segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Capítulo sete


Se algum dia vocês passaram por uma experiência lamentável, com certeza já ouviram que na manha do dia seguinte se sentiriam melhor. Isso, evidentemente, é um completo absurdo, porque uma experiência lamentável continua a ser uma experiência lamentável apesar da mais linda das manhãs. Por exemplo, se no dia do aniversário o único presente que vocês recebessem fosse um creme para verrugas, alguém poderia dizer-lhes que tratassem de dormir bem aquela noite e esperassem pela manhã seguinte, mas de manhã o tubo do creme para verrugas continuaria pousado junto ao seu bolo de aniversário não comido, e vocês se sentiriam tão infelizes quanto antes. Meu motorista certa vez disse que eu me sentiria melhor na manhã seguinte, mas quando acordei continuávamos os dois numa ilhota rodeada por crocodilos antropófagos e vocês hão de compreender que não havia como eu me sentir melhor naquela situação.
E com os órfãos Baudelaire não deu outra. Assim que o capataz Flacutono começou a bater suas panelas, Klaus abriu os olhos e perguntou que lugar era aquele, e Violet e Sunny não se sentiram melhor, podem crer.
“O que está acontecendo com você?”, perguntou Violet.
Klaus olhou para Violet, intrigado, como se fosse alguém que tivesse conhecido muitos anos antes mas cujo nome não conseguia lembrar. “Não sei”, disse. “Estou com dificuldade para me lembrar das coisas. O que aconteceu ontem?”
“É o que queremos perguntar a você, Klaus”, disse Violet, porém foi interrompida pelo chefe grosseirão deles.
“Levantem-se, seus anões preguiçosos!”, gritou o capataz Flacutono avançando para o beliche dos Baudelaire e retomando as batidas com as panelas. “A Serraria Alto-Astral não tem tempo a perder. Ninguém pode fazer cera para não trabalhar! Levantem-se da cama já, direto para o trabalho!”
Klaus arregalou os olhos e sentou-se na cama. Um segundo depois estava andando em direção à porta do dormitório, sem dizer uma só palavra para suas irmãs.
“E isso aí!”, disse o capataz Flacutono, dando mais algumas pancadas nas panelas. “Vamos, todo mundo! Todos para a serraria!”
Depois de entreolhar-se rapidamente, Violet e Sunny apressaram-se em acompanhar seu irmão e os outros operários, contudo foi só dar o primeiro passo e algo fez com que Violet parasse. No chão, junto ao beliche dos Baudelaire, tinham ficado os sapatos de Klaus que ela descalçara na véspera. Klaus nem sequer se lembrara de calçá-los antes de sair.
“Os sapatos!”, disse Violet, apanhando-os. “Klaus, você esqueceu seus sapatos!” Ela correu para alcançá-lo, no entanto Klaus nem olhou para trás. Quando Violet chegou à porta, seu irmão já atravessava o pátio, descalço.
“Grummle?”, Sunny chamou-o, mas ele não respondeu.
“Vamos indo, crianças”, disse Phil. “Mais depressa para a serraria.”
“Phil, tem alguma coisa errada com meu irmão”, disse Violet, vendo Klaus abrir a porta da serraria e entrar na frente dos outros empregados. “Ele mal abre a boca para falar qualquer coisa conosco, não parece se lembrar de nada e, veja só!, nem calçou os sapatos esta manhã!”
“Bem, vejam a coisa pelo melhor ângulo”, disse Phil. “Hoje está previsto que terminemos a operação de amarrar as toras; passaremos ao lance de imprensar. Imprensar é a etapa mais fácil de uma serraria.”
“Pouco me importam os trabalhos de serraria!”, gritou Violet. “Está havendo alguma coisa com Klaus!”
“Vamos evitar criar caso, Violet”, disse Phil, e seguiu em frente para a serraria. Violet e Sunny entreolharam-se com a sensação de não poder fazer nada. Não lhes restava outra escolha senão atravessar o pátio, seguir Phil e entrar na serraria. lá dentro, a máquina que desenrolava a corda já funcionava a pleno vapor, e as pessoas começavam a amarrar os poucos feixes de tábuas que ainda restavam. Violet e Sunny apressaram-se em conseguir um lugar ao lado de Klaus, e durante algumas horas, enquanto apertavam os nós, tentaram conversar com o irmão. Mas era difícil falar com ele; tinham que gritar mais alto do que a barulheira da máquina de desenrolar corda e as pancadas das panelas do capataz Flacutono. Klaus não lhes deu nenhuma resposta. Finalmente, a última pilha de tábuas foi amarrada num feixe, Phil desligou a máquina e todos receberam seu chiclete. Violet e Sunny seguraram Klaus, cada uma por um braço, e arrastaram o irmão descalço até um canto da serraria para ter uma conversa com ele.
“Klaus, Klaus, por favor, fale comigo”, gritou Violet. “Você está nos dando medo. Você tem que nos dizer o que foi que fizeram com você; queremos ajudar.”
Klaus simplesmente encarava a irmã com olhos arregalados.
“Eshan!”, gritou Sunny.
Klaus não disse uma palavra. Nem sequer pôs o seu chiclete na boca. Violet e Sunny sentaram-se ao lado do irmão, confusas e assustadas, e passaram os braços à sua volta como se temessem que ele saísse flutuando no espaço. Ficaram os três sentados assim, aquela penca de Baudelaire, até o capataz Flacutono voltar ao seu bater de panelas para anunciar o fim do descanso.
“Está na hora de imprensar!”, disse o capataz Flacutono, afastando dos olhos sua peruca cacheada. “Todo mundo em fila para imprensar. E você aí”, disse apontando para Klaus. “Você, seu anão sortudo, é quem vai operar a máquina. Venha até aqui para eu dar instruções.”
“Sim, senhor”, disse Klaus em voz baixa, deixando as irmãs boquiabertas de surpresa. Era a primeira vez que ele falava desde que saíram do dormitório. Sem dizer mais nada, levantou-se, soltou-se de suas irmãs e foi andando até o capataz Flacutono enquanto as irmãs o olhavam estupefatas.
Violet virou-se para sua irmã bebê e tirou um fiapo de corda que ficara preso no cabelo de Sunny, algo que a mãe delas costumava fazer o tempo todo. A Baudelaire mais velha lembrou-se, como já se lembrara tantas e tantas vezes, da promessa que havia feito a seus pais quando Sunny nasceu. “Você é a mais velha de seus irmãos”, disseram-lhe os pais. “E, como filha mais velha, terá sempre a responsabilidade de olhar por seus irmãos. Prometa-nos que estará sempre vigilante cuidando deles, e atenta para que não venham a passar por qualquer tipo de apuro.” Violet sabia, é claro, que quando lhe disseram isso seus pais nunca teriam sequer imaginado que viveriam apuros tão horrendos como aqueles, mas, mesmo assim, sentia-se como se os houvesse decepcionado. Klaus estava evidentemente em apuros, e Violet não conseguia afastar o sentimento de que era sua responsabilidade livrá-lo da enrascada.
O capataz Flacutono sussurrou algo para Klaus, que andou devagar até a máquina coberta com chaminés e começou a manejar os controles. O capataz Flacutono fez um gesto de assentimento com a cabeça e tornou a bater as panelas uma contra a outra. “Vamos lá! Comecem a imprensar!”, disse com sua voz sinistramente abafada. Os Baudelaire não tinham a menor ideia do que o capataz Flacutono queria dizer com “imprensar”; acharam que talvez devessem ficar pulando sobre as tábuas, com a finalidade de esmagar uvas para fazer vinho. Porém o que se viu parecia mais com carimbar livros de uma biblioteca pública. Os operários levantavam um feixe de tábuas e o apoiavam numa esteira, em seguida a máquina descia sobre as tábuas sua imensa pedra achatada com um estrondoso pá!, marcando nas madeiras os dizeres “Serraria Alto-Astral” em vermelho. Então todos tinham que soprar na marca deixada pelo “carimbo” para que a tinta secasse depressa. Violet e Sunny ficaram pensando se as pessoas que viriam a construir suas residências com aquelas tábuas gostariam de ter o nome da serraria por todas as paredes. E o mais estranho: como Klaus sabia operar a máquina de imprensar e por que o capataz Flacutono escolhera seu irmão e não Phil ou um dos outros funcionários?
“Estão vendo?”, disse Phil às irmãs Baudelaire, dirigindo-lhes a palavra por sobre uma pilha de tábuas. “Não há nada de errado com Klaus. Está fazendo a máquina funcionar perfeitamente. Todo esse tempo vocês se preocuparam à toa.”
Pá!
“Pode ser”, disse Violet sem muita convicção, soprando no primeiro “r” de “Serraria”.
“Eu não disse que a operação de imprensar era a parte mais fácil dos trabalhos da serraria?”, perguntou Phil. Pá! “Os lábios ficam um pouco feridos de tanto soprar, mas é só.”
“Uiro”, disse Sunny, o que significava: “É verdade, mas mesmo assim estou preocupada com Klaus”, ou algo do gênero.
“É isso aí! Pensamento positivo!”, disse Phil, entendendo mal o que ela dissera. “Não falei que se vocês procurarem sempre ver as coisas pelo melhor ângulo...?”
Pá... pum... aiii!
Phil caiu por terra no meio da frase, com o rosto pálido e suando frio. Aquele fora o som mais terrível de todos os ruídos já ouvidos na Serraria Alto-Astral. O estrondoso pá! fora interrompido por um solavanco violento a que se seguira um grito lancinante. A máquina de imprensar saíra dos eixos, e a imensa pedra achatada não baixara sobre onde deveria, o feixe de tábuas. A maior parte da pedra fora de encontro à máquina de desenrolar corda, àquela altura irremediavelmente destroçada. Mas uma parte da pedra batera na perna de Phil.
O capataz Flacutono jogou as panelas ao chão e correu para junto dos controles da máquina de imprensar, empurrando o atônito Klaus para o lado. Com um piparote no interruptor ele fez a pedra se erguer, e todos se juntaram para ver o estrago. A parte da máquina de desenrolar a corda que tinha a forma de uma gaiola partira-se em dois como uma casca de ovo, e a corda se emaranhara toda. E eu simplesmente não consigo descrever a imagem grotesca e desalentadora – e aqui as palavras “grotesca” e “desalentadora” valem por “torcida”, “esmigalhada”, “manchada”, “ensanguentada” – da perna do coitado do Phil. Só de olhá-la, Violet e Sunny ficaram com o estômago revirado, mas Phil olhou para cima e esboçou-lhes um leve sorriso:
“Bem”, disse, “não foi de todo mau. Minha perna esquerda está quebrada, mas pelo menos me sobrou a direita. Tive sorte.”
“Poxa vida!”, murmurou um dos empregados. “Pensei que ele fosse gritar: 'Aiiii! Minha perna! Minha perna!'.”
“Se alguém puder me ajudar a ficar em pé”, disse Phil, “acho que tenho condições de voltar ao trabalho.”
“Não seja ridículo”, disse Violet. “Você tem que ir para um hospital.”
“E, sim”, disse outro funcionário. “Temos aqueles tíquetes do mês passado que dão direito a um descontão em qualquer engessamento no Hospital Memorial Ahab. Se somarmos nossos descontos, conseguiremos que endireitem sua perna. Vou chamar uma ambulância agora mesmo.”
Phil sorriu. “É muita gentileza sua”, disse.
“Isto é um desastre!”, berrou o capataz Flacutono. “É o pior acidente que já aconteceu na história da serraria!”
“Não, não”, disse Phil. “Está tudo bem. Nunca liguei muito para a minha perna esquerda.”
“Não é de sua perna que estou falando, seu anão taludo”, disse o capataz Flacutono com impaciência. “Estou falando da máquina de desenrolar corda! O preço dela é exorbitante!”
“O que significa 'exorbitante'?”, alguém perguntou.
“Significa muitas coisas”, disse Klaus de repente, piscando. “Pode significar 'que sai dos limites', ou 'extravagante', 'excêntrico'. Falando de dinheiro, provavelmente significa 'excessivo'. O capataz Flacutono está dizendo que a máquina que desenrola corda custa um bocado de dinheiro.”
As duas irmãs Baudelaire se entreolharam e quase deram uma gargalhada de alívio.
“Klaus!”, gritou Violet. “Você está definindo coisas!”
Klaus olhou para as irmãs e sorriu-lhes sonolento. “É, acho que sim”, disse.
“Nodjimu!”, gritou Sunny, querendo dizer: “Você parece estar normal de novo!”. E ela tinha razão. Klaus tornou a piscar e em seguida olhou para o estrago que causara.
“Que foi que aconteceu aqui?”, perguntou, franzindo a testa. “Phil, o que aconteceu com sua perna?”
“Tudo em ordem”, disse Phil, contraindo-se de dor ao tentar se mexer. “É um machucado à-toa.”
“Então você não se lembra do que aconteceu?”, perguntou Violet.
“O que aconteceu quando?”, perguntou Klaus, franzindo a testa. “Ora, vejam: estou sem sapatos!”
“Bem, eu estou muito bem lembrado do que aconteceu!”, gritou o capataz Flacutono, apontando para Klaus. “Você arrebentou nossa máquina! Vou contar para Senhor agora mesmo! Você fez o processo de imprensar parar completamente. Ninguém vai ganhar nenhum tíquete hoje!”
“Não é justo”, disse Violet. “Foi um acidentei E Klaus nunca deveria ter sido indicado para operar essa máquina! Ele não sabia como funcionava!”
“Bem, é melhor que aprenda!”, disse o capataz Flacutono. “Agora vamos, apanhe as minhas panelas, Klaus!”
Klaus avançou para apanhar as panelas, mas o capataz Flacutono estendeu a perna e com seu pé obstruiu o caminho; era a mesma brincadeira do dia anterior, e lamento dizer que o resultado se repetiu. Klaus tornou a cair no chão da serraria e, mais uma vez, seus óculos se soltaram do rosto e rolaram por cima do feixe de tábuas, ficando mais uma vez desconjuntados, rachados e irremediavelmente quebrados, como a tal escultura de minha amiga Tatiana.
“Meus óculos!”, gritou Klaus. “Meus óculos se quebraram de novo!”
Violet teve uma sensação estranha no estômago; algo palpitante e escorregadio, como se na pausa para o almoço tivesse comido cobras e não chiclete.
“Tem certeza?”, ela perguntou a Klaus. “Tem certeza de que não dá para usá-los?”
“Tenho certeza”, disse Klaus na maior desolação, levantando os óculos para que Violet os visse.
“Ora, ora, ora”, disse o capataz Flacutono. “Que falta de cuidado, hein? Vai ter que fazer uma nova consulta.”
“Não queremos incomodar ninguém”, apressou-se em dizer Violet. “Se o senhor me der alguns materiais básicos, garanto que posso criar, eu mesma, um novo par de óculos.”
“Não, não”, disse o capataz, fazendo sua máscara cirúrgica franzir. “É melhor deixar a optometria por conta dos especialistas. Despeça-se de seu irmão.”
“Não!”, exclamou Violet em desespero. Ela voltou a pensar na promessa feita a seus pais. “Nós o levaremos! Sunny e eu o levaremos ao consultório.”
“Derix!”, gritou Sunny, o que claramente significava: “Se não podemos impedir que ele vá, pelo menos iremos com ele!”.
“Tudo bem”, disse o capataz Flacutono, e seus olhos pequenos e redondos ficaram ainda mais escuros do que de costume. “Esta é uma boa ideia: os três vão fazer uma consulta!”

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