quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Capítulo três


Se você pegasse um saco plástico e o colocasse dentro de uma grande tigela, e depois, usando uma colher de pau, mexesse bem mexido o saco dentro da tigela, poderia usar a expressão “saco remexido” para descrever o que teria diante de você, mas não estaria usando a expressão do mesmo modo como estou prestes a usá-la agora. Muito embora “saco remexido” às vezes se refira a um saco plástico que foi remexido em uma tigela, a expressão é mais frequentemente usada para descrever uma situação que tem simultaneamente partes boas e partes ruins. Uma matinê no cinema, por exemplo, seria um saco remexido se estivesse passando o seu filme predileto, porém você tivesse de comer pedregulhos em vez de pipocas. Uma excursão ao zoológico seria um saco muito remexido se o tempo estivesse maravilhoso, porém todos os leões devoradores de homens e mulheres estivessem à solta. E, para os órfãos Baudelaire, os primeiros dias com os Squalor foram um dos sacos mais remexidos que já tinham encontrado, porque as partes boas eram muito boas, mas as partes ruins eram simplesmente horrendas.
Uma das partes boas era que os Baudelaire estavam vivendo de novo na cidade onde nasceram e foram criados. Depois que os Baudelaire pais morreram, e depois da desastrosa temporada com o conde Olaf, as três crianças tinham sido mandadas para diversos lugares remotos para morar e sentiam amargamente a falta das vizinhanças familiares de sua cidade natal. Todas as manhãs, depois que Esmé saía para o trabalho, Jerome levava as crianças para algum dos seus lugares prediletos na cidade. Violet ficou feliz ao ver que as suas exposições favoritas no Museu Verne das Invenções não tinham sido mudadas, e assim ela pôde dar mais uma olhada nas demonstrações mecânicas que a inspiraram a ser uma inventora quando tinha apenas dois anos de idade. Klaus ficou encantado ao revisitar a Livraria Akhmatova, aonde seu pai costumava levá-lo, como um prêmio especial, para comprar um atlas ou um volume da enciclopédia. E Sunny ficou interessada em visitar o Hospital Pincus, onde nascera, embora suas lembranças daquele lugar fossem um pouco vagas.
Mas à tarde as três crianças voltavam para a Avenida Sombria 667, e esta parte da situação dos Baudelaire é que não era nem de longe tão agradável. Para começar, a cobertura era simplesmente grande demais. Além dos setenta e um quartos de dormir, havia uma porção de salas de estar, salas de jantar, salas de café-da-manhã, salas de lanche, salas de sentar, salas de ficar em pé, salões de baile, banheiros, cozinhas e uma variedade de salas que pareciam não ter nenhuma serventia. A cobertura era tão enorme que com frequência os órfãos Baudelaire se viam irremediavelmente perdidos dentro dela. Violet saía do seu quarto para escovar os dentes e não conseguia encontrar o caminho de volta por uma hora. Klaus, inadvertidamente, esquecia os óculos em um balcão de cozinha e desperdiçava a tarde inteira tentando encontrar a cozinha certa. E Sunny conseguia encontrar um lugar muito confortável para sentar e ficar mordendo coisas, mas era incapaz de encontrá-lo de novo no dia seguinte. Muitas vezes era difícil passar algum tempo com Jerome, simplesmente porque era muito difícil achá-lo no meio de todas as salas sofisticadas do seu novo lar, e só raríssimas vezes os Baudelaire chegavam a ver Esmé. Sabiam que ela saía para trabalhar todos os dias e voltava à noite, mas mesmo nas ocasiões em que estava no apartamento com eles, as três crianças mal chegavam a vislumbrar a sexta consultora financeira mais importante da cidade. Era como se ela tivesse se esquecido completamente dos novos membros da família, ou simplesmente estivesse mais interessada em perambular pelas salas do apartamento do que em passar algum tempo com os três irmãos. Mas os órfãos Baudelaire, na verdade, não se importavam muito com o fato de Esmé estar ausente com tanta frequência. Preferiam muito mais passar o tempo uns com os outros, ou com Jerome, em vez de participar de conversas infindáveis sobre o que era in e o que era out.
Mesmo quando os Baudelaire ficavam nos seus quartos, as três crianças não tinham momentos assim tão esplêndidos. Como ele tinha prometido, Jerome dera a Violet o quarto com uma grande bancada de madeira, que era sem dúvida perfeita para guardar ferramentas, mas Violet não conseguiu achar ferramentas em nenhum lugar da cobertura. Ela achou estranho que em um apartamento tão enorme não houvesse nem mesmo uma chave de boca, ou um mísero alicate, mas Esmé explicou altivamente, quando Violet lhe perguntou uma noite, que as ferramentas estavam out. Klaus realmente ficou com o quarto vizinho à biblioteca Squalor, que era uma sala grande e confortável com centenas de livros nas prateleiras. Mas o Baudelaire do meio ficou desapontado ao descobrir que todos os livros, sem exceção, eram descrições do que tinha sido in e out em várias épocas da história. Klaus tentou se interessar por livros desse tipo, mas era tão maçante ler um livro pretensioso como Em 1812 as botas eram in, ou Trutas: na França elas são out, que Klaus acabou não passando praticamente tempo algum na biblioteca. E a pobre Sunny não teve melhor sorte, uma frase que aqui significa “também ficava entediada no seu quarto”. Jerome, solícito, pusera uma porção de brinquedos no quarto dela, mas eram do tipo projetado para bebês com dentes mais delicados: bichinhos moles de pelúcia, bolas acolchoadas e almofadas multicores diversas; não tinha a menor graça morder nenhum deles.
Mas o que realmente remexia o saco dos Baudelaire não era o tamanho acachapante do apartamento dos Squalor, nem os desapontamentos de uma bancada sem ferramentas, uma biblioteca sem livros interessantes ou itens de entretenimento não mastigáveis. O que realmente perturbava as três crianças era o pensamento de que os trigêmeos Quagmire estavam sem dúvida vivendo coisas que eram muito, muito piores. A cada dia que passava, a preocupação com os amigos era como uma carga nos ombros dos Baudelaire, que parecia ir ficando cada vez mais pesada, pois os Squalor se recusavam a dar qualquer apoio.
“Eu estou muito, muito cansada de discutir os seus amiguinhos gêmeos”, disse Esmé uma noite, enquanto os Baudelaire e os Squalor bebericavam martínis aquosos em uma sala de estar que as crianças nunca tinham visto antes. “Sei que vocês estão preocupados com eles, mas é uma chateação ficar tagarelando o tempo todo sobre isso.”
“Não queríamos chateá-la”, disse Violet, sem acrescentar que é terrivelmente indelicado dizer às pessoas que os seus problemas são uma chateação.
“É claro que não”, disse Jerome, pescando a azeitona da sua taça sofisticada e jogando-a na boca antes de se dirigir à sua esposa. “As crianças estão preocupadas, Esmé, o que é perfeitamente compreensível. Sei que o sr. Poe está fazendo tudo o que pode, mas talvez devamos juntar as nossas cabeças e pensar em alguma outra coisa.”
“Eu não tenho tempo para juntar a minha cabeça”, disse Esmé. “Está chegando a hora do Leilão In e tenho de dedicar todas as minhas energias para garantir que seja um sucesso.”
“O Leilão In?”, perguntou Klaus.
“Um leilão”, explicou Jerome, “é uma espécie de liquidação. Todo mundo se reúne em uma grande sala, e um leiloeiro mostra uma porção de coisas que estão à venda. Se você vê alguma coisa de que gosta, grita quanto está disposto a pagar por aquilo. Isso se chama ‘lance’. Então alguma outra pessoa pode fazer um lance, depois mais alguém, e quem der o lance mais alto ganha o leilão e compra o item em questão. É tremendamente excitante. A sua mãe costumava adorar leilões! Lembro-me de uma vez...”
“Você esqueceu a parte mais importante”, interrompeu Esmé. “Chama-se Leilão In porque estamos vendendo somente coisas que estão in. Sou sempre eu quem organiza, e é um dos eventos mais arrasadores do ano!”
“Rasadores?”, perguntou Sunny.
“Neste caso”, explicou Klaus à sua irmã mais nova, “a palavra não quer dizer que as coisas são arrasadas. Significa apenas ‘fabulosos’.”
“E é mesmo fabuloso”, disse Esmé, terminando o seu martíni aquoso. “Realizamos o leilão no Veblen Hall e só leiloamos as coisas mais in que podemos encontrar. E o melhor de tudo é que todo o dinheiro vai para uma boa causa.”
“Que boa causa?”, perguntou Violet.
Esmé bateu palmas alegremente com as suas mãos de unhas compridas. “Eu! Até o último centavo que as pessoas pagam no leilão vem direto para mim! Não é arrasador?”
“Na verdade, querida”, disse Jerome, “eu estava pensando que este ano talvez devêssemos doar o dinheiro para outra boa causa. Por exemplo, eu há pouco estava lendo a respeito daquela família de sete pessoas. A mãe e o pai perderam seus empregos e agora estão tão pobres que não podem se dar ao luxo de morar nem mesmo em um apartamento de um dormitório. Poderíamos mandar uma parte do dinheiro do leilão para gente como eles.”
“Não fale bobagens”, disse Esmé mal-humorada. “Se nós dermos dinheiro para as pessoas pobres, elas não serão mais pobres. Além disso, este ano nós vamos ganhar montes de dinheiro. Hoje almocei com doze milionários, e onze deles afirmaram categoricamente que vão comparecer ao Leilão In. O décimo segundo precisa ir a uma festa de aniversário. Pense só no dinheiro que vou ganhar, Jerome! Talvez possamos nos mudar para um apartamento maior!”
“Mas acabamos de nos mudar para cá umas poucas semanas atrás”, disse Jerome. “Prefiro gastar algum dinheiro para pôr o elevador a funcionar de novo. É muito cansativo ter de subir as escadas até a cobertura.”
“Lá vem você, falando bobagens de novo”, disse Esmé. “Se não tenho de ficar ouvindo a tagarelice dos meus órfãos sobre os seus amigos raptados, tenho de ficar ouvindo você falar sobre coisas como elevadores. Bem, de qualquer modo não temos mais tempo para conversa fiada. Gunther vem aqui à noite e quero que você, Jerome, leve as crianças para jantar.”
“Quem é Gunther?”, perguntou Jerome.
“Gunther é o leiloeiro, é claro”, respondeu Esmé. “Ele é considerado o leiloeiro mais in da cidade, e vai me ajudar a organizar o leilão. Vem aqui à noite para discutir o catálogo do leilão, e não queremos ser perturbados. É por isso que quero que vocês saiam para jantar e nos deem um pouco de privacidade.”
“Mas hoje eu ia ensinar as crianças a jogar xadrez”, disse Jerome.
“Não, não, não”, disse Esmé. “Vocês vão sair para jantar. Já está tudo arranjado. Fiz uma reserva no Café Salmonela para as sete horas. Agora são seis, portanto é bom vocês se mexerem. Vão precisar de tempo folgado para descer a pé todas aquelas escadas. Mas antes de vocês irem, crianças, tenho um presente para cada uma de vocês.”
Com isso, as crianças Baudelaire foram pegas desprevenidas, uma frase que aqui significa “ficaram surpresas porque uma pessoa tão egoísta tinha comprado presentes para elas”, mas Esmé realmente enfiou a mão atrás do sofá vermelho-escuro onde estava sentada e tirou de lá três sacolas com as palavras “Butique In” em sofisticadas letras rebuscadas. Com um gesto sofisticado, Esmé entregou uma sacola a cada Baudelaire.
“Achei que se comprasse alguma coisa que vocês realmente desejassem”, disse ela, “iriam parar com essa tagarelice toda sobre os Quagmire.”
“O que Esmé quer dizer”, acrescentou Jerome apressadamente, “é que nós queremos que vocês se sintam felizes aqui na nossa casa, mesmo estando preocupados com os seus amigos.”
“Não é nada disso que eu quis dizer”, disse Esmé, “mas não importa. Abram as sacolas, crianças.”
Os Baudelaire abriram os seus presentes, e lamento dizer que aquelas também eram sacolas remexidas. Existem muitas, muitas coisas difíceis nesta vida, mas uma que não é nada difícil é descobrir se uma pessoa está ou não entusiasmada ao abrir um presente. Frequentemente, se ela está entusiasmada, porá pontos de exclamação nos finais das suas frases para indicar o tom de voz entusiasmado. Por exemplo, se ela diz “Oh!” o ponto de exclamação indica que a pessoa está dizendo “Oh!” de um jeito entusiasmado, em vez de estar simplesmente dizendo “Oh”, com uma vírgula depois, o que indicaria que o presente é algo desapontador.
“Oh”, disse Violet ao abrir o seu presente.
“Oh”, disse Klaus ao abrir o seu.
“Oh”, disse Sunny ao rasgar a sua sacola com os dentes.
“Ternos risca-de-giz! Eu sabia que vocês iam ficar entusiasmados!”, disse Esmé. “Vocês devem ter se sentido mortificados nos últimos dias, andando pela cidade sem ter nenhuma risca-de-giz para usar! Riscas-de-giz são in, e órfãos são in, portanto imaginem só o quanto ficarão in quando vocês, órfãos, estiverem usando risca-de-giz! Não admira que tenham ficado tão entusiasmados!”
“Eles não me pareceram entusiasmados quando abriram os presentes”, disse Jerome, “e eu não os culpo. Esmé, achei que tínhamos dito que compraríamos um jogo de ferramentas para Violet. Ela é muito entusiasmada com invenções, e pensei que íamos apoiar esse entusiasmo.”
“Mas eu também sou entusiasmada com ternos risca-de-giz”, disse Violet, sabendo que devemos sempre dizer que estamos encantados com um presente mesmo quando não gostamos dele nem um pouco. “Muito obrigada.”
“E Klaus devia ganhar um bom almanaque”, continuou Jerome. “Eu falei a você sobre o interesse dele na Linha Internacional de Mudança de Data, e um almanaque é o livro perfeito para aprender sobre isto.”
“Mas eu estou muito interessado em risca-de-giz”, disse Klaus, que era capaz de mentir tão bem quanto a irmã quando surgia uma necessidade. “Eu realmente apreciei o presente.”
“E Sunny”, disse Jerome, “devia ganhar um grande quadrado feito de bronze. Teria sido um presente atraente e facilmente mordível.”
“Aijim”, disse Sunny. Queria dizer alguma coisa na linha de “Adorei a minha roupa. Muito obrigada”, muito embora não achasse isso nem um pouco.
“Sei que discutimos a compra desses itens bobos”, disse Esmé com um aceno da mão de unhas compridas, “mas ferramentas estão out há semanas, almanaques estão out há meses, e esta tarde eu recebi um telefonema informando que não se espera que os grandes quadrados de bronze estejam in por pelo menos mais um ano. O in agora são riscas-de-giz, Jerome, e eu não gosto que você tente ensinar às minhas crianças novas que elas devem ignorar o que é in e o que é out. Você não quer o melhor para os órfãos?”
“É claro”, suspirou Jerome. “Eu não tinha pensado nisso deste modo, Esmé. Bem, crianças, realmente espero que vocês gostem dos seus presentes apesar de eles não combinarem com os seus interesses. Por que vocês não vão vestir os seus ternos novos para o jantar?”
“Oh, sim!”, disse Esmé. “O Café Salmonela é um dos restaurantes mais in. De fato, acho que eles nem deixam você entrar lá se não estiver usando risca-de-giz, portanto vão trocar de roupa. Mas andem depressa! Gunther deve chegar a qualquer minuto.”
“Vamos andar depressa”, prometeu Klaus, “e obrigado de novo pelos nossos presentes.”
“Não tem de quê”, disse Jerome com um sorriso, e as crianças sorriram de volta para ele, saíram da sala de estar, seguiram por um longo corredor, atravessaram uma cozinha e mais uma sala de estar, passaram por quatro banheiros, et cetera, et cetera, et cetera, finalmente encontrando o caminho para os seus quartos. Ficaram um minuto parados na frente das três portas, olhando tristemente para as suas sacolas.
“Não sei como vamos usar essas coisas”, disse Violet.
“Nem eu”, disse Klaus. “E o pior é saber que nós quase ganhamos os presentes que realmente queríamos.”
“Puictiu”, concordou Sunny, soturna.
“Olhem só para nós”, disse Violet. “Parecemos crianças irremediavelmente mimadas. Estamos vivendo em um apartamento enorme. Temos cada qual o nosso quarto. O porteiro prometeu ficar alerta ao conde Olaf e pelo menos um dos nossos novos tutores é uma pessoa interessante. E nós aqui parados nos queixando.”
“Você tem razão”, disse Klaus. “Devíamos ver o lado bom das coisas. Na verdade não vale a pena a gente ficar se queixando só porque ganhou uma droga de presente – não quando os nossos amigos estão correndo um perigo tão terrível. Temos realmente muita sorte pelo simples fato de estar aqui.”
“Chittol”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como “É verdade. Temos de parar de nos queixar e tratar de vestir as nossas roupas novas.
Os Baudelaire ficaram juntos mais um momento e expressaram seu acordo acenando resolutamente com a cabeça, expressão que aqui significa “tentaram se forçar a pôr um fim aos sentimentos de ingratidão e ir vestir os ternos”. Mas apesar de não quererem parecer mimados, apesar de saberem que a sua situação não era nem um pouco terrível, e apesar de terem menos de uma hora para trocar de roupa, encontrar Jerome e descer a pé todas aquelas centenas e centenas de degraus, as três crianças pareciam incapazes de se mexer. Simplesmente continuavam em pé na frente das portas dos seus quartos e olhavam para as suas sacolas da Butique In.
“Naturalmente”, disse Klaus afinal, “não importa quanta sorte tenhamos, resta o fato de que estes ternos risca-de-giz são absolutamente grandes demais para nós.”
Klaus tinha dito a verdade. Era uma verdade que poderia ajudar você a entender por que os Baudelaire ficaram tão desapontados com o que estava nas suas sacolas. Era uma verdade que poderia ajudar você a entender por que os Baudelaire estavam tão relutantes em entrar nos seus quartos e vestir os seus ternos risca-de-giz. E era uma verdade que se tornou ainda mais óbvia quando os Baudelaire finalmente entraram nos seus quartos, e abriram as suas sacolas, e vestiram os presentes que Esmé lhes tinha dado.
Muitas vezes é difícil dizer se uma peça de vestuário vai servir ou não até que você a prove, mas as crianças Baudelaire puderam dizer no instante em que olharam pela primeira vez para dentro das sacolas que aquelas roupas os deixavam ananicados em comparação. A expressão “ananicados em comparação” não tem nada a ver com anões, que são umas criaturas chatas dos contos de fadas que passam o tempo todo assobiando e fazendo faxina na casa. “Ananicado em comparação” significa simplesmente que uma coisa parece menor quando comparada com outra coisa. Um camundongo seria ananicado em comparação com uma avestruz, que é muito maior, e uma avestruz seria ananicada em comparação com a cidade de Paris. E os Baudelaire foram ananicados em comparação com os ternos risca-de-giz. Quando Violet vestiu as calças do seu terno, as pernas das calças iam muito, muito além das pernas do seu corpo, e então ficou parecendo que ela tinha dois espaguetes enormes em vez de pés. Quando Klaus vestiu o paletó do seu terno, as mangas caíram muito, muito além das mãos, e os braços ficaram parecendo ter encolhido para dentro do corpo. E o terno de Sunny a ananicava tanto em comparação que era como se ela tivesse puxado as cobertas por cima da cabeça em vez de trocar de roupa. Quando os Baudelaire saíram dos seus quartos e se encontraram de novo no corredor, estavam tão ananicados em comparação que mal reconheceram um ao outro.
“Parece que você está esquiando”, disse Klaus, apontando para as pernas das calças da irmã mais velha. “Só que os seus esquis são feitos de pano em vez de liga de titânio.”
“Parece que você se lembrou de pôr o paletó mas esqueceu de pôr os braços”, retrucou Violet com um sorriso arreganhado.
“Mmphmmm!”, gritou Sunny, e nem mesmo os seus dois irmãos conseguiram entender o que ela estava dizendo debaixo de todo aquele pano de risca-de-giz.
“Meu Deus, Sunny”, disse Violet, “pensei que você era um calombo no tapete. Acho que é melhor a gente amarrar uma das mangas do terno em volta de você. Talvez amanhã possamos achar uma tesoura e...”
“Nnphnn!”, interrompeu Sunny.
“Ora, não seja boba, Sunny”, disse Klaus. “Já vimos você de roupa de baixo centenas de vezes. Mais uma não vai fazer diferença.” Mas Klaus estava errado. Ele não estava errado a respeito da roupa de baixo – quando você é um bebê, a família a vê de roupa de baixo muitas vezes, e não adianta ficar envergonhada com isso –, mas ele estava errado ao pensar que quando Sunny disse “Nnphnn!” ela estava se queixando por ter de tirar a roupa na frente dos irmãos. O terno exagerado de Sunny tinha abafado a palavra que ela estava realmente dizendo, e era uma palavra que ainda me persegue em sonhos todas as noites quando fico virando de um lado para o outro na cama, imagens de Beatrice e seu legado preenchendo meu cérebro cansado e aflito, não importa para onde eu viaje no mundo e não importa qual evidência importante eu descubra.
Mais uma vez é necessário usar a expressão “ananicada em comparação” para me referir ao que aconteceu depois de Sunny pronunciar aquela palavra fatídica em voz alta. Pois muito embora Violet e Klaus não pudessem ouvir o que Sunny tinha dito, eles instantaneamente perceberam o que a irmã queria dizer. Porque quando Sunny pronunciou a palavra, uma longa sombra projetou-se sobre os Baudelaire, e eles ergueram os olhos para ver o que estava obstruindo a luz. E quando olharam, sentiram que tudo em suas vidas se tornara ananicado em comparação com o quanto se sentiam encurralados, pois aquela palavra, lamento dizer, era “Olaf”.

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