quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Capítulo treze


Quando Violet Baudelaire tinha cinco anos de idade, ganhou o seu primeiro concurso de invenções com um rolo de macarrão automático que confeccionara com uma cortina de enrolar quebrada e seis pares de patins. Quando os juízes penduraram a medalha de ouro em seu pescoço, um deles disse: “Aposto que você é capaz de inventar alguma coisa com as duas mãos amarradas nas costas”, e Violet sorriu, orgulhosa. Ela sabia, é claro, que o juiz não queria dizer que ia amarrá-la, mas apenas que ela era tão habilidosa em invenções que provavelmente seria capaz de construir alguma coisa até mesmo com uma interferência substancial, uma frase que aqui significa “com alguma coisa atravessada no caminho”.
A mais velha dos Baudelaire, é claro, já tinha provado dezenas de vezes que o juiz estava certo, inventando de tudo, desde uma gazua até um dispositivo de solda e com a interferência substancial de estar com pressa e não ter as ferramentas certas. Mas, apertando os olhos para focalizar os objetos no closet e tentando manter a atenção no que os seus irmãos estavam dizendo, Violet achou que jamais tivera uma interferência substancial tão grande quanto os efeitos residuais da anestesia.
“Violet”, disse Klaus, “eu sei que a anestesia ainda não passou completamente, mas precisamos de você para inventar uma coisa.”
“Sim”, disse Violet fracamente, esfregando os olhos com as mãos. “Eu... sei.”
“Vamos ajudá-la o mais que pudermos”, disse Klaus. “Apenas nos diga o que fazer. O fogo está consumindo este hospital inteiro, e temos de sair daqui depressa.”
“Rallam”, acrescentou Sunny, o que queria dizer: “E os parceiros de Olaf estão nos perseguindo”.
“Abra... a janela”, disse Violet com dificuldade, apontando para a janela no canto.
Klaus ajudou Violet a se encostar na parede, para poder ir até a janela sem deixá-la cair. Ele abriu a janela e olhou para fora.
“Parece que estamos no terceiro andar”, disse ele, “ou talvez no quarto. Há fumaça no ar, por isso é difícil dizer. Não estamos muito alto, mas ainda assim é demais para pular.”
“Alpinismo?”, perguntou Sunny.
“Há um alto-falante de intercomunicador logo abaixo de nós”, disse Klaus. “Imagino que podemos nos agarrar naquilo e descer até debaixo dos arbustos, mas teremos de fazer isso na frente de uma enorme multidão. Os médicos e enfermeiros estão ajudando os pacientes a escapar, e lá está o Hal, aquela repórter d’O Pundonor Diário e...”
O Baudelaire do meio foi interrompido por um som distante que vinha do lado de fora do hospital.

Somos os alegres Combatentes
Pela Saúde do Cidadão,
Se alguém dissesse que somos tristes,
Não teria por certo razão.

“... os Combatentes pela Saúde do Cidadão”, continuou Klaus. “Eles estão esperando na entrada do hospital, exatamente como Mattathias disse para eles fazerem. Você consegue inventar alguma coisa que nos faça voar por cima deles?”
Violet franziu o cenho e fechou os olhos, ficando em silêncio enquanto os voluntários continuavam cantando.

Visitamos pessoas doentes,
E tentamos fazê-las sorrir,
Mesmo quando o seu nariz sangra,
Quando expelem bílis ao tossir.

“Violet?”, perguntou Klaus. “Você não está adormecendo de novo, está?”
“Não”, disse Violet. “Estou... pensando. Nós precisamos... distrair... a multidão... antes de... descer.”
As crianças ouviram um leve rugido do outro lado da porta.
“Kesalf”, disse Sunny, o que queria dizer: “É o comparsa de Olaf. Parece que ele está entrando na Ala para Pessoas com Brotoejas Graves. É melhor nos apressarmos”.
“Klaus”, disse Violet, e abriu os olhos. “Abra aquelas caixas... de elásticos. Comece a amarrá-los... uns nos outros... para fazer... uma corda.”

Tra-la-lá, qui-qui-qui,
Quero que fique logo são.
Ho-ho-ho, hi-hi-hi,
Pegue um balão de coração.

Klaus olhou para baixo e observou os voluntários oferecendo balões aos pacientes que tinham sido evacuados do hospital.
“Mas como vamos distrair a multidão?”, perguntou ele.
“Eu... não sei”, admitiu Violet, e baixou os olhos para o chão. “Estou tendo... dificuldade em... me concentrar... nas minhas habilidades... de inventora.”
“Ajuda”, disse Sunny.
“Não adianta pedir ajuda”, disse Klaus. “Ninguém vai ouvir.”
“Ajuda”, insistiu Sunny, e tirou o seu avental médico branco. Abrindo bem a boca, ela mordeu o tecido e rasgou uma pequena tira do avental. Ela então ergueu a tira de pano branco e entregou a Violet. “Fita”, disse ela.
Violet abriu um sorriso cansado. Com os dedos inseguros, a mais velha dos Baudelaire amarrou os cabelos para impedir que caíssem nos olhos, usando a fina tira de tecido em lugar de uma fita de cabelo. Ela fechou os olhos novamente e depois balançou a cabeça.
“Eu sei... que é meio bobo”, disse Violet. “Eu acho... que ajudou, Sunny. Klaus... comece a trabalhar... com os elásticos. Sunny... você pode abrir... uma dessas latas de sopa?”
“Recorte”, disse Sunny, o que queria dizer: “Sim, eu já abri uma antes, para ajudar a decodificar os anagramas”.
“Bom”, retrucou Violet. Com os cabelos presos pela fita, mesmo a fita sendo espúria, sua voz soou mais forte e confiante. “Precisamos de... uma lata vazia... o mais depressa possível.”

Visitamos pessoas doentes,
Para fazê-las dar gargalhadas
Mesmo quando o médico lhes diz
Que logo em duas serão serradas.
Cantamos, dançamos noite e dia,
É bom demais quando a gente canta
Pra meninos de ossos quebrados
E meninas com dor de garganta.

Enquanto os voluntários C.S.C. continuavam com a sua alegre canção, os Baudelaire trabalharam depressa. Klaus abriu uma caixa de elásticos e começou a amarrá-los uns nos outros, Sunny começou a roer a tampa de uma lata de sopa, e Violet foi até a pia e jogou água no rosto para tentar ficar o mais alerta possível. Finalmente, quando os voluntários estavam cantando:

Tra-la-lá, qui-qui-qui,
Quero que fique logo são.
Ho-ho-ho, hi-hi-hi,
Pegue um balão de coração.

Klaus já tinha uma comprida corda de elásticos enrolada aos seus pés como uma cobra, Sunny tinha tirado a tampa de uma lata de sopa e estava despejando seu conteúdo na pia, e Violet estava olhando ansiosamente para a parte de baixo da porta do closet, de onde subia lentamente uma espiral de fumaça muito fina.
“O fogo está no corredor”, disse Violet, quando as crianças ouviram outro rugido vindo de lá, “e também o homem de confiança de Olaf. Só temos alguns momentos.”
“A corda está pronta”, disse Klaus, “mas como poderemos distrair uma multidão com uma lata de sopa vazia?”
“Não é uma lata de sopa vazia”, disse Violet, “não mais. Agora é um intercomunicador espúrio. Sunny, fure um buraco no fundo da lata.”
“Pietrisycamollaviadelrechiotemexity”, disse Sunny, mas fez o que Violet lhe pediu e atravessou o fundo da lata com o seu dente mais afiado.
“Agora”, disse Violet, “vocês dois segurem isto perto da janela. Não deixem a multidão ver. Eles têm de pensar que a minha voz está saindo do intercomunicador”.
Klaus e Sunny seguraram a lata de sopa vazia perto da janela, e Violet se inclinou e enfiou a cabeça dentro dela, como se fosse uma máscara. A mais velha dos Baudelaire respirou fundo para juntar coragem e depois começou a falar. De dentro da lata, sua voz soava estridente e apagada, como se estivesse falando com um pedaço de folha de alumínio por cima da boca, o que era precisamente como ela queria que soasse.
“Atenção!”, anunciou Violet antes que os voluntários pudessem cantar a estrofe sobre homens com sarampo. “Aqui é Babs. Mattathias renunciou por problemas pessoais, portanto sou novamente a diretora de Recursos Humanos. Os assassinos e incendiários Baudelaire foram localizados na ala inacabada do hospital. Solicitamos a ajuda de todos para garantir que eles não escapem. Por favor corram para lá imediatamente. Isso é tudo.”
Violet tirou a cabeça de dentro da lata e olhou para os irmãos.
“Vocês acham que funcionou?”, perguntou ela.
Sunny abriu a boca para responder, mas foi interrompida pela voz do voluntário barbudo.
“Vocês ouviram isso?”, as crianças ouviram-no dizer. “Os criminosos estão na ala inacabada do hospital. Vamos, pessoal.”
“Talvez alguns de nós devam ficar aqui na entrada principal, só por precaução”, disse uma voz que os Baudelaire reconheceram como sendo de Hal.
Violet enfiou a cabeça de volta na lata.
“Atenção!”, anunciou ela. “Aqui é Babs, a diretora de Recursos Humanos. Ninguém deverá ficar perto da entrada principal do hospital. É perigoso demais. Sigam imediatamente para a ala inacabada. Isso é tudo.”
“Já posso ver a manchete: ‘ASSASSINOS CAPTURADOS NA METADE INACABADA DO HOSPITAL POR PROFISSIONAIS MÉDICOS BEM ORGANIZADOS’. Aguardem só até os leitores d’O Pundonor Diário verem isso!”
Houve um viva da multidão, que foi enfraquecendo à medida que eles se afastavam da entrada principal do Hospital Heimlich.
“Funcionou”, disse Violet. “Nós os enganamos. Somos tão bons quanto Olaf em enganar pessoas.”
“E em disfarces”, disse Klaus.
“Anagramas”, disse Sunny.
“E em mentir para as pessoas”, disse Violet, pensando em Hal, e no dono do Armazém Geral Última Chance, e em todos os Combatentes pela Saúde do Cidadão. “Talvez sejamos vilões, afinal.”
“Não diga isso”, disse Klaus. “Não somos vilões. Somos pessoas boas. Tivemos de fazer coisas ardilosas a fim de salvar as nossas vidas.”
“Olaf precisa fazer coisas ardilosas”, disse Violet, “a fim de salvar a sua vida.”
“Diferente”, disse Sunny.
“Talvez não seja diferente”, disse Violet tristemente. “Talvez...”
Violet foi interrompida por um rugido irado vindo do outro lado da porta do closet. O comparsa obeso de Olaf tinha chegado ao closet de suprimentos e estava agora mexendo desajeitadamente na porta, com as suas mãos enormes.
“Podemos discutir isso depois”, disse Klaus. “Temos de sair daqui agora mesmo.”
“Nós não vamos fazer alpinismo”, disse Violet, “não com uma corda fina e borrachenta dessas. Nós vamos quicar.”
“Quicar?”, perguntou Sunny, duvidando.
“Muita gente pula de lugares altos amarrada a longos cordões borrachentos e fica quicando, só para se divertir”, disse Violet, “portanto, tenho certeza de que podemos fazer isso para escapar. Vou amarrar a corda na torneira com o nó Língua do Diabo, e vamos pular pela janela, um de cada vez. A corda deverá nos segurar antes de atingirmos o chão, e nos fará quicar para cima e para baixo, para cima e para baixo, cada vez mais suavemente. Por fim, chegaremos embaixo com segurança, e então a jogaremos de volta para cima, para o próximo.”
“Parece arriscado”, disse Klaus. “Não tenho certeza se a corda é suficientemente comprida.”
“É arriscado”, concordou Violet, “mas não tão arriscado quanto um incêndio.”
O comparsa sacudiu a porta violentamente, causando o aparecimento de uma grande racha perto da fechadura. Enquanto Violet amarrava apressadamente a corda na torneira, a fumaça preta começou a se derramar pela fenda, como se o assistente de Olaf estivesse despejando tinta para dentro do closet. Violet deu um puxão para se certificar de que a corda estava bem presa.
“Eu vou primeiro”, disse ela. “Fui eu que inventei, por isso é melhor eu testá-la.”
“Não”, disse Klaus. “Nós não vamos descer um de cada vez.”
“Junto”, concordou Sunny.
“Se todos nós descermos juntos”, disse Violet, “não garanto que a corda vá aguentar.”
“Não vamos deixar ninguém para trás”, disse Klaus com firmeza. “Não desta vez. Ou escapamos todos ou não escapa ninguém.”
“Mas se nenhum de nós escapar”, disse Violet, chorosa, “então, não restará mais nenhum Baudelaire. Olaf terá vencido.”
Klaus enfiou a mão no bolso e tirou de lá uma folha de papel. Ele a desdobrou, e as duas irmãs puderam ver que era a página treze do dossiê Snicket. Ele apontou para a fotografia dos Baudelaire pais e a frase datilografada embaixo. “‘Devido às evidências discutidas na página nove”, ele leu em voz alta, “’os peritos agora suspeitam que possa haver de fato um sobrevivente do incêndio, mas seu paradeiro é desconhecido.’ Nós também temos de sobreviver, para que possamos descobrir o que aconteceu, e levar Olaf à justiça.”
“Mas se nós descermos um de cada vez”, disse Violet freneticamente, “haverá uma probabilidade maior de que um de nós sobreviva.”
“Não vamos deixar ninguém para trás”, disse Klaus com firmeza. “É isso que nos faz diferentes de Olaf.”
Violet pensou um instante e assentiu.
“Você tem razão”, disse ela.
O parceiro de Olaf chutou a porta, e a rachadura aumentou. As crianças puderam ver uma pequenina luz alaranjada brilhando no corredor e se deram conta de que o fogo e o comparsa deviam ter chegado à porta ao mesmo tempo.
“Estou com medo”, disse Violet.
“Estou assustado”, disse Klaus.
“Pura paúra”, disse Sunny, e o comparsa de Olaf chutou a porta de novo, fazendo entrar algumas fagulhas através da fenda na porta. Os Baudelaire se entreolharam, e cada um agarrou a corda de elásticos com uma das mãos. Com a outra mão, eles se agarraram uns aos outros, e então, sem mais palavra, pularam pela janela do Hospital Heimlich PONTO.
Há muitas coisas neste mundo que eu não sei. Não sei como as borboletas saem dos seus casulos sem danificar as asas. Não sei por que alguém haveria de cozinhar legumes se eles ficam mais gostosos assados. Não sei como fazer azeite de oliva, não sei por que os cães latem antes de um terremoto, e não sei por que algumas pessoas optam voluntariamente por escalar montanhas onde o ar é gelado e fica difícil respirar, ou por morar no interior, onde o café é aguado e todas as casas são parecidas. Não sei onde as crianças Baudelaire estão agora, se estão em segurança, ou mesmo se estão vivas. Mas há algumas coisas que eu sei, e uma delas é que a janela do closet de suprimentos da Ala para Pessoas com Brotoejas Graves do Hospital Heimlich não ficava no terceiro andar, ou no quarto andar, como imaginara Klaus. A janela ficava no segundo andar, portanto quando as três crianças caíram através do ar enfumaçado, agarrando-se desesperadamente à corda de elásticos, a invenção de Violet funcionou perfeitamente. Como um ioiô, as crianças quicaram suavemente para cima e para baixo, roçando os pés contra um dos arbustos plantados na frente do hospital, e depois de quicar algumas vezes se sentiram seguras para se deixar cair no chão, e se abraçaram aliviadas.
“Nós conseguimos”, disse Violet. “Foi por pouco, mas sobrevivemos”.
Os Baudelaire olharam para o hospital atrás deles e viram por quão pouco tinha sido. O edifício parecia um fantasma flamejante, com grandes explosões de chamas saindo das janelas e oceanos de fumaça se despejando de enormes buracos escancarados nas paredes. As crianças podiam ouvir os vidros se estilhaçando enquanto as janelas ardiam, e o crepitar da madeira enquanto os assoalhos cediam e desmoronavam. Ocorreu às crianças que a sua própria casa deve ter ficado parecida com isso no dia em que se incendiou, e elas recuaram, se afastando do edifício em chamas, e se abraçaram bem juntinhas, enquanto o ar ia se tornando cada vez mais espesso de cinzas e fumaça, obscurecendo a visão do hospital.
“Para onde podemos ir?”, perguntou Klaus, gritando por cima do bramido do fogo. “A qualquer minuto, a multidão vai perceber que não estamos na metade inacabada do hospital, e retornará para cá.”
“Correr!”, gritou Sunny.
“Mas não podemos nem ver aonde estamos indo!”, gritou Violet. “Toda a área está se enchendo de fumaça!”
“Fiquem abaixadas!”, disse Klaus, deixando-se cair ao chão e começando a rastejar. “Na Enciclopédia da sobrevivência ao incêndio premeditado, o autor escreve que há mais oxigênio perto do chão, e isso permitirá que respiremos mais facilmente. Mas precisamos encontrar algum tipo de abrigo imediatamente.”
“Onde vamos encontrar algum tipo de abrigo nesta paisagem vazia?”, perguntou Violet, rastejando atrás do irmão. “O hospital é o único edifício que existe num raio de quilômetros, e está sendo totalmente queimado!”
“Eu não sei”, disse Klaus, tossindo forte, “mas não vamos poder respirar no meio desta fumaça por muito tempo!”
“Depressa!”, os Baudelaire ouviram uma voz bradar na fumaça. “Por aqui!” Uma forma alongada e negra emergiu do ar enfumaçado, e as crianças viram que era um automóvel chegando na frente do hospital. É claro que um automóvel é algum tipo de abrigo, mas os irmãos ficaram paralisados no lugar, sem se atrever a rastejar nem mais um centímetro na direção do carro. “Depressa!”, disse novamente a voz de Olaf. “Ande logo, ou deixo você para trás!”
“Estou indo, querido.” Atrás deles, os Baudelaire ouviram a resposta de Esmé Squalor. “Lucafont e Flacutono estão comigo, e as senhoras vêm vindo logo atrás. Mandei-as pegar todos os aventais de médico que conseguissem achar, para o caso de precisarmos deles de novo, como disfarces.”
“Bem pensado”, replicou Olaf. “Você consegue enxergar o carro no meio da fumaça?”
“Sim”, disse Esmé, sua voz chegando mais perto. Dava para os Baudelaire ouvirem os estranhos passos dos sapatos de salto de estilete enquanto ela marchava para o automóvel. “Abra o porta-malas, querido, para guardarmos os disfarces.”
“Ora, está bem”, suspirou Olaf, e as crianças viram a silhueta alta do seu inimigo descer do carro.
“Espere, Olaf!”, gritou o careca.
“Seu idiota”, retrucou o conde. “Eu disse para você me chamar de Mattathias até sairmos da área do hospital. Ande logo e entre no carro. O dossiê Snicket não estava na Biblioteca de Registros, mas acho que sei onde posso encontrá-lo. Depois que destruirmos aquelas treze páginas, não haverá como nos deter.”
“Temos de destruir os Baudelaire também”, disse Esmé.
“Nós os teríamos destruído, se vocês todos não tivessem bagunçado o meu plano inteiro”, disse ele, “mas isso não importa. Temos de sair daqui antes que cheguem as autoridades.”
“Mas o seu assistente mais volumoso ainda está na Ala das Brotoejas, procurando os pirralhos!”, disse o careca, e as crianças ouviram-no abrir a porta do automóvel.
O homem de mãos de gancho falou, e as crianças puderam ver a sua silhueta estranha na fumaça quando ele entrou no carro, logo depois do assistente careca. “A Ala para Pessoas com Brotoejas Graves está inteiramente destruída”, disse ele. “Espero que o grandão tenha saído de lá inteiro.”
“Nós não vamos ficar esperando para descobrir se aquele idiota viveu ou morreu”, rosnou Olaf. “Vamos sair daqui assim que as senhoras guardarem os disfarces no porta-malas. Atear fogo foi uma coisa esplêndida, mas precisamos encontrar o dossiê Snicket assim que possível, antes que Você-Sabe-Quem encontre.”
“C.S.C.!”, disse Esmé com um cacarejo. “Isto é, C.S.C. de verdade, não esses cantores ridículos!”
O porta-malas se abriu com um rangido, e as crianças viram a sombra da tampa do porta-malas subir no ar enfumaçado. A tampa estava salpicada de buraquinhos – buraquinhos de bala, sem dúvida vestígios de uma perseguição pela polícia. Olaf voltou pisando duro para o carro e continuou dando ordens.
“Caiam fora do banco da frente, seus idiotas”, disse Olaf. “Minha namorada senta na frente, e o resto de vocês pode se empilhar atrás.”
“Sim, chefe”, disse o careca.
“Estamos com os disfarces, Mattathias.” A voz de uma das mulheres de cara empoada soou amortecida no meio da fumaça. “Nos dê só mais alguns segundos para chegar até o carro.”
Violet inclinou-se ao máximo que pôde para perto dos irmãos a fim de sussurrar para eles sem ser ouvida.
“Temos de entrar lá”, disse ela.
“Onde?”, sussurrou Klaus em resposta.
“No porta-malas”, disse Violet. “É a nossa última chance de sair daqui sem sermos capturados – ou coisa pior.”
“Culech!”, disse Sunny num sussurro horrorizado, o que queria dizer alguma coisa na linha de: “Entrar no porta-malas é a mesma coisa que sermos capturados!”.
“Temos de encontrar o resto do dossiê Snicket antes que Olaf encontre”, disse Violet, “ou jamais conseguiremos limpar o nosso nome.”
“Nem levar Olaf à justiça”, disse Klaus.
“Ezan”, disse Sunny, o que queria dizer: “E nem descobrir se um dos nossos pais realmente sobreviveu ao incêndio”.
“O único jeito de fazer todas essas coisas”, disse Violet, “é entrar no porta-malas daquele carro.”
A voz de Olaf flutuou sobre a fumaça, tão enganadora e perigosa quanto o próprio fogo.
“Entrem no carro, já!”, ordenou ele aos seus comparsas. “Vou partir quando disser três.”
Os Baudelaire apertaram as mãos uns dos outros tão forte que até doeu.
“Pensem em tudo a que já sobrevivemos”, sussurrou Violet. “Já passamos por um sem-número de desventuras em série, e ainda continuamos sozinhos. Se um dos nossos pais sobreviveu, tudo terá valido a pena. Temos de encontrá-los, nem que essa seja a última coisa que façamos.”
“Um!”
Klaus olhou para o porta-malas escancarado, que parecia a boca de alguma besta escura e fumegante, ansiosa por devorá-lo e às suas irmãs.
“Você tem razão”, murmurou ele por fim. “Não podemos permanecer neste ar enfumaçado por muito mais tempo, senão vamos asfixiar. O abrigo no porta-malas é a nossa única esperança.”
“Sim!”, sussurrou Sunny.
“Dois!”
As crianças Baudelaire se levantaram e saíram correndo para dentro do porta-malas do carro do conde Olaf. O porta-malas estava úmido e tinha um cheiro horrível, mas as crianças se arrastaram para o fundo das suas profundezas, para que não fossem vistas.
“Espere!”, gritou a mulher de cara empoada, e os Baudelaire sentiram o peso dos aventais de médico sendo jogados em cima deles. “Não quero ser deixada para trás! Não consigo respirar aqui fora!”
“Nós vamos conseguir respirar aqui dentro?”, perguntou Violet a Klaus o mais baixo que pôde.
“Sim”, disse Klaus. “O ar vai passar pelos buracos de bala. Este não é o tipo de abrigo que eu tinha em mente, mas acho que vai ter de servir.”
“Golos”, disse Sunny, o que queria dizer: “Vai ter de servir, até que apareça alguma coisa melhor”, e os seus irmãos concordaram.
“Três!”
O porta-malas foi fechado com uma batida, deixando-os numa total escuridão, e o seu abrigo chacoalhou e estremeceu quando Olaf deu a partida no motor e começou a rodar pela paisagem, que continuava tão achatada e desolada como sempre. Mas as crianças não podiam ver nada do lado de fora, é claro. No negrume do porta-malas, elas não podiam ver nada mesmo. Só podiam ouvir a sua própria respiração, funda e trêmula, enquanto o ar passava velozmente através dos buracos de bala, e sentir os ombros tremerem em calafrios de medo. Não era o tipo de abrigo que as crianças tinham em mente, nunca na vida, mas enquanto estavam lá, apertadinhas, achavam que ia ter de servir. Para os órfãos Baudelaire, se é que ainda eram órfãos, o abrigo no porta-malas do conde Olaf ia ter de servir até que aparecesse alguma coisa melhor.


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