quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Capítulo três


Há uma maneira de olhar a vida que consiste em “considerar as coisas de uma perspectiva determinada”. Isso significa simplesmente “sentir-se melhor ao comparar o que está acontecendo a você neste momento com outras coisas que aconteceram numa época diferente ou a pessoas diferentes”. Por exemplo, se você estivesse aborrecido por causa de uma espinha medonha que surgiu na ponta do seu nariz, poderia tentar se sentir melhor examinando sua espinha de uma perspectiva determinada. Você poderia comparar o seu sofrimento por causa da espinha com o de alguém que estivesse sendo comido por um urso, e quando você olhasse no espelho para sua espinha medonha, poderia dizer a si próprio: “Bem, pelo menos não estou sendo comido por um urso”.
Não é preciso grande esforço para perceber que considerar as coisas de uma perspectiva determinada é algo que raramente funciona cem por cento, porque é difícil se concentrar em alguma outra pessoa sendo comida por um urso quando se está de olho na própria espinha medonha. E foi o que aconteceu com os órfãos Baudelaire nos dias que se seguiram. De manhã, quando as crianças se reuniam com tia Josephine para a primeira refeição – suco de laranja e pão sem torrar –, Violet pensava: “Bem, pelo menos não estamos sendo forçados a cozinhar para a repulsiva companhia teatral do conde Olaf”. À tarde, quando tia Josephine os levava para a biblioteca e lhes ensinava tudo sobre gramática, Klaus pensava: “Bem, pelo menos o conde Olaf não está prestes a nos carregar para o Peru”. E à noite, quando as crianças se reuniam com tia Josephine para o jantar – suco de laranja e pão sem torrar –, Sunny pensava: “Zax!”, que significava: “Bem, pelo menos não há sinal do conde Olaf em parte alguma!”, ou algo do gênero.
Mas, por mais que os três irmãos comparassem a vida na casa de tia Josephine com os tristes episódios por que haviam passado, não podiam deixar de se sentir insatisfeitos com o que viviam. Nas horas livres, Violet desmontava engrenagens e interruptores do trem de brinquedo, na esperança de inventar algo que permitisse preparar comida quente sem causar medo a tia Josephine, mas nem por isso deixava de desejar que tia Josephine simplesmente acendesse o fogão. Klaus ficava sentado numa das poltronas da biblioteca, com os pés no pufe, lendo sobre gramática até o sol se pôr, mas quando olhava para o lago melancólico, não tinha como afastar o desejo de que ainda estivessem morando com o tio Monty e todos os seus répteis. E Sunny saía da rotina mordendo a cabeça da boneca Perfeita Fortuna, mas, mesmo assim, não conseguia deixar de desejar que seus pais ainda estivessem vivos, e que ela e os irmãos estivessem sãos e salvos no lar dos Baudelaire.
Tia Josephine não gostava muito de sair de casa, tantas eram as coisas lá fora que a amedrontavam, mas um dia as crianças lhe contaram o que o taxista havia dito sobre a aproximação do Furacão Hermano, e ela concordou em levá-los à cidade para comprar mantimentos. Tia Josephine tinha medo de andar de carro porque as portas podiam emperrar, deixando-a presa lá dentro. Assim, eles tiveram que descer todo o morro a pé. Quando chegaram ao mercado, suas pernas estavam doloridas por causa da caminhada.
“Tem certeza que não nos deixa cozinhar para você?”, perguntou Violet, quando tia Josephine chegou perto do barril de limas. “Quando morávamos com o conde Olaf, aprendemos a fazer molho puttanesca. Era muito fácil e absolutamente seguro.”
Tia Josephine balançou a cabeça. “Como sua tutora, é minha responsabilidade cozinhar para vocês, e estou ansiosa para experimentar uma receita de caldo frio de limas. O conde Olaf me parece muito perverso. Imaginem só, forçar crianças a ficarem junto de um fogão!”
“Ele foi muito cruel conosco”, concordou Klaus, sem acrescentar que ser forçados a cozinhar havia sido o menor de seus problemas quando moraram com o conde Olaf. “Às vezes ainda tenho pesadelos com a terrível tatuagem no seu tornozelo. Sempre me deu medo.”
Tia Josephine franziu a testa e ajeitou o coque. “Você cometeu um erro gramatical, Klaus”, disse em tom severo. “Ao dizer: ‘Sempre me deu medo’, pareceu querer dizer que o tornozelo dele sempre lhe deu medo, mas você estava se referindo à tatuagem. Então, deveria ter dito: ‘A tatuagem sempre me deu medo’. Entendeu?”
“Entendi sim”, disse Klaus com um suspiro. “Obrigado por ter assinalado isso, tia Josephine.”
“Nicu!”, gritou Sunny, provavelmente querendo dizer algo como: “Não foi legal ter apontado o erro gramatical de Klaus quando ele falava de uma coisa que o afligia”.
“Não, não, Sunny”, disse tia Josephine com firmeza, erguendo os olhos de sua lista de compras. “‘Nicu’ não é uma palavra. Lembre-se do que dissemos sobre falar corretamente o idioma. Violet, por favor, pegue alguns pepinos. Estou pensando em repetir o caldo frio de pepinos na próxima semana.”
Violet resmungou interiormente – frase que aqui quer dizer “não disse nada, mas se sentiu decepcionada ante a perspectiva de outro jantar gelado” –, mas sorriu para tia Josephine e saiu caminhando pelo mercado à procura dos pepinos. Olhou muito desejosa para todos os alimentos deliciosos nas prateleiras, os quais exigiam que se acendesse o fogão para prepará-los. Violet tinha a esperança de um dia poder fazer uma boa refeição quente para tia Josephine e os irmãos, usando a invenção em que trabalhava com as peças do trem de montar. Por alguns momentos ficou tão entregue aos seus pensamentos de inventora que nem olhou por onde andava, até esbarrar em alguém.
“Desc...”, começou Violet a dizer, mas quando ergueu os olhos, não conseguiu terminar a frase. Diante dela estava um homem alto e magro, com um gorro azul de marinheiro na cabeça e uma venda negra cobrindo o olho esquerdo. Sorria encantado para ela, como se ela fosse um presente de aniversário envolto numa embalagem luxuosa que ele se continha para não rasgar. Seus dedos eram compridos e ossudos, e ele estava meio desajeitadamente tombado para um lado, um pouco como a casa de tia Josephine, que se equilibrava no alto do morro. Ao olhar para baixo, Violet entendeu por quê: havia um grosso bloco de madeira no lugar onde deveria estar sua perna esquerda, e, como a maioria dos que usam perna de pau, o homem se apoiava na perna boa, o que o levava a se inclinar. Mas embora Violet jamais tivesse visto alguém com uma perna de pau, não foi por isso que ela não conseguiu terminar a frase. O motivo se relacionava com algo que ela já tinha visto – o brilho intenso, muito intenso, no único olho daquele homem, e, acima do olho, uma única sobrancelha comprida.
Quando o disfarce de alguém não é muito bom, pode-se descrevê-lo como um disfarce transparente. Isso não quer dizer que a pessoa esteja usando material (vidro, plástico) transparente. Significa apenas que os outros conseguem ver através do disfarce – ou seja, o disfarce não os engana nem sequer por um instante. Violet não se deixou enganar nem mesmo por um segundo ao erguer os olhos para o homem em quem esbarrara. Ela percebeu na mesma hora que era o conde Olaf.
“Violet, o que você está fazendo neste setor?”, disse tia Josephine atrás dela. “Este setor é o de alimentos que precisam ser aquecidos, e como você sabe...” Quando ela viu o conde Olaf, parou de falar, e por um momento Violet pensou que tia Josephine o havia reconhecido também. Mas tia Josephine sorriu, e as esperanças de Violet ficaram em frangalhos, expressão que quer dizer “se despedaçaram”.
“Olá”, disse o conde Olaf, sorrindo para tia Josephine. “Eu estava justamente me desculpando de ter esbarrado em sua irmã.”
O rosto de tia Josephine enrubesceu vivamente, o rubor parecendo ainda mais intenso por causa dos cabelos brancos. “Oh, não”, disse ela, enquanto Klaus e Sunny se aproximavam para ver o que estava acontecendo. “Violet não é minha irmã, senhor. Sou sua tutora legal.”
O conde Olaf levou uma das mãos ao rosto, como se tia Josephine tivesse acabado de lhe dizer que era a rainha de Sabá. “Não posso acreditar”, disse ele. “A senhora não parece ter idade para ser tutora de ninguém.”
Tia Josephine corou novamente. “Bem, caro senhor, vivi a vida inteira à beira do lago, e algumas pessoas me disseram que isso me mantém jovem.”
“Ficaria muito feliz de travar relações com uma personagem do lugar”, disse o conde Olaf, tocando com a ponta dos dedos o seu gorro azul de marinheiro e usando tolamente uma palavra que aqui significa “pessoa”. “Sou novo na cidade e estou justamente começando um novo negócio, de forma que desejo muito travar novas relações. Permita-me que me apresente.”
“Klaus e eu temos o maior prazer de apresentá-lo”, disse Violet, com mais coragem do que eu teria se me visse novamente cara a cara com o conde Olaf. “Tia Josephine, este é o conde...”
“Não, não, Violet”, interrompeu tia Josephine. “Observe a sua gramática. Você deveria ter dito: ‘Klaus e eu teremos o maior prazer de apresentá-lo’, porque vocês ainda não o apresentaram.”
“Mas...”, começou Violet a dizer.
“Escute aqui, Verônica”, disse o conde Olaf, com seu olho único brilhando intensamente quando ele olhou para ela. “Sua tutora tem razão. E antes que você cometa outros enganos, permita-me que me apresente. Meu nome é capitão Sham, e estou à frente de um novo negócio: alugo barcos no Cais de Dâmocles. Prazer em conhecê-la, senhorita...?”
“Sou Josephine Anwhistle”, disse tia Josephine. “E estes são Violet, Klaus e a pequena Sunny Baudelaire.”
“Pequena Sunny”, repetiu o capitão Sham, num tom que parecia que ele estava comendo Sunny em vez de estar cumprimentando-a. “É um prazer conhecer todos vocês. Quem sabe um dia não os levo para dar um passeiozinho de barco no lago?”
“Ging!”, gritou Sunny, provavelmente querendo dizer algo como: “Antes magra no mato do que gorda no papo do gato”.
“Nós não vamos a lugar nenhum com você”, disse Klaus.
Tia Josephine corou mais uma vez, e encarou com firmeza as três crianças. “As crianças parecem ter esquecido não só a gramática, mas também as boas maneiras”, disse. “Por favor, peçam desculpas ao capitão Sham, imediatamente.”
“Ele não é o capitão Sham”, disse Violet, já sem paciência. “Ele é o conde Olaf.”
Tia Josephine prendeu a respiração, e olhou primeiro para os rostos ansiosos dos Baudelaire e depois para a fisionomia calma do capitão Sham. Ele tinha um sorriso estampado no rosto, mas esse sorriso se tornava menos confiante à medida que o farsante esperava para ver se tia Josephine percebia que ele era de fato o conde Olaf disfarçado.
Tia Josephine olhou para ele da cabeça aos pés, e franziu a testa. “O sr. Poe avisou-me que deveria ficar alerta para qualquer sinal da presença do conde Olaf”, disse finalmente, “mas disse também que vocês, crianças, tinham uma tendência a vê-lo em toda parte.”
“Nós o vemos em toda parte”, disse Klaus, aborrecido, “porque ele está em toda parte.”
“Quem é esse tal de conde Omar?”, perguntou o capitão Sham.
“O conde Olaf”, disse tia Josephine, “é um homem terrível que...”
“... está bem diante de nós”, concluiu Violet. “Pouco me importa o nome que ele dá a si mesmo. Ele tem os mesmos olhos brilhantes, a mesma sobrancelha única...”
“Mas uma porção de gente tem essas características”, disse tia Josephine. “Meu Deus, minha sogra tem não apenas uma sobrancelha única como também uma única orelha.”
“A tatuagem!”, disse Klaus. “Procure a tatuagem! O conde Olaf tem um olho tatuado no tornozelo esquerdo.”
O capitão Sham suspirou e, com dificuldade, ergueu a perna de pau para que todos pudessem vê-la com clareza. Era feita de madeira escura, envernizada para brilhar com a mesma intensidade que o seu olho, e fixada no joelho esquerdo por uma dobradiça curva de metal. “Mas eu nem sequer tenho um tornozelo esquerdo”, disse ele com voz queixosa. “As sanguessugas do lago o comeram.”
Os olhos de tia Josephine se encheram de lágrimas, e ela pousou uma das mãos no ombro do capitão Sham. “Oh, pobre homem”, disse, e no mesmo instante as crianças entenderam que estavam perdidas. “Vocês ouviram o que o capitão Sham disse?”, ela lhes perguntou.
Violet tentou mais uma vez, sabendo que provavelmente seria em vão. “Ele não é o capitão Sham”, disse. “Ele é...”
“Você não pode achar que ele permitiria que as sanguessugas do lago comessem sua perna”, disse tia Josephine, “só para pregar uma peça em vocês. Conte-nos, capitão Sham. Conte-nos como foi que aconteceu.”
“Bem, eu estava sentado no meu barco, poucas semanas atrás”, disse o capitão Sham. “Comia macarrão à puttanesca, e deixei cair um pouco em minha perna. Antes que eu percebesse o que acontecera, as sanguessugas se lançaram ao ataque.”
“Exatamente como aconteceu ao meu marido”, disse tia Josephine, mordendo o lábio. Os Baudelaire, todos os três, cerraram os punhos, frustrados. Sabiam que a história do capitão Sham sobre o molho puttanesca era tão falsa quanto o seu nome, mas não tinham como prová-lo.
“Olhe aqui”, disse o capitão Sham, tirando do bolso um cartãozinho e o estendendo a tia Josephine. “Fique com meu cartão, e a próxima vez que a senhora vier à cidade, quem sabe não tomamos uma xícara de chá?”
“Acho ótimo”, disse tia Josephine, lendo o cartão. “‘Barcos a vela do capitão Sham. Cada barco tem sua própia vela.’ Ah, capitão, há um erro muito grave aqui.”
“Quê?”, disse o capitão, erguendo a sobrancelha.
“Neste cartão está escrito própia, em vez de própria. É um erro muito comum, mas pavoroso.”
O rosto do capitão Sham se ensombreceu, e por um instante pareceu que ele iria levantar sua perna de pau novamente e acertar um pontapé em tia Josephine com toda a força. Mas, em vez disso, ele sorriu e seu rosto clareou. “Obrigado por ter apontado o erro”, disse afinal.
“Por nada”, disse tia Josephine. “Vamos, crianças, está na hora de pagar nossas compras. Espero vê-lo em breve, capitão Sham.”
O capitão Sham sorriu e lhe acenou em despedida, mas os Baudelaire viram como seu sorriso se transformou num riso escarninho assim que tia Josephine lhe deu as costas. Ele a havia enganado, e os Baudelaire não podiam fazer nada a respeito disso. Passaram o resto da tarde se arrastando morro acima com as compras, mas o peso dos pepinos e das limas não era nada se comparado ao peso no coração dos órfãos. Em todo o trajeto de volta ao alto do morro, tia Josephine falou do capitão Sham, do homem bom que ele era, e de quanto ela esperava que tornassem a vê-lo, ao passo que as crianças sabiam que ele era na verdade o conde Olaf, um homem terrível, e esperavam nunca mais vê-lo na vida.
Há uma expressão que, lamento dizer, se aplica muito bem a esta parte da história. A expressão é “morder a isca, com linha, anzol e tudo”, e vem do universo da pesca. A isca, a linha e o anzol são partes da vara de pescar, e trabalham juntos com o objetivo de atrair o peixe para fora do oceano e rumo à sua desventura. Dizer que alguém morde a isca, com linha, anzol e tudo, é dizer que esse alguém acredita numa porção de mentiras e, em consequência, pode acabar em desgraça. Tia Josephine estava mordendo a isca do capitão Sham com linha, anzol e tudo, mas eram Violet, Klaus e Sunny que se sentiam ameaçados pela desgraça. Enquanto subiam o morro em silêncio, as crianças olhavam para o Lago Lacrimoso e sentiam o calafrio da desgraça se abater sobre o coração delas. Ao frio, juntava-se a sensação de estarem perdidas, como se não estivessem simplesmente olhando para o lago sombrio, mas houvessem sido mergulhadas bem no meio de suas profundezas.

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