sábado, 27 de agosto de 2016

Capítulo um


Sempre que termina mais um dia de trabalho, e já fechei o caderno, escondi a caneta e providenciei buracos na minha canoa alugada para que ninguém possa encontrá-la, gosto de passar a noite conversando com alguns poucos amigos que sobreviveram. Às vezes falamos de literatura. Às vezes falamos das pessoas que tentam nos destruir e das chances que temos de escapar. E às vezes falamos das feras assustadoras e inconvenientes que podem estar por perto, e esse assunto leva sempre a desacordos sobre qual parte de uma fera assustadora e inconveniente é a mais assustadora e inconveniente. Alguns dizem que são os dentes, porque são usados para comer crianças, algumas vezes os pais delas também, e roer seus ossos. Alguns dizem que são as garras, porque é com elas que a fera rasga as coisas em pedacinhos. E alguns dizem que são os pelos, pois os pelos fazem as pessoas alérgicas espirrarem.
Mas eu sempre insisto que a parte mais assustadora de qualquer fera é a barriga, pela simples razão de que, se você está vendo a barriga da fera, isso quer dizer que antes viu seus dentes, e suas garras, e até os pelos da fera, e agora está encurralado; para você, não há mais esperanças. Por essa razão, “na barriga da fera” tornou-se uma expressão muito usada quando se está “dentro de um lugar terrível e com poucas esperanças de escapar com vida”, e não é uma expressão que alguém vá querer usar.
Lamento dizer que este livro usará a expressão “na barriga da fera” três vezes, sem contar todas as vezes que já usei “na barriga da fera” a fim de avisar quantas vezes “na barriga da fera” vai aparecer. Por três vezes no decurso da história as personagens estarão em algum lugar terrível com poucas esperanças de escapar com vida, e por essa razão, se eu fosse você, poria o livro de lado e escaparia com vida, pois essa deplorável história é tão profundamente sombria, e desgraçada, e deprimente que você poderá sentir-se na barriga da fera e chegar à conclusão de que o tempo pouco importa.
Os órfãos Baudelaire estavam na barriga da fera – isso é, no escuro e apertado porta-malas de um automóvel preto e comprido. A não ser que você seja um objeto portátil, provavelmente prefere viajar recostado no encosto estofado, olhando a paisagem pela janela e sentindo-se protegido, seguro, com um cinto de segurança atravessado no peito. Mas os Baudelaire não podiam se reclinar e seus corpos doíam de ficar espremidos durante tantas horas. Não tinham janela pela qual olhar, apenas alguns buracos de bala no porta-malas, abertos em alguma ocasião violenta que não tive coragem de pesquisar. E sentiam-se tudo, menos protegidos e seguros, enquanto pensavam nos outros passageiros e tentavam imaginar aonde chegariam.
O motorista do automóvel era um homem chamado conde Olaf, uma pessoa perversa, com uma única sobrancelha em vez de duas e um desejo ganancioso por dinheiro em vez de respeito pelas pessoas. A primeira vez que os Baudelaire o viram foi logo depois que receberam a notícia da morte de seus pais num terrível incêndio na casa onde moravam, e logo descobriram que ele só estava interessado na fortuna que eles receberiam de herança. O conde Olaf os perseguiu com determinação inabalável – uma frase que aqui significa “aonde quer que fossem os Baudelaire” – usando uma técnica covarde após a outra para pôr as mãos na fortuna deles. Até agora não tivera sucesso, muito embora tenha sido ajudado por sua namorada, Esmé Squalor – uma pessoa igualmente perversa, se bem que mais elegante, que estava agora sentada ao lado dele no banco dianteiro do automóvel –, e por uma série de assistentes, inclusive um careca narigudo, duas mulheres que usavam pó branco na cara inteira e um homem repulsivo que tinha ganchos em vez de mãos. Todas essas pessoas estavam no banco traseiro do automóvel, e vez ou outra as crianças podiam ouvi-las falar por cima do ronco do motor e dos sons da estrada.
Você pode pensar que os irmãos Baudelaire deviam ter encontrado algum outro modo de viajar que não entrando sorrateiramente no porta-malas de gente tão perigosa, mas acontece que eles estavam fugindo de circunstâncias ainda mais assustadoras e perigosas do que Olaf e sua quadrilha, e não tiveram tempo de selecionar melhor suas companhias. No entanto, à medida que a jornada progredia, Violet, Klaus e Sunny ficavam cada vez mais preocupados. A luz do sol começou a dissolver-se na noite; a estrada ficou mais esburacada e irregular; e os órfãos Baudelaire tentaram imaginar para onde estavam indo e o que aconteceria quando chegassem lá.
“Já chegamos?”, a voz do homem com mãos de gancho quebrou um longo silêncio.
“Já disse para não perguntar mais isso”, retrucou Olaf com um grunhido. “Chegaremos lá quando chegarmos lá, e é isso aí.”
“Seria possível dar uma paradinha rápida?”, perguntou uma das mulheres de cara branca. “Reparei numa placa indicando um posto de serviços a alguns quilômetros.”
“Não temos tempo para parar em lugar nenhum”, disse Olaf em tom brusco. “Se você precisava usar o banheiro, devia ter ido antes de sairmos. “
“Mas o hospital estava em chamas”, disse a mulher, queixosa.
“É, vamos parar”, disse o careca, “não comemos nada desde o almoço, meu estômago está vazio.”
“Não podemos parar”, disse Esmé. “No sertão não há um só restaurante in”.
Violet, a mais velha dos Baudelaire, esticou-se para apoiar a mão no ombro enrijecido de Klaus e apertou a pequena Sunny contra o corpo, como se tentasse dizer algo para os irmãos sem precisar falar. Esmé Squalor vivia preocupada com as coisas que eram ou não in – uma palavra que ela usava para dizer “na última moda” –, mas as crianças estavam mais interessadas em ouvir alguém mencionar para onde o carro ia. Estavam numa vastidão deserta, num lugar muito distante dos limites da cidade, sem nenhuma aldeia num raio de centenas de quilômetros. Muito tempo atrás, os pais dos Baudelaire prometeram levá-los até lá para ver os famosos crepúsculos do sertão. Klaus, que era um leitor voraz, tinha lido descrições desses crepúsculos e deixou toda a família com vontade de ir; Violet, que tinha um talento genuíno para inventar coisas, até começara a construir um forno solar para que a família saboreasse sanduíches de queijo quente enquanto assistisse ao espetáculo da luz azul se espalhando fantasmagórica por sobre os cactos do agreste, quando o sol fosse pouco a pouco mergulhando atrás das distantes e gélidas Montanhas de Mão-Morta. Os três irmãos nunca imaginaram que visitariam o sertão sozinhos, enfiados no porta-malas do carro de um vilão.
“Chefe, tem certeza de que é seguro ficar aqui?”, perguntou o homem de mãos de gancho. “Se a polícia aparecer, não haverá um só lugar para a gente se esconder.”
“É para isso que existem disfarces”, disse o careca. “Tudo de que precisamos está no porta-malas.”
“Não precisamos nos esconder”, retrucou Olaf, “nem nos disfarçar. Graças àquela repórter tonta de O Pundonor Diário, o mundo inteiro pensa que estou morto, lembra?”
“Você está morto”, disse Esmé com uma risadinha perversa, “e os três fedelhos Baudelaire são os assassinos. Não precisamos nos esconder, precisamos comemorar!”
“Ainda não”, disse Olaf. “Há duas últimas coisas que precisamos fazer. Primeiro, destruir a única prova que poderia nos mandar para a cadeia.”
“O dossiê Snicket”, disse Esmé, e os Baudelaire estremeceram no porta-malas. As três crianças tinham encontrado e guardado no bolso de Klaus uma página daquele dossiê. Era difícil julgar por aquela única página, mas os Baudelaire achavam que o dossiê Snicket continha informações sobre um suposto sobrevivente do incêndio em sua casa, por isso precisavam encontrar as outras páginas antes de Olaf.
“Sim, é claro”, disse o homem de mãos de gancho. “Temos de encontrar o dossiê Snicket. Mas qual é a segunda coisa?”
“Encontrar os Baudelaire, seu idiota”, grunhiu Olaf. “Se não os encontrarmos, não poderemos roubar a fortuna, e todos os meus planos irão para o lixo.”
“Eu nunca achei que os seus planos fossem lixo”, disse uma das mulheres de cara branca. “Me diverti muito com eles, mesmo que não tenhamos a fortuna.”
“Acha que os três fedelhos escaparam vivos do hospital?”, perguntou o careca.
“Aquelas crianças sempre tiveram muita sorte”, disse o conde Olaf, “é provável que estejam vivas e com saúde. Mas com certeza as coisas seriam mais fáceis se um ou dois tivesse virado torresmo naquele hospital, afinal só precisamos de um para conseguir a fortuna.”
“Espero que seja Sunny”, disse o homem de mãos de gancho. “Foi divertido enfiá-la numa gaiola, e estou louco para fazer isso de novo.”
“Eu espero que seja Violet”, disse Olaf. “É a mais bonitinha.”
“Tanto faz quem tenha sobrado”, Esmé falou. “Só quero saber onde eles estão.”
“Madame Lulu vai saber”, disse Olaf. “Com sua bola de cristal, ela nos contará onde estão os órfãos e o dossiê, e o que mais quisermos saber.”
“Nunca acreditei em bola de cristal”, observou uma mulher de cara branca, “mas aprendi que a vidência funciona mesmo quando vi essa madame Lulu revelar com exatidão onde os Baudelaire estavam todas as vezes que escaparam.”
“Continue comigo”, disse Olaf, “e vai aprender milhões de coisas novas. Ah, ali está o desvio para a Estrada das Raras Viagens. Estamos quase lá.”
O carro virou à esquerda, e os Baudelaire rolaram pelo porta-malas junto com os diversos objetos que permitiam a Olaf executar seus pérfidos planos. Violet tentou não tossir quando uma das barbas postiças fez cócegas no seu pescoço. Klaus protegeu o rosto com as mãos para evitar que uma caixa de ferramentas que vinha deslizando quebrasse seus óculos. E Sunny fechou a boca com força para impedir que uma das camisetas sujas de Olaf se enganchasse nos seus dentes afiados. A Estrada das Raras Viagens era ainda mais esburacada que a rodovia principal, e o carro fazia tanto barulho que as crianças não puderam ouvir mais nada da conversa, pelo menos até Olaf brecar o carro com estrondo.
“Já estamos lá?”, perguntou o homem de mãos de gancho.
“Estamos aqui, seu bobalhão”, desdenhou Olaf. “Olhem a placa: Parque Caligari.”
“É onde fica madame Lulu?”, perguntou o careca.
“O que você acha?”, perguntou Esmé, e todos riram.
As portas do automóvel rangeram ao se abrir, e conforme todos iam saltando para fora, o carro dava novos solavancos.
“Pego o vinho no porta-malas, chefe?”, perguntou o careca.
Os Baudelaire gelaram.
“Não”, respondeu o conde Olaf. “Madame Lulu deve ter bastante bebida para nós.”
As três crianças continuaram bem quietas enquanto Olaf e sua trupe se afastavam do carro. Os passos foram soando cada vez mais distantes, até que sumiram, e apenas quando restou só o assobio da brisa noturna passando pelos buracos de bala é que os Baudelaire puderam falar.
“O que vamos fazer?”, sussurrou Violet, afastando a barba que a incomodava.
“Merrill”, disse Sunny. Como acontece com muita gente da idade dela, a mais jovem dos Baudelaire às vezes falava coisas que certas pessoas não entendiam muito bem, mas seus irmãos entenderam de imediato que ela queria dizer alguma coisa como: “É melhor a gente sair deste porta-malas”.
“Assim que possível”, concordou Klaus. “Não sabemos quando Olaf e sua trupe voltam. Você poderia inventar alguma coisa para nos tirar daqui, Violet?”
“Não deve ser muito difícil”, ela respondeu, “ainda mais com todas essas coisas aqui dentro.” Violet apalpou em volta até encontrar a tranca do porta-malas. “Já estudei esse tipo de fechadura antes”, disse ela. “Tudo de que preciso é um pedaço de barbante forte. Procurem ao redor de vocês, vamos ver se achamos alguma coisa.”
“Há uma coisa enrolada no meu braço esquerdo”, disse Klaus, torcendo o corpo. “Pela textura, pode ser parte do turbante que Olaf usou para se disfarçar de treinador Genghis.”
“É grosso demais”, disse Violet. “Precisa passar entre as duas pecinhas da fechadura.”
“Semja!”, disse Sunny.
“Isso é o cordão do meu sapato, Sunny”, disse Klaus.
“Só vamos usar isso como último recurso”, determinou Violet. “Se pretendemos escapar, não podemos deixar que você saia tropeçando por aí. Espere um pouco, acho que encontrei uma coisa debaixo do pneu sobressalente”.
“O quê?”
“Não sei”, disse Violet. “Parece um cordão bem fininho com uma coisa redonda e chata na ponta.”
“Aposto que é um monóculo”, disse Klaus. “Você sabe, aquela coisa esquisita que Olaf usava num dos olhos quando fingia ser o leiloeiro Gunther. “
“Acho que é isso mesmo”, disse Violet. “Bem, esse monóculo ajudou Olaf com o plano dele, e agora vai nos ajudar com o nosso. Sunny, afaste-se um pouquinho, para eu poder testar isso aqui. “
Sunny se espremeu o mais que pôde, e Violet, passando o braço por cima dos irmãos, enrolou a haste do monóculo na fechadura. As três crianças ficaram bem atentas enquanto Violet sacudia sua invenção em volta da lingueta – e alguns segundos depois ouviram um dic! abafado, e a tampa do porta-malas se abriu num lento crééééc! Os Baudelaire sentiram a brisa fresca entrar no porta-malas, mas ficaram absolutamente imóveis por alguns instantes, pois tinham que se certificar de que o barulho não tinha chamado a atenção de Olaf. Aparentemente, ele e seus assistentes estavam bem longe dali, pois algum tempo já se passara sem que as crianças tivessem ouvido nada, a não ser o cricrilar dos grilos e o latido distante de um cachorro.
Os Baudelaire se entreolharam, apertando os olhos contra a luz pálida e, sem dizer palavra, Violet e Klaus saltaram do carro e depois tiraram a irmãzinha de lá. O famoso crepúsculo do sertão estava acabando, e tudo o que as crianças podiam ver fora encoberto por um tom azulado, como se Olaf as tivesse arrastado para as profundezas do oceano. Numa grande placa de madeira, a pintura desbotada de um leão perseguindo um menino assustado ilustrava as palavras PARQUE CALIGARI escritas em letras malfeitas. Atrás da placa havia uma pequena cabine onde se vendiam ingressos e uma cabine telefônica que refletia a luz azul. Atrás das duas cabines havia uma enorme montanha-russa, uma palavra que aqui significa “uma série de carrinhos onde, sem nenhuma razão, as pessoas se acomodam para deslizar por íngremes e assustadoras ladeiras de trilhos”. Mas aquela montanha-russa não devia ser usada havia um bom tempo, pois os trilhos e os carrinhos estavam tomados por ramos de hera e outras trepadeiras, o que dava a impressão de que estava prestes a ser engolida pela terra. Mas além da montanha-russa, havia também uma fileira de barracas tremulando à brisa da noite como águas-vivas no mar, e ao lado de cada barraca havia um trailer, um veículo sobre rodas usado como habitação por pessoas que viajam com frequência. Todos os trailers e barracas tinham diferentes símbolos pintados nas laterais, mas os Baudelaire logo perceberam qual era o trailer de madame Lulu, pois era o único decorado com um enorme olho. Os Baudelaire já tinham visto aquele olho várias vezes, pois era o mesmo desenho que o conde Olaf tinha tatuado no tornozelo esquerdo, e pensar nisso os fez estremecer perante a ideia de que até mesmo no meio do sertão o conde Olaf estava presente.
“Agora que já saímos do porta-malas”, disse Klaus, “vamos tratar de dar o fora daqui. Olaf e sua trupe podem voltar a qualquer minuto.”
“Mas para onde vamos?”, perguntou Violet. “Estamos no meio do sertão. O comparsa de Olaf disse que não havia nenhum lugar para se esconder.”
“Bem, teremos de encontrar algum”, disse Klaus. “Ficar perto de onde o conde Olaf é bem-vindo não pode ser seguro.”
“Olho!”, concordou Sunny, apontando para o trailer de madame Lulu.
“Mas não podemos perambular pelos campos”, disse Violet. “Da última vez que fizemos isso, acabamos nos metendo em problemas ainda maiores.”
“Talvez possamos chamar a polícia daquela cabine telefônica”, sugeriu Klaus.
“Blitz!”, disse Sunny, o que queria dizer: “Mas a polícia pensa que somos assassinos!”.
“Talvez possamos tentar falar com o sr. Poe”, disse Violet. “Não tivemos sucesso com o telegrama que mandamos pedindo ajuda, talvez tenhamos mais sorte pelo telefone.”
Os três irmãos trocaram olhares de desesperança. O sr. Poe era o Vice-Presidente Encarregado dos Assuntos de Órfãos da Administração Financeira de Multas, um grande banco, e parte do seu trabalho era supervisionar os assuntos dos Baudelaire depois do incêndio. Ele não era mau, mas sem querer colocara as crianças na companhia de tantas pessoas más que ficara sendo uma pessoa quase tão má quanto uma pessoa má de verdade, e os Baudelaire não estavam exatamente ansiosos para entrar em contato com ele, mesmo sendo a única coisa que podiam fazer.
“Talvez ele não seja de nenhuma ajuda”, admitiu Violet, “mas o que temos a perder?”
“Não vamos pensar nisso”, retrucou Klaus, e foi até a cabine telefônica. “Talvez o sr. Poe nos deixe explicar o que aconteceu.”
“Dindim”, disse Sunny, o que queria dizer algo como: “Vamos precisar de dinheiro para fazer uma chamada telefônica”.
“Eu não tenho nada”, disse Klaus, procurando nos bolsos. “Você tem algum dinheiro, Violet?”
Violet sacudiu a cabeça. “Vamos ligar para a operadora e ver se existe algum jeito de fazer uma chamada sem pagar.”
Klaus concordou e abriu a porta da cabine para que ele e as irmãs se espremessem lá dentro. Violet discou para a operadora e Klaus ergueu Sunny para que ela também ouvisse a conversa.
“Telefonista”, disse a telefonista.
“Boa noite”, disse Violet. “Meus irmãos e eu gostaríamos de fazer uma chamada.”
“Por favor deposite a importância exata em dinheiro”, disse a atendente.
“Nós não temos a importância exata em dinheiro”, respondeu Violet. “Aliás, nós não temos dinheiro nenhum. Mas trata-se de uma emergência.”
Os Baudelaire perceberam que a telefonista estava suspirando do outro lado da linha. “Qual é a natureza exata da sua emergência?”
Violet baixou os olhos e viu os últimos raios da luz azul do crepúsculo refletidas nos óculos de Klaus e nos dentes de Sunny. Com a escuridão se formando em torno deles, a natureza da emergência parecia tão vasta que levaria o resto da noite para ser explicada, mas Violet imaginou um modo de otimizá-la, uma expressão que aqui significa “contar a história de um jeito que convencesse a operadora a deixá-los falar com o sr. Poe sem ter que pagar”.
“Bem”, começou, “meu nome é Violet Baudelaire, e estou aqui com o meu irmão, Klaus, e a minha irmã, Sunny. Nossos nomes podem soar familiares para a senhora, porque O Pundonor Diário publicou recentemente um artigo dizendo que somos Verônica, Klyde e Susie Baudelaire, os assassinos do conde Omar. Acontece que o conde Omar é o conde Olaf, e ele não está morto. Ele forjou a própria morte matando outra pessoa que tinha a mesma tatuagem que ele e jogou a culpa em nós. Há alguns dias ele incendiou um hospital inteiro tentando nos capturar, mas nos escondemos no porta-malas do seu carro. Acabamos de sair de lá e estamos tentando falar com o sr. Poe para que ele nos ajude a encontrar o dossiê Snicket, que, até onde sabemos, é a única pista que poderia explicar o que significam as iniciais C. S. C. e se de fato um de nossos pais sobreviveu ao incêndio. Sei que a história é muito complicada, e pode parecer inacreditável, mas estamos totalmente sozinhos no meio do sertão e não sabemos mais o que fazer.”
A história era tão terrível que Violet enxugou uma lágrima enquanto aguardava a resposta da telefonista. Mas nenhuma resposta veio do telefone. Os três Baudelaire prestaram bastante atenção, mas tudo o que puderam ouvir foi o som vazio e distante de uma linha telefônica.
“Alô?”, disse Violet por fim.
O telefone não disse nada.
“Alô?”, disse Violet de novo. “Alô? Alô?”
O telefone não respondeu.
“Alô?”, disse Violet, o mais alto que pôde.
“Acho melhor desligar”, disse Klaus, gentilmente.
“Mas por que ninguém responde?”, gritou Violet.
“Não sei”, disse Klaus, “mas não creio que a telefonista vá nos ajudar.”
Violet devolveu o fone no gancho e abriu a porta da cabine. Agora que o sol descera no horizonte, o ar estava mais frio, e ela estremeceu com a chegada da noite.
“Quem vai nos ajudar?”, perguntou. “Quem vai tomar conta de nós?”
“Vamos ter de tomar conta de nós mesmos”, disse Klaus.
“Ephrai”, disse Sunny, o que queria dizer: “Agora é que estamos numa encrenca de verdade”.
“Com certeza”, concordou Violet. “Estamos no meio do nada, sem um lugar onde nos esconder, e ainda por cima o mundo inteiro pensa que somos criminosos. Como criminosos tomam conta de si mesmos no meio do sertão?”
Como que em resposta, os Baudelaire ouviram uma gargalhada. O riso era bem distante, porém no silêncio da noite ele sobressaltou as crianças. Sunny apontou com o dedo e eles viram uma luz no trailer de madame Lulu. Várias sombras se moviam por trás da janela, e as crianças perceberam que o conde Olaf e sua trupe estavam lá dentro, batendo papo e dando risada enquanto os órfãos Baudelaire tremiam nas sombras do lado de fora.
“Vamos lá”, disse Klaus. “Vamos descobrir como criminosos tomam conta de si mesmos.”

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