, lançando uma chuva de faíscas coloridas para o local onde Zack estava sentado alguns segundos antes. O trovão que veio depois foi forte o suficiente para fazer a casa toda tremer.
— Puta merda — exclamou Zack, se encolhendo como uma bola no chão, cabeça grudada nos joelhos. — Não foi a minha intenção. Ai, meu Deus, não foi a minha intenção fazer aquilo. Não era pra acontecer daquele jeito!
No mesmo segundo em que ele admitiu, a tempestade parou. Como se alguém tivesse tirado uma tomada da parede, as portas francesas pararam de bater, e o vento e a chuva e as partículas que vinham fluindo com eles cessaram, deixando apenas o cheiro de maresia e o odor terroso que é emitido pelo solo quando faz muito tempo desde a última chuva. As cortinas finas e brancas nos dois lados da porta da varanda ficaram estáticas, como bonecas de trapo abandonadas.
— Ai, meu Deus — disse Zack, chorando suavemente com o rosto nos joelhos. — Ai, meu Deus. Obrigado, Deus.
O negócio era que ele achava que agora estava a salvo. E por que não acharia? A tempestade havia acabado.
Eu, no entanto, sabia que estava apenas começando.
Porque eu era capaz de ver uma coisa que Zack não via: o fato de que não estávamos sozinhos no quarto. De pé ao lado de uma das cortinas finas havia uma figura, uma figura escura toda de preto, até mesmo na armação dos óculos. Estava olhando para o corpo encolhido e choroso de Zack.
E não havia nem uma indicação de pena no seu olhar.
— O que eu faço com ele? — perguntou Mark para mim sem emoção na voz.
— Nada — respondi. — Você já fez o suficiente. Deixa ele em paz, Mark. Como falei pra você no cemitério, as coisas só vão piorar se fizer alguma coisa com ele. Ele já admitiu. Eu vou garantir que justiça seja feita.
— Justiça — disse Mark com tom de deboche. — Que palavra mais idiota e sem sentido. Justiça não vai trazer ela de volta. Nem a mim.
— Eu sei. Mas ele vai receber o que merece.
— Não — disse Mark. Agora havia emoção na sua voz. Era desprezo. — Não vai, não. Vai vendo. Ele não vai pagar. Os ricos nunca pagam.
Era uma pena, mas Mark tinha razão.
Onde estavam as provas? Esse era o problema.
Não havia provas.
No entanto, tentei mentir, para o bem de Mark.
— A mãe dele é uma boa pessoa — falei. — Não sei o pai, mas acho que é gente boa também. Os dois estão tentando ajudar outras pessoas. Quando descobrirem a pessoa perigosa que o filho realmente é, vão se certificar de que ele não viva em sociedade.
Mark deu uma gargalhada azeda.
— Tá bom — disse ele —, claro. Isso vai acontecer mesmo.
Zack levantou a cabeça e olhou para mim com as pálpebras ainda mais vermelhas do que antes.
— Com quem diabos você tá falando, moça?
— Com o Mark — respondi com simplicidade. Eu me abaixei para ajustar as botas. Senti que ia precisar delas em poucos minutos. — Ele está aqui pra matar você. Eu estava apenas dizendo que não vai ser necessário. Porque você vai se entregar pelo que fez com ele e com a Jasmin.
Zack secou os olhos, sua expressão cada vez mais fria.
— Não vou porra nenhuma.
— Ah, vai — afirmei, girando o pescoço algumas vezes. — Vai, sim. Você é um perigo pra você mesmo, Zack, mas, acima disso, é um perigo pros outros.
— Você é cheia de merda — foi a grande resposta inteligente do Zack.
— É bem capaz — falei, arregaçando as mangas —, mas a sua tendência a ser violento, o seu desrespeito descarado pela lei, o seu desdém óbvio pelos direitos e sentimentos de qualquer pessoa que não seja você, e, acima de tudo, a sua falta total e completa de remorso ou culpa pelas suas ações (você só chorou por ter sido descoberto, e não por causa do que fez) me faz acreditar que você é um sociopata completo. Talvez até psicopata. — Dei de ombros. — Não sei. Ainda não me formei, então não tenho como garantir qual dos dois. Mas sabe uma coisa que posso garantir? Que você vai pagar pelo assassinato de Mark Rodgers e Jasmin Ahmadi. A única pergunta é: você quer fazer do jeito difícil? Ou do jeito fácil?
A única resposta foi um grunhido. Ele franziu o cenho, aparentando nem ligar para o fato de eu o ter chamado de psicopata, embora todas as evidências mostrassem que era verdade. Isso ficou especialmente claro quando a próxima ação dele foi se levantar do chão e vir para cima de mim a fim de me derrubar, como se jogasse futebol americano no time da escola, embora eu não tivesse visto nenhum troféu ou equipamento de esporte no quarto.
Ele bateu na minha barriga com o ombro tão forte que nós dois fomos lançados pelo ar em direção à estante de livros.
Não é como se eu não estivesse preparada para uma coisa daquelas. Na minha área de atuação, levo muita porrada. O padre Dominic fica desesperado com a minha técnica de mediação de Pessoas Mortas Não Obedientes, que ele chama de “soca primeiro, faz perguntas depois”.
Mas, em geral, as pessoas com as quais eu caio na porrada estão de fato mortas. Era um pouco incomum ser atingida por um menino vivo que havia acabado de me informar (à sua maneira) que não era um perigo para os outros.
— Isso não está ajudando você a provar que não tem tendência a ser violento — falei para Zack enquanto ele estava em cima de mim sobre os escombros que um dia foram a estante dele. Ou tentei falar. O que saiu de mim não foi tão coerente porque ele me deixou sem ar – e provavelmente sem alguns dos rabanetes que eu havia comido mais cedo. Eu estava com medo de olhar.
Percebi que estava sentindo uma dor latejante na lateral do corpo que piorava toda vez que eu me movia. Que ótimo. Zack não parecia nada perturbado com a nossa aterrissagem forçada. Levantou o corpo com uma das mãos e fechou a outra em um punho no alto – um punho que, notei, era grande o suficiente para causar vários danos sérios se conseguisse acertar as minhas feições delicadas.
— Eu vou matar você — informou ele casualmente.
Antes que eu pudesse desviar o rosto, a mão forte e morena de alguém segurou o punho de Zack.
— Hoje, não — disse uma voz grave, masculina e calorosamente familiar.

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