quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Capítulo sete


“Nunca pensei que iria viver para ver este dia”, disse Violet, e deu mais uma olhada na página treze do dossiê. Os Baudelaire pais olharam de volta para ela e, por um momento, lhe pareceu que seu pai ia sair da fotografia e dizer: “Mas é você, Ed. Por onde tem andado?”. Ed era a forma abreviada de Thomas Alva Edison, um dos maiores inventores de todos os tempos, e era um apelido especial usado somente pelo pai de Violet, mas o homem na fotografia não se mexeu, é claro, apenas continuou sorrindo na frente do prédio da Avenida Sombria 667.
“Nem eu”, disse Klaus. “Nunca pensei que voltaríamos a ver nossos pais.” O Baudelaire do meio olhou para o casaco da mãe, que tinha um bolso secreto do lado de dentro. No bolso secreto, ela muitas vezes guardava um pequeno dicionário de bolso, ao qual recorria sempre que encontrava uma palavra que não conhecia. Já que Klaus estava tão interessado em leitura, ela prometera que, um dia, iria lhe dar o dicionário de presente, e agora lhe parecia que a sua mãe estava prestes a enfiar a mão dentro do casaco, pegar o pequeno livro encadernado em couro e colocá-lo na sua mão.
“Nem eu”, disse Sunny. Ela olhou para o sorriso dos pais e de repente se lembrou, pela primeira vez desde o incêndio, de uma canção que a mãe e o pai costumavam cantar juntos, quando estava na hora de Sunny ir para a cama. A canção se chamava “O menino açougueiro”, e os Baudelaire pais se revezavam cantando as estrofes; a mãe em sua voz velada e aguda, e o pai na sua, que era grave e profunda qual sirene de nevoeiro. “O menino açougueiro” era o modo perfeito de Sunny encerrar o dia, segura e aconchegada no berço dos Baudelaire.
“Esta fotografia deve ter sido tirada há muito tempo”, disse Violet. “Vejam como eles parecem muito mais jovens. Não estavam nem usando aliança.”
“‘Devido às evidências discutidas na página nove’“, disse Klaus, lendo a frase datilografada acima da fotografia, ‘“os peritos agora suspeitam que possa haver de fato um sobrevivente do incêndio, mas seu paradeiro é desconhecido’“. Ele parou e olhou para as irmãs. “O que significa isso?”, disse ele em uma voz muito baixa. “Significa que um dos nossos pais ainda está vivo?”
“Bem, bem, bem”, disse uma voz familiar e zombeteira, e as crianças ouviram os passos estranhos e claudicantes vindo diretamente em sua direção. “Vejam só o que temos aqui”.
Os órfãos Baudelaire tinham ficado tão chocados com o que descobriram que se esqueceram da pessoa que estava invadindo a Biblioteca de Registros, e agora, olhando para cima, eles viram uma figura alta e muito magra descendo o corredor B PONTO. Era uma pessoa que tinham visto recentemente, e que esperavam nunca ver de novo. Há muitas maneiras diferentes de descrever essa pessoa, inclusive “a namorada do conde Olaf”, “a ex-tutora das crianças Baudelaire”, “a sexta consultora financeira mais importante da cidade”, “uma ex-residente da Avenida Sombria 667”, e diversas frases repulsivas demais para se colocar em um livro. Mas o nome que ela preferia era o que saiu como um rosnido da sua boca cheia de batom.
“Eu sou Esmé Gigi Geniveve Squalor”, disse Esmé Gigi Geniveve Squalor, como se os Baudelaire pudessem algum dia esquecê-la, por mais que se esforçassem. Ela parou de andar e plantou-se na frente dos Baudelaire, que viram imediatamente a razão por que os seus passos eram tão estranhos e claudicantes. Pois, desde a primeira vez que as crianças a viram, Esmé Squalor era uma vítima da moda, uma expressão que aqui significa “vestida em trajes incrivelmente caros e, com muita frequência, incrivelmente absurdos”. Esta noite ela estava usando um casaco comprido feito com as peles de diversos animais, os quais tinham sido mortos de maneiras especialmente desagradáveis, e carregava uma bolsa com a forma de um olho, exatamente como a tatuagem que o seu namorado tinha no tornozelo esquerdo. Na cabeça, tinha um chapéu com um pequeno véu pendurado na frente da cara, como se ela tivesse assoado o nariz com um lenço preto de renda e depois esquecido de tirá-lo de lá, e nos pés trazia um par de sapatos com saltos de estilete. Um estilete é uma faca pequena e fina, parecida com um punhal, como a que poderia ser usada por um artista de circo ou por um assassino, e a palavra “estilete” já foi usada para descrever um sapato de mulher com salto muito comprido e fino. Neste caso, no entanto, a expressão “sapatos com saltos de estilete” se refere realmente a um par de sapatos feitos com uma faca pequena e fina no lugar de cada salto. Como os estiletes estavam apontados diretamente para baixo, Esmé apunhalava ferozmente o assoalho da Biblioteca de Registros a cada passo que dava e, de vez em quando, os estiletes ficavam presos e a perversa mulher tinha de parar para arrancá-los do assoalho, o que explicava por que os seus passos eram tão estranhos e claudicantes. Acontece que aqueles sapatos eram a ultimíssima moda, mas os Baudelaire tinham coisas mais importantes para fazer em vez de folhear revistas que descrevem o que é in e o que é out, portanto só podiam olhar para os sapatos de Esmé perguntando-se por que ela estava usando calçados tão violentos e pouco práticos.
“Esta é uma agradável surpresa”, disse Esmé. “Olaf me pediu para invadir isto aqui e destruir o dossiê Baudelaire, mas agora podemos destruir os próprios Baudelaire também.”
As crianças se entreolharam, chocadas.
“Você e Olaf sabem do dossiê?”, perguntou Violet.
Esmé riu de um jeito especialmente revoltante e, por trás do véu, abriu um sorriso especialmente revoltante.
“É claro que sabemos”, rosnou ela. “É por isso que estou aqui. Para destruir todas as treze páginas.” Ela deu um passo estranho e claudicante na direção dos Baudelaire. “É por isso que destruímos Jacques Snicket.” Ela apunhalou mais um passo no assoalho do corredor. “E é por isso que vamos destruir vocês.” Ela baixou os olhos para o sapato e sacudiu o pé furiosamente para arrancar a lâmina do assoalho da biblioteca. “O Hospital Heimlich está prestes a receber três novos pacientes”, disse ela, “mas receio que seja tarde demais para qualquer médico salvar as suas vidas.”
Klaus pôs-se em pé e acompanhou as irmãs quando começaram a se afastar passo a passo da escrava da moda que se movia lentamente na direção deles.
“Quem sobreviveu ao incêndio?”, perguntou ele a Esmé, erguendo a página do dossiê. “Um dos nossos pais está vivo?”
Esmé fechou a cara e claudicou em cima dos seus saltos de estilete, tentando agarrar a folha de papel.
“Vocês leram o dossiê?’, perguntou ela, com uma voz terrível. “O que diz o dossiê?’
“Você nunca vai descobrir!”, gritou Violet, e voltou-se para os irmãos. “Corram!”
Os Baudelaire dispararam pelo corredor abaixo, passando o resto dos arquivos B, dando a volta no canto do arquivo de aço identificado como “Birosca a Bizantino” e dobrando novamente na seção da biblioteca onde eram arquivadas todas as pastas C.
“Estamos correndo na direção errada”, disse Klaus.
“Egresso”, concordou Sunny, o que queria dizer algo na linha de: “Klaus está certo, a saída fica do outro lado”.
“Esmé também”, retrucou Violet. “De algum modo, temos de contorná-la.”
“Eu vou pegar vocês!”, gritou Esmé, a voz chegando por cima dos arquivos de aço. “Vocês nunca escaparão, órfãos!”
Os Baudelaire pararam na frente do arquivo “Concha a Condy, fluido de”, que são respectivamente o invólucro calcário dos moluscos e um composto químico complexo, e ficaram ouvindo o estardalhaço dos saltos de Esmé em sua perseguição.
“Nossa sorte é que ela está usando aqueles sapatos ridículos”, disse Klaus. “Podemos correr muito mais depressa que ela.”
“Enquanto não lhe ocorre tirá-los”, disse Violet. “Ela é quase tão esperta quanto gananciosa.”
“Shh!”, disse Sunny, e os Baudelaire ouviram quando os passos de Esmé pararam abruptamente. As crianças se amontoaram assustadas ao ouvir a namorada de Olaf resmungar um momento consigo mesma, e então os três jovens começaram a ouvir uma aterrorizante sequência de sons. Houve um longo e estridente crééééc, depois um ribombante bum!, depois outro longo e estridente crééééc, e outro ribombante bum!, e o par de sons continuou, cada vez mais alto. Os jovens se entreolharam confusos e então, em cima da hora, a mais velha dos Baudelaire se deu conta do que era aquele som.
“Ela está derrubando os arquivos de aço!”, gritou Violet, apontando por cima de Confete a Consagração. “Eles estão caindo como dominós!”
Klaus e Sunny olharam na direção que Violet estava apontando e viram que ela estava certa. Esmé tinha empurrado um arquivo de aço, o qual tinha empurrado outro, e agora os pesados arquivos de aço estavam despencando na direção das crianças, como uma onda quebrando na praia. Violet agarrou os irmãos e puxou-os para fora do caminho de um arquivo de aço que despencava. Com um crééééc e um bum! o arquivo tombou no chão, bem no lugar onde eles estavam. As três crianças soltaram um suspiro de alívio depois que escaparam por um triz de ser esmagadas debaixo das pastas sobre congruentes, triângulos; coníferas, árvores; conjugados, verbos; e duzentos outros tópicos.
“Vou achatar vocês!”, bradou Esmé, começando a derrubar mais uma fileira de arquivos de aço. “Olaf e eu vamos ter um café-da-manhã romântico com panquecas de Baudelaire!”
“Corram!”, gritou Sunny, mas seus irmãos não precisavam de incentivo. As três crianças saíram correndo pelo resto do corredor C, enquanto os arquivos de aço faziam crééééc e bum! por todos os lados.
“Aonde vamos?”, gritou Violet.
“Ao corredor D!”, respondeu Klaus, mas mudou de ideia quando viu mais uma fileira de arquivos começar a tombar. “Não! O corredor E!”
“B?”, perguntou Violet, achando difícil ouvir por cima do barulho dos arquivos.
“E!”, gritou Klaus. “E de ‘escapar’!”
Os Baudelaire dispararam por E de “escapar”, mas quando chegaram ao último arquivo, a fileira estava se transformando em F de “fatídica queda dos arquivos”, G de “gente, pro outro lado!”, e H de “hora de dar o fora daqui!”. Em pouco tempo, as crianças se viram tão longe da porta da antessala quanto seria possível estar. Enquanto os arquivos de aço vinham abaixo por toda a volta e Esmé cacarejava freneticamente, apunhalando o assoalho em perseguição, os três jovens foram parar na área da Biblioteca de Registros onde as informações eram depositadas. Com a sala rangendo e estalando, ao som de créééécc bum! por todos os lados, os irmãos olharam primeiro para a cesta de papéis, depois para a tigela de clipes, depois para a boca da via de informações, e por fim uns para os outros.
“Violet”, disse Klaus, hesitante, “você acha que pode inventar alguma coisa que possa nos tirar daqui, feita com clipes e uma cesta?”
“Eu nem preciso”, disse Violet. “Aquela via de informações vai servir de saída.”
“Mas você não vai caber lá”, disse Klaus. “Eu mesmo não tenho certeza de conseguir.”
“Vocês jamais vão conseguir sair desta sala vivos, seus imbecis!”, gritou Esmé, dizendo uma palavra horrível com a sua voz horrível.
“Temos de tentar”, disse Violet. “Sunny, você primeiro.”
“Prapil”, disse Sunny sem muita certeza, mas foi primeiro, engatinhando com facilidade para dentro da via de informações e olhando através da escuridão para os seus irmãos lá fora.
“Agora você, Klaus”, disse Violet, e Klaus, tirando os óculos para não quebrar, foi atrás da irmã. Era bem apertado e foram necessárias algumas manobras, mas por fim o Baudelaire do meio conseguiu atravessar a boca da via de informações.
“Isso não vai dar certo”, disse Klaus a Violet, olhando em volta. “A julgar pela inclinação, vai ser difícil se arrastar para cima. Além disso, você nunca vai conseguir passar por aqui.”
“Então vou encontrar um outro jeito”, disse Violet. Sua voz estava calma, mas Klaus e Sunny podiam ver, através do buraco na parede, que seus olhos estavam arregalados de medo.
“Isso está fora de questão”, disse Klaus. “Vamos voltar e nós três escaparemos juntos.”
“Não podemos arriscar”, disse Violet. “Esmé não vai conseguir agarrar todos nós, não se nos separarmos. Vocês dois pegam a página treze e sobem pela via de informações, enquanto eu saio de algum outro modo. Nos encontramos na ala inacabada.”
“Não!”, gritou Sunny.
“Sunny está certa”, disse Klaus. “Foi isso que aconteceu com os Quagmire, está lembrada? Quando os deixamos para trás, eles foram capturados.”
“Os Quagmire estão seguros agora”, lembrou Violet. “Não se preocupem, vou inventar uma solução.”
A mais velha dos Baudelaire deu um sorrisinho para os irmãos e enfiou a mão no bolso, procurando a fita para amarrar os cabelos e pôr as alavancas e engrenagens do seu cérebro inventivo em movimento. Mas não havia fita no seu bolso. Enquanto os dedos trêmulos exploravam o bolso, ela lembrou-se de ter usado a fita para ludibriar Hal com um falso molho de chaves. Violet sentiu uma palpitação no estômago, mas não tinha tempo para se sentir mal com o ardil que usara. Com súbito horror, ouviu um crééééc logo atrás dela e pulou fora bem a tempo de escapar do bum! Um arquivo de aço com a etiqueta “Linguística a Lions” caiu contra a parede, bloqueando a boca da via de informações.


“Violet!”, gritou Sunny. Ela e o irmão tentaram empurrar o arquivo para o lado, mas a força de um menino de treze anos e sua irmãzinha não eram páreo para uma caixa de aço contendo pastas sobre tudo, desde história da linguagem até um grande felino carnívoro encontrado na África subsaariana e partes da Índia.
“Eu estou bem”, Violet gritou de volta.
“Não, não está, não por muito tempo!”, rosnou Esmé, a uns poucos corredores de distância.
Sentados no escuro, Klaus e Sunny ouviram a voz abafada da irmã falando com eles.
“Deixem-me aqui!”, ela insistiu. “Vou me encontrar com vocês no nosso imundo, frio e inadequado lar.”
Os dois Baudelaire mais jovens se abraçaram na entrada da via de informações, mas é inútil eu descrever para vocês como eles estavam desesperados e aterrorizados. Não há razão para descrever como foi horrível ouvir os passos frenéticos de Violet atravessando a Biblioteca de Registros, e os passos claudicantes de Esmé enquanto a perseguia em cima dos seus saltos de estilete, com arquivos de aço fazendo crééééce bum! a cada apunhalante passo. É desnecessário descrever a espremida e difícil jornada de Klaus e Sunny subindo pela via de informações, que era tão íngreme que os dois órfãos se sentiram como se estivessem escalando uma grande montanha coberta de gelo, em vez de uma passagem razoavelmente curta, usada para depositar informações. É ineficaz descrever como as duas crianças se sentiram quando finalmente chegaram ao fim da via de informações, que era um outro buraco, aberto na parede externa do Hospital Heimlich, e descobriram que Hal tinha razão quando disse que aquela seria uma noite especialmente fria. E é absolutamente fútil, uma palavra que aqui significa “inútil, desnecessário e ineficaz porque não existe razão para isso”, descrever como eles se sentiram quando ficaram sentados na seção semiacabada do hospital, enrolados em lonas para se manter aquecidos e com lanternas acesas em volta para lhes fazer companhia, esperando Violet aparecer, porque Klaus e Sunny Baudelaire não estavam pensando nessas coisas.
Os dois Baudelaire mais jovens ficaram sentados muito juntos, segurando a página treze do dossiê Baudelaire, enquanto ia ficando cada vez mais tarde da noite, mas eles não estavam pensando nos ruídos que ouviam, vindos da Biblioteca de Registros, nem na jornada pela via de informações acima, e nem mesmo sobre a brisa gélida que soprava através das folhas de plástico, deixando os Baudelaire enregelados até os ossos. Klaus e Sunny estavam pensando no que Violet havia dito ao ver o pedaço de papel que estavam segurando agora.
Nunca pensei que fosse viver para ver este dia, dissera Violet, e os seus dois irmãos sabiam que aquela frase era apenas mais uma maneira de dizer: “Estou muito surpresa”, ou: “Estou completamente estupefata”, ou: “Estou inacreditavelmente chocada”. Mas agora, enquanto os dois Baudelaire aguardavam cada vez mais ansiosos pela irmã, Klaus e Sunny começaram a ficar com medo de que a frase usada por Violet tivesse sido mais apropriada do que ela jamais poderia adivinhar.
E à medida que os primeiros raios pálidos do sol da manhã começavam a brilhar sobre a metade inacabada do hospital, os Baudelaire iam ficando cada vez com mais medo de que sua irmã não fosse viver para ver aquele dia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário