sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 1

— Isso não tem graça! — resmungou o pai.
Não, graça nenhuma, pensou Kylie Galen abrindo a geladeira para pegar uma bebida. Na verdade, tão pouca graça que ela gostaria de poder se esgueirar para dentro da geladeira, se encolher entre a mostarda e cachorros-quentes bolorentos e fechar a porta para não ouvir mais as vozes irritadas que vinham da sala.
Lá estavam seus pais brigando de novo!
Não que aquilo fosse durar muito, pensou ela enquanto observava o vapor escapando pela porta da geladeira. Hoje ela sabia que o pai iria embora!
Kylie sentiu um nó na garganta. Engoliu a emoção em seco e se recusou a chorar. Aquele devia ser o pior dia da sua vida. E ela já vinha tendo alguns muito ruins ultimamente. Um cara desconhecido na sua cola, Trey terminando o namoro com ela e os pais anunciando o divórcio — caramba, era desgraça que não acabava mais! Seria então de admirar que seus terrores noturnos tivessem voltado com tudo?
— O que você fez com a minha cueca? — o grito do pai penetrou na cozinha, meteu-se pela fresta da porta da geladeira e ficou pairando em volta dos cachorros-quentes.
A cueca dele?
Kylie pressionou uma latinha gelada de refrigerante contra a testa.
— O que eu iria fazer com a sua cueca? — perguntou a mãe com aquela voz de “não estou nem aí”. Era bem sua mãe, ela nunca estava nem aí. Fria como gelo.
Kylie olhou pela janela da cozinha o quintal, onde há pouco tinha visto a mãe. E ali, da grelha da churrasqueira ainda fumegante, pendia a cueca do pai.
Que beleza!
A mãe tinha feito churrasco da cueca do pai. Só isso. Kylie nunca mais comeria nada do que fosse assado naquela grelha. Tentando conter as lágrimas, ela devolveu a latinha ao refrigerador e foi até a porta da sala. Talvez, se a vissem, parassem de agir como crianças e deixassem que ela fosse a adolescente ali. O pai estava no meio da sala, segurando na mão uma cueca. A mãe, no sofá, bebericava com a maior calma um chazinho quente.
— Você precisa de tratamento psicológico! — gritou ele para a mulher.
Dois pontos para o pai, pensou Kylie.
A mãe realmente precisava de ajuda. Mas então por que era Kylie que tinha de ficar estendida no divã da analista, duas vezes por semana? Por que o pai — o homem de quem, todos juravam, ela conseguia tudo — é que precisava ir embora, abandonando-a?
Kylie não o censurava por querer deixar sua mãe, a Rainha do Gelo. Mas por que não levava Kylie com ele? Outro soluço sufocado na garganta.
O pai virou-se e a viu; em seguida, entrou no quarto, obviamente para guardar o resto de suas coisas — menos a cueca, que naquele momento fazia sinais de fumaça na churrasqueira do quintal.
Kylie ficou parada olhando a mãe, que remexia em pastas de trabalho como se aquele fosse um dia igual a qualquer outro. As fotos emolduradas de Kylie e o pai, na parede acima do sofá, chamaram sua atenção e encheram seus olhos de lágrimas. Tinham sido tiradas durante as excursões anuais que os dois faziam juntos.
— Você tem que fazer alguma coisa! — implorou.
— Fazer o quê? — perguntou a mãe.
— Convencê-lo a ficar. Peça desculpas por ter assado a cueca dele...
Que lamenta ter água gelada nas veias, pensou.
— Faça qualquer coisa, mas não deixe que ele vá embora.
— Você não compreende — e com isso a mãe, sem um mínimo de emoção, voltou aos seus papéis.
Nesse momento o pai, de mala em punho, atravessou a sala. Kylie correu atrás dele até a porta que se abria para a tarde sufocante de Houston.
— Me leve com você — pediu, sem esconder as lágrimas. As lágrimas talvez ajudassem. Antes, quando chorava, conseguia o que queria dele. — Eu não como muito — fungou, tentando fazer graça.
Ele balançou a cabeça, mas ao contrário da mãe, pelo menos tinha alguma emoção nos olhos:
— Você não compreende.
Você não compreende.
— Por que vocês estão sempre dizendo isso? Já tenho 16 anos. Se não compreendo, então me expliquem, ou me contem o grande segredo e pronto.
Ele olhou para os pés como se aquilo fosse um teste e as respostas estivessem na ponta dos sapatos. Depois, suspirando, ergueu os olhos:
— Sua mãe... Precisa de você.
— Precisa de mim? Está brincando? Ela nem me quer aqui!
Nem você me quer.
Essa constatação fez com que o ar se imobilizasse em seus pulmões. Ele na verdade não a amava. Enxugou uma lágrima na bochecha e olhou de novo para ele. Só que agora, em vez do pai, Kylie via o soldado Dude, que vivia atrás dela. Ali na rua, trajava o mesmo uniforme militar de antes. Parecia ter acabado de sair de um daqueles filmes sobre a Guerra do Golfo de que sua mãe tanto gostava. Só que, em vez de disparar para todos os lados ou voar pelos ares, ele permanecia imóvel, olhando para ela com um ar triste, mas muito assustado.
Ela o surpreendeu espreitando-a há algumas semanas. Nunca falaram um com o outro. Mas, no dia em que ela o apontou para a mãe e a mãe não o viu... Bem, o mundo de Kylie saiu dos eixos. A mãe chegou à conclusão de que ela tentava chamar a atenção ou coisa pior. E quando dizia “coisa pior” ela se referia ao risco de Kylie estar perdendo contato com a realidade. Sem dúvida, os terrores noturnos que a atormentavam quando era criança tinham voltado mais assustadores ainda. A mãe disse que um analista poderia ajudá-la a superá-los — mas como, se Kylie nem sequer se lembrava deles? Só sabia que eram ruins. Ruins o bastante para fazê-la acordar gritando.
Kylie queria gritar agora. Para que o pai se voltasse e visse o soldado Dude1 — provando assim que ela não estava maluca. Talvez, se ele realmente visse o homem que a perseguia, ela não precisasse mais ir à analista. Aquilo não era justo.
A vida, porém, não é justa, conforme sempre lembrava sua mãe. Mas, quando Kylie olhou de novo, ele já tinha ido embora. Não o soldado Dude, mas seu pai. Ela caminhou até a porta da garagem e o viu colocando a mala no banco de trás do Mustang vermelho conversível. Ao contrário do pai, a mãe nunca gostou daquele carro.
Kylie correu até ele.
— Vou pedir pra vovó falar com a mamãe. Ela vai conseguir...
Mal essas palavras escaparam dos lábios de Kylie ela se lembrou do outro grande acontecimento trágico de sua vida. Não podia mais pedir que a avó resolvesse seus problemas. A avó estava morta. A imagem dela deitada, fria, no caixão dominou a mente de Kylie e outro soluço brotou em sua garganta. O olhar do pai demonstrava agora preocupação. O mesmo olhar que levara Kylie para o consultório da terapeuta três semanas antes.
— Estou bem. Só esqueci — porque a lembrança machucava muito. Sentiu uma lágrima solitária escorrendo pelo rosto.
O pai se aproximou e a abraçou. Esse abraço durou mais do que qualquer outro, mas terminou cedo demais. Como ela podia deixá-lo ir? E ele, como poderia abandoná-la?
Os braços do pai se soltaram e ele a afastou.
— É só me telefonar, meu bem.
Contendo as lágrimas, odiando a própria fraqueza, Kylie acompanhou o conversível vermelho do pai ficando cada vez menor à medida que descia a rua. Precisando muito ficar sozinha em seu quarto, correu para dentro de casa. Mas então, lembrando-se, olhou para o outro lado da rua. Será que o soldado Dude já tinha desaparecido num passe de mágica, como costumava fazer?
Não. Continuava lá, observando, espionando. Deixando-a morta de medo e, ao mesmo tempo, muito irritada. Era por causa dele que Kylie tinha que ir à analista. Então a Sra. Baker, sua vizinha idosa, saiu para apanhar a correspondência. Sorriu para Kylie, mas nem sequer uma vez a velha bibliotecária reparou no soldado Dude bem ali, de pé em seu jardim, a menos de um metro de distância. Muito estranho. Tão estranho que um calafrio desceu por sua espinha, o mesmo calafrio que sentiu durante o funeral da avó.
O que estaria acontecendo?


1 Dude (gíria), termo genérico usado informalmente com referência a uma pessoa qualquer; cara, sujeito.

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