quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Capítulo um


Existem duas razões por que um escritor terminaria uma frase com a palavra “ponto” escrita toda em letras maiúsculas PONTO. A primeira é no caso de o escritor estar redigindo um telegrama, que é uma mensagem em código enviada por um fio elétrico PONTO. Em um telegrama, a palavra “ponto”, toda em letras maiúsculas, é o código para indicar o final de uma frase PONTO. Mas existe uma outra razão por que um escritor terminaria uma sentença com a palavra “ponto” escrita inteiramente em letras maiúsculas, que é advertir os leitores de que o livro que estão lendo é tão absolutamente desgraçado que, se eles já começaram a ler, a melhor coisa a fazer seria parar PONTO. Este livro em particular, por exemplo, descreve um período especialmente infeliz nas vidas aflitivas de Violet, Klaus e Sunny Baudelaire, e se você tiver um pingo de juízo que seja, irá fechar este livro imediatamente, arrastá-lo para uma elevada montanha e atirá-lo do alto do cume PONTO. Não existe razão na Terra para você ler nem mais uma palavra sobre o infortúnio, a traição e o desgosto que estão reservados para as três crianças Baudelaire, do mesmo modo como não existe razão para você sair correndo para a rua e se jogar embaixo de um ônibus PONTO. Esta sentença terminada em “ponto” é a sua ultimíssima chance de fazer de conta que o aviso “PONTO” é um sinal de parada e parar com o dilúvio de desespero que o aguarda neste livro, o horror de parar o coração que começa exatamente na próxima frase, bastando para isso obedecer ao “PONTO” e parar PONTO.
Os órfãos Baudelaire pararam. Era de manhã cedo, e as três crianças vinham andando havia horas pela paisagem achatada e pouco familiar. Estavam com sede, perdidas e exaustas, o que são três boas razões para interromper uma longa caminhada, mas elas também estavam assustadas, desesperadas e não muito longe das pessoas que queriam lhes fazer mal, o que são três boas razões para prosseguir. Os irmãos tinham desistido de qualquer tipo de conversa horas atrás, economizando até a última gota de energia para pôr um pé na frente do outro, mas agora sabiam que tinham de parar, nem que fosse por um momento, e conversar sobre o que fazer a seguir.
As crianças estavam paradas na frente do Armazém Geral Última Chance, o único edifício que encontraram desde que começaram a sua longa e delirante caminhada noturna. A fachada da loja estava coberta de cartazes desbotados anunciando o que estava à venda, e sob a luminosidade fantasmagórica da meia-lua os Baudelaire conseguiram ver que limas frescas, facas de plástico, carne enlatada, envelopes brancos, balas com sabor de manga, garrafas de vinho tinto, carteiras de couro, revistas de moda, aquários com peixinhos dourados, sacos de dormir, figos secos, caixas de papelão, vitaminas suspeitas e muitas outras coisas estavam disponíveis no armazém. Porém não havia, em nenhum lugar do edifício, um cartaz que anunciasse ajuda, que é do que os Baudelaire realmente precisavam.
“Acho que deveríamos entrar”, disse Violet, tirando uma fita do bolso para amarrar os cabelos. Violet, a mais velha dos Baudelaire, que era provavelmente a melhor inventora de catorze anos de idade do mundo, sempre amarrava os cabelos com uma fita quando tinha de resolver um problema, e naquele momento estava tentando inventar uma solução para o maior problema que ela e os irmãos já tinham enfrentado. “Talvez haja alguém lá dentro que possa nos ajudar de alguma forma.”
“Mas talvez haja alguém lá dentro que tenha visto os nossos retratos no jornal”, disse Klaus, o Baudelaire do meio, que recentemente passara o seu décimo terceiro aniversário em uma imunda cela de cadeia. Klaus tinha um verdadeiro talento para se lembrar de praticamente toda palavra de praticamente todos os milhares de livros que tinha lido, e franziu o cenho ao se lembrar de uma coisa sobre ele mesmo que lera recentemente no jornal, e que não era verdade. “Se eles leram O Pundonor Diário’’, continuou ele, “talvez acreditem em todas aquelas coisas horríveis sobre nós. Aí é que não vão nos ajudar mesmo.”
“Ageri!”, disse Sunny. Sunny era um bebê, e como acontece com a maioria dos bebês, partes diferentes dela estavam crescendo em proporções diferentes. Por exemplo, ela só tinha quatro dentes, mas cada um deles era tão afiado quanto os de um leão adulto, e muito embora ela tivesse aprendido a andar recentemente, Sunny ainda estava pegando o jeito de falar de um modo que todos os adultos pudessem entender. Seus irmãos, no entanto, entenderam imediatamente que ela queria dizer: “Bem, não podemos continuar andando para sempre”, e os dois Baudelaire mais velhos balançaram a cabeça, concordando.
“Sunny tem razão”, disse Violet. “Isto aqui se chama Armazém Geral Última Chance. Soa como se este fosse o único edifício por quilômetros e quilômetros. Pode ser a nossa única oportunidade de conseguir alguma ajuda.”
“E olhe”, disse Klaus apontando para um cartaz colado em um canto elevado do edifício. “Podemos enviar um telegrama lá de dentro. Talvez assim consigamos alguma ajuda.”    
“Para quem iríamos enviar um telegrama?”, perguntou Violet, e mais uma vez os Baudelaire tiveram de parar e pensar. Se você é como a maioria das pessoas, tem um sortimento de amigos e familiares a quem pode pedir auxílio em tempos difíceis. Por exemplo, se você acordasse no meio da noite e visse uma mulher mascarada tentando se arrastar da janela para dentro do seu quarto, poderia chamar a sua mãe ou o seu pai para ajudá-lo a empurrar a mulher para fora de novo. Se você se encontrasse irremediávelmente perdido, no meio de uma cidade estranha, poderia pedir à polícia que lhe desse uma carona para casa. E se você fosse um autor trancado em um restaurante italiano que está sendo inundado de água, poderia apelar para os seus conhecidos nos negócios de chaveiro, massas e esponjas para virem em seu socorro. Mas o infortúnio das crianças Baudelaire começara com a notícia de que os seus pais tinham morrido em um incêndio terrível, portanto não podiam apelar para a mãe ou o pai. Os irmãos não podiam contar com o auxílio da polícia, porque os policiais estavam entre as pessoas que os perseguiram durante a noite inteira. E não podiam contar com conhecidos, já que havia tantos conhecidos das crianças que eram incapazes de ajudá-las. Depois da morte dos Baudelaire pais, Violet, Klaus e Sunny viram-se sob os cuidados de vários tutores. Alguns tinham sido cruéis, alguns tinham sido assassinados. E um deles era o conde Olaf, um vilão ganancioso e traiçoeiro que era a verdadeira razão por que eles estavam ali, totalmente sozinhos no meio da noite, na frente do Armazém Geral Última Chance, se perguntando a quem no mundo poderiam apelar por ajuda.
“Poe”, disse Sunny afinal. Ela estava falando do sr. Poe, um banqueiro que sofria de uma tosse atroz e que estava encarregado de cuidar das crianças depois da morte dos seus pais. O sr. Poe nunca tinha sido especialmente benéfico, mas ele não era cruel, não tinha sido assassinado nem era o conde Olaf, e aquelas pareciam ser razões suficientes para contatá-lo.
“Acho que podemos tentar o sr. Poe”, concordou Klaus. “O pior que pode acontecer é ele dizer não.”
“Ou tossir”, disse Violet com um sorrisinho. Seus irmãos sorriram de volta, e as três crianças empurraram a porta enferrujada e entraram.
“Lou, é você?”, gritou uma voz, mas as crianças não puderam ver a quem ela pertencia. O interior do Armazém Geral Última Chance era tão abarrotado quanto o exterior, cada centímetro do lugar estava atulhado de coisas para vender. Havia prateleiras de aspargos enlatados e estantes de canetas-tinteiro, ao lado de barris de cebolas e caixotes cheios de penas de pavão. Havia utensílios de cozinha pregados nas paredes e candelabros pendurados no teto, e o piso era formado por milhares de tipos diferentes de ladrilhos, cada qual com o seu preço carimbado. “Você está entregando o jornal da manhã?”, perguntou a voz.
“Não”, respondeu Violet, enquanto os Baudelaire tentavam abrir caminho até a pessoa que estava ralando. Com dificuldade, passaram por cima de uma caixa de comida de gato e contornaram uma estante, só para encontrar fileiras e mais fileiras de redes de pesca bloqueando o caminho.
“Não estou surpreso, Lou”, continuou a voz enquanto os irmãos voltavam atrás, passavam por um monte de espelhos e uma pilha de meias e desciam por uma passagem repleta de vasos de hera e caixas de fósforos. “Normalmente, eu não recebo O Pundonor Diário até depois da chegada dos Combatentes pela Saúde do Cidadão.”
As crianças pararam de procurar pela fonte da voz por um momento e se entreolharam, pensando nos amigos Duncan e Isadora Quagmire. Duncan e Isadora eram dois trigêmeos que, como os Baudelaire, tinham perdido os pais, juntamente com o irmão Quigley, em um incêndio terrível. Os Quagmire tinham caído nas mãos de Olaf um par de vezes e escapado só recentemente, mas os Baudelaire não sabiam se algum dia voltariam a ver os amigos de novo, nem se ficariam sabendo de um segredo que os trigêmeos tinham descoberto e escrito nos seus cadernos. O segredo dizia respeito às iniciais C.S.C., mas as únicas pistas que os Baudelaire tinham eram umas poucas páginas dos cadernos de Duncan e Isadora, e os três irmãos mal conseguiam encontrar tempo para examiná-las com cuidado. Poderiam os Combatentes pela Saúde do Cidadão finalmente ser a resposta que as crianças estavam procurando?
“Não, nós não somos Lou”, gritou Violet. “Somos três crianças, e precisamos enviar um telegrama.”
“Um telegrama?”, gritou a voz, e quando as crianças contornaram uma outra estante quase colidiram diretamente com o homem que estava falando com elas. Era muito baixo, mais baixo do que Violet e Klaus, e parecia estar sem dormir e sem se barbear havia um bom tempo. Estava usando dois sapatos diferentes, cada um com a sua etiqueta de preço, e uma porção de camisas e chapéus ao mesmo tempo. Estava tão coberto de mercadorias que quase parecia parte da loja, a não ser pelo sorriso amistoso e pelas unhas sujas.
“Vocês com certeza não são Lou”, disse ele. “Lou é um homem gorducho, e vocês são três crianças magricelas. O que fazem por aqui tão cedo? É perigoso, vocês sabem. Ouvi dizer que O Pundonor Diário desta manhã traz uma matéria sobre três assassinos que estão à espreita bem nestas vizinhanças, mas ainda não li.”
“As matérias dos jornais nem sempre são acuradas”, disse Klaus nervosamente.
O dono do armazém franziu o cenho. “Bobagem”, disse ele. “O Pundonor Diário não publicaria coisas que não são verdadeiras. Se o jornal diz que alguém é um assassino, então é um assassino, e ponto final. Mas, bem, vocês disseram que queriam enviar um telegrama?”
“Sim”, disse Violet. “Ao sr. Poe da Administração Financeira de Multas, na cidade.”
“Vai custar um bocado de dinheiro para enviar um telegrama para tão longe, na cidade”, disse o vendedor, e os Baudelaire se entreolharam, consternados.
“Não temos dinheiro nenhum conosco”, admitiu Klaus. “Somos três órfãos, e o único dinheiro que temos é cuidado pelo sr. Poe. Por favor, senhor.”
“S.O.S.!”, disse Sunny.
“Minha irmã quer dizer: ‘Este é um caso de emergência!”, explicou Violet. “E é”.
O vendedor, dono do armazém, olhou para eles um momento e depois encolheu os ombros. “Se é realmente um caso de emergência”, disse ele, “eu não vou cobrar de vocês. Eu nunca cobro nada pelas coisas quando elas são realmente importantes. Combatentes pela Saúde do Cidadão, por exemplo. Sempre que o ônibus deles para aqui, eu lhes dou gasolina grátis, já que fazem um trabalho tão maravilhoso.”
“O que, exatamente, eles fazem?”, perguntou Violet.
“Combatem doenças, é claro”, respondeu o vendedor. “Os C.S.C. dão uma parada aqui todas as manhãs bem cedo, a caminho do hospital. Eles se dedicam diariamente a alegrar os pacientes, e eu não tenho coragem de cobrar nada deles.”
“O senhor é um homem muito bondoso”, replicou Klaus.
“Ora, gentileza sua dizer isso”, retrucou o vendedor. “Agora, o dispositivo para enviar telegramas está ali, ao lado daqueles gatinhos de porcelana. Eu vou ajudá-los.”
“Podemos fazer isso sozinhos”, disse Violet. “Eu mesma construí um dispositivo desses quando tinha sete anos, portanto sei como conectar o circuito eletrônico.”
“E eu já li dois livros sobre o código Morse”, disse Klaus. “Portanto posso traduzir a nossa mensagem em sinais eletrônicos.”
“Socorro!”, disse Sunny.
“Mas que grupo de crianças talentosas”, disse o vendedor com um sorriso. “Bem, vou deixar vocês três à vontade. Espero que esse tal de sr. Poe possa ajudá-los com o seu caso de emergência.”
“Muito obrigada, senhor”, disse Violet. “Eu também espero.”
O vendedor fez um pequeno aceno para as crianças e desapareceu atrás de um mostruário de descascadores de batatas. Os Baudelaire se entreolharam, alvoroçados.
“Combatentes pela Saúde do Cidadão?”, sussurrou Klaus para Violet. “Você acha que finalmente descobrimos o verdadeiro significado de C.S.C.?”
“Jacques!”, disse Sunny.
“Jacques falou alguma coisa sobre trabalhar como voluntário”, concordou Klaus. “Se ao menos tivéssemos alguns momentos para examinar as páginas que sobraram dos cadernos dos Quagmire! Ainda estão no meu bolso.”
“Primeiro o mais urgente”, disse Violet. “Vamos enviar o telegrama para o sr. Poe. Se Lou entregar O Pundonor Diário esta manhã, o dono da loja vai parar de pensar que somos um grupo de crianças talentosas e começar a pensar que somos assassinos.”
“Você tem razão”, disse Klaus. “Depois que o sr. Poe nos tirar dessa enrascada, teremos tempo para pensar nessas outras coisas.”
“Trosslic”, disse Sunny. Ela queria dizer alguma coisa na linha de: “Você quer dizer se o sr. Poe nos tirar desta enrascada”, e os seus dois irmãos inclinaram a cabeça concordando, sombrios, e foram dar uma olhada no dispositivo telegráfico. Era um arranjo de botões, mostradores, fios e estranhos implementos metálicos que eu teria medo até de tocar, mas os Baudelaire se aproximaram daquilo confiantes.
“Estou razoavelmente segura de que podemos operar isto aqui”, disse Violet. “Parece bem simples. Veja, Klaus, você usa estas duas barras de metal para bater a mensagem em código Morse, e eu vou conectar o circuito aqui deste lado. Sunny, você fica aqui em pé e coloca estes fones de ouvido para ouvir o sinal e ter certeza de que está sendo transmitido. Mãos à obra.”
As crianças puseram mãos à obra, uma expressão que aqui significa “tomaram suas posições em volta do dispositivo telegráfico”. Violet girou um botão, Sunny colocou os fones de ouvido e Klaus limpou as lentes dos óculos para ter certeza de que iria enxergar o que estava fazendo. Os irmãos inclinaram a cabeça uns para os outros e Klaus começou a falar alto enquanto batia a mensagem em código.
“Para: sr. Poe, na Administração de Multas”, disse Klaus. “De: Violet, Klaus e Sunny Baudelaire. Por favor não acredite na história sobre nós publicada n’O Pundonor Diário PONTO. O conde Olaf não está realmente morto, e nós realmente não o assassinamos PONTO.”
“Pra ele?”, perguntou Sunny.
“Não, ‘ponto’ é o código para o fim de uma sentença”, explicou Klaus. “Agora, o que devo dizer a seguir?”
“Logo depois da nossa chegada na cidade de C.S.C. fomos informados de que o conde Olaf tinha sido capturado PONTO”, ditou Violet. “Apesar de o homem que foi preso ter um olho tatuado no tornozelo e uma sobrancelha em vez de duas, ele não era o conde Olaf PONTO. O nome dele era Jacques Snicket PONTO.”
“No dia seguinte o encontraram assassinado, e o conde Olaf chegou na cidade junto com a sua namorada, Esmé Squalor PONTO”, continuou Klaus, batendo sem parar. “Como parte do seu plano para roubar a fortuna deixada pelos nossos pais, o conde Olaf disfarçou-se de detetive e convenceu a cidade de C.S.C. de que éramos os assassinos PONTO.”
“Uckner”, sugeriu Sunny, e Klaus traduziu o que ela disse para o vernáculo e depois para o código Morse: “Nesse meio-tempo nós descobrimos onde os trigêmeos Quagmire estavam sendo escondidos e os ajudamos a fugir PONTO. Os Quagmire conseguiram passar para nós alguns retalhos dos seus cadernos para que tentássemos descobrir o verdadeiro significado de C.S.C. PONTO.”
“Nós conseguimos fugir dos cidadãos da cidade, que querem nos queimar na fogueira por um assassinato que não cometemos PONTO”, disse Violet, e Klaus rapidamente bateu a frase codificada, antes de acrescentar mais duas últimas frases dele mesmo.
“Por favor responda imediatamente PONTO. Estamos em sério perigo PONTO.”
Klaus bateu o último O de “PONTO” e depois olhou para as irmãs. “Estamos em sério perigo”, disse ele de novo, mas sua mão não se mexeu no manipulador.
“Você já enviou essa frase”, disse Violet.
“Eu sei”, disse Klaus. “Não estava incluindo no telegrama outra vez. Só estava falando. Estamos em sério perigo. É quase como se eu não tivesse me dado conta de como era sério o perigo até bater a frase em um telegrama.”
“Ilimi”, disse Sunny, e tirou os fones de ouvido para poder encostar a cabeça no ombro de Klaus.
“Eu também estou com medo”, admitiu Violet, dando palmadinhas no ombro da irmã. “Mas tenho certeza de que o sr. Poe vai nos ajudar. Não se pode esperar que a gente resolva esse problema sem ajuda de ninguém.”
“Mas foi assim que resolvemos todos os outros problemas”, disse Klaus, “desde o incêndio. O sr. Poe nunca fez nada, a não ser nos mandar de um lar desastroso para outro.”
“Ele vai nos ajudar dessa vez”, insistiu Violet, muito embora sua voz não soasse muito segura. “Fique de olho no dispositivo. Ele vai nos mandar um telegrama em resposta a qualquer momento.”
“Mas e se ele não mandar?”, perguntou Klaus.
“Tchonex”, murmurou Sunny, e foi chegando mais para perto dos irmãos. Ela queria dizer alguma coisa no gênero de: “Então estamos totalmente sós”, o que é uma coisa curiosa para se dizer quando se está com dois irmãos no meio de um armazém tão abarrotado de mercadorias que mal dá para se mexer. Mas enquanto permaneciam ali sentados, muito juntos, olhando para o dispositivo telegráfico, aquilo não pareceu curioso para os Baudelaire. Estavam cercados por cordas de náilon, cera para assoalhos, tigelas de sopa, cortinas de janela, cavalinhos de balanço feitos de madeira, cartolas, cabos de fibra ótica, batom cor-de-rosa, damascos secos, lentes de aumento, guarda-chuvas pretos, pincéis finos, trompas, e uns pelos outros, mas enquanto os órfãos Baudelaire aguardavam sentados uma resposta ao seu telegrama, só conseguiam se sentir cada vez mais sozinhos.

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