quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Capítulo sete


“Olá! Sou Larry, o seu garçom!”, disse Larry, o garçom dos órfãos Baudelaire. Era um homem baixote, magrinho, metido numa ridícula roupa de palhaço com uma etiqueta que trazia o nome LARRY pregada no peito. “Bem-vindos ao restaurante Palhaço Ansioso, onde todos se divertem, gostem ou não. Vejo que temos uma família inteira reunida para almoçar hoje, de modo que me permitam recomendar-lhes a Entrada Familiar Especial Superdivertida. É um monte de coisas fritas juntas e servidas com um molho.”
“Que ideia maravilhosa!”, disse o capitão Sham, sorrindo de uma forma que deixava à mostra todos os seus dentes amarelos. “Uma Entrada Familiar Especial Superdivertida para uma família especial superdivertida: a minha.”
“Eu vou querer apenas água, obrigada”, disse Violet.
“O mesmo para mim”, disse Klaus. “E um copo com cubos de gelo para minha irmãzinha, por favor.”
“Eu aceito uma xícara de café com creme desnatado”, disse o sr. Poe.
“Não, senhor, sr. Poe”, disse o capitão Sham. “Vamos dividir uma bela garrafa de vinho tinto.”
“Não, obrigado, capitão Sham”, disse o sr. Poe. “Não gosto de beber durante o expediente bancário.”
“Mas este é um almoço comemorativo!”, exclamou o capitão Sham. “Faríamos um brinde a meus três novos filhos. Não é todo dia que um homem se torna pai.”
“Por favor, capitão”, disse o sr. Poe. “É animador ver que o senhor está feliz porque vai cuidar dos Baudelaire, mas deve entender que as crianças ficaram sentidas com a morte de tia Josephine.”
Há um lagarto chamado camaleão que, como vocês provavelmente sabem, muda de cor de um instante para outro a fim de se harmonizar com o ambiente e dele não se diferenciar. Além de ser escorregadio e ter um sangue-frio notável, o capitão Sham também podia se dizer camaleônico, por sua capacidade de se harmonizar com qualquer situação. Desde que o sr. Poe e os Baudelaire entraram no Palhaço Ansioso, o capitão Sham não conseguira disfarçar a emoção de ter as crianças praticamente nas suas garras. Mas bastou o sr. Poe mencionar que a ocasião era na verdade triste, para que imediatamente o capitão Sham começasse a falar com voz compungida.
“Também fiquei sentido”, disse, enxugando uma lágrima debaixo da venda que tinha num dos olhos. “Josephine era uma das minhas mais antigas e queridas amigas.”
“Mas você a conheceu ontem”, disse Klaus, “na mercearia.”
“É como se tivesse sido ontem”, disse o capitão Sham, “mas na verdade foi há muitos anos. Ela e eu nos conhecemos numa escola de culinária. Éramos colegas no Curso Avançado de Utilização do Forno.”
“Vocês não foram colegas no Curso Avançado de Utilização do Forno coisa nenhuma”, disse Violet, enojada das mentiras do capitão Sham. “Tia Josephine morria de medo de acender o forno. Ela jamais teria frequentado uma escola de culinária.”
“Logo nos tornamos amigos”, disse o capitão Sham, continuando com a história como se ninguém o houvesse interrompido, “e certa vez ela me disse: ‘Se algum dia eu adotar órfãos e em seguida vier a ter uma morte prematura, prometa-me que cuidará deles por mim’. Disse-lhe que assim faria, mas, é claro, jamais imaginei que teria que cumprir minha promessa.”
“Que história triste”, disse Larry, e todos se voltaram e viram que o seu garçom ainda estava ali, diante deles. “Não percebi que era uma ocasião triste. Nesse caso, permitam-me recomendar-lhes os Cheesebúrgueres Chistosos. Os picles, a mostarda e o ketchup compõem um rosto sorridente no alto do sanduíche, que, com toda a certeza, há de arrancar um sorriso de vocês também.”
“Parece uma ótima ideia”, disse o capitão Sham. “Traga Cheesebúrgueres Chistosos para todos, Larry.”
“É pra já!”, prometeu o garçom, e finalmente se retirou.
“Muito bem, muito bem”, disse o sr. Poe, “mas uma vez terminados os cheesebúrgueres, capitão Sham, há alguns papéis importantes que o senhor deve assinar. Estão na minha maleta, e depois que almoçarmos cuidaremos disso.”
“E então as crianças serão minhas?”, perguntou o capitão Sham.
“Bem, ficarão sob sua guarda sim”, disse o sr. Poe. “Está claro que a fortuna dos Baudelaire continuará sob minha supervisão até Violet atingir a maioridade.”
“Que fortuna?”, perguntou o capitão Sham, franzindo a sobrancelha. “Não sei de fortuna nenhuma.”
“Duna!”, gritou Sunny, querendo dizer: “Claro que sabe!”, ou algo do gênero.
“Os pais dos Baudelaire”, explicou o sr. Poe, “deixaram uma enorme fortuna, e os filhos a herdarão assim que Violet atingir a maioridade.”
“Bem, não estou interessado em fortunas”, disse o capitão Sham. “Tenho meus barcos a vela. Não preciso mexer num centavo desse dinheiro.”
“Ainda bem”, disse o sr. Poe, “pois não poderá mesmo mexer em nenhum centavo desse dinheiro.”
“Veremos”, disse o capitão Sham.
“Como?”, perguntou o sr. Poe.
“Aqui estão os seus Cheesebúrgueres Chistosos!”, anunciou Larry, como se estivesse entoando uma melodia, ao surgir diante da mesa com uma bandeja cheia de comida de aparência supergordurosa. “Bom apetite!”
Como a maioria dos restaurantes decorados com luzes de néon e balões, o Palhaço Ansioso servia uma comida muito ruim. Mas os três órfãos não tinham comido nada naquele dia, e não comiam nada quente fazia um bom tempo; assim, embora estivessem tristes e ansiosos, mostravam bastante apetite. Depois de poucos minutos sem conversa, o sr. Poe começou a contar uma história muito chata sobre algo que acontecera no banco. O sr. Poe estava tão entretido em falar, Klaus e Sunny tão preocupados em fingir que estavam interessados, e o capitão Sham tão absorvido em devorar sua refeição, que ninguém prestou atenção no que Violet estava aprontando.
Quando Violet vestira o casaco para sair e enfrentar o vento e o frio, sentira um volume no bolso. O volume era o saquinho de balas de hortelã-pimenta que o sr. Poe havia dado aos Baudelaire no dia em que chegaram ao Lago Lacrimoso, e isso lhe inspirou uma ideia. Enquanto o sr. Poe continuava com sua lengalenga, ela, cuidadosamente e bem devagarinho, puxou do bolso do casaco o saquinho de balas de hortelã-pimenta e o abriu. Para seu desânimo, as balas eram do tipo que vêm embrulhadas, cada uma, num pedaço de celofane. Com as mãos debaixo da mesa, desembrulhou três balas com o máximo cuidado para evitar fazer aquele barulho que tanto incomoda nas salas de cinema. Tendo, afinal, as três balas de hortelã-pimenta desembrulhadas sobre o guardanapo no seu colo, sem chamar atenção pôs uma no colo de Klaus e outra no de Sunny. Quando seus irmãos mais novos sentiram que alguma coisa pousara no colo deles e olharam para baixo e viram as balas de hortelã-pimenta, a primeira coisa que lhes veio à cabeça foi que a mais velha dos órfãos Baudelaire tinha ficado maluca. Mas, passado um momento, entenderam.
Se alguém é alérgico a alguma coisa, o melhor que tem a fazer é jamais colocar essa coisa na boca, especialmente se se tratar de gatos. Mas Violet, Klaus e Sunny sabiam que estavam numa emergência. Precisavam ganhar tempo antes de mais nada para descobrir qual era o plano do capitão Sham, e, em seguida, para impedir que o plano se realizasse; ora, ainda que provocar reações alérgicas seja uma forma bastante drástica de ganhar tempo, foi a única coisa que eles conseguiram imaginar. Assim, aproveitando um momento em que nenhum dos adultos à mesa estava olhando, as três crianças puseram as balas de hortelã-pimenta na boca e ficaram aguardando.
As alergias dos Baudelaire são famosas por agir rapidamente, de modo que os órfãos não precisaram aguardar muito. Em alguns minutos, Violet começou a ficar coberta de placas vermelhas, Klaus começou a ficar com a língua inchada, e Sunny, que evidentemente jamais comera balas de hortelã-pimenta, começou a ficar coberta de placas vermelhas e com a língua inchada.
O sr. Poe terminou de contar sua história e então percebeu o estado em que se achavam os órfãos. “Mas, crianças”, disse, “vocês estão com uma aparência horrível! Violet, você está com placas vermelhas na pele. Klaus, sua língua está pendurada na boca. Sunny, com você estão acontecendo as duas coisas!”
“Deve ser alergia a alguma substância que tem na comida”, disse Violet.
“Minha nossa!”, disse o sr. Poe, constatando que uma das irritações no braço de Violet estava do tamanho de um ovo cozido.
“Respirem fundo”, disse o capitão Sham, mal se dando o trabalho de erguer os olhos do seu cheesebúrguer.
“Estou passando mal”, disse Violet, e Sunny começou a choramingar. “Acho que devíamos ir para casa deitar, sr. Poe.”
“É só vocês se recostarem na cadeira”, disse o capitão Sham bruscamente. “Não há razão para irmos embora no meio do almoço.”
“Mas, capitão Sham”, disse o sr. Poe, “as crianças estão bem doentes. Violet tem razão. Vamos, eu pago a conta e nós levamos as crianças para casa.”
“Nada disso”, disse Violet prontamente. “Nós pegamos um táxi. Vocês ficam aqui e acertam todos os detalhes.”
O capitão Sham lançou um olhar penetrante para Violet. “Nem em sonhos eu deixaria que vocês fossem sozinhos”, disse com voz sombria.
“Bem, a papelada que precisamos examinar é considerável”, disse o sr. Poe. Olhou para o seu prato, e os Baudelaire viram que ele não estava muito entusiasmado para deixar o restaurante e ir cuidar de crianças doentes. “Não os deixaríamos sozinhos por muito tempo.”
“Nossas alergias são de um tipo moderado”, disse Violet, sem faltar à verdade e coçando uma de suas placas. Levantou-se e conduziu os irmãos de língua inchada até a porta do restaurante. “Nós só vamos deitar por uma hora ou duas enquanto vocês dois almoçam sossegados. Depois de assinar todos os papéis, capitão Sham, você vai nos buscar.”
O único olho visível do capitão Sham brilhou com uma intensidade que Violet jamais tinha visto. “Farei isso”, respondeu. “Vou apanhá-los já, já.”
“Adeus, crianças”, disse o sr. Poe. “Espero que melhorem logo. Sabe, capitão Sham, há uma pessoa no meu banco que sofre de alergias terríveis. Lembro-me de uma vez...”
“Já vão embora?”, perguntou Larry às três crianças, ao vê-las abotoar seus casacos. Do lado de fora, o vento soprava ainda mais forte, e começara a chuviscar, já que o Furacão Hermano estava cada vez mais próximo do Lago Lacrimoso. Apesar disso, as três crianças só pensavam em sair do Palhaço Ansioso, e não propriamente por causa de sua decoração de mau gosto, seus balões, suas luzes de néon e seus garçons chatos. Os Baudelaire sabiam que tinham inventado um pouco de tempo a favor deles, e não podiam desperdiçar nem mais um segundo.

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