domingo, 21 de agosto de 2016

Capítulo treze


Os Baudelaire olharam para os Quagmire, e os Quagmire olharam para os Baudelaire, e então todas as cinco crianças olharam para a turba. Todos os membros do Conselho dos Anciãos vinham andando juntos, os chapéus de corvo bamboleando em uníssono. A sra. Morrow liderava uma cantilena de “Queimem os órfãos! Queimem os órfãos!” à qual a família Verhoogen aderira entusiasticamente, e os olhos do sr. Lesko brilhavam tão forte quanto a sua tocha. A única pessoa que faltava na turba era o detetive Dupin, que as crianças esperariam estar liderando a multidão. Em vez disso, a oficial Luciana marchava na frente, fechando uma carranca debaixo do visor do capacete enquanto liderava o avanço em suas lustrosas botas pretas. Em uma das mãos enluvadas de branco, segurava alguma coisa envolta em um cobertor, e com a outra mão, apontava para as crianças aterrorizadas.
“Lá estão eles!”, gritou a oficial Luciana apontando o dedo enluvado de branco para as cinco crianças aterrorizadas. “Eles não têm mais para onde ir!”
“Ela está certa!”, gritou Klaus. “Não temos mais como escapar!”
“Machina!”, gritou Sunny.
“Não há nem sinal de deus ex machina, Sunny”, disse Violet, os olhos se enchendo de lágrimas. “Não consigo pensar em ajuda nenhuma que possa chegar inesperadamente.”
“Machina!’’, insistiu Sunny, e apontou para o céu. As crianças tiraram os olhos da turba que se aproximava e olharam para cima, e lá estava o mais grandioso exemplo de deus ex machina que já tinham visto. Flutuando logo acima das cabeças das crianças estava a visão superlativa da casa móvel autossustentável a ar quente. Embora a invenção tivesse sido consideravelmente maravilhosa de olhar no ateliê de Hector, ela era verdadeiramente estupenda agora que estava de fato sendo posta para funcionar, e até mesmo os cidadãos irados de C.S.C. pararam de perseguir as crianças por um momento, para que pudessem contemplar aquela visão assombrosa. A casa móvel autossustentável a ar quente era enorme, como se um chalé inteiro tivesse se separado de seus arredores e estivesse agora errando pelo céu. As doze cestas estavam todas conectadas e flutuando juntas como um grupo de jangadas, com todos os tubos, canos e fios entrelaçados em volta delas como uma gigantesca peça de tricô. Acima das cestas havia dúzias de balões em vários tons de verde. Totalmente inflados, pareciam uma safra flutuante de maçãs frescas e maduras rebrilhando à última luz do entardecer. Os dispositivos mecânicos trabalhavam a toda força, com luzes piscando, engrenagens girando, sinos repicando, torneiras pingando, polias zumbindo e uma centena de outras engenhocas todas funcionando ao mesmo tempo, porém, miraculosamente, a casa móvel autossustentável a ar quente inteira era tão silenciosa quanto uma nuvem. Enquanto a invenção descia para a terra, o único som que se pôde ouvir foi o grito triunfante de Hector.
“Aqui estou eu!”, bradou o factótum da cesta de controle. “E aqui está ela, como um raio em dia de céu claro! Violet, os seus aperfeiçoamentos estão funcionando perfeitamente. Venham a bordo, e escaparemos deste lugar deplorável.” Ele acionou um interruptor amarelo-vivo, e uma longa escada de corda começou a se desenrolar para baixo até o lugar onde estavam as crianças. “Como a minha invenção é autossustentável”, explicou ele, “não foi projetada para voltar ao chão, portanto vocês terão de subir por esta escada.”
Duncan agarrou a ponta da escada e segurou para que Isadora subisse. “Eu sou Duncan Quagmire”, disse ele depressa, “e esta é a minha irmã Isadora.”
“Sim, os Baudelaire me contaram tudo sobre vocês”, disse Hector. “Estou contente por vocês virem junto. Como todos os dispositivos mecânicos, a casa móvel autossustentável a ar quente, na verdade, precisa de várias pessoas para mantê-la em funcionamento.”
“Aha!”, exclamou o sr. Lesko quando Isadora marinhou rapidamente escada acima, com Duncan logo atrás. A turba tinha parado de olhar para o deus ex machina e marchava agora novamente na direção das crianças. “Eu sabia que aquilo era um dispositivo mecânico! Todos aqueles botões e engrenagens não me enganam!”
“Caramba, Hector!”, disse um Ancião. “A Regra nº 67 reza claramente que nenhum cidadão está autorizado a construir ou usar dispositivos mecânicos.”
“Vamos queimá-lo na fogueira também!”, gritou a sra. Morrow. “Alguém vá buscar mais lenha!”
Hector respirou fundo e depois gritou para a multidão lá embaixo, sem um pingo de desassossego na voz. “Ninguém vai ser queimado na fogueira”, disse ele com firmeza assim que Isadora chegou ao fim da escada e juntou-se a Hector na cesta de controle. “Queimar pessoas na fogueira é uma coisa repulsiva para fazer!”
“Repulsivo é o seu comportamento”, retrucou um Ancião. “As crianças assassinaram o conde Olaf, e você construiu um dispositivo mecânico. Todos vocês quebraram regras muito importantes!”
“Não quero viver em um lugar com tantas regras”, replicou Hector em voz calma, “e com tantos corvos. Estou flutuando para longe daqui, e estou levando estas cinco crianças comigo. Os Baudelaire e os Quagmire passaram por coisas terríveis desde que os pais deles morreram. A cidade de Cultores Solidários de Corvídeos deveria estar cuidando deles, em vez de acusá-los de coisas e caçá-los pelas ruas.”
“Mas quem vai fazer as nossas tarefas domésticas?”, perguntou um Ancião. “O Caramanchão do Lanche ainda está cheio de pratos sujos de sundaes com cobertura de chocolate.”
“Vocês deviam fazer as suas próprias tarefas domésticas”, disse o factótum, debruçando-se para erguer Duncan a bordo de sua invenção, “ou então se revezar para fazê-las de acordo com uma escalação justa. O aforismo é que ‘É preciso uma cidade para educar uma criança’, e não ‘três crianças precisam fazer a limpeza de uma cidade inteira’. Baudelaires, subam a bordo. Vamos deixar essa gente horrível para trás.”
Os Baudelaire sorriram um para o outro e começaram a marinhar pela escada de corda. Violet foi primeiro, as mãos agarrando a corda áspera o mais firme que podia, e Klaus e Sunny seguiram logo atrás. Hector girou um botão e a casa móvel subiu mais alto bem no momento em que a turba chegou à extremidade da escada.
“Eles estão rugindo!”, bradou uma Anciã, o chapéu de corvo bamboleando de frustração. Ela pulou para tentar agarrar a ponta da escada, mas Hector tinha manobrado sua invenção levando-a alto demais para ela alcançar. “Os violadores de regras estão fugindo! Oficial Luciana, faça alguma coisa!”
“Vou fazer alguma coisa, pode deixar”, disse a oficial Luciana com um grunhido, e jogou longe o cobertor que estava segurando. Do meio da escada, os três Baudelaire olharam para baixo e viram nas mãos de Luciana um objeto grande, de aparência sinistra, com um gatilho vermelho vivo e quatro farpas compridas e afiadas. “Você não é o único que possui um dispositivo mecânico!”, gritou ela para Hector. “Isto é um lançador de arpões que o meu namorado me comprou. Ele dispara quatro arpões de ponta farpada, que são lanças compridas perfeitas para estourar balões.”
“Oh, não!”, disse Hector, olhando para as crianças que marinhavam escada acima.
“Eleve a casa móvel autossustentável a ar quente, Hector!”, gritou Violet. “Vamos continuar subindo!”
“Nossa chefe de polícia está usando um dispositivo mecânico?”, perguntou atônita a sra. Morrow. “Isto significa que ela também está quebrando a Regra nº 67.”
“Os guardiães da lei estão autorizados a quebrar regras”, disse Luciana, apontando o lançador de arpões na direção de Hector. “Além do que, isto é uma emergência. Precisamos fazer aqueles assassinos descerem de lá.” Elementos da turba se entreolharam confusos, mas Luciana simplesmente deu-lhes um sorriso de batom e apertou o gatilho do lançador de arpões com um forte dic! seguido por um silvo estridente quando um dos arpões farpados saiu voando do lançador diretamente para a invenção de Hector. O factótum conseguiu manobrar a casa móvel autossustentável a ar quente para não ser atingida pelo arpão, mas ele acertou um tanque de metal no lado de uma das cestas, abrindo um grande buraco.
“Droga!”, disse Hector quando um líquido arroxeado começou a jorrar do buraco. “É o meu suprimento de suco de framboesa! Baudelaires, depressa! Se ela causar algum estrago sério, estamos todos perdidos!”
“Estamos indo o mais depressa que podemos!”, gritou Klaus, mas depois que Hector fez subir mais a sua invenção, a escada de corda começou a balançar tanto que os Baudelaire não estavam conseguindo se mover nem um pouco depressa.
Um clic! e um silvo estridente. Mais um arpão saiu voando pelo ar e acertou a cesta número seis, e uma nuvem de pó marrom desceu esvoaçando para o chão, seguida por alguns tubos finos de metal. “Ela atingiu o nosso suprimento de farinha de trigo integral”, gritou Hector, “e a nossa caixa de pilhas de reserva!”
“Vou acertar um balão com este aqui!”, bradou a oficial Luciana. “E aí vocês vão despencar no chão, onde poderemos queimá-los na fogueira!”
“Oficial Luciana”, disse alguém do Conselho dos Anciãos no meio da multidão, “eu não acho que você deva quebrar as regras a fim de capturar pessoas que quebraram as regras. Isto não faz sentido.”
“Ouçam, ouçam!”, gritou um cidadão do lado oposto da multidão. “Por que você não põe de lado esse lançador de arpões e nós não vamos até a Prefeitura para fazer uma reunião do Conselho?”
“Não é legal”, bradou uma voz, “fazer reuniões!” Ouviu-se um ruído surdo, como se mais uma grande batata tivesse chegado, e a multidão dividiu-se para deixar passar o detetive Dupin, que atravessou a turba montado em uma motocicleta pintada de turquesa, para combinar com a japona. Embaixo dos óculos de sol havia um sorriso de triunfo, e seu peito nu estava estufado de orgulho.
“O detetive Dupin também está usando um dispositivo mecânico?”, perguntou um Ancião. “Não podemos queimar todo mundo na fogueira!”
“Dupin não é um cidadão”, ressaltou um outro membro do Conselho, “portanto não está quebrando a Regra nº 67.”
“Mas ele está pilotando no meio de uma multidão de pessoas”, disse o sr. Lesko, “e não está usando capacete. Certamente está demonstrando não ter muito juízo.”
O detetive Dupin ignorou o sermão do sr. Lesko sobre segurança em motocicletas e parou ao lado da oficial Luciana. “É legal chegar atrasado”, disse ele, e estalou os dedos. “Eu estava comprando O Pundonor Diário de hoje.”
“Você não devia estar comprando jornais”, disse um Ancião, sacudindo o seu chapéu de corvo em desaprovação. “Você devia estar capturando criminosos.”
“Ouçam, ouçam!”, disseram várias vozes concordando, mas a multidão parecia estar começando a ficar indecisa. Manter a ferocidade a tarde inteira é um trabalho duro e, à medida que a situação ia ficando mais complicada, os cidadãos de C.S.C. pareciam estar ficando um pouco menos sedentos de sangue. Alguns cidadãos até abaixaram as suas tochas, que estavam pesando muito de ficar segurando no alto esse tempo todo.
Mas o detetive Dupin ignorou essa mudança na psicologia da turba de C.S.C.
“Me deixe em paz, seu idiota de chapéu de corvo”, disse ele ao Ancião, e estalou os dedos. “É legal disparar arpões, oficial Luciana.”
“Com certeza”, disse Luciana, e olhou para o céu a fim de mirar novamente o seu lançador de arpões. Mas a casa móvel autossustentável a ar quente não estava mais solitária no céu. Com toda aquela comoção, ninguém tinha reparado que a tarde se findara e os corvos de C.S.C. haviam deixado seus poleiros na cidade baixa para voar em círculos antes de migrar para a Árvore do Nunca Mais e passar a noite como de costume. Agora os corvos estavam chegando, milhares e milhares deles, e em questão de segundos o céu do anoitecer estava coberto de pássaros pretos e crocitantes. A oficial Luciana não conseguia ver Hector e sua invenção. Hector não conseguia ver os Baudelaire. E os Baudelaire não conseguiam ver nada. A escada de corda estava bem no caminho dos corvos migrantes, e as três crianças estavam absolutamente cercadas pelos pássaros de C.S.C. As asas dos corvos ruflavam contra as crianças, as suas penas ficavam emaranhadas na escada, e tudo o que os três irmãos podiam fazer era se agarrar com toda a força para salvar as suas vidas.
“Baudelaires!”, gritou Hector. “Agarrem-se com toda a força para salvar as suas vidas! Vou voar ainda mais alto, acima dos corvos!”
“Não!”, gritou Sunny, o que queria dizer alguma coisa tipo “Não estou muito certa se este é o plano mais inteligente – não sobreviveremos a uma queda de tamanha altura!”, mas Hector não pôde ouvi-la por cima de mais um elide mais um silvo estridente do lançador de arpões de Luciana. Os Baudelaire sentiram a escada de corda dar um tranco brusco em suas mãos e depois começar a girar vertiginosamente no ar repleto de corvos. Na cesta de controle, os trigêmeos Quagmire olharam para baixo e, através dos corvos migrantes, vislumbraram péssimas notícias.
“O arpão atingiu a escada!”, gritou Isadora para os seus desesperados amigos. “A corda está se desfazendo!”
Era verdade. Quando os corvos começaram a pousar na Árvore do Nunca Mais, os Baudelaire puderam ver mais claramente, e eles olharam para a escada horrorizados. O arpão estava espetado em uma das grossas cordas da escada, a qual estava lentamente se desenrolando em volta da farpa. Aquilo lembrou Violet da vez em que, quando era muito mais jovem, pedira à mãe que trançasse os seus cabelos para que ela ficasse parecida com uma inventora famosa que vira em uma revista. Mas a despeito dos melhores esforços de sua mãe, as tranças não mantinham a forma e se desenrolavam quase no mesmo momento em que ela lhes amarrava as pontas com fitas. Os cabelos de Violet, lentamente, se destorciam para fora da trança, exatamente como as fibras da corda estavam se destorcendo para fora da escada.
“Subam mais depressa!”, gritou Duncan. “Subam mais depressa!”
“Não”, Violet disse baixinho, e depois repetiu para que os seus irmãos pudessem ouvir. Cada vez mais, os corvos tomavam seus lugares na árvore, e Klaus e Sunny puderam ver a expressão amarga de Violet olhando para eles lá de cima, desesperada. “Não.” A Baudelaire mais velha deu mais uma olhada para a corda que continuava se destrancando e viu que seria impossível eles conseguirem subir até a cesta da casa móvel autossustentável a ar quente de Hector. Era tão impossível quanto a mãe dela um dia voltar a trançar os seus cabelos. “Não podemos fazer isso”, disse ela. “Se insistirmos em tentar subir, acabaremos caindo e morrendo. Temos de descer.”
“Mas...”, disse Klaus.
“Não”, disse Violet, e uma lágrima rolou pelo seu rosto. “Não podemos fazer isso, Klaus.”
“Ióil!”, disse Sunny.
“Não”, disse Violet outra vez, e olhou os irmãos nos olhos.
Os três Baudelaire compartilharam um momento de frustração e desespero por não poder acompanhar seus amigos, e então, sem mais uma palavra, começaram a descer pela escada que se desfazia, através do bando de corvos ainda migrando para a Árvore do Nunca Mais. Quando os Baudelaire desceram nove degraus, a corda se destrancou completamente e derrubou as crianças na paisagem achatada, infelizes porém incólumes.
“Hector, manobre a sua invenção de volta para baixo!”, gritou Isadora. Sua voz soava um pouco fraca de tão longe. “Duncan e eu podemos nos pendurar do lado de fora da cesta e formar uma escada humana! Ainda dá tempo de salvá-los!”
“Não posso”, disse Hector com tristeza, olhando para os Baudelaire, que estavam lá embaixo se levantando do chão e se desembaraçando da escada caída, enquanto o detetive Dupin começava a se aproximar deles em passos largos dos seus sapatos de plástico. “A casa não foi projetada para voltar ao chão.”
“Tem de haver um jeito!”, exclamou Duncan, mas a casa móvel autossustentável a ar quente apenas seguiu flutuando para mais longe.
“Podemos tentar trepar na Árvore do Nunca Mais”, disse Klaus, “e pular dos galhos mais altos para a cesta de controle.”
Violet sacudiu a cabeça. “A árvore já está meio coberta de corvos”, disse ela, “e a invenção de Hector está voando alto demais.” Ela ergueu a cabeça para o céu e pôs as mãos em concha na boca, para que a sua voz pudesse viajar toda aquela distância para cima, até os seus amigos. “Não podemos chegar até vocês agora!”, gritou ela. “Tentaremos alcançar vocês mais tarde!”
A voz de Isadora chegou a eles tão fraca que os Baudelaire mal puderam ouvi-la por cima do crocitar dos corvos, que ainda estavam se acomodando na Árvore do Nunca Mais. “Como vocês vão poder nos alcançar mais tarde”, gritou ela, “no meio do ar?”
“Não sei!”, admitiu Violet. “Mas vamos achar um jeito. Eu prometo!”
“Nesse meio-tempo”, gritou Duncan de volta, “fiquem com isto!” Os Baudelaire puderam ver o trigêmeo segurando o seu caderno verde, e Isadora segurando o dela, por cima da borda da cesta. “São todas as informações que temos sobre o plano malévolo do conde Olaf, e o segredo de C.S.C., e o assassinato de Jacques Snicket!” Sua voz estava tão trêmula quanto fraca, e os três irmãos perceberam que seu amigo estava chorando. “É o mínimo que podemos fazer!”, gritou ele.
“Fiquem com os nossos cadernos, Baudelaires!”, gritou Isadora, “e talvez algum dia nos vejamos de novo!”
Os trigêmeos Quagmire deixaram cair seus cadernos para fora da casa móvel autossustentável a ar quente e gritaram “Adeus!” aos Baudelaire, mas sua despedida foi abafada pelo som de mais um dic! e mais um silvo estridente quando a oficial Luciana disparou o último arpão. Depois de tanto praticar, lamento dizer, a pontaria dela melhorou, e o arpão atingiu exatamente o que Luciana esperava que ele atingisse. A lança afiada deslizou pelo ar e atingiu não um, mas os dois cadernos dos Quagmire. Houve um barulho alto de papel rasgando e depois o ar se encheu de folhas de caderno jogadas de um lado para outro ao vento farfalhante produzido pelos corvos em voo. Os Quagmire berraram de frustração e gritaram uma última coisa para os amigos, mas a invenção de Hector estava voando alto demais para os Baudelaire ouvirem. “... voluntário...” foi o que as crianças ouviram fracamente, e depois o balão autossustentável a ar quente flutuou para tão alto que os órfãos não puderam ouvir mais nada.
“Tesper!”, gritou Sunny, o que queria dizer “Vamos tentar juntar o maior número de folhas dos cadernos que pudermos!”.
“Se ‘Tesper’ significa ‘Tudo está perdido’, então aquele bebê não é tão bobo, afinal”, disse o detetive Dupin, que tinha alcançado os Baudelaire. Ele abriu a japona, expondo mais o seu peito pálido e peludo, e tirou um jornal enrolado de um bolso interno, olhando para as crianças como se fossem três insetos que ele estava prestes a esmagar. “Achei que vocês iam querer ver O Pundonor Diário’, disse ele, e desenrolou o jornal para mostrar a manchete. “ÓRFÃOS BAUDELAIRE À SOLTA!”, dizia lá, usando uma expressão que aqui significa “fora da prisão”. Debaixo da manchete havia três desenhos, reproduzindo o rosto de cada um dos irmãos.
O detetive Dupin tirou os óculos de sol para poder ler o jornal à luz que se esvaía.
“’As autoridades estão tentando capturar Verônica, Klyde e Susie Baudelaire’”, leu ele em voz alta, “’que escaparam da cadeia central de Cultores Solidários de Corvídeos, onde estavam presos pelo assassinato do conde Omar.’” Ele deu um sorriso sórdido para as crianças e jogou O Pundonor Diário no chão. “Alguns dos nomes estão errados, é claro”, disse ele, “mas todo mundo pode se enganar. Amanhã, naturalmente, haverá outra edição especial, e vou me certificar de que O Pundonor Diário publicará todos os detalhes corretos na matéria sobre a captura superlegal dos notórios Baudelaire pelo detetive Dupin.”
Dupin se inclinou para as crianças, chegando tão perto que elas puderam sentir o cheiro do sanduíche de salada de ovo que ele aparentemente comera no almoço. “É claro”, disse ele em uma voz baixa que só podia ser ouvida pelos irmãos, “que um Baudelaire irá escapar no último minuto, e viver comigo até que a fortuna seja minha. A pergunta é: Qual Baudelaire há de ser? Vocês ainda não me informaram da sua decisão.”
“Não vamos dar atenção a essa ideia, Olaf”, disse Violet, amarga.
“Oh, não!”, exclamou um Ancião, apontando para o horizonte achatado. À luz do ocaso, os Baudelaire viram uma pequena silhueta delgada projetando-se do chão enquanto as folhas dos cadernos dos Quagmire esvoaçavam. Era o último arpão disparado por Luciana, e ele acertara alguma coisa a mais depois de destruir os cadernos. Lá, trespassado pelo arpão cravado na terra, estava um dos corvos de C.S.C., com a boca aberta de dor.
“Você feriu um corvo!”, disse a sra. Morrow horrorizada, apontando para a oficial Luciana. “É a Regra nº 1! A mais importante de todas as regras!”
“Ora, é só um pássaro idiota”, disse o detetive Dupin, voltando-se para encarar os chocados cidadãos.
“Um pássaro idiota?”, repetiu um Ancião, o chapéu de corvo tremendo de raiva, “um pássaro idiota?, detetive Dupin, esta é a cidade de Cultores Solidários de Corvídeos, e...”
“Um minuto!”, interrompeu uma voz da multidão. “Olhem todos! Ele só tem uma sobrancelha!”
O detetive Dupin, que tinha tirado os óculos de sol para ler o jornal, enfiou a mão no bolso da japona e os colocou de volta. “Uma porção de gente tem só uma sobrancelha”, disse ele, mas a multidão não deu atenção, pois a psicologia das turbas começou a dominar outra vez.
“Vamos fazê-lo tirar os sapatos”, exclamou o sr. Lesko, e uma Anciã se ajoelhou para agarrar um dos pés de Dupin. “Se ele tiver uma tatuagem, vamos queimá-lo na fogueira!”
“Ouçam, ouçam!”, concordou um grupo de cidadãos.
“Agora, esperem um minuto!”, disse a oficial Luciana, pondo no chão o lançador de arpões e olhando preocupada para Dupin.
“E vamos queimar a oficial Luciana também!”, disse a sra. Morrow. “Ela feriu um corvo!”
“Não vamos desperdiçar todas estas tochas!”, gritou um Ancião.
“Ouçam, ouçam!”
O detetive Dupin abriu a boca para falar, e as crianças viram que ele estava pensando furiosamente em alguma coisa para dizer que enganasse os cidadãos de C.S.C. Mas ele então simplesmente fechou a boca e, com um movimento brusco do pé, chutou a Anciã que estava segurando o seu sapato. A turba abafou um grito escandalizado quando o chapéu de corvo da Anciã caiu enquanto ela rolava pelo chão, ainda agarrada ao sapato de plástico de Dupin.
“É a tatuagem!”, gritou um dos Verhoogen, apontando para o olho no tornozelo esquerdo do detetive Dupin – ou melhor, do conde Olaf. Com um urro, Olaf correu de volta para a sua motocicleta e, com outro urro, deu partida no motor. “Pule na garupa, Esmé!”, gritou ele para a oficial Luciana. A chefe tirou o seu capacete de motociclista com um sorriso, e os Baudelaire viram que se tratava realmente de Esmé Squalor.
“É Esmé Squalor!”, gritou um Ancião. “Ela era a sexta consultora financeira mais bem-sucedida da cidade, mas agora trabalha com o conde Olaf!”
“Ouvi dizer que eles dois estão namorando!”, disse a sra. Morrow horrorizada.
“Nós estamos namorando!”, exclamou Esmé, triunfante. Ela subiu na motocicleta de Olaf e jogou o capacete no chão, mostrando que não dava mais importância à segurança em motocicletas do que ao bem-estar dos corvos.
“Até mais ver, Baudelaires!”, bradou o conde Olaf, chispando pelo meio da multidão irada. “Vou encontrar vocês de novo, se as autoridades não os encontrarem primeiro!”
Esmé soltou uma gargalhada que mais parecia um cacarejo enquanto a motocicleta disparava rugindo pela paisagem achatada a mais do dobro da velocidade máxima permitida, e em momentos a motocicleta se transformou em um pontinho tão minúsculo no horizonte quanto a casa móvel autossustentável a ar quente no céu. A turba ficou olhando desapontada na direção dos dois vilões.
“Nunca vamos alcançá-los”, disse um Ancião fechando a cara. “Não sem dispositivos mecânicos.”
“Isso não tem importância”, retrucou um outro Ancião. “Temos coisas mais importantes para nos preocupar. Depressa, todo mundo! Levem esse corvo urgentemente para o veterinário de C.S.C.!”
Os Baudelaire se entreolharam atônitos enquanto os cidadãos de C.S.C. liberavam com todo o cuidado o corvo do arpão e começavam a levá-lo de volta à cidade.
“O que faremos?”, perguntou Violet. Ela estava falando com os irmãos, mas um membro do Conselho dos Anciãos ouviu e voltou-se para responder-lhe.
“Vocês tratem de não sair daqui”, disse ele. “O conde Olaf e aquela namorada desonesta dele podem ter escapado, mas vocês três ainda são criminosos. Vamos queimá-los na fogueira assim que este corvo tiver recebido os cuidados médicos necessários.”
O Ancião saiu correndo atrás da turba que levava o corvo ferido e, em poucos segundos, as crianças se viram sozinhas na paisagem achatada, tendo apenas as folhas espalhadas dos cadernos dos Quagmire por companhia.
“Vamos juntar essas folhas”, disse Klaus, curvando-se para recolher uma toda rasgada. “São a nossa única esperança de descobrir o segredo de C.S.C.”
“E de derrotar o conde Olaf”, concordou Violet indo até o lugar onde estava um pequeno maço de folhas que tinham permanecido juntas.
“Delinque!”, disse Sunny, apanhando uma que parecia conter um mapa rabiscado. Ela queria dizer “E de provar que não somos assassinos!” e as crianças pararam para dar uma olhada n’O Pundonor Diário que ainda estava jogado no chão. As suas próprias caras olhavam para eles abaixo da manchete “ÓRFÃOS BAUDELAIRE À SOLTA!”, mas as crianças não se sentiam à solta. Os Baudelaire se sentiam constrangidos e muito pequeninos, sozinhos em pé no meio dos arredores descalvados de C.S.C., correndo atrás das poucas folhas dos cadernos dos Quagmire que não tinham desaparecido para sempre. Violet conseguiu agarrar três folhas, Klaus conseguiu agarrar sete, e Sunny conseguiu agarrar nove, mas muitas das páginas recuperadas estavam rasgadas, ou em branco, ou todas amarrotadas pelo vento.
“Vamos estudá-las depois”, disse Violet, juntando as folhas e amarrando-as em um maço com a sua fita de cabelo. “Nesse meio-tempo, temos de sair daqui antes que a turba volte.”
“Mas para onde iremos?”, perguntou Klaus.
“Burb”, disse Sunny, o que queria dizer “Para qualquer lugar, desde que seja fora desta cidade”.
“Quem irá tomar conta de nós?”, disse Klaus, o olhar perdido no horizonte.
“Ninguém”, disse Violet. “Teremos de tomar conta de nós mesmos. Teremos de ser autossustentáveis.”
“Como a casa móvel autossustentável a ar quente”, disse Klaus, “que pode viajar e sobreviver sozinha.”
“Como eu”, disse Sunny e, de repente, pôs-se em pé. Violet e Klaus soltaram um gritinho abafado de surpresa quando a sua irmã bebê deu os seus primeiros passos cambaleantes, e depois foram andar bem perto ao lado dela, prontos para segurá-la se caísse.
Mas ela não caiu. Sunny deu mais alguns passos autossustentados, e então os três Baudelaire ficaram em pé juntos, lançando longas sombras na direção do horizonte à luz moribunda do ocaso. Eles olharam para cima e viram um pontinho minúsculo no céu, muito, muito longe, onde os trigêmeos Quagmire passariam a viver em segurança com Hector. Eles olharam ao longe na paisagem, na direção em que o conde Olaf desaparecera em sua motocicleta com Esmé Squalor, para se encontrar com seus parceiros e maquinar um novo plano ignóbil. Eles olharam para trás, para a Árvore do Nunca Mais, onde os corvos de C.S.C. crocitavam juntos se acomodando para o seu pouso noturno, e depois eles olharam para o mundo, onde as famílias por toda parte iriam logo estar lendo tudo sobre os três irmãos na edição especial d’O Pundonor Diário. Aos Baudelaire, parecia que todas as criaturas do mundo estavam sendo cuidadas por outras – todas as criaturas, menos eles mesmos.
Mas as crianças, naturalmente, iriam cuidar umas das outras, como já vinham fazendo desde aquele dia terrível na praia. Violet, Klaus e Sunny se entreolharam e respiraram fundo, reunindo toda a sua coragem para enfrentar os raios em dia de céu claro que, segundo eles – e lamento dizer que estavam certos –, os aguardavam no futuro, e então os autossustentáveis órfãos Baudelaire deram os primeiros passos na direção das últimas luzes remanescentes do sol poente.


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