terça-feira, 30 de agosto de 2016

Capítulo três


Você deve ter estranhado o fato de Sunny Baudelaire quase não ter sido mencionada nos dois primeiros capítulos deste livro, mas há várias razões para isso. Uma delas é a dificuldade de pesquisar o que aconteceu com Sunny durante a jornada no carro do conde Olaf. Os rastros dos pneus desapareceram há muito tempo, e ocorreram tantas nevascas e avalanches nas Montanhas de Mão-Morta, que a estrada quase desapareceu. A maioria das testemunhas faleceu sob circunstâncias misteriosas, ou quem sabe o conde Olaf as tenha deixado tão assustadas que elas não tiveram coragem de responder aos meus telegramas e cartões solicitando uma entrevista. Até a carta atirada pela janela do carro de Olaf – a maior prova de que aquelas pessoas perversas passaram por lá – foi recolhida da estrada antes de eu começar as investigações. O desaparecimento dessa carta é um bom sinal, indica que certos animais das Montanhas de Mão-Morta retornaram aos seus lugares e estão reconstruindo seus ninhos, mas o fato é que isso tornou muito difícil escrever o relato completo das viagens de Sunny.
Se você está interessado em saber o que aconteceu com ela, enquanto seus irmãos tentavam deter o trailer, subiam o curso do Arroio Enamorado rumo à nascente e lutavam contra mosquitos da neve, existe mais uma história que você deve ler. Diz respeito a uma pessoa chamada Cinderela. Cinderela era uma jovem a quem pessoas malvadas insultavam e forçavam a fazer todas as tarefas domésticas. Ela acabou salva por sua fada-madrinha, que num toque de mágica criou um vestido especial para ela usar em um baile. Foi lá que Cinderela conheceu um garboso príncipe com quem se casou e viveu feliz para sempre. Se você substituir o nome Cinderela por Sunny Baudelaire, e eliminar a fada-madrinha, o vestido especial, o baile, o príncipe garboso, o casamento e o viver feliz para sempre, terá uma noção clara de como foi a viagem de Sunny.
“Eu gostaria que esse bebê parasse com essa choradeira irritante”, disse o conde Olaf, franzindo a sobrancelha única ao fazer outra curva violenta. “Nada como uma vítima de sequestro choramingando para estragar uma agradável viagem de carro.”
“Estou beliscando o máximo que posso”, disse Esmé Squalor, dando outro beliscão em Sunny com suas unhas elegantes, “mas ela não cala a boca.”
“Escute aqui, dentuça”, disse Olaf, desviando os olhos da estrada para encarar Sunny. “Se não parar de berrar vou arrumar uma boa razão para você chorar.”
Sunny gemeu contrariada e enxugou os olhos com as mãozinhas. Estivera chorando durante a maior parte do dia, desde que se iniciou a viagem que nem o mais dedicado pesquisador foi capaz de acompanhar, e agora, ao pôr-do-sol, ela ainda não conseguia se conter. Mas quando Olaf a ameaçou, ela quase ficou mais irritada do que assustada. Porque é detestável alguém lhe oferecer uma boa razão para chorar quando você já está chorando; afinal, se você está chorando, não é preciso que lhe deem outro motivo para chorar. E Sunny Baudelaire tinha razões suficientes para estar triste. Estava preocupada com seus irmãos, e não parava de pensar em como eles evitariam ser arremessados para um fim trágico caso o trailer não parasse a tempo. Também estava preocupada consigo mesma, pois o conde Olaf descobrira seu disfarce, arrancara sua barba e a prendera no colo de Esmé. Além disso, os beliscões da vilã doíam um bocado.
“Belisca não”, dissera para Esmé, mas a malvada e elegante mulher respondera com uma careta, como se Sunny tivesse falado alguma bobagem.
“Quando não está chorando, esse bebê fala em língua estrangeira. Não entendo nada”, disse Esmé.
“Crianças sequestradas nunca são engraçadinhas”, disse o homem de mãos de gancho, que era talvez o menos estimado da trupe de Olaf. “Lembra-se de quando pegamos os Quagmire, patrão? Só reclamaram. Quando os pusemos na jaula, reclamaram. Quando os prendemos num chafariz, reclamaram. Reclamações, reclamações, reclamações. Eles me deixaram tão irritado que quase fiquei feliz quando escaparam.”
“Feliz?”, disse Olaf, arreganhando os dentes. “Demos duro para roubar a fortuna dos Quagmire, e mesmo assim não ficamos com nada. Foi uma perda de tempo.”
“Não se sinta culpado, Olaf”, disse uma das mulheres de cara branca que estava no banco de trás. “Erros acontecem.”
“Não desta vez”, disse o conde Olaf. “Com os dois órfãos esmagados embaixo de um trailer destruído e esse bebê no colo, a fortuna Baudelaire já é minha. E depois que chegarmos ao Vale das Correntezas que Sopram Constantes e encontrarmos a base de operações, não haverá com o que nos preocupar.”
“Por quê?”, perguntou Hugo, o corcunda que trabalhara no parque.
“Eu também não entendi”, disse Kevin, outro ex-empregado do parque. Como ele tinha muita vergonha de ser ambidestro, Esmé o convencera a entrar para a trupe de Olaf amarrando sua mão direita atrás das costas para que ninguém notasse que funcionava tão bem quanto a esquerda. “Somos novos na trupe, patrão, por isso nem sempre entendemos o que acontece.”
“Logo que me juntei à trupe de Olaf”, disse uma das mulheres de cara branca, “eu nunca tinha ouvido falar do dossiê Snicket.”
“Trabalhar para mim é um aprendizado”, disse Olaf. “Mas você não pode esperar que eu lhe explique tudo. Sou um homem muito ocupado.”
“Deixa que eu explico, patrão”, disse o homem de mãos de gancho. “O conde Olaf, como qualquer homem de negócios, cometeu uma grande variedade de crimes.”
“Só que aqueles voluntários idiotas reuniram um arquivo de provas contra ele”, disse Esmé. “Tentei explicar que hoje em dia o crime é muito in, mas eles não estavam interessados.”
Sunny enxugou mais uma lágrima e suspirou. A jovem Baudelaire chegou quase a se convencer de que tomar beliscões era melhor do que ouvir as bobagens de Esmé Squalor sobre o que era in – a palavra que a vila costumava usar para se referir ao que estava “na moda”.
“Se não destruirmos esses arquivos, o conde Olaf poderá ser preso”, disse o homem de mãos de gancho. “Temos razões para acreditar que uma parte dos arquivos está na base de operações de C.S.C.”
“O que quer dizer C.S.C.?”, perguntou Colette do chão do automóvel.
Olaf tinha ordenado que ela se valesse dos talentos de contorcionista para se enrodilhar aos pés dos outros capangas.
“Essa informação é segredo de Estado!”, rosnou Olaf, para decepção de Sunny. “Eu já fui membro da organização, mas descobri que era mais divertido ser um profissional autônomo.”
“O que isso significa?”, perguntou o homem de mãos de gancho.
“Alguém que pratica crimes”, respondeu Esmé. “É muito in no momento.”
“Falsa def”, Sunny tentou dizer em meio às lágrimas. Com “Falsa def” ela queria dizer algo na linha de: “Um profissional autônomo não tem nada a ver com crimes, é alguém que trabalha sozinho, e não com um grupo”. Mas Sunny ficou triste porque ninguém ali era capaz de compreendê-la.
“Lá vem você com esse tatibitate”, disse Esmé. “É por isso que eu nunca quis ter crianças. A não ser como serviçais, é claro.”
“A viagem será mais fácil do que eu pensava”, disse Olaf. “O mapa indica que só temos de passar por mais algumas cavernas.”
“Existe algum hotel perto da base de operações?”, perguntou Esmé.
“Receio que não, amorzinho”, retrucou o vilão, “mas tenho duas barracas no porta-malas. Vamos acampar no pico do Monte Fraught, mais conhecido como o Cume das Aflições, o ponto culminante das Montanhas de Mão-Morta.”
“No ponto culminante?”, disse Esmé. “Deve fazer muito frio lá.”
“É verdade”, admitiu Olaf, “mas o Falso Manancial fica no caminho, portanto deve ficar mais quente.”
“Mas e essa noite?”, disse a vila. “Definitivamente não é in armar barracas num frio enregelante.”
Olaf a encarou e começou a rir, e Sunny pôde sentir o mau hálito que exalava de suas risadinhas perversas. “Não seja boba”, disse ele para Esmé. “Você não precisará armar as barracas. É só aguardar boazinha dentro do carro. O bebê com dentes de coelho é quem vai fazer o serviço para nós.”
Então a trupe inteira de Olaf começou a rir, e o carro foi tomado pelo bafo dos vilões. Sunny derramou algumas lágrimas e virou o rosto para a janela, para que ninguém notasse. As janelas estavam sujas, mas a jovem Baudelaire conseguiu ver os estranhos picos quadrados das Montanhas de Mão-Morta e as águas escuras do Arroio Enamorado. Na altura em que se encontravam, o arroio era em grande parte gelo, e Sunny, ao vislumbrar as águas escuras e congeladas, se perguntou onde estariam seus irmãos e se chegariam a tempo de salvá-la. Lembrou-se da primeira vez em que caíra nas garras de Olaf, quando o vilão a amarrara e trancara numa gaiola pendurada do lado de fora de uma torre. Foi a experiência mais aterradora que a mais jovem Baudelaire vivenciou, e até hoje tinha pesadelos com os rangidos da gaiola e a visão de seus irmãos olhando para ela do quintal de Olaf. Mas Violet construíra um arpéu para salvá-la e Klaus fizera pesquisas legais, e assim acabaram frustrando o plano de Olaf. Enquanto o carro levava Sunny para longe de seus irmãos, ela olhava para o território solitário com a esperança de que eles viessem salvá-la outra vez.
“Quanto tempo ficaremos no Cume das Aflições?”, perguntou Hugo.
“O tempo que eu quiser, é claro”, respondeu o conde Olaf.
“Você logo vai perceber que grande parte do nosso trabalho consiste em ter paciência”, disse o homem de mãos de gancho. “Eu sempre trago comigo alguma coisa que ajude a passar o tempo, como um baralho ou uma pedra.”
“Isso pode ser desagradável”, admitiu uma das mulheres de cara branca, “e também perigoso. Vários camaradas nossos tiveram destinos terríveis.”
“Mas valeu a pena”, disse o conde Olaf, indiferente, uma palavra que aqui significa “sem dar a mínima para os empregados que faleceram em serviço”. “Às vezes, é inevitável que alguns morram queimados ou devorados por leões. O importante é lutar por uma causa maior.”
“E qua é a causa maior?”, perguntou Colette.
“Dinheiro!”, gritou Esmé, gananciosa. “Dinheiro e satisfação pessoal. E é exatamente isso o que vamos conseguir com esse bebê chorão! Depois que roubarmos a fortuna Baudelaire teremos dinheiro suficiente para viver uma vida luxuosa e cheia de novos planos traiçoeiros!”
Todos aplaudiram, e, sem dizer palavra, o conde Olaf deu um sorrisinho sórdido para Sunny, enquanto o carro subia por uma colina íngreme e esburacada. Quando os últimos raios de sol ameaçavam desaparecer do céu, o carro freou.
“Aqui estamos”, disse o conde Olaf, e entregou as chaves do automóvel para Sunny. “Desça, órfã. Descarregue o porta-malas e arme as barracas.”
“Aproveite e traga umas batatinhas para nós”, disse Esmé, “vamos comer enquanto esperamos que você apronte as coisas.”
Esmé colocou Sunny no chão e depois bateu a porta do carro. O ar gélido da montanha fez a mais nova dos Baudelaire tremer. O frio no ponto culminante das Montanhas de Mão-Morta era tanto que suas lágrimas se congelaram antes de escorrer, formando uma pequena máscara de gelo em seu rosto. Cambaleante, Sunny pôs-se em pé e caminhou até o porta-malas. Bem que ela pensou em andar mais um pouco e escapar de Olaf, mas aonde poderia ir? Sunny correu os olhos pelos arredores e não viu nenhum lugar onde um bebê sozinho pudesse ficar em segurança.
O Cume das Aflições não passava de um pequeno quadrado de pedra suspenso no alto das Montanhas de Mão-Morta, e quando Sunny chegou ao porta-malas do carro sentiu uma leve vertigem ao se aproximar das beiradas do cume. À sua frente estendiam-se os picos congelados das outras montanhas, entrecortados pelas águas negras do Arroio Enamorado e pelo caminho pedregoso pelo qual o carro de Olaf subira. Mas atrás de si, Sunny encontrou uma paisagem tão estranha que precisou de alguns minutos para compreender o que via.
Estendendo-se a partir de um dos pontos mais altos das Montanhas de Mão-Morta, Sunny viu uma faixa branca e reluzente, parecida com um enorme pedaço de papel dobrado para baixo ou a asa de algum pássaro extraordinário. Aos poucos foi compreendendo do que se tratava: a nascente do Arroio Enamorado refletindo os últimos raios de sol. Assim como muitos cursos d’água, o Arroio se originava no interior das pedras, e era de dentro da pedra mais alta da cadeia de montanhas que uma enorme queda d’água se projetava escuridão abaixo. Embora fosse a época mais quente do ano, não fazia calor, e assim como as lágrimas de Sunny tinham congelado em seu rosto, também a queda d’água se congelara, formando um enorme escorregador de gelo. A visão era tão fantasmagórica que Sunny precisou respirar fundo antes de se perguntar por que o gelo era branco e não preto como as águas do Arroio Enamorado.
Fóóón! Uma buzinada ruidosa do automóvel do conde Olaf fez Sunny despertar dos seus pensamentos e retomar a tarefa para a qual os vilões a tinham escalado. Abriu o porta-malas, pegou um saco de batatinha frita e levou até os passageiros.
“Você demorou demais, órfã”, disse Olaf, em vez de dizer “obrigado”. “Agora vá armar as duas barracas, uma para mim e Esmé, outra para o pessoal da trupe.”
“E onde o bebê vai dormir?”, perguntou o homem de mãos de gancho. “Na minha barraca, não. Ouvi dizer que os bebês são capazes de se aproximar na surdina e roubar o seu fôlego enquanto você dorme.”
“Bem, só sei que comigo é que ela não vai dormir”, disse Esmé. “Não é in ter um bebê na barraca.”
“Ela não vai dormir em barraca nenhuma”, decidiu Olaf. “No porta-malas há um grande prato de forno com tampa. Ela pode muito bem dormir por lá.”
“Será que ela estará segura num prato de forno parecido com uma caçarola?”, disse Esmé. “Lembre-se, Olaf, querido, se ela morrer não botamos as mãos na fortuna Baudelaire.”
“A tampa do prato tem alguns buracos na parte de cima, ela poderá respirar”, disse Olaf, “além do que, a tampa a manterá protegida dos mosquitos da neve.”
“Mosquitos da neve?”, perguntou Hugo.
“Mosquitos da neve são insetos bem organizados e mal-humorados”, explicou o conde Olaf, “que vivem em frias áreas montanhosas e se divertem picando pessoas por puro prazer. Simpatizo muito com eles.”
“Nonat”, disse Sunny, o que queria dizer: “Não vi nenhum inseto desse tipo lá fora”, mas ninguém lhe deu atenção.
“Será que ela não vai fugir enquanto estivermos dormindo?”, perguntou Kevin.
“Ela não se atreveria”, disse o conde Olaf, “e mesmo que optasse por sobreviver sozinha nas montanhas, conseguiríamos vê-la daqui de cima. É por isso que estamos acampando no topo. Se a fedelha escapar ou alguém tentar nos seguir, saberemos. Daqui é possível ver tudo e todos a quilômetros de distância.”
“Eureca”, Sunny deixou escapar. Ela queria dizer alguma coisa na linha de: “Acabo de me dar conta de uma coisa”, mas não tinha intenção de dizer isso em voz alta.
“Pare de balbuciar e vá trabalhar, fedelha dentuça!”, disse Esmé Squalor.
Sunny pôde ouvir as risadas dos vilões e o róc-róc das batatinhas enquanto caminhava em direção ao porta-malas.
Armar barracas pode ser uma tarefa frustrante, pois é complicado organizar todo aquele pano e toda aquela armação para que ela funcione direito, e é por isso que prefiro hotéis ou castelos alugados, que oferecem paredes sólidas e serviço de camareira. Mas Sunny ainda contava com as desvantagens extras de estar sozinha e no escuro, sendo que era uma novata na arte de andar e estava preocupada com os irmãos. Por sorte a mais jovem dos Baudelaire tinha experiência em desempenhar tarefas hercúleas, uma expressão que aqui significa “realizar feitos incrivelmente difíceis”. Como você deve saber, quando o forçam a fazer alguma coisa contra a sua vontade, o melhor é pensar em algo inspirador e continuar em frente. Quando Sunny travou um duelo de espada e dente na Serraria Alto-Astral, por exemplo, ela pensou em quanto se preocupava com os seus irmãos, e pensar nisso a ajudou a derrotar a perversa dra. Orwell. Quando escalou o poço do elevador na Avenida Sombria 667, ela se concentrou no desejo de reencontrar seus amigos Quagmire, e logo chegou até o apartamento de cobertura. Assim, quando Sunny cavou um buraco na terra congelada com os seus dentes para que as estacas da barraca permanecessem no lugar, ela pensou em algo que a inspirasse, e por estranho que pareça era algo que o conde Olaf tinha dito sobre ver tudo e todos a quilômetros de distância. Enquanto armava as barracas e olhava para o escorregador de gelo, Sunny decidiu que não tentaria escapar de Olaf e sua trupe. Porque se ela conseguia ver tudo e todos do alto do Cume das Aflições, isso também queria dizer que tudo e todos, inclusive Violet e Klaus Baudelaire, poderiam vê-la ali em cima.

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