quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Capítulo treze


O sr. Poe ficou abismado. Violet ficou aliviada. Klaus ficou desoprimido, palavra elegante que quer dizer o mesmo que “aliviado” e que ele aprendeu num artigo de revista. Sunny ficou triunfante. A pessoa que não parecia nem homem nem mulher ficou desapontada. E o conde Olaf – que alívio poder chamá-lo por seu próprio nome – a princípio pareceu amedrontado, mas, num piscar de seu olho brilhante, operou a transformação que deu ao rosto dele um ar abismado como o do sr. Poe.
“Minha perna!”, gritou o conde Olaf, com uma falsa alegria na voz. “Cresceu-me uma nova perna! É incrível! Maravilhoso! É um milagre da medicina!”
“Ora, francamente”, disse o sr. Poe, cruzando os braços. “Essa não pega. Até uma criança pode ver que sua perna de pau era falsa.”
“Uma criança viu de fato”, sussurrou Violet para Klaus. “Na verdade, três crianças viram.”
“Tudo bem, digamos que minha perna de pau fosse mesmo falsa”, admitiu o conde Olaf, recuando um passo. “Mas eu nunca tinha visto essa tatuagem em toda a minha vida.”
“Ora, francamente”, repetiu o sr. Poe. “Essa também não pega. O senhor tentou esconder a tatuagem com a perna de pau, mas agora podemos ver que o senhor é realmente o conde Olaf.”
“Tudo bem, digamos que a tatuagem seja mesmo minha”, admitiu o conde Olaf, recuando outro passo. “Mas não sou esse tal de conde Olaf. Sou o capitão Sham. Veja, tenho um cartão que confirma isso”.
“Ora, francamente”, disse mais uma vez o sr. Poe. “Essa não pega. Qualquer um pode ir a uma tipografia e encomendar cartões com os dizeres que bem entender.”
“Tudo bem, digamos que eu não seja mesmo o capitão Sham”, admitiu o conde Olaf, “mas as crianças, seja como for, me pertencem. Foi o que Josephine declarou.”
“Ora, francamente”, disse o sr. Poe pela quarta e última vez. “Essa não pega. A tia Josephine deixou as crianças para o capitão Sham, não para o conde Olaf. E o senhor é o conde Olaf, não o capitão Sham. De modo que as coisas voltaram ao princípio e cabe a mim decidir quem ficará com a guarda dos Baudelaire. Mandarei estas três crianças para algum outro lugar e, quanto ao senhor, eu o mandarei para a cadeia. É a última vez que comete as suas vilanias, Olaf. Você tentou roubar a fortuna dos Baudelaire casando-se com Violet. Você tentou roubar a fortuna dos Baudelaire assassinando o tio Monty.”
“E este, agora”, rosnou o conde Olaf, “foi o maior de todos os meus planos.” Levou a mão até a venda e a arrancou – uma venda falsa, naturalmente, como a sua perna de pau; em seguida, fixou nos Baudelaire seu par de olhos brilhantes. “Não gosto de me vangloriar... na verdade, por que continuaria mentindo para vocês, seus bobos? Gosto, sim, de me vangloriar, e forçar aquela velha idiota a escrever aquele bilhete foi algo realmente digno de vanglória. Que boboca que Josephine era!”
“Ela não era nenhuma boboca!”, gritou Klaus. “Era doce e delicada!”
“Doce?”, repetiu o conde Olaf, com um sorriso horrível. “Bem, neste momento as sanguessugas do lago devem estar achando-a muito doce mesmo. Quem sabe, o mais doce café da manhã que elas já tomaram.”
O sr. Poe franziu a testa e tossiu no lenço branco. “Basta dessa sua conversa revoltante, Olaf”, disse com severidade. “Agora o pegamos, e você não terá como escapar. O Departamento de Polícia do Lago Lacrimoso vai ficar feliz por capturar um criminoso conhecido que é procurado por fraude, homicídio e ameaças a crianças.”
“E incêndio criminoso”, cantarolou o conde Olaf.
“Eu disse basta!”, rosnou o sr. Poe. O conde Olaf, os órfãos Baudelaire e até mesmo a maciça criatura de sexo indefinido pareceram surpresos por ouvir o sr. Poe falar com tamanha severidade. “Você atormentou essas crianças pela última vez, e faço questão absoluta de que seja entregue às autoridades competentes. Não adiantará disfarçar-se. Não adiantará vir com mentiras. O fato é que não há nada que você possa fazer para mudar sua situação.”
“É mesmo?”, disse o conde Olaf, e seus lábios abjetos se encurvaram num sorriso. “Pois eu sei de uma coisa que posso fazer.”
“O quê, exatamente?”, perguntou o sr. Poe.
O conde Olaf olhou para cada um dos órfãos Baudelaire, sorrindo para eles como se fossem chocolatinhos que estivesse disposto a guardar para depois. Em seguida, sorriu para a maciça criatura de sexo indefinido e afinal, lentamente, sorriu para o sr. Poe. “Posso fugir”, disse, e fugiu.
Com a maciça criatura seguindo com dificuldade atrás dele, disparou na direção do pesado portão de ferro.
“Volte aqui!”, gritou o sr. Poe. “Volte aqui, em nome da lei! Volte aqui, em nome da justiça e da moral! Volte aqui, em nome da Administração de Multas!”
“Não basta ficarmos gritando”, gritou Violet. “Vamos logo! Temos que ir atrás deles!”
“Não vou permitir que crianças saiam em perseguição a um homem como esse”, disse o sr. Poe. E tornou a gritar: “Parem, estou mandando! Nem mais um passo!”.
“Não podemos deixar que escapem!”, gritou Klaus. “Vamos, Violet! Vamos, Sunny!”
“Não, não, isso não é trabalho para crianças!”, disse o sr. Poe. “Espere aqui com suas irmãs, Klaus. Vou pegá-los. Eles não escaparão do sr. Poe. Ei, vocês aí! Parem!”
“Mas não podemos ficar esperando aqui!”, gritou Violet. “Temos que sair num barco e procurar tia Josephine! Talvez ela ainda esteja viva!”
“Vocês, órfãos Baudelaire, estão sob minha guarda”, disse o sr. Poe com firmeza. “Não permitirei que crianças pequenas saiam velejando desacompanhadas.”
“Mas se não tivéssemos velejado desacompanhados”, observou Klaus, “a esta hora estaríamos nas garras do conde Olaf!”
“Isso não vem ao caso”, disse o sr. Poe, e começou a andar apressadamente na direção do conde Olaf e da criatura. “O caso é...”
Mas as crianças não conseguiram ouvir qual era o caso, com o fortíssimo plam! que fez o alto portão de ferro ao bater. A criatura bateu o portão bem no momento em que o sr. Poe estava prestes a alcançá-lo.
“Pare imediatamente!”, ordenou o sr. Poe, gritando para o outro lado do portão. “Volte aqui, seu monstro desagradável!” Tentou abrir o portão, mas verificou que estava trancado. “Está trancado!”, gritou para as crianças. “Onde fica a chave? Precisamos encontrar a chave!”
Os Baudelaire correram para o portão, mas pararam ao ouvir o som de algo tilintando.
“A chave está comigo”, disse a voz do conde Olaf, do outro lado do portão. “Mas não se preocupem. Breve nos veremos, órfãos. Muito breve.”
“Abram este portão imediatamente!”, gritou o sr. Poe, mas é claro que ninguém abriu o portão. Ele o sacudiu e sacudiu, mas o portão de ferro com sua coroa de proteções pontiagudas jamais se abriu. O sr. Poe foi correndo para uma cabine telefônica e ligou para a polícia, mas as crianças sabiam que quando o socorro policial chegasse, o conde Olaf já teria desaparecido. Sentindo-se inteiramente exaustos e mais do que inteiramente infelizes, os órfãos Baudelaire se deixaram cair no chão, sentando-se melancolicamente no mesmo lugar em que os encontramos no começo desta história.
No primeiro capítulo, vocês devem estar lembrados, os Baudelaire estavam sentados sobre suas malas, esperançosos de que a vida deles estivesse prestes a se tornar um pouco melhor, e eu bem que gostaria de poder dizer a vocês, agora que chegamos ao fim da história, que foi de fato o que aconteceu. Gostaria de poder escrever que o conde Olaf foi capturado em sua tentativa de fuga, ou que tia Josephine nadou até o Cais de Dâmocles, tendo escapado milagrosamente das sanguessugas. Mas não foi o que aconteceu. Quando as crianças sentaram no chão molhado, o conde Olaf já se achava no meio da travessia do lago, e logo estaria a bordo de um trem, disfarçado de rabino para enganar a polícia, e lamento dizer a vocês que ele já começava a bolar um novo plano para roubar a fortuna dos Baudelaire. Quanto à tia Josephine, nunca poderemos saber exatamente o que estava acontecendo com ela quando as crianças sentaram no cais, impotentes para ajudá-la, mas posso dizer a vocês que finalmente – na época em que os órfãos Baudelaire foram forçados a entrar para um internato – dois pescadores encontraram ambos os coletes salva-vidas de tia Josephine, em frangalhos, flutuando soltos nas águas tenebrosas do Lago Lacrimoso.
Na maioria das histórias, como vocês sabem, o vilão seria derrotado, haveria um final feliz, e todo mundo iria para casa sabendo a moral da história. Mas, no caso dos Baudelaire, tudo saiu errado. O conde Olaf, o vilão, não teve êxito no seu plano perverso, mas com toda a certeza tampouco foi derrotado. Vocês não poderiam dizer, é evidente, que houve um final feliz. E os Baudelaire não puderam ir para casa sabendo a moral da história, pela simples razão de que não puderam ir para casa. Não só a casa de tia Josephine tinha despencado e caído no lago, como o verdadeiro lar dos Baudelaire – a casa onde moraram com seus pais – se tornara apenas um monte de cinzas num terreno baldio, e não havia possibilidade de voltarem para lá, por mais que quisessem.
Entretanto, mesmo que eles pudessem voltar para casa, seria difícil para mim dizer a vocês qual é a moral da história. Em algumas histórias é fácil. A moral de “Os três ursinhos”, por exemplo, é: “Jamais forcem a entrada da casa de outra pessoa”. A moral de “Branca de Neve” é: “Jamais comam maçãs”. A moral da Primeira Guerra Mundial é: “Jamais assassinem o arquiduque Ferdinando”. Mas Violet, Klaus e Sunny, sentados no cais e olhando o sol se erguer sobre o Lago Lacrimoso, refletiram um bom tempo em qual seria exatamente a moral do período que passaram com tia Josephine.
A expressão “Acendeu-se uma luz dentro deles”, que eu vou usar daqui a pouquinho, não tem nada a ver com a luz solar que se espalhava nesse momento sobre o Cais de Dâmocles. “Acendeu-se uma luz dentro deles” é uma maneira de dizer que eles “descobriram alguma coisa”. E quando os órfãos Baudelaire estavam sentados e observavam o cais se encher de gente à medida que se iniciava o movimento no comércio, descobriram algo que era muito importante para eles. Acendeu-se uma luz dentro deles, mostrando-lhes que, ao contrário de tia Josephine, que vivera sozinha e triste naquela casa, as três crianças tinham umas às outras, e poderiam consolar-se e apoiar-se no decorrer de suas vidas infelizes. E embora isso não bastasse para fazê-las se sentir inteiramente seguras, ou inteiramente felizes, fez com que se sentissem gratas.
“Obrigada, Klaus”, agradeceu Violet, “por ter decifrado aquele bilhete. E obrigada, Sunny, por ter roubado as chaves para pegarmos o barco. Se não fossem vocês dois, a esta hora estaríamos nas garras do conde Olaf.”
“Obrigado, Violet”, agradeceu Klaus, “por ter pensado nas balas de hortelã-pimenta como um meio de ganharmos tempo. E obrigado, Sunny, por ter mordido a perna de pau no momento certo. Se não fossem vocês duas, a esta hora estaríamos perdidos.”
“Pilumps”, agradeceu Sunny, e seus irmãos logo entenderam que ela estava agradecendo a Violet por ter inventado a sinalização do pedido de socorro e a Klaus por ter lido o atlas que os levara à Gruta do “P”.
Ainda como uma forma de agradecimento, encostaram-se uns nos outros com a cabeça, e em seus rostos molhados e ansiosos surgiram pequenos sorrisos. Eles tinham uns aos outros. Não sei se a moral desta história é: “Os Baudelaire tinham uns aos outros”, mas para os três irmãos era quanto bastava. No turbilhão de suas vidas infelizes, poder contar com os outros dois era, para cada um, o mesmo que ter um barco no meio de um furacão, e esse era um sentimento que inspirava muita felicidade aos órfãos Baudelaire.


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