segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Capítulo um


Em algum momento da vida – na verdade, muito cedo – um livro pode lhes cair nas mãos e vocês hão de notar que a primeira frase pode revelar o tipo de história que será lida. Por exemplo, um livro que comece com “Era uma vez uma família de esquilos espertos que viviam dentro de uma árvore” provavelmente conta uma história repleta de animais falantes que se envolvem em toda a sorte de travessuras. Um livro que comece com “Emily sentou-se e olhou para a pilha de panquecas que sua mãe lhe havia preparado, mas ela estava tão ansiosa com o acampamento das bandeirantes que não tinha sequer vontade de comer” provavelmente conta uma história repleta de garotas que riem à toa e se divertem sem parar. E um livro que comece com “Gary estava embevecido por sua luva de beisebol, de couro, novinha, e esperava com impaciência por seu melhor amigo, Larry, que estava para chegar” provavelmente conta uma história repleta de garotos suados que conquistam algum tipo de troféu. E se vocês gostam de travessuras, ou de diversão, ou de troféus, já sabem que livro escolher e podem simplesmente deixar de lado os que não lhes interessam. Mas este livro começa com a frase “Os órfãos Baudelaire olharam através da janela suja do trem e contemplaram o negrume melancólico da Floresta Finita, pensando se algum dia a vida deles melhoraria”, e vocês já podem concluir que a história que se segue será muito diferente da de Gary, ou de Emily, ou da família de esquilinhos marotos. Isso pela simples razão de que a vida de Violet, Klaus e Sunny Baudelaire é muito diferente da vida da maioria das pessoas, principalmente no que diz respeito ao grau de infelicidade, horror e desespero. As três crianças não têm tempo para travessuras, porque as desgraças seguem os seus passos para onde quer que elas se desloquem. Desde que seus pais morreram num incêndio terrível, nunca mais souberam o que é se divertir a valer. E o único troféu que poderiam ganhar seria o Prêmio dos Desventurados, ou algo do gênero. É de uma injustiça atroz, não resta dúvida, que os Baudelaire passem por tantos apertos, mas a história deles é assim, fazer o quê? Por isso, agora que eu já contei que o começo será “Os órfãos Baudelaire olharam através da janela suja do trem e contemplaram o negrume melancólico da Floresta Finita, pensando se algum dia a vida deles melhoraria”, larguem este livro se quiserem evitar uma história desagradável.
Os órfãos Baudelaire olharam através da janela suja do trem e contemplaram o negrume melancólico da Floresta Finita, pensando se algum dia a vida deles melhoraria. Um alto-falante que chiava muito acabara de anunciar que em poucos minutos chegariam à cidade de Paltryville, onde morava a pessoa que cuidaria deles dali por diante. Não puderam evitar de pensar quem seria capaz de querer viver num lugar perdido, sombrio e fantasmagórico como aquele. Violet, que tinha catorze anos e era a Baudelaire mais velha, olhou para as árvores da floresta, árvores tão altas e praticamente sem nenhum galho que pareciam mais canos de ferro do que árvores. Violet era uma inventora – estava sempre com o pensamento tomado por máquinas e engenhocas, sobretudo quando prendia o cabelo com uma fita para ajudá-la a pensar. Naquele momento, ao olhar para as árvores, começou a bolar um mecanismo que permitisse subir ao topo de qualquer árvore, ainda que inteiramente sem galhos como aquelas. Klaus, de doze anos, tinha os olhos voltados para o chão da floresta, que era todo coberto por um musgo marrom que crescera de forma desigual. Klaus gostava muito de ler, mais do que qualquer outra coisa, e tentou se lembrar do que já havia lido sobre os musgos de Paltryville, e se algum deles era comestível. E Sunny, que era apenas um bebê, olhava para o céu cor de fuligem que pairava sobre a floresta como um pulôver úmido. Sunny tinha quatro dentes afiados, e o seu maior prazer era morder coisas, qualquer coisa, daí sua atenção voltar-se para descobrir o que havia na área para ser mordido. Mas, embora Violet começasse a planejar sua invenção, e Klaus refletisse sobre sua pesquisa de musgos, e Sunny abrisse e fechasse a boca exercitando-se para uma oportunidade de morder, a Floresta Finita pareceu-lhes tão pouco inspiradora que não conseguiram evitar a dúvida: o novo lar seria agradável?
“Que floresta encantadora!”, observou o sr. Poe, e tossiu em seu lenço branco. O sr. Poe era um alto executivo de banco que, após o incêndio, ficara com a responsabilidade de cuidar dos interesses dos Baudelaire; no entanto – que a verdade seja dita a vocês –, ele não estava cumprindo direito o seu papel. Suas duas principais obrigações consistiam em encontrar um bom lar para os órfãos e proteger a enorme fortuna que os pais lhes haviam deixado; mas, até aquele momento, cada novo lar providenciado pelo sr. Poe havia sido uma catástrofe, palavra que aqui significa “desastre completo envolvendo desgraça, armadilha e conde Olaf”. O conde Olaf era um homem terrível que desejava se apropriar da fortuna dos Baudelaire, e para roubá-la tentava os estratagemas mais repulsivos que conseguia imaginar. Tentativa após tentativa ele sempre chegava muito perto de conseguir seu objetivo, e tentativa após tentativa os órfãos Baudelaire sempre desmascaravam o plano dele – mas sempre, sempre, o conde Olaf dava um jeito de escapar. E tudo o que o sr. Poe fizera a respeito até então fora tossir. Agora ele está acompanhando as crianças a Paltryville, e é duro eu ter de dizer a vocês que mais uma vez o conde Olaf tornará a aparecer com outro de seus repulsivos estratagemas e que mais uma vez a atuação do sr. Poe não será de nenhuma ajuda para os órfãos. “Que floresta encantadora!”, tornou a dizer o sr. Poe, quando acabou de tossir.
“Crianças, acho que vocês terão um bom lar aqui. Pelo menos é o que espero, porque acabo de assumir a vice-presidência da Administração de Multas e daqui por diante estarei mais ocupado do que nunca. Se desta vez alguma coisa não der certo, terei que mandá-los para um colégio interno até eu ter tempo de providenciar um novo lar para vocês. Por isso, por favor, comportem-se. “
“Mas claro, sr. Poe”, disse Violet, sem acrescentar que ela e seus irmãos sempre haviam se comportado mas isso não os ajudara em absolutamente nada.
“Como se chama o nosso novo tutor?”, perguntou Klaus. “O senhor ainda não nos disse.”
O sr. Poe tirou do bolso um pedaço de papel e apertou os olhos. “Chama-se... deixe-me ver... sr. Wuz... sr. Qui... Não sei, não consigo pronunciar o nome. É muito comprido e complicado. “
“Posso ver?”, perguntou Klaus. “Talvez eu consiga decifrar a pronúncia. “
“Não, deixe pra lá”, disse o sr. Poe, guardando o papel. “Se já é tão complicado para um adulto, imagine para uma criança. “
“Jand!”, gritou Sunny. Como muitos bebês, a maior parte do tempo Sunny emitia sons em geral difíceis de traduzir. Dessa vez provavelmente ela quisesse dizer algo como: “Mas Klaus lê muitos livros complicados!”.
“Ele dirá como vocês devem chamá-lo”, prosseguiu o sr. Poe, como se Sunny não tivesse aberto a boca. “Vocês o encontrarão no escritório central da Serraria Alto-Astral, que me disseram estar a poucos passos da estação ferroviária.”
“O senhor não vem conosco?”, perguntou Violet.
“Não”, disse o sr. Poe, e tornou a tossir em seu lenço. “O trem só faz uma parada por dia em Paltryville, de forma que, se eu descesse com vocês, teria que passar a noite aqui e faltar mais um dia ao banco. Vim só deixar vocês e volto para a cidade neste mesmo trem, imediatamente.”
Os órfãos Baudelaire olharam através da janela, preocupados. Não estavam muito satisfeitos com a ideia de serem deixados num lugar que não conheciam, como se fossem uma pizza e não três crianças inteiramente sós no mundo.
“E se o conde Olaf aparecer?”, perguntou Klaus, baixando a voz. “Ele jurou que nos encontraria de novo. “
“Dei ao sr. Bek... sr. Duy... Dei ao novo tutor de vocês uma descrição completa do conde Olaf”, disse o sr. Poe. “Assim, se por alguma circunstância inimaginável ele aparecer em Paltryville, o sr. Sho... sr. Gek... notificará as autoridades. “
“Mas o conde Olaf está sempre usando disfarces”, observou Violet. “Fica difícil reconhecê-lo. A gente só consegue saber que é ele quando vê aquele olho tatuado no tornozelo.”
“Incluí a tatuagem na minha descrição”, disse o sr. Poe, impaciente.
“Mas e os ajudantes do conde Olaf?”, perguntou Klaus. “Em geral pelo menos um membro do grupo o acompanha para ajudar sua farsa.”
“Descrevi todos eles para o sr.... hã... descrevi todos eles para o dono da serraria”, disse o sr. Poe, erguendo o dedo indicador enquanto enumerava os horríveis comparsas de Olaf. “O homem da mão de gancho. O careca de nariz comprido. As duas mulheres com o rosto todo empoado de branco. E a figura bem rechonchuda que não parece nem homem nem mulher. O novo tutor de vocês já sabe de todos eles, e, se houver algum problema, lembrem-se que é só entrar em contato comigo ou com um de meus colegas na Administração de Multas do banco. “
“Casca”, disse Sunny melancolicamente. Era provável que quisesse dizer: “Isso não é muito tranquilizador”, ou algo do tipo, mas sua voz foi coberta pelo forte apito que indicava que o trem chegara à estação Paltryville.
“Cá estamos”, disse o sr. Poe. Antes que pudessem se dar conta, as crianças achavam-se de pé na estação, olhando o trem se afastar em direção ao escuro arvoredo da Floresta Finita. A barulheira da locomotiva foi diminuindo à medida que perdiam o trem de vista, e logo os três irmãos estavam, de fato, inteiramente sós.
“Bem”, disse Violet erguendo a maleta que continha as poucas roupas das crianças, “vamos ver onde fica a Serraria Alto-Astral. Aí então conheceremos o nosso novo responsável.”
“Ou pelo menos saberemos o seu nome”, disse Klaus, melancólico, e deu a mão a Sunny.
Se vocês planejam viajar nas férias, a primeira coisa a fazer é comprar um guia, com mapas, dicas dos pontos interessantes e agradáveis de serem visitados, sugestões úteis sobre o que fazer no local. Paltryville não consta de nenhum guia, e à medida que avançavam desanimados pela única rua da cidade, os órfãos Baudelaire logo perceberam por quê. Havia umas poucas lojinhas de cada lado da rua, e nenhuma com janelas. Havia uma agência de correios, mas, em vez de uma bandeira tremulando, o que se via no mastro era um sapato velho pendurado. Em frente, um paredão alto de madeira estendia-se até o fim da rua. No centro do paredão existia um grande portão, também de madeira, com as palavras “Serraria Alto-Astral” em letras toscas e gosmentas. Ao longo da calçada, onde poderia haver uma fileira de árvores, viam-se jornais velhos formando pilhas gigantescas. Em suma, tudo o que poderia tornar a cidade interessante ou agradável transformara-se em algo horrendo ou nem um pouco agradável, e, se Paltryville figurasse em algum guia, a única dica útil para os turistas seria: “Vão embora”. Mas os três jovens não podiam ir embora, é claro; e com um suspiro Violet tomou a dianteira e foi com os irmãos até o portão de madeira. Estava para dar a primeira batida quando Klaus tocou em seu ombro e disse: “Veja”.
“Eu sei”, disse ela. Violet pensou que ele estivesse se referindo às letras que formavam a inscrição “Serraria Alto-Astral”. Agora que estavam bem perto do portão as crianças podiam entender por que as letras pareciam estranhas: eram feitas de chiclete mascado, bolotas e bolotas grudadas na madeira de modo a dar forma às letras. Com exceção de uma tabuleta que vi certa vez com a palavra “Cuidado” feita com macacos mortos, a “placa” da Serraria Alto-Astral era o letreiro mais repugnante que podia haver sobre a terra, e Violet achou que seu irmão estivesse querendo mostrar isso. Mas quando ela se virou para concordar com Klaus, notou que ele não estava olhando para os dizeres e sim para bem mais longe, em direção ao fim da rua.
“Veja”, tornou a dizer Klaus, porém Violet já percebera o que ele estava olhando. Os dois ficaram imóveis sem dizer uma palavra, encarando fixamente a casa no final da única rua de Paltryville. Sunny andara examinando algumas das dentadas no chiclete, mas quando os irmãos silenciaram ela seguiu o olhar de ambos e também viu. Durante alguns segundos os órfãos Baudelaire ficaram paralisados, só olhando.
“Deve ser uma coincidência”, disse Violet, depois de uma longa pausa.
“Com certeza”, disse Klaus, nervosamente, “é uma coincidência.”
“Varni”, concordou Sunny, mas sem acreditar. Nenhum dos órfãos acreditou. Agora que tinham chegado à serraria, dava para ver outra construção, localizada no final da rua. Como as demais construções na cidade, não tinha janelas, só uma porta redonda no centro. No entanto o que atraiu a atenção dos Baudelaire foi o formato e a maneira como fora pintada. A casa era meio oval e na parte superior havia como que uns galhos curvos fininhos projetando-se para fora. A maior parte da construção oval estava pintada de uma cor meio marrom, com um grande círculo branco no centro, e um círculo menor, verde, dentro do círculo branco, com degrauzinhos pretos que conduziam a uma pequena porta redonda pintada de preto, de tal modo que parecia haver um círculo ainda menor dentro do verde. A construção da casa sugeria a figura de um olho.
As três crianças se entreolharam, em seguida olharam para a casa, depois se entreolharam de novo, balançando a cabeça. Por mais que se esforçassem, não conseguiam acreditar que fosse uma coincidência haver em Paltryville uma casa com a forma exata da tatuagem do conde Olaf.

Nenhum comentário:

Postar um comentário