terça-feira, 30 de agosto de 2016

Capítulo um


Um conhecido meu escreveu um poema chamado O caminho menos percorrido, que descreve uma viagem através dos bosques por um caminho praticamente desconhecido da maioria dos viajantes. O poeta descobriu que o caminho menos percorrido era tranquilo porém solitário, e deve ter ficado um pouco nervoso durante a viagem, pois se alguma coisa lhe acontecesse os viajantes do caminho mais percorrido não ouviriam seu grito de socorro. Esse poeta acabou morrendo, como era de esperar. Assim como ele, este livro viaja pelo caminho menos percorrido, porque começa com as três crianças Baudelaire atravessando as Montanhas de Mão-Morta, que não são lá um destino muito popular entre os viajantes, e termina nas águas agitadas do Arroio Enamorado, um lugar de onde poucos se aproximam. Ao contrário da maioria dos livros que a maioria das pessoas prefere, que oferecem narrativas divertidas de pessoas encantadoras e animais falantes, esta narrativa é aflitiva e enervante. As pessoas que por desventura fazem parte dela são muito mais desesperadas que encantadoras, e quanto aos animais, prefiro nem falar. Por essas razões, não posso sugerir a leitura deste livro deplorável, assim como não recomendaria que você perambulasse pelo bosque sozinho, pois da mesma forma que o caminho menos percorrido, este livro o fará se sentir solitário, miserável e necessitado.
Mas os órfãos Baudelaire não tinham outra escolha senão seguir pelo caminho menos percorrido. Violet e Klaus, os Baudelaire mais velhos, viajavam num trailer a toda a velocidade rumo ao topo das montanhas. Nem Violet, que tinha catorze anos, nem Klaus, que recentemente fizera treze, podiam supor que um dia percorreriam a estrada das Montanhas de Mão-Morta, a não ser que estivessem numa viagem de férias acompanhados de seus pais. Mas os pais dos Baudelaire estavam desaparecidos desde o terrível incêndio em sua casa – ainda que as crianças acreditassem que um deles pudesse estar vivo –; e o trailer não estava subindo as Montanhas de Mão-Morta rumo à base de operações secretas de que tinham ouvido falar e que tinham esperanças de encontrar. O trailer despencava montanha abaixo, sem que os órfãos pudessem controlar ou interromper a queda, e por isso Violet e Klaus não se sentiam exatamente viajantes em férias, mas sim peixes ao sabor das ondas em um mar tempestuoso.
Mas Sunny Baudelaire estava numa situação que era ainda mais desesperadora. A mais jovem dos órfãos ainda não tinha aprendido a falar de um modo que todos pudessem entender, portanto não tinha palavras para descrever o quanto estava assustada. Sunny viajava montanha acima, rumo à base de operações nas Montanhas de Mão-Morta, e o automóvel em que estava não tinha nenhum problema de funcionamento, mas ainda que tudo parecesse correr bem, o homem que conduzia o veículo era razão suficiente para deixá-la aterrorizada. Algumas pessoas chamavam esse homem de malvado; algumas o chamavam de facínora, que é uma palavra difícil para “malvado”. Mas todas o chamavam de conde Olaf, a não ser quando ele usava um dos seus ridículos disfarces e forçava as pessoas a chamá-lo por um nome falso. Conde Olaf era um ator, mas abandonara sua carreira teatral para tentar roubar a herança milionária dos Baudelaire. Os planos de Olaf para pôr as mãos na fortuna eram ignóbeis e complicados, mas apesar disso ele conseguira atrair para sua trupe uma mulher vil e elegante chamada Esmé Squalor, sua namorada, que estava agora sentada ao lado dele no carro, tagarelando de um jeito antipático, com Sunny no colo. Também estavam no carro os empregados de Olaf: um homem com ganchos no lugar de mãos, duas mulheres que gostavam de empoar a cara de branco e três novos capangas, recrutados há pouco no Parque Caligari. As crianças Baudelaire também tinham estado no parque, disfarçadas, fingindo participar da armação de Olaf. Mas o vilão as desmascarou, uma expressão que aqui significa “descobriu quem elas eram e por isso cortou o nó que ligava o trailer ao carro, deixando Sunny nas garras de Olaf e seus irmãos em queda livre”. Sunny, no colo de Esmé, sentia as unhas compridas da vilã arranharem seus ombros enquanto se perguntava o que iria acontecer com ela e com os irmãos, cujos gritos ficavam cada vez mais fracos e distantes conforme o carro se distanciava do trailer em queda.
“Temos de parar este trailer!”, gritou Klaus, e colocou os óculos apressado, como se enxergar bem pudesse melhorar a situação. No entanto, mesmo em foco, a situação era bastante desesperadora. O trailer que agora descia montanha abaixo e tinha se transformado no lar sacolejante dos Baudelaire mais velhos, já tinha servido de lar para vários artistas da Casa dos Monstros, mas isso foi antes de eles desertarem, uma palavra que aqui significa “juntarem-se ao bando revoltante de comparsas do conde Olaf”. Klaus agachou-se para se esquivar de uma panela que Hugo, o corcunda, usara para preparar refeições e que por causa da trepidação despencara de uma prateleira. E quando o jogo de dominó de Colette, a contorcionista, passou deslizando pelo chão, Klaus teve de erguer seus pés para não pisar nele. Foi preciso desviar também de uma rede de dormir, que com os olhos apertados o Baudelaire do meio flagrou oscilando com violência em sua direção. Há pouco tempo, antes de se juntar com os amigos Kevin e Colette à trupe de Olaf, Kevin, o ambidestro, dormia naquela rede, que agora ameaçava cair sobre as cabeças dos Baudelaire.
A única coisa reconfortante que Klaus podia ver era sua irmã, que percorria o carroção com uma expressão intensa e pensativa, enquanto desabotoava a camisa do disfarce que os dois irmãos compartilhavam.
“Ajude-me a tirar nossas calças”, disse Violet. “Não adianta mais fingir que somos uma aberração de duas cabeças. Precisamos estar preparados para o que der e vier.”
Em pouco tempo os dois Baudelaire estavam livres das enormes roupas apanhadas do kit de disfarces do conde Olaf e se equilibravam de pé no trailer trepidante, já com suas roupas normais. Klaus esquivou-se de um vaso de planta que caía, e não pôde deixar de sorrir quando olhou para a irmã. Violet prendia o cabelo com uma fita, sinal de que planejava alguma invenção. As habilidades mecânicas de Violet já tinham salvado as vidas dos Baudelaire mais vezes do que fora possível contar, e por isso Klaus tinha certeza de que a irmã inventaria alguma coisa para deter a jornada do trailer.
“Você vai construir um freio?”, perguntou Klaus.
“Ainda não”, disse Violet. “Um freio obrigaria as rodas a parar de modo brusco, e as rodas deste trailer estão girando rápido demais. Vou desenganchar essas redes e usá-las como drag chutes.”
“Drag chutes?”, disse Klaus.
“Drag chutes se parecem um pouco com paraquedas, mas são pedaços de lona presos na traseira de um carro para reduzir sua velocidade”, explicou Violet apressada, enquanto uma arara de casacos chacoalhava ao seu redor. Sem titubear, desenganchou a rede onde ela e Klaus tinham dormido. “No final das corridas de velocidade, os drag chutes são usados para desacelerar os carros e ajudá-los a parar. Se eu pendurar as redes do lado de fora do trailer, vamos reduzir bastante a velocidade. “
“O que eu faço?”, perguntou Klaus.
“Você pode dar uma olhada na despensa de Hugo”, disse Violet, “e ver se encontra algo pegajoso.”
Quando alguém pede que você faça alguma coisa inusitada e sem explicação, é muito difícil não perguntar por quê, mas há muito tempo Klaus aprendera a confiar nas ideias da irmã, então sem questionar se dirigiu até o grande armário em que Hugo guardava os alimentos. A porta do armário batia de um lado para o outro como se lutasse contra um fantasma, mas por sorte a maior parte das coisas ainda se mantinha ali dentro. Klaus se lembrou da irmãzinha bebê, que se afastava cada vez mais deles. Ainda que Sunny fosse muito jovem, vinha demonstrando interesse por cozinha, e Klaus lembrou-se de que ela desenvolvera uma receita de chocolate quente e ajudara a preparar uma sopa deliciosa que todos saborearam. Klaus manteve a porta do armário aberta e, enquanto o examinava, desejou que a irmãzinha sobrevivesse para dar prosseguimento a seus talentos culinários.
“Klaus”, disse Violet com firmeza, desenganchando uma segunda rede e amarrando-a à primeira. “Não quero apressá-lo, mas precisamos deter o trailer o mais depressa possível. Já encontrou alguma coisa pegajosa?”
Klaus piscou e retomou a tarefa. Um jarro de cerâmica rolou em volta de seus pés enquanto ele examinava as garrafas e potes do armário.
“Há uma porção de coisas pegajosas aqui dentro”, disse ele. “Tem melaço de cana, mel de trevo silvestre, xarope de milho, vinagre balsâmico envelhecido, manteiga de maçã, geleia de morango, molho de caramelo, xarope de bordo, cobertura de caramelo, licor marasquino, azeite de oliva virgem e extravirgem, creme inglês de limão, damascos secos, chutney de manga, crema di noci, pasta de tamarindo, mostarda forte, marshmallows, creme de milho, manteiga de amendoim, uvas em conserva, puxa-puxa, leite condensado, recheio de torta de abóbora e cola. Não sei por que Hugo guarda cola na despensa, mas não importa. O que você quer?”
“Tudo”, disse Violet, resoluta. “Encontre um jeito de misturar todos os ingredientes enquanto amarro as redes uma na outra.”
Klaus pegou o jarro no chão e começou a despejar os conteúdos dos potes dentro dele. Enquanto isso, Violet, sentada no chão para se equilibrar melhor, entrelaçava os cordões das redes para formar um nó. A cada solavanco do trailer os Baudelaire ficavam um pouco mais enjoados, como se estivessem de volta ao Lago Lacrimoso, atravessando águas tempestuosas para tentar salvar um dos seus muitos e desventurados tutores. Mas a despeito da desordem à sua volta, Violet se ergueu do chão com as redes entrelaçadas nos braços. Klaus olhou para ela e mostrou o jarro, cheio até a boca de uma pasta grudenta e colorida.
“Quando eu disser já”, disse Violet, “vou abrir a porta e jogar as redes para fora. Você fica do outro lado do trailer, Klaus. Abra aquela janelinha e despeje a mistura por cima das rodas. Se as redes funcionarem como drag chutes e a substância fizer as rodas brecarem pelo menos um pouco, a velocidade do trailer será reduzida, e nós estaremos salvos. Só preciso amarrar as redes à maçaneta.”
“Você está usando o nó Língua do Diabo?”, perguntou Klaus.
“O Língua do Diabo não tem nos trazido muita sorte”, disse Violet, referindo-se às diversas fugas em que precisaram de cordas. “Estou usando o Sumac, um nó que eu mesma inventei. É uma homenagem a uma cantora que eu admiro. Pronto. Parece firme. Você está pronto para despejar a mistura nas rodas?”
Klaus abriu a janela. O ruído chacoalhante das rodas do trailer se tornou mais audível, e os Baudelaire ficaram olhando por um momento a paisagem que passava em alta velocidade. O caminho era acidentado e cheio de curvas, parecia que a qualquer momento o trailer podia cair num buraco ou despencar dos picos da montanha.
“Acho que estou pronto”, disse Klaus, hesitante. “Mas antes de testarmos a sua invenção quero lhe dizer uma coisa.”
“Se não andarmos logo”, disse ela, amarga, “você não terá nem chance de me dizer alguma coisa.” Ela deu mais um puxão no nó e voltou-se de novo para Klaus. “Já!”, comandou, e abriu a porta do trailer num tranco.
Costuma-se dizer que ter a janela do quarto virada para uma bela paisagem é o suficiente para fazer com que nos sintamos em paz e relaxados; no entanto, se esse quarto for um trailer em vertiginosa queda por uma estrada íngreme e sinuosa, e a paisagem uma sinistra cadeia de montanhas sendo deixada para trás em alta velocidade, e se ainda por cima os ventos gélidos das montanhas fustigam nosso rosto e enchem nossos olhos de poeira, é provável que não nos sintamos em paz nem relaxados. Em vez disso, sentiremos o horror e o pânico que os Baudelaire sentiram quando Violet abriu a porta. Por um momento eles ficaram parados, apenas balançando ao sabor do trailer desenfreado e observando os estranhos picos quadrados das Montanhas de Mão-Morta, enquanto as rodas do trailer rangiam ao se chocar contra as pedras e os tocos de árvores no chão. Mas então Violet gritou “Já!” outra vez, e imediatamente eles começaram a botar o plano em prática. Klaus se debruçou para fora da janela e começou a despejar a mistura de melaço de cana, mel de trevo silvestre, xarope de milho, vinagre balsâmico envelhecido, manteiga de maçã, geleia de morango, molho de caramelo, xarope de bordo, cobertura de caramelo, licor marasquino, azeite de oliva virgem e extravirgem, creme inglês de limão, damascos secos, chutney de manga, crema di noci, pasta de tamarindo, mostarda forte, marshmallows, creme de milho, manteiga de amendoim, uvas em conserva, puxa-puxa, leite condensado, recheio de torta de abóbora e cola nas rodas mais próximas, enquanto sua irmã lançava as redes porta afora. Se você já leu alguma coisa a respeito das vidas dos órfãos Baudelaire – e eu espero que não – não ficará surpreso ao saber que a invenção de Violet funcionou. As redes se encheram de ar como enormes balões de pano atrás do trailer, e de fato a velocidade diminuiu bastante, o que aconteceria também com você, caso corresse com uma mochila ou um xerife nas costas. A mistura pegajosa que Klaus preparara caiu sobre as rodas, que imediatamente reduziram a velocidade, o que aconteceria também com você, caso corresse sobre areia movediça ou uma lasanha. As rodas passaram a girar mais devagar, e em pouco tempo os Baudelaire viajavam num ritmo bem mais tranquilo.
“Funcionou!”, gritou Klaus.
“Ainda não acabamos”, disse Violet, e foi até uma mesinha que tinha tombado na confusão. Quando os Baudelaire moraram no Parque Caligari, essa mesa foi fundamental para fazer planos, mas agora, nas Montanhas de Mão-Morta, seria fundamental por uma razão diferente. Violet a arrastou até a porta aberta. “Agora que as rodas estão com a velocidade reduzida”, disse ela, “vamos usar a mesa como freio.”
Klaus despejou o resto da mistura nas rodas e perguntou: “Como?”. Mas Violet já estava mostrando como. Deitou-se no chão e segurou a mesa pelas pernas para fora do trailer, arrastando o tampo contra a terra. Um ruído áspero soou, e a mesa começou a trepidar nas mãos de Violet. Mas ela segurou firme, e a mesa começou a raspar a terra pedregosa até reduzir a velocidade do veículo. O trailer foi parando de chacoalhar, os objetos dos antigos empregados do parque pararam de colidir uns com os outros e então, com um último rangido, as rodas pararam de vez e tudo ficou em silêncio. Violet inclinou-se para fora da porta e escorou uma das rodas com a mesa, para impedir que continuasse a girar, só então se levantou e olhou para Klaus.
“Conseguimos”, disse Violet.
“Você conseguiu”, disse Klaus. “O plano foi ideia sua.” Ele pôs o jarro no chão e enxugou as mãos numa toalha caída.
“Não deixe o jarro no chão”, disse Violet, correndo os olhos pelos destroços caídos no trailer. ‘Precisamos juntar o máximo de coisas úteis para invenções. Se queremos resgatar Sunny, vamos precisar fazer este trailer subir toda a montanha.”
“E chegar à base de operações”, acrescentou Klaus. “O conde Olaf está com o mapa, mas eu me lembro que a base de operações fica no Vale das Correntezas que Sopram Constantes, perto da nascente do Arroio Enamorado. Deve fazer muito frio por lá.”
“Bem, aqui tem roupas à vontade”, disse Violet, olhando em volta. “Vamos pegar tudo o que der e organizar lá fora.”
Klaus concordou e recolheu o jarro, junto com diversos itens de vestuário que tinham caído sobre um espelho de mão que pertencera a Colette. Com andar cambaleante por conta do peso que carregava, ele saiu do trailer atrás de Violet, que recolhera uma faca de pão, três casacos pesados e um uquelele, uma espécie de guitarra havaiana que Hugo tocava em algumas tardes de lazer. O piso do trailer rangeu sob os passos dos Baudelaire, que saíram para a paisagem enevoada e vazia enquanto se davam conta da sorte que tiveram.
O trailer tinha parado na beirada de um dos picos quadrados da cadeia de montanhas. As Montanhas de Mão-Morta pareciam uma escadaria que levava às nuvens ou, descendo, para um véu de névoa espessa e cinzenta. Se o trailer tivesse continuado um pouco mais, os dois Baudelaire teriam despencado através da névoa até o degrau seguinte, que ficava muito, muito abaixo. Mas ao lado do trailer as crianças podiam ver o Arroio Enamorado, cujas águas preto-acinzentadas corriam preguiçosamente ladeira abaixo, como um rio de óleo. E, nesse caso, se o trailer tivesse guinado para o lado, as crianças teriam mergulhado em águas escuras e imundas.
“Parece que o freio funcionou na hora certa”, disse Violet. “Se o trailer se movesse para qualquer lado, estaríamos liquidados.”
Klaus concordou e correu os olhos pela vastidão deserta que os cercava. “Vai ser difícil manobrar o trailer aqui”, disse ele. “Você terá de inventar algum dispositivo de direção.”
“E algum tipo de motor”, disse Violet. “Isso vai tomar algum tempo.”
“Não temos tempo”, disse Klaus. “Se não nos apressarmos, o conde Olaf se afastará demais, e nunca encontraremos Sunny.”
“Vamos encontrá-la”, disse Violet decidida, e pôs no chão os objetos que carregava. “Vamos voltar para o trailer e procurar...”
Mas antes que Violet terminasse a frase, um estralejar a interrompeu. O trailer parecia gemer, e então, pouco a pouco, começou a se movimentar em direção ao abismo. Os Baudelaire olharam para baixo e viram que as rodas tinham esmagado a mesinha, portanto não havia mais o que impedisse o trailer de se movimentar. Lento e desconjuntado, ele foi para a frente arrastando os drag chutes, se aproximando da beira do pico. Klaus ainda tentou agarrar uma rede, mas Violet o impediu.
“É pesado demais”, disse ela. “Não podemos detê-lo.”
“Mas ele não pode cair no abismo!”, gritou Klaus.
“Se tentarmos segurá-lo também cairemos”, disse Violet.
Klaus sabia que a irmã tinha razão, mas ainda assim queria agarrar o drag chute que Violet construíra. Quando você se defronta com uma situação que é incapaz de controlar, é difícil admitir que não pode fazer nada, e foi difícil para os Baudelaire assistir parados à queda do trailer para além da beirada do pico. Um último rangido soou quando as rodas de trás atingiram um montículo de terra, mas depois foi em silêncio absoluto que o trailer desapareceu montanha abaixo. Os Baudelaire chegaram até a beirada do pico e espiaram, mas a névoa era tanta que o trailer não passava de um retângulo fantasmagórico que foi ficando cada vez menor, até desaparecer completamente de vista.
“Por que não ouvimos um estrondo?”, perguntou Klaus.
“O drag chute está segurando”, disse Violet. “Espere um pouco.”
Os irmãos esperaram, e um momento depois ouviram um bum! abafado lá embaixo, quando o trailer cumpriu sua sina. As crianças não puderam ver nada no meio da neblina, mas sabiam que o trailer e tudo o que estava dentro dele se fora para sempre. E, de fato, eu nunca consegui encontrar os destroços, mesmo depois de vasculhar a área por meses, tendo por companhia apenas uma lanterna e um dicionário de rimas. Parece que mesmo após noites incontáveis lutando contra mosquitos da neve e rezando para que as pilhas da lanterna não se esgotassem, meu destino era mesmo deixar algumas das minhas perguntas sem resposta.
O destino é como um estranho e impopular restaurante, cheio de garçons esquisitos trazendo coisas que você nunca pediu e de que nem sempre gosta. Quando os Baudelaire eram mais jovens, é provável que tenham acreditado que o destino deles era crescer felizes e contentes junto aos pais na mansão Baudelaire, mas agora tanto a mansão como os pais já não existiam. Assim como quando frequentavam a Escola Preparatória Prufrock, quando deviam pensar que estavam destinados a terminar os estudos ao lado dos amigos Quagmire, mas agora tanto a academia quanto os dois trigêmeos tinham sumido das vistas dos Baudelaire há um bocado de tempo. E há apenas alguns minutos, parecia que era o destino de Violet e Klaus despencar num abismo ou num arroio, porém eles estavam vivos e bem, embora muito longe da irmãzinha e sem veículo que os ajudasse a encontrá-la.
Violet e Klaus chegaram mais perto um do outro e sentiram os ventos gélidos das Montanhas de Mão-Morta soprarem no caminho menos percorrido, o que os deixou arrepiados. Eles olharam para as águas escuras e revoltas do Arroio Enamorado, olharam para a névoa abaixo da beira do pico, e depois se entreolharam estremecidos, não apenas por causa dos destinos que evitaram, mas por imaginar todos os destinos misteriosos que ainda os aguardavam.

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