segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Capítulo três


A manhã é um momento importante do dia, porque muitas vezes, logo depois de acordar, já dá para adivinhar que tipo de dia você vai ter. Por exemplo, se você acorda ouvindo o pipilar de pássaros, esparramado sobre uma enorme cama com dossel, com um mordomo que traz, numa bandeja de prata, pãezinhos recém-tirados do forno e um suco de laranja feito na hora, já dá para saber que o seu dia será esplêndido. Se você acorda ao som de sinos de igreja, acomodado numa cama razoavelmente grande, com um mordomo que lhe traz uma bandeja com chá quente e torradas, dá para saber que o seu dia vai ser legal. E se você acorda com alguém batendo duas panelas de ferro uma contra a outra, e você está deitado de mau jeito num beliche estreito, com um capataz asqueroso na soleira da porta e que não lhe traz nenhum tipo de café da manhã, dá para saber que o seu dia será horrendo.
Obviamente, a você e a mim não causará grande surpresa saber que o primeiro dia dos órfãos Baudelaire na Serraria Alto-Astral foi horrendo. E os Baudelaire certamente não esperavam pássaros pipilantes ou um mordomo, depois da recepção tão desanimadora do dia anterior. Mas nunca, nem em seus piores pesadelos, esperavam ser acordados com aquela cacofonia – palavra que aqui significa “o som de duas panelas de ferro sendo batidas uma contra a outra por um capataz asqueroso na soleira da porta e que não lhe traz nenhum tipo de café da manhã”.
“Levantem-se, ô gente mais preguiçosa e fedorenta!”, gritou o capataz numa voz que soava esquisita. Ele falava como se tapasse a boca com as mãos. “É hora de trabalhar, todo mundo! Uma nova carga de troncos de árvore está lá fora só esperando virar tábua!”
Os meninos sentaram-se e esfregaram as pálpebras. Em volta deles, os empregados da Serraria Alto-Astral espreguiçavam-se e tapavam os ouvidos por causa do barulho das panelas. Phil, que já se levantara e arrumava cuidadosamente sua cama, dirigiu aos Baudelaire um sorriso cansado.
“Bom dia, jovens Baudelaire”, disse Phil. “E bom dia, capataz Flacutono. Permita-me que lhe apresente três novíssimos empregados? Capataz Flacutono, estes são Violet, Klaus e Sunny Baudelaire.”
“Sabia que teríamos alguns novos trabalhadores”, disse o capataz, atirando as panelas ao chão com estrondo, “mas ninguém me disse que seriam anões.”
“Não somos anões”, explicou Violet. “Somos crianças.”
“Crianças, anões, o que me importa?”, disse o capataz Flacutono com sua voz abafada, caminhando em direção ao beliche dos órfãos. “O que me importa é que vocês saiam já da cama e sigam direto para a serraria.”
Os Baudelaire pularam rápido do beliche, não queriam contrariar um homem que batia panelas em vez de dizer “Bom dia”. Porém, depois de dar uma boa olhada no capataz Flacutono, só tinham um desejo: pular de volta para o beliche e puxar as cobertas até cobrir a cabeça.
Garanto que vocês já ouviram dizer que a aparência não tem tanta importância, que é o interior que conta. Isso, deixem-me dizer, é o maior absurdo, porque se fosse verdade as pessoas com beleza interior não precisariam nunca pentear os cabelos ou tomar banho, e o mundo teria um fedor pior do que o que já tem. A aparência é da maior importância, porque pode-se saber muito só de olhar como as pessoas se apresentam. E foi a maneira como o capataz Flacutono se apresentou que fez com que os órfãos quisessem pular de volta para o beliche. Ele vestia um macacão todo manchado, o que não pode causar uma boa impressão, e em seus sapatos havia um adesivo no lugar de cadarços. Mas o mais desagradável de tudo era a cabeça do capataz. Flacutono era careca, mais careca do que um ovo, só que, em vez de assumir a careca como fazem as pessoas de bom senso, comprara uma peruca branca cacheada, que parecia uma penca de grandes vermes mortos a cobrir-lhe toda a cabeça. Alguns dos pelos-vermes ficavam levantados, outros curvavam-se para o lado, outros escorriam pela testa e pelas orelhas, e uns poucos esticavam-se como se quisessem fugir do couro cabeludo do capataz Flacutono. Abaixo da peruca, havia um par de olhos escuros, pequenos e redondos, que cintilavam para os órfãos de um modo muito desagradável.
Quanto ao restante do rosto, era impossível dizer como era, porque estava coberto por uma máscara, dessas que os médicos usam nos hospitais. O nariz do capataz Flacutono sobressaía por baixo da máscara, como um jacaré se escondendo na lama, e quando o capataz falava os Baudelaire podiam ver sua boca abrir e fechar por trás do pano. O uso dessas máscaras em hospitais é perfeitamente apropriado, está claro, para impedir a disseminação de germes, entretanto não havia qualquer justificativa para aquela ali. O único motivo que o capataz Flacutono poderia ter para usar uma máscara cirúrgica seria assustar as pessoas; e, ao encarar os órfãos Baudelaire, conseguiu mesmo deixá-los bastante assustados.
“A primeira coisa que vocês têm a fazer, Baldehilários”, disse o capataz Flacutono, “é apanhar as minhas panelas no chão. E nunca mais me dar motivo para deixá-las cair.”
“Mas elas não caíram por nossa culpa”, disse Klaus.
“Bram!”, acrescentou Sunny, o que provavelmente significava: “nosso sobrenome é Baudelaire”.
“Se não apanharem as panelas agora mesmo”, disse o capataz Flacutono, “vocês não terão chicletes no almoço.”
Os órfãos Baudelaire não ligavam muito para chiclete, especialmente chiclete de hortelã, a que eram alérgicos, mas correram até as panelas. Violet apanhou uma e Sunny a outra, enquanto Klaus se apressava a fazer as camas.
“Me deem as panelas!”, foi dizendo impaciente o capataz Flacutono, e tirou as panelas das mãos das garotas. “Vamos, operários, já perdemos tempo demais. Às serras! As toras de madeira nos esperam!”
“Detesto trabalhar com as toras”, resmungou um dos empregados, mas todos seguiram o capataz Flacutono. Saíram do dormitório e atravessaram o pátio de chão de terra em direção à serraria, que era uma construção cinzenta e sem atrativos, com muitas chaminés que faziam o telhado parecer o dorso de um porco-espinho. As três crianças se entreolharam preocupadas. Os órfãos nunca haviam trabalhado, exceto num dia de verão, no tempo em que seus pais ainda estavam vivos, quando os Baudelaire abriram uma barraca para vender limonada na frente de casa; os três estavam nervosos.
Seguiram o capataz Flacutono para dentro da serraria e viram que tudo se resumia a um único espaço imenso, tomado por máquinas enormes. Violet olhou para uma máquina de aço brilhante com uma pinça, também de aço, que se assemelhava à pinça de um caranguejo, e tentou imaginar como funcionava aquela invenção. Klaus examinou uma máquina que parecia uma grande gaiola, com um enorme rolo de corda preso em seu interior, e tentou lembrar-se do que já lera sobre serrarias. Sunny olhou para uma máquina enferrujada de aparência obsoleta, aparelhada com uma serra circular cujos dentes eram de causar medo e que a fizeram pensar se seriam mais afiados do que os seus próprios dentes. E os três Baudelaire tiveram a atenção despertada para uma máquina, coberta de minúsculas chaminés, que sustentava uma pedra grande e plana no ar; tentavam imaginar por que ela estava ali.
Os Baudelaire, entretanto, dispuseram apenas de uns poucos segundos para alimentar sua curiosidade sobre aquelas máquinas, até o capataz Flacutono começar a bater as duas panelas uma na outra e vociferar suas ordens. “As toras!”, gritou ele. “Liguem a pinça mecânica e comecem o processamento das toras!”
Phil correu para a pinça mecânica e apertou um botão cor de laranja no aparelho. Emitindo um silvo áspero, os braços da pinça se abriram e se estenderam em direção à parede mais distante da serraria. Os órfãos estavam tomados de uma curiosidade tão grande pelas máquinas que nem sequer tinham reparado na pilha imensa de árvores estocadas, com folhas, raízes e tudo o mais, ao longo de uma das paredes da serraria; era como se um gigante houvesse simplesmente arrancado do solo uma pequena floresta e depois a jogado dentro daquele espaço. Os braços da pinça agarraram a árvore que estava em cima da pilha e começaram a pousá-la no chão da serraria, enquanto o capataz Flacutono vibrava estrondosamente suas panelas aos gritos de: “Os decorticadores! Os decorticadores!”.
Uma funcionária andou até a parede mais distante da serraria, onde havia uma coleção de caixinhas verdes e uma pilha de chapas retangulares de ferro, finas e compridas como uma enguia adulta. Sem dizer uma palavra, apanhou a pilha de chapas e começou a distribuí-las aos operários. “Peguem um decorticador”, sussurrou para os órfãos. “Um para cada um.”
As crianças pegaram seu decorticador e ficaram lá plantadas, aguardando confusas e com fome, enquanto a primeira árvore tocava o chão. O capataz Flacutono voltou a bater as duas panelas uma na outra, e os operários juntaram-se em torno da árvore e começaram a raspar a sua casca com os decorticadores, aparando o tronco como você ou eu descascamos legumes. “Vocês também, anões!”, gritou o capataz, e as crianças se aninharam entre os adultos para participar da raspagem.
Phil descrevera os rigores do trabalho numa serraria, e os irmãos puderam imaginar que não era fácil. No entanto, como vocês estão lembrados, Phil era um otimista, e o trabalho demonstrou ser muito pior do que o anunciado. Em primeiro lugar, os decorticadores tinham o tamanho apropriado para adultos, de modo que para as crianças foi difícil manejá-los. Sunny não conseguiu sequer levantar seu decorticador, e acabou substituindo-o por seus próprios dentes, mas Violet e Klaus, que tinham dentes apenas medianamente afiados, se viram forçados a batalhar a duras penas com os decorticadores. Por mais que se esforçassem, os três órfãos não arrancaram mais do que uns poucos pedaços da casca. Isso sem falar que, como não haviam feito nenhuma refeição matinal, com o passar das horas a fome era tanta que mesmo os dois mais velhos já não conseguiam segurar o decorticador, muito menos raspar a árvore com ele. E tem mais: assim que uma árvore ficava enfim sem a casca, na mesma hora a pinça mecânica depositava outra sobre o chão e eles tinham que começar tudo de novo, o que era de uma chatice extrema. Pior de tudo, entretanto, era o barulho simplesmente ensurdecedor na Serraria Alto-Astral. Havia o som desagradável e prolongado dos decorticadores vencendo a resistência da casca. Havia o silvo áspero dos braços da pinça mecânica, que se abriam para pegar e deslocar as toras. E ainda a barulheira horrenda que o capataz Flacutono fazia batendo suas panelas uma contra a outra. Os órfãos foram ficando exaustos e frustrados. O estômago doía, os ouvidos zumbiam. E o tédio atingia proporções inacreditáveis.
Por fim, os operários concluíram sua décima quarta tora. O capataz Flacutono bateu as panelas e gritou: “Parada para o almoço!”. Os funcionários cessaram a raspagem, cessou o silvo da pinça mecânica, e todos se sentaram, exaustos, no chão. O capataz Flacutono jogou por terra as suas panelas, andou até as caixinhas verdes e apanhou uma. Abriu-a com um rasgo e começou a jogar uns quadradinhos cor-de-rosa para os operários, um para cada um. “Vocês têm cinco minutos para almoçar!”, gritou, lançando três quadradinhos para as crianças. Deu para os Baudelaire perceberem a marca úmida que apareceu na máscara cirúrgica do capataz, formada pela saliva que saltava de sua boca ao dar as ordens. “Só cinco minutos!”
Da marca úmida sobre a máscara o olhar de Violet passou para o quadrado cor-de-rosa que tinha em sua mão, e por um instante não conseguiu acreditar no que estava vendo. “É chiclete!”, disse. “Isto é um chiclete!”
Klaus olhou para o quadrado de sua irmã, depois para o seu. “Chiclete não é almoço!”, exclamou. “Chiclete não é nem petisco!”
“Tanco!”, gritou Sunny, querendo dizer algo como: “E chiclete não é para se dar aos bebês, que podem engasgar e até ficar sufocados com ele!”.
“É melhor vocês comerem o chiclete”, disse Phil saindo do seu lugar para sentar-se junto das crianças. “Não alimenta grande coisa, mas é tudo o que eles deixarão vocês comerem até a hora do jantar.”
“Bem, talvez a gente possa levantar-se um pouco mais cedo amanhã”, disse Violet, “e preparar uns sanduíches.”
“Não temos nenhum ingrediente para preparar sanduíches”, disse Phil. “Temos só uma refeição à noite e em geral é carne com legumes cozidos.”
“Bem, talvez a gente possa ir à cidade e comprar alguns ingredientes”, disse Klaus.
“Bem que eu gostaria”, disse Phil, “mas não temos nenhum dinheiro.”
“E o salário de vocês?”, perguntou Violet. “Vocês podem gastar uma parte do dinheiro que ganham com ingredientes para sanduíches.”
Phil sorriu tristemente para as crianças e enfiou a mão no bolso. “Na Serraria Alto-Astral”, disse, tirando do bolso uma porção de pedacinhos de papel, “eles não nos pagam em dinheiro. Pagam em tíquetes. Vejam, isso foi o que todos nós ganhamos ontem: vinte por cento de desconto num xampu no Salão de Cabeleireiros do Sam. Na véspera havíamos ganhado esse tíquete que vale um chá gelado e na semana passada recebemos este aqui: 'Compre dois banjos e ganhe um de graça. O problema é que não podemos comprar dois banjos porque tudo o que temos são esses tíquetes.”
“Nelnu!”, gritou Sunny, mas o capataz Flacutono começou a bater as panelas antes que alguém pudesse compreender o que ela quis dizer.
“Terminou o almoço!”, gritou ele. “Voltem todos ao trabalho! Todos menos vocês, Baudelarápios! O patrão quer ver vocês três no escritório dele, imediatamente!”
Os três irmãos pousaram seus decorticadores no chão e se entreolharam. Por causa do trabalho tão pesado eles quase haviam se esquecido de ir conhecer o novo tutor, aquele do nome difícil de pronunciar. Que espécie de homem seria capaz de forçar crianças pequenas a trabalhar numa serraria? Que espécie de homem seria capaz de contratar um monstro como o capataz Flacutono? Que espécie de homem seria capaz de pagar seus empregados com tíquetes, e de alimentá-los só com chicletes?
O capataz Flacutono voltou a bater as panelas e apontou para a porta; as crianças passaram do recinto barulhento ao silencioso pátio. Klaus tirou do bolso o mapa e indicou às irmãs o caminho para o escritório. A cada passo, as crianças levantavam pequenas nuvens de poeira em sintonia com as nuvens de ansiedade que pairavam sobre elas. Seus corpos doíam com o esforço do trabalho matinal, e havia uma sensação de mal-estar nos seus estômagos vazios. Como já dera para pressentir logo no início da manhã, as crianças estavam tendo um mau dia. Mas, à medida que se aproximavam do escritório, crescia nelas a suspeita de que as coisas ainda podiam piorar.

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