quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Capítulo três


A expressão “fazer uma montanha de um montinho de terra levantado por toupeiras” significa fazer de uma coisa à-toa um bicho-de-sete-cabeças, transformar em uma coisa gigantesca algo que na verdade é insignificante. E é fácil ver como surgiu essa expressão. Montinhos feitos por toupeiras são simples montinhos de terra em que esses animais se instalam para proteger-se, e jamais fizeram mal a ninguém – exceto, talvez, machucar o dedão do pé de quem anda descalço pelo mato. Montanhas, no entanto, são montes de terra muito grandes e estão sempre causando problemas. São bem altas e, quando as pessoas tentam escalá-las, muitas vezes despencam das alturas ou se perdem e morrem de fome. É frequente dois países terem um conflito por causa da posse de uma montanha, e milhares de pessoas partem para a guerra e voltam amarguradas ou feridas. Sem falar que as montanhas servem de moradia para cabras e leões monteses, que adoram atacar grupos indefesos em piquenique para comer sanduíches ou crianças. Assim, quando se diz que alguém faz uma montanha de um montinho de terra levantado por toupeiras é como dizer que alguém pretende que uma topada com o dedão do pé seja tão horrível quanto uma guerra ou um piquenique que termina mal.
Contudo, ao chegarem ao barraco em que iam morar, os órfãos Baudelaire perceberam que o vice-diretor Nero não havia feito nenhuma montanha de um simples montinho de terra quando disse que o barraco era um lugar desanimador. Quando muito, ele havia feito de uma montanha um montinho de terra. Realmente, o barraco era pequeno, como havia anunciado, mínimo mesmo, e todo feito de zinco; e ele não mentira ao declarar que não havia sala de estar, nem sala de jogos, nem biblioteca. A verdade era que havia três pilhas de feno em lugar de camas, e os irmãos não viram nem sombra de frutas frescas. Mas o vice-diretor Nero omitira uns detalhes em sua descrição, e eram esses detalhes que pioravam ainda mais a imagem do barraco. O primeiro detalhe em que os Baudelaire repararam foi que o barraco estava infestado de pequenos caranguejos, caranguejinhos do tamanho de uma caixa de fósforos, zanzando feito doidos pelo assoalho de madeira, com as pinças minúsculas em incessante abre-e-fecha no ar. Depois de entrar no barraco e sentar-se melancólicos numa das pilhas de feno, os três passaram pela triste experiência de constatar que os caranguejos tinham um sentimento forte de apego territorial, ou seja, mostravam-se “contrariados em ver crianças pequenas invadindo uma propriedade privada”. Os caranguejos juntaram-se em torno dos Baudelaire e começaram a ameaçá-los, avançando contra eles com as pinças levantadas. Por sorte, os animaizinhos não tinham a melhor das pontarias, e por sorte suas pinças eram tão minúsculas que provavelmente não machucariam mais que um forte beliscão. Mas, ainda que fossem mais ou menos inofensivos, não contribuíam para tornar o barraco mais aprazível.
Uma vez sentados na pilha de feno com as pernas encolhidas para proteger-se da agressividade dos caranguejos, os Baudelaire olharam para o teto e viram outro detalhe que Nero deixara de mencionar. Havia uma espécie de fungo proliferando no teto, um fungo bege-claro e bastante úmido. De cinco em cinco segundos, gotas de umidade do fungo caíam fazendo plim!, e as crianças tinham que se esquivar para não serem alvo do suco de fungo. Assim como os pequenos caranguejos, o plim! não parecia oferecer maior perigo, mas, assim como os pequenos caranguejos, tornava o barraco ainda mais desconfortável do que sugerira a descrição do vice-diretor.
E finalmente, sentadas sobre a pilha de feno com as pernas encolhidas tentando esquivar-se dos respingos do suco de fungo, os irmãos notaram mais um detalhe inofensivo porém desagradável, mais um detalhe que tornava o barraco pior do que Nero as fizera supor. Estou me referindo à cor das paredes. Todas as paredes de zinco estavam pintadas de verde-vivo, com pequenos corações cor-de-rosa salpicados aqui e ali como se o barraco fosse um enorme cartão brega de Dia dos Namorados, e não um lugar para morar. Os Baudelaire concluíram então que ainda era melhor olhar para as pilhas de feno, ou para os caranguejos no assoalho, ou mesmo para o fungo bege-claro no teto, do que para as horrendas paredes.
Em suma, o barraco era miserável demais até para servir como local de despejo de cascas de banana, quanto mais para ser o lar de três jovens criaturas – e eu confesso que, se tivesse que morar ali, me jogaria nas pilhas de feno e teria uma crise histérica. Só que os Baudelaire já haviam aprendido que as crises histéricas, por mais exageradas que fossem, raramente eram a solução para qualquer problema. E assim, depois de um longo e sofrido silêncio, os órfãos tentaram encarar a situação de um ponto de vista mais positivo.
“Este não é um ambiente dos mais acolhedores”, disse Violet rematando sua reflexão, “mas, se eu me concentrar bastante, aposto que conseguirei inventar um jeito de manter esses caranguejos longe da gente.”
“E eu vou tratar de ler sobre esse fungo bege-claro”, disse Klaus. “Talvez a biblioteca da ala residencial possa me ajudar a descobrir o que fazer para que ele pare de pingar.”
“Iuvuzê”, falou Sunny, querendo dizer algo como: “Aposto que posso usar meus quatro dentes afiados para raspar essa pintura todinha e tornar as paredes um pouco menos feias”.
Klaus beijou a irmãzinha no alto da cabeça. “Pelo menos conseguimos vir para uma escola”, observou. “Estava sentindo muita falta de frequentar uma sala de aula de verdade.”
“Eu também”, concordou Violet. “Pelo menos vamos encontrar gente da nossa idade. Há muito tempo que só temos tido a companhia de adultos.”
“Uono”, falou Sunny, provavelmente querendo dizer: “E aprender tarefas de secretária será uma oportunidade emocionante, embora o lugar ideal para mim fosse o jardim-de-infância”.
“É verdade”, disse Klaus. “Mas, pensando bem, talvez o computador de última geração consiga realmente manter o conde Olaf à distância. E é o que importa, mais do que tudo.”
“Você tem razão”, disse Violet. “Morar num lugar longe do conde Olaf é tudo o que eu quero.”
“Olou”, disse Sunny, que queria dizer: “Mesmo que seja feio, úmido e repleto de caranguejos”, ou algo do gênero.
As crianças suspiraram e em seguida ficaram quietas por alguns momentos. O barraco ficou em silêncio, a não ser pelo ruído das miúdas pinças dos caranguejos chocando-se uns contra os outros, o plim! do fungo e os suspiros dos Baudelaire, que observavam as horrendas paredes. Por mais que tentassem, os garotos simplesmente não eram capazes de olhar para o barraco como para um montinho de terra levantado por toupeiras. Mesmo com o pensamento voltado para salas de aula de verdade, para gente da idade deles, ou para a emocionante oportunidade de trabalhar como secretária, o novo lar parecia muito, mas muito pior do que o mais dolorido dos machucados produzidos por uma topada com o dedão do pé.
“Bom”, disse Klaus passado algum tempo, “está na hora do almoço. Lembrem-se: se chegarmos atrasados, eles retiram nossas xícaras e nossos copos, por isso é interessante a gente começar a se mexer.”
“Essas regras são ridículas”, disse Violet, esquivando-se para evitar um plim!. “Hora do almoço não é um momento exato, não é hora marcada, mas um intervalo, um período, por volta do almoço – logo, não se pode chegar atrasado.”
“Eu sei”, disse Klaus, “e aquilo de Sunny ser castigada por entrar no prédio administrativo, quando ela tem que estar lá para ser a secretária de Nero, é completamente absurdo.”
“Cualc!”, falou Sunny, pondo sua mãozinha sobre o joelho de Klaus. Ela estava querendo dizer algo como: “Não se preocupe com isso. Sou um bebê, quase nunca uso talheres. Pouco importa que me façam ficar sem eles”.
Regras ridículas ou não, os órfãos não estavam a fim de ser punidos, de modo que os três se puseram cautelosamente em movimento – a palavra cautelosamente aqui significa “evitando os caranguejos territorialmente apegados” –, avançando até a porta do barraco e de lá para o gramado marrom. A aula de ginástica devia ter acabado, porque todas as crianças que minutos antes estavam correndo tinham sumido, e isso foi um alerta para os Baudelaire apressarem ainda mais o passo em direção ao refeitório.
Muitos anos antes desta história, quando Violet estava com dez anos, Klaus com oito e Sunny ainda não era sequer um feto, a família Baudelaire compareceu a uma feira anual do município para ver um porco que o tio Elwyn havia inscrito num concurso. O Concurso de Porcos revelou-se meio chato, mas numa barraca vizinha realizou-se um outro que a família achou muito interessante: o Concurso da Lasanha. A lasanha que conquistou o primeiro prêmio havia sido preparada por onze freiras, e era tão grande e macia quanto um colchão bem avantajado. Talvez por se acharem numa idade caracteristicamente impressionável – a expressão “caracteristicamente impressionável” aqui significa “dez e oito anos, respectivamente” –, Violet e Klaus nunca esqueceram essa lasanha, e tinham certeza de que jamais tornariam a ver outra que se aproximasse, de longe, de suas dimensões.
Violet e Klaus estavam enganados. Quando os Baudelaire entraram no refeitório, encontraram uma lasanha à sua espera, uma lasanha do tamanho de uma pista de dança. Estava montada sobre um imenso tripé para que não queimasse o assoalho, e a pessoa que a servia usava uma grossa máscara de ferro, de modo que as crianças podiam ver apenas seus olhos espreitando de dentro de minúsculas aberturas na máscara protetora. Os estarrecidos Baudelaire entraram numa longa fila de crianças e esperaram a vez de receber uma fatia da lasanha que aquela pessoa com a máscara de ferro lhes estendia na feiosa bandeja de plástico sem dizer uma palavra. De posse da lasanha, os órfãos avançaram um pouco mais na fila e se serviram de salada de alface, que os aguardava numa tigela do tamanho de um caminhão. Junto à salada havia uma montanha de torradas com alho, e ao final da fila outra pessoa com máscara de ferro entregava talheres para os estudantes que não haviam entrado no prédio administrativo.
Os Baudelaire disseram “Obrigado” a essa pessoa, que lhes respondeu com um lento e férreo movimento de cabeça. Eles então lançaram um longo olhar em volta do refeitório lotado. Centenas de crianças já haviam recebido sua lasanha e achavam-se sentadas em torno de mesas retangulares e compridas. Os Baudelaire notaram muitas crianças que sem sombra de dúvida haviam entrado no prédio administrativo, pois não tinham talheres. Viram muitos estudantes com as mãos atadas às costas, como castigo por terem chegado atrasados à sala de aula. E viram muitos estudantes com grande tristeza estampada no rosto, como se tivessem sido forçados a comprar um saco de balas sem ter o direito de comer uma só – os órfãos adivinharam que esses estudantes não tinham comparecido a um daqueles concertos de Nero.
Mas não foi nenhum desses castigos que fez os órfãos Baudelaire ficarem em pé por tanto tempo. Foi simplesmente o fato de que eles não sabiam onde sentar-se. Refeitórios podem deixar as pessoas um pouco atrapalhadas, porque às vezes é difícil decidir onde sentar-se para comer. Em geral, os Baudelaire escolheriam a companhia de um de seus amigos, porém seus amigos estavam longe, muito longe da Escola Preparatória Prufrock, e Violet, Klaus e Sunny circularam o olhar pelo refeitório repleto de estranhos e chegaram a pensar que talvez fosse melhor não apoiar suas feiosas bandejas em lugar nenhum. Então encontraram os olhos da garota que haviam visto no gramado, aquela que os tinha chamado de “bisbórrias”, e caminharam alguns passos na direção da menina.
Bom, vocês e eu sabemos que essa detestável guriazinha era Carmelita Spats, mas os Baudelaire não haviam sido devidamente apresentados a ela, por isso não tinham ideia do quanto ela era detestável. Se bem que mal os órfãos começaram a se aproximar ela já soltou uma grosseria.
“Nem pensem em comer aqui do nosso lado, seus bisbórrias!”, disse Carmelita Spats aos gritos, e muitos outros de seus rudes, nojentos e violentos amigos concordaram balançando a cabeça. “Ninguém quer almoçar com gente que mora no Barraco dos Órfãos!”
“Sinto muito”, disse Klaus, embora não fosse verdade que ele sentisse muito. “Não tive a intenção de incomodar vocês.”
Carmelita, que parecia nunca ter entrado no prédio administrativo, pegou do talher e começou a batê-lo contra sua bandeja, de um modo insistente, ritmado e irritante. “Lugar de órfãos é no Barraco dos Órfãos! Lugar de órfãos é no Barraco dos Órfãos!”, ela se pôs a recitar como uma cantilena e, para aflição dos Baudelaire, muitas outras crianças fizeram coro.
Como muitas outras criaturas rudes, nojentas e violentas, Carmelita Spats tinha uma penca de amigos sempre disposta a ajudá-la a atormentar as pessoas – provavelmente para evitar que elas próprias fossem atormentadas. Em poucos segundos, o refeitório inteiro parecia estar batendo os talheres e recitando: “Lugar de órfãos é no Barraco dos Órfãos!”.
Os três irmãos se encolheram e, assim, colados uns nos outros, esticaram o pescoço à procura de algum canto onde pudessem refugiar-se e almoçar sossegados.
“Ei, deixe as crianças em paz, Carmelita!”, ouviu-se uma voz gritar mais alto que a recitação do coro. Os Baudelaire viraram-se e viram um menino de cabelos muito escuros e olhos bem grandes. Ele parecia um pouco mais velho que Klaus e um pouco mais novo que Violet, e tinha um caderno verde-escuro enfiado no bolso de seu suéter grosso de lã. “Você é que é a maior bisbórria, e ninguém em juízo perfeito gostaria de comer ao seu lado, essa é que é a verdade. Venham para cá”, disse o garoto, voltando-se para os Baudelaire. “Aqui em nossa mesa tem lugar para vocês.”
“Muito obrigada”, disse Violet com alívio, e seguiu o menino até uma mesa com bastante espaço vazio. O garoto sentou-se ao lado de uma menina que era absolutamente idêntica a ele. Parecia ter a mesma idade, cabelos também muito escuros, olhos bem grandes e... um caderno enfiado no bolso do suéter grosso de lã. A única diferença era que o caderno da garota era negro como breu. Ver duas pessoas assim tão iguaizinhas dá uma sensação meio esquisita, mas era melhor do que olhar para Carmelita Spats, por isso os Baudelaire se sentaram de frente para os dois e se apresentaram.
“Eu sou Violet Baudelaire”, disse Violet Baudelaire, “e este é meu irmão, Klaus, e nossa irmã bebê, Sunny.”
“Prazer em conhecê-los”, disse o garoto. “Meu nome é Duncan Quagmire, e esta é minha irmã, Isadora. E a garota que estava gritando com vocês, lamento mencionar, é Carmelita Spats.”
“Não me pareceu muito simpática”, disse Klaus.
“Você está sendo supergentil”, disse Isadora. “Carmelita Spats é rude, nojenta e violenta, e quanto menos tempo vocês passarem com ela mais felizes hão de ser.”
“Leia para os Baudelaire o poema que você escreveu sobre ela”, Duncan disse para a irmã.
“Você escreve poesia?”, perguntou Klaus. Ele havia lido muito sobre poetas, mas nunca conhecera um pessoalmente.
“Pouca coisa”, Isadora disse com modéstia. “Escrevo poemas neste caderno. É um prazer que eu me dou.”
“Safo!”, gritou Sunny de repente, o que significava: “Gostaria muito de ouvir um de seus poemas!”, ou algo do gênero.
Klaus explicou aos Quagmire o que Sunny queria dizer. Isadora sorriu e abriu seu caderno. “É um poema muito curto”, disse. “Só dois versos rimados.”
“É o que se chama 'dístico'“, disse Klaus. “Li isso num livro de crítica literária.”
“Sim, eu sei”, disse Isadora, e então leu o poema, aproximando-se dos Baudelaire para não ser ouvida por Carmelita Spats.

“Melhor engolir cobras e lagartos grátis
E estar longe de Carmelita Spats.”

Os Baudelaire deram risadinhas, tapando a boca para que ninguém soubesse que estavam rindo de Carmelita.
“Muito legal”, disse Klaus. “Adorei a parte das cobras e lagartos grátis.”
“Obrigada”, disse Isadora. “Fiquei interessada em ler esse livro de crítica literária que você mencionou. Você me empresta?”
Klaus baixou os olhos.
“Não posso”, disse. “Esse livro era de meu pai e foi destruído num incêndio.”
Os Quagmire se entreolharam e seus olhos ficaram ainda maiores.
“Sinto muito ouvir isso”, disse Duncan. “Minha irmã e eu passamos pela experiência de um incêndio terrível, e sabemos como é. Seu pai morreu no incêndio?”
“Sim”, disse Klaus, “e minha mãe também.”
Isadora descansou o garfo, estendeu a mão por cima da mesa e acariciou a de Klaus. Em geral isso o teria deixado um pouco sem jeito, mas naquelas circunstâncias pareceu-lhe perfeitamente natural. “Sinto muito”, disse ela. “Nossos pais também morreram num incêndio. É horrível sentir a falta dos pais, não é?”
“Blôni”, disse Sunny, concordando.
“Durante muito tempo”, confessou Duncan, “tive medo de qualquer tipo de fogo. Não gostava de olhar nem sequer para aquecedores e lareiras.”
Violet sorriu. “Nós moramos uma época com a tia Josephine, que tinha medo de aquecedores. Ela tinha medo de que eles explodissem.”
“Explodir?!”, surpreendeu-se Duncan. “Tanto medo assim eu nunca senti. Por que vocês não estão morando agora com sua tia Josephine?”
Desta vez foi Violet quem baixou os olhos, e coube a Duncan estender a mão por cima da mesa e segurar a dela.
“Ela morreu, também”, disse Violet. “Na verdade, Duncan, nossa vida tem sido um caos nos últimos tempos.”
“Sinto muito ouvir isso”, disse Duncan, “e bem que eu gostaria de dizer que as coisas aqui vão melhorar para vocês. Mas, com o vice-diretor Nero tocando violino, Carmelita Spats provocando a gente, e o horrível Barraco dos Órfãos, este é um lugar muito desgraçado.”
“Esse nome 'Barraco dos Órfãos' é o que eu acho mais horrível”, disse Klaus. “Já é um lugar bastante ruim mesmo sem esse apelido ofensivo.”
“O apelido, diga-se de passagem, é mais uma contribuição de Carmelita Spats”, disse Isadora. “Duncan e eu tivemos de morar lá durante três semestres porque precisávamos de pai ou mãe ou um tutor para assinar nosso passe de autorização, e não tínhamos ninguém.”
“Foi o mesmo que aconteceu conosco!”, exclamou Violet. “E quando pedimos a Nero que abrisse uma exceção...”
“Ele respondeu que estava ocupado demais ensaiando violino”, disse Isadora, balançando a cabeça enquanto completava a frase de Violet. “Ele sempre diz isso. Mas o caso é que Carmelita inventou esse nome, 'Barraco dos Órfãos', quando nós morávamos lá, e ao que parece vai continuar insistindo nisso.”
“Bem”, suspirou Violet, “o apelido maldoso inventado por Carmelita não é nada perto dos problemas que enfrentamos no barraco. Como foi que vocês se arranjaram com os caranguejos quando moravam lá?”
Duncan soltou a mão dela para pegar o caderno verde-escuro que estava no bolso do suéter. “Eu uso esse caderno para fazer anotações”, explicou. “Pretendo ser repórter quando for um pouco mais velho, e acho bom já ir treinando. Aqui está: notas sobre os caranguejos. Vocês sabiam que eles têm medo de sons fortes? Preparei uma lista com as coisas que fizemos para que eles se afastassem de nós.”
“Medo de sons fortes”, Violet repetiu, e prendeu o cabelo com uma fita para que não caísse nos olhos.
“Quando ela prende o cabelo assim”, Klaus explicou aos Quagmire, “é porque está pensando em alguma invenção. Minha irmã é uma inventora e tanto.”
“Que tal sapatos barulhentos?”, disse Violet de repente. “Se puséssemos chapinhas de metal na sola dos nossos sapatos...? Toda vez que andássemos seria uma barulheira infernal, e aposto que dificilmente tornaríamos a ver aqueles caranguejos.”
“Sapatos barulhentos!”, exclamou Duncan. “Isadora e eu moramos todo aquele tempo no Barraco dos Órfãos e nunca pensamos em sapatos barulhentos!” Ele tirou um lápis do bolso e escreveu “sapatos barulhentos” no caderno de capa verde, e em seguida virou uma página. “Também tenho uma lista de livros que vocês podem consultar na biblioteca da escola, se precisarem de ajuda contra aquele mofo bege no teto.”
“Zatval!”, gritou Sunny.
“Adoraríamos ver a biblioteca”, traduziu Violet. “Que sorte que tivemos, puxa vida, de conhecer assim de uma hora para outra gêmeos tão especiais como vocês!”
Duncan e Isadora ficaram com cara de tacho, expressão que não significa que o rosto deles virou um tacho, mas apenas que os dois irmãos de repente se mostraram muito tristes.
“Qual é o problema?”, perguntou Klaus. “Dissemos alguma coisa que desagradou a vocês?”
“Gêmeos”, falou Duncan, tão baixinho que mal deu para os Baudelaire escutarem.
“Mas vocês são gêmeos, não são?”, Violet perguntou. “São iguaizinhos...”
“Somos trigêmeos”, disse Isadora, triste.
“Não estou entendendo”, disse Violet. “Trigêmeos não são três pessoas nascidas ao mesmo tempo?”
“Nós éramos três pessoas que nasceram ao mesmo tempo”, Isadora explicou, “mas nosso irmão Quigley morreu no incêndio que matou nossos pais.”
“Sinto muito”, falou Klaus. “Desculpem-nos ter chamado vocês de gêmeos. Não tivemos nenhuma intenção de faltar com o respeito à memória de Quigley.”
“Claro que não”, disse Duncan, esboçando um sorriso para os Baudelaire. “Como poderiam saber? Vamos, se já terminaram a lasanha podemos mostrar a biblioteca para vocês.”
“E talvez, quem sabe, encontrar alguma chapinha de ferro para os sapatos barulhentos!”, completou Isadora.
Os órfãos Baudelaire sorriram, e então os cinco retiraram suas bandejas da mesa e saíram do refeitório.
A biblioteca revelou-se um lugar muito agradável, mas não por causa do silêncio, ou das poltronas confortáveis, ou das grandes estantes de madeira, que os irmãos se sentiram tão bem ao entrar na sala. Nem é o caso de mencionar aqui as lâmpadas de bronze em formato de diferentes peixes, ou as cortinas azuis que se encrespavam como água ao receber a brisa que vinha da janela, porque ainda que tudo aquilo fosse maravilhoso não foi o que fez as três crianças sorrir. Os trigêmeos Quagmire também estavam sorrindo e, embora eu não tenha aprofundado minhas pesquisas sobre eles tanto quanto fiz com os Baudelaire, posso afirmar com razoável segurança que sorriam pelo mesmo motivo.
É um alívio, em tempos agitados e assustadores, encontrar verdadeiros amigos, e era esse sentimento que as cinco crianças estavam sentindo quando os Quagmire mostraram aos Baudelaire a biblioteca da Prep Prufrock. Os amigos podem fazer-nos sentir que o mundo é mais familiar e menos traiçoeiro do que na realidade é, porque ficamos conhecendo pessoas que tiveram experiências semelhantes às nossas, expressão que no caso dos Baudelaire significa “que perderam membros da família em um terrível incêndio e moraram no Barraco dos Órfãos”. À medida que Duncan e Isadora explicavam em voz baixa a Violet, Klaus e Sunny como estava organizada a biblioteca, os jovens Baudelaire foram se sentindo cada vez menos desgostosos com as novas circunstâncias. E, quando Duncan e Isadora recomendaram seus livros preferidos, os três irmãos acharam que talvez seus problemas estivessem finalmente por terminar. Era um engano, claro, mas naquele momento isso não tinha a menor importância. Os órfãos Baudelaire haviam encontrado amigos, e, enquanto estavam na biblioteca com os trigêmeos Quagmire, o mundo pareceu-lhes mais familiar e mais seguro, sensação que não experimentavam fazia muito, muito tempo.

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