quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Capítulo três


Somos os alegres Combatentes
Pela Saúde do Cidadão,
Se alguém dissesse que somos tristes,
Não teria por certo razão.
Visitamos pessoas doentes,
E tentamos fazê-las sorrir,
Mesmo quando o seu nariz sangra,
Quando expelem bílis ao tossir.
Tra-la-lá, qui-qui-qui,
Quero que fique logo são.
Ho-ho-ho, hi-hi-hi,
Pegue um balão de coração.
Visitamos pessoas doentes,
Para fazê-las dar gargalhadas
Mesmo quando o médico lhes diz
Que logo em duas serão serradas.
Cantamos, dançamos noite e dia,
É bom demais quando a gente canta
Pra meninos de ossos quebrados
E meninas com dor de garganta.
Tra-la-lá, qui-qui-qui,
Quero que fique logo são.
Ho-ho-ho, hi-hi-hi,
Pegue um balão de coração.
Cantamos pra homens com sarampo,
E mulheres gripadas demais;
Pra você, nós só vamos cantar
Quando inalar micróbios letais.
Tra-la-lá, qui-qui-qui,
Quero que fique logo são.
Ho-ho-ho, hi-hi-hi,
Pegue um balão de coração.

Um parceiro meu chamado William Congreve certa vez escreveu uma peça que começa com a fala “A música tem encantos para apaziguar um peito selvagem”, uma frase que aqui significa que se você está nervoso ou aborrecido pode ouvir um pouco de música que o acalme ou que o alegre. Por exemplo, enquanto estou aqui agachado atrás do altar da Catedral da Suposta Virgem, um amigo meu está tocando uma sonata no órgão de tubos, para me acalmar e para que o ruído da minha máquina de escrever não seja ouvido pelos fiéis sentados nos bancos. A lamentosa melodia da sonata me lembra uma canção que meu pai costumava cantar quando lavava os pratos e, enquanto a ouço, posso esquecer temporariamente seis ou sete das minhas preocupações.
Mas o efeito apaziguante da música sobre um peito selvagem obviamente depende do tipo da música que está sendo tocada e, lamento ter de dizer, enquanto os órfãos Baudelaire ouviam a canção C.S.C., eles não se sentiam menos nervosos ou aborrecidos. Quando Violet, Klaus e Sunny embarcaram na perua C.S.C., estavam tão preocupados em evitar a captura, que mal deram uma olhada em volta até que estivessem bem longe do Armazém Geral Última Chance. Mas depois que o vendedor virou um mero cisco na paisagem plana e vazia, as crianças voltaram a atenção para o seu novo esconderijo. Havia cerca de vinte pessoas na perua, e todas, sem exceção, eram extraordinariamente alegres. Havia homens alegres, mulheres alegres, um punhado de crianças alegres e um motorista muito alegre que, de vez em quando, tirava os olhos da estrada e sorria alegremente para todos os passageiros. Quando os Baudelaire faziam uma viagem longa de automóvel, gostavam de passar o tempo lendo ou contemplando a paisagem, imersos em seus pensamentos pessoais, mas assim que a perua se afastou do armazém geral, o barbudo começou a tocar o seu violão e a reger todos os Combatentes pela Saúde do Cidadão em uma alegre canção, e cada “tra-la-lá” só servia para deixar os Baudelaire ainda mais ansiosos do que antes. Quando os voluntários começaram a cantar a estrofe sobre o nariz das pessoas sangrando, os irmãos estavam certos de que alguém ia parar de cantar e dizer: Esperem um minuto! Aquelas três crianças não estavam na perua antes! O lugar delas não é aqui! Quando os cantores chegaram à estrofe sobre o médico serrando uma pessoa em duas, as crianças estavam certas de que alguém ia parar de cantar e dizer: Esperem um minuto! Aquelas três pessoas não sabem a letra da canção! O lugar delas não é aqui! E quando os alegres passageiros cantaram a parte que discutia os micróbios letais, os irmãos estavam inequivocamente seguros de que alguém ia parar de cantar e dizer: Esperem um minuto! Aquelas três crianças são os assassinos descritos n’O Pundonor Diário! O lugar delas não é aqui!
Mas os Combatentes pela Saúde do Cidadão estavam alegres demais para esperar um minuto. Eles acreditavam tão piamente que a falta de notícias é uma boa notícia que nenhum deles sequer olhara para O Pundonor Diário. E estavam ocupados demais cantando para notar que o lugar dos Baudelaire não era a perua.
“Rapaz, eu adoro essa canção!”, disse o barbudo ao terminar o último refrão. “Eu poderia cantá-la o caminho inteiro, até o Hospital Heimlich. Mas acho que é melhor economizarmos nossas vozes para o trabalho do dia. Assim, por que não nos acomodamos e conversamos alegremente até a chegada?”
“Parece sensacional!”, disse um dos voluntários, e todos balançaram a cabeça concordando. O barbudo pôs de lado o violão e sentou-se ao lado dos Baudelaire.
“É melhor a gente usar nomes falsos”, sussurrou Violet para Klaus, “para que ninguém fique sabendo quem somos.”
“Mas O Pundonor Diário publicou errado os nossos nomes”, sussurrou Klaus de volta, “portanto, talvez a gente deva usar os nomes reais.”
“Muito bem, vamos conhecer uns aos outros”, disse alegremente o barbudo. “Eu gosto de travar conhecimento com todos os nossos voluntários, um por um.”
“Bem, meu nome é Sally”, começou Violet, “e...”
“Não, não”, disse o barbudo. “Nós não usamos nomes entre os voluntários C.S.C. Simplesmente chamamos todo mundo de ‘irmã’ e ‘irmão’, pois acreditamos que todas as pessoas são irmãs e irmãos.”
“Estou confuso”, disse Klaus. “Sempre pensei que irmãos e irmãs fossem pessoas que compartilham os mesmos pais.”
“Nem sempre, irmão”, disse o barbudo. “Às vezes, irmãos e irmãs são simplesmente pessoas unidas por uma causa comum.”
“Isso significa, irmão”, disse Violet, experimentando aquele novo uso da palavra “irmão” e não gostando muito, “que você não sabe o nome de ninguém nesta perua?”
“Isso mesmo, irmã”, disse o barbudo.
“E então você nunca soube o nome de nenhuma pessoa que tenha sido voluntária dos Combatentes pela Saúde do Cidadão?”, perguntou Klaus.
“Nem umazinha, sequer”, disse o barbudo. “Por que a pergunta?”
“Achamos que um conhecido nosso”, disse Violet cautelosamente, “pode ter participado do C.S.C. Ele tinha uma sobrancelha em vez de duas, e um olho tatuado no tornozelo.”
O barbudo franziu o cenho.
“Não sei de ninguém que corresponda a essa descrição”, disse ele, “e estou com os Combatentes pela Saúde do Cidadão desde que a organização foi fundada.”
“Droga!”, disse Sunny.
“A minha irmã quer dizer”, disse Klaus, “que estamos desapontados. Tínhamos esperanças de ficar sabendo mais sobre essa pessoa.”
“Vocês têm certeza de que ele estava nos Combatentes pela Saúde do Cidadão?”, perguntou o barbudo.
“Não”, admitiu Klaus. “Só sabemos que ele trabalhou como voluntário em alguma coisa.”
“Bem, existem montes de voluntários em alguma coisa”, retrucou o barbudo. “O que vocês precisam, crianças, é algum tipo de Biblioteca de Registros.”
“Biblioteca de Registros?”, disse Violet.
“Biblioteca de Registros é um lugar onde armazenam informações oficiais”, disse o barbudo. “Em uma Biblioteca de Registros, você pode encontrar uma lista de todas as organizações de voluntários do mundo. Ou então pode procurar o nome dessa pessoa e descobrir se existe algum arquivo sobre ela. Talvez isso possa informar a vocês onde ela trabalhava.”
“Ou como conheceu os nossos pais”, disse Klaus, falando alto, sem pensar.
“Seus pais?”, disse o barbudo, percorrendo o interior da perua com os olhos. “Eles também estão aqui?”
Os Baudelaire se entreolharam, desejando que seus pais estivessem lá na perua, se bem que teria sido um tanto embaraçoso chamar o pai de “irmão” e a mãe de “irmã”. Às vezes as crianças tinham a impressão de que centenas e centenas de anos haviam se passado desde aquele dia assustador na praia, quando o sr. Poe trouxe a elas a terrível notícia, porém, outras tantas vezes, a impressão era de que haviam se passado apenas alguns minutos. Violet era capaz de visualizar o pai, sentado ao seu lado, talvez apontando para alguma coisa interessante que tinha visto pela janela. Klaus era capaz de visualizar a mãe sorrindo e balançando a cabeça, divertida com a letra ridícula da canção C.S.C. E Sunny era capaz de visualizar todos os cinco Baudelaire, juntos novamente, sem que ninguém estivesse fugindo da polícia, ou sendo acusado de assassinato, ou tentando desesperadamente resolver mistérios, ou, pior que tudo, tivesse partido para sempre em um incêndio terrível. Porém, só porque você é capaz de visualizar alguma coisa, isso não faz com que seja assim. Os pais dos Baudelaire não estavam na perua, e as crianças olharam para o homem barbudo e sacudiram a cabeça, tristemente.
“Céus, vocês estão macambúzios”, disse o barbudo. “Bem, não se preocupem. Tenho certeza de que, onde quer que os seus pais estejam, eles estão se divertindo muito, portanto não quero ver caras fechadas. A alegria é a razão de ser dos Combatentes pela Saúde do Cidadão.”
“O que, exatamente, vamos fazer no hospital?”, perguntou Violet, ansiosa por mudar de assunto.
“Exatamente o que diz o nome C.S.C.”, respondeu o barbudo. “Somos combatentes, e vamos combater doenças.”
“Espero que não tenhamos de aplicar injeções”, disse Klaus. “As agulhas me deixam meio nervoso.”
“É claro que não vamos aplicar injeções”, disse o barbudo. “Só fazemos coisas alegres. A maior parte do tempo, perambulamos pelos corredores cantando para os doentes e oferecendo-lhes balões em forma de coração, como diz a letra da música.”
“Mas como isso combate as doenças?”, disse Violet.
“Ganhar um balão alegre ajuda as pessoas a visualizar a sua melhora, e quando você visualiza alguma coisa, isto faz com que seja assim”, explicou o barbudo. “Afinal, uma atitude de alegria é a ferramenta mais eficaz contra a doença.”
“Pensei que fossem os antibióticos”, disse Klaus.
“Echinacea!’’, disse Sunny. Ela queria dizer: “Ou medicamentos fitoterápicos de eficácia comprovada”, mas o barbudo tinha parado de prestar atenção nas crianças e estava olhando pela janela.
“Voluntários, chegamos!”, bradou ele. “Estamos no Hospital Heimlich!” Ele voltou-se para os Baudelaire e apontou para o horizonte. “Não é um belo edifício?”
As crianças olharam pela janela da perua e descobriram que só podiam concordar com o homem barbudo pela metade, pela simples razão de que o Hospital Heimlich era só a metade de um edifício ou, na melhor das hipóteses, dois terços. O lado esquerdo do hospital era uma lustrosa estrutura branca, com uma fileira de altas colunas e pequenos retratos esculpidos de médicos famosos acima de cada janela. Na frente do edifício havia um gramado perfeitamente aparado com manchas ocasionais de flores selvagens em cores vivas. Mas o lado direito do hospital nem podia ser chamado de estrutura, que dizer, de uma bela estrutura. Havia algumas tábuas pregadas umas nas outras formando retângulos, e algumas pranchas pregadas no chão à guisa de assoalhos, mas não havia paredes nem janelas, o que deixava aquilo parecido com o desenho de um hospital, e não um hospital em si. Não havia sinal de colunas e nem um médico sequer esculpido naquele lado semi-acabado, apenas umas poucas folhas de plástico tremulando ao vento e, em lugar de gramado, somente um campo de terra vazio. Era como se o arquiteto encarregado de construir o edifício tivesse decidido, no meio da obra, que preferia ir a um piquenique, e nunca mais tivesse voltado. O motorista estacionou a perua embaixo de um letreiro que também estava semi-acabado: a palavra “Heimlich”, em elegantes letras douradas sobre um quadrado branco de madeira, e a palavra “Hospital”, rabiscada com caneta esferográfica sobre um pedaço de papelão arrancado de uma caixa velha.
“Tenho certeza de que um dia eles vão terminar”, continuou o barbudo. “Mas nesse meio-tempo, podemos visualizar a outra metade, e visualizar uma coisa faz com que a coisa aconteça. Agora vamos visualizar a nós mesmos descendo da perua.”
Os três Baudelaire não precisaram visualizar, simplesmente desceram da perua atrás do homem barbudo e do resto dos voluntários, seguindo-os pelo gramado da metade mais bonita do hospital. Os voluntários C.S.C. estavam esticando os braços e pernas depois da longa viagem, e ajudando o homem barbudo a remover uma grande penca de balões em forma de coração da traseira da perua, mas as crianças apenas ficaram por perto, ansiosas, tentando imaginar o que fazer a seguir.
“Aonde iremos agora?”, perguntou Violet. “Se ficarmos andando pelos corredores do hospital, cantando para as pessoas, alguém vai nos reconhecer.”
“É verdade”, disse Klaus. “Não é possível que os médicos, enfermeiros, administradores e pacientes acreditem, todos eles, que a falta de notícias é uma boa notícia. Tenho certeza de que alguns deles leram O Pundonor Diário desta manhã.”
“Aronec”, disse Sunny, o que queria dizer: “E nós não estamos chegando nem um pouquinho mais perto de ficar sabendo alguma coisa sobre C.S.C. ou Jacques Snicket.
“É verdade”, concordou Violet. “Talvez precisemos encontrar uma Biblioteca de Registros, como disse o homem barbudo.”
“Mas onde poderemos encontrar uma?”, perguntou Klaus. “Estamos no meio de coisa nenhuma.”
“Andar não!”, disse Sunny.
“Eu também não quero recomeçar as andanças”, disse Violet, “mas não vejo o que mais podemos fazer.”
“O.K., voluntários!”, disse o barbudo. Ele tirou o violão da perua e começou a tocar alguns acordes alegres e familiares. “Todo mundo pegue um balão em forma de coração e comece a cantar!”

Somos os alegres Combatentes
Pela Saúde do Cidadão,
Se alguém dissesse que somos tristes,
Não teria por certo...

Atenção!”, interrompeu uma voz que parecia vir do céu. A voz era feminina, porém muito estridente e apagada, como se fosse a voz de uma mulher com um pedaço de folha de alumínio por cima da boca. “A sua atenção, por favor!”
“Shhh, todo mundo!”, disse o barbudo, interrompendo a canção. “É Babs, a diretora de Recursos Humanos do hospital. Ela deve ter alguma comunicação importante a fazer.”
“Atenção!”, disse a voz. “Aqui é Babs, a diretora de Recursos Humanos. Tenho uma comunicação importante a fazer.”
“Onde está ela?”, perguntou Klaus, com medo que ela pudesse reconhecer os três acusados de assassinato escondidos entre os C.S.C.
“Em algum lugar do hospital”, respondeu o barbudo. “Ela prefere fazer comunicações pelo intercomunicador.”
A palavra “intercomunicador” aqui se refere a alguém falando em um microfone, em algum lugar, e sua voz saindo de alto-falantes, em algum outro lugar. E, de fato, bem que as crianças notaram uma pequena fileira de alto-falantes localizados na metade acabada do edifício, logo acima dos médicos esculpidos.
Atenção!”, disse a voz mais uma vez, e ficou ainda mais estridente e apagada, como se a mulher com o pedaço de folha de alumínio por cima da boca tivesse caído em uma piscina cheia de água mineral com gás. Não era um modo agradável de ouvir alguém falar, e no entanto, assim que Babs fez a sua comunicação, os peitos selvagens dos Baudelaire foram instantaneamente apaziguados, como se a voz estridente e apagada fosse uma tranquilizante peça musical. Porém, não é que os Baudelaire se sentiram melhor por causa do modo como soou a voz de Babs. A comunicação apaziguou os peitos selvagens dos Baudelaire por causa do que ela disse.
Preciso de três voluntários dos Combatentes pela Saúde do Cidadão que estejam dispostos a receber uma nova tarefa”, disse a voz. “Os três voluntários devem apresentar-se imediatamente à minha sala, que é a décima sétima porta à esquerda de quem entra na metade acabada do edifício. Em vez de ficar andando pelos corredores do hospital e cantando para as pessoas, esses três voluntários irão trabalhar na Biblioteca de Registros, aqui no Hospital Heimlich.”

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