terça-feira, 30 de agosto de 2016

Capítulo sete


Um associado meu escreveu certa vez um romance chamado Corredores do poder, que contava a história de diversas pessoas que discutiam como o mundo teria se tornado um lugar corrupto e perigoso, e se havia ou não um número suficiente de pessoas íntegras e decentes capazes de impedir que o planeta caísse em desespero. Passados vários anos ainda não li esse romance inteiro, porque participo de muitas discussões sobre como o mundo se tornou um lugar corrupto e perigoso e se há um número suficiente de pessoas íntegras e decentes capazes de impedir que o planeta inteiro caia em desespero, mesmo sem ler a respeito nas minhas horas de lazer. Mas ainda que eu não tenha lido o livro, a expressão “corredores do poder” veio a ser sinônimo de lugares muito discretos e muitas vezes secretos, onde assuntos importantes são discutidos. Sejam ou não corredores de fato, os corredores do poder tendem a se manter silenciosos e misteriosos. Se você já entrou em um edifício importante, como uma grande sucursal de biblioteca ou o consultório de um dentista que concorda em disfarçar os seus dentes, então já vivenciou a sensação que acompanha os corredores do poder, e Violet e Klaus Baudelaire a vivenciaram assim que terminaram de percorrer o Caminho Secundário das Chamas e se puseram a seguir o misterioso escoteiro de suéter para fora da passagem secreta. Ainda que portassem máscaras, os dois irmãos sabiam que estavam em algum lugar importante, embora houvesse apenas um corredor curvo com uma pequena grade no teto por onde entrava a luz da manha.
“É por lá que escapa a fumaça da fogueira dos Escoteiros da Neve”, sussurrou o escoteiro misterioso, apontando para o teto. “Aquilo conduz exatamente ao centro do Vale das Correntezas que Sopram Constantes, portanto a fumaça é dispersada aos quatro ventos. E C.S.C., não quer que ninguém veja a fumaça.”
“Onde há fumaça”, disse Violet, “há fogo.”
“Exatamente”, disse o escoteiro. “Qualquer um que veja fumaça subindo de um lugar tão elevado pode desconfiar. Encontrei um dispositivo que funciona de acordo com esse princípio.” Ele enfiou a mão na mochila e tirou de lá uma caixa retangular cheia de tubinhos verdes, iguais ao que Sunny vira o homem com barba mas sem cabelo entregar a Esmé Squalor.
“Não, obrigada”, disse Violet. “Eu não fumo.”
“Nem eu”, disse o escoteiro, “mas isso não são cigarros. São Cilindros Sempre-verdes Combustíveis. ‘Sempre-verdes’ são plantas que permanecem verdes mesmo no meio da neve e do frio. Esses dispositivos, quando acesos, por maior que seja o frio, liberam uma fumaça verde-escura que possibilita aos outros voluntários saber onde você está.”
Klaus pegou a caixa das mãos do escoteiro e apertou os olhos para enxergar na luz pálida. “Já vi uma caixa dessas antes”, disse ele, “em cima da mesa do meu pai. Eu procurava uma espátula de abrir cartas. Lembro de ter achado estranho, porque ele não fumava.”
“Ele deve ter achado que lá era um bom esconderijo”, disse Violet. “Mas por que fazer segredo disso?”
“Tudo o que se refere à organização é um segredo”, disse o escoteiro. “Foi muito difícil descobrir o local secreto da base de operações.”
“Foi difícil para nós também”, disse Klaus. “Só conseguimos encontrá-la num mapa codificado.”
“Eu tive de desenhar o meu próprio mapa”, disse o escoteiro, e enfiou a mão no bolso do suéter. Ele acendeu um farolete, e os dois Baudelaire puderam ver que ele estava segurando um caderno de capa roxa-escura.
“O que é isso?”, perguntou Violet.
“É um livro de lugar-comum”, disse o escoteiro. “Sempre que encontro alguma coisa importante ou interessante, anoto aqui. Todas as minhas informações preciosas ficam registradas em um só lugar.”
“Eu devia usar um desses”, disse Klaus. “Meus bolsos já estão estufados de tanto papel.”
“A partir de informações extraídas do livro do dr. Montgomery e alguns outros”, disse o escoteiro, “consegui desenhar um mapa do caminho que deveria seguir a partir do ponto em que estamos agora.” Ele abriu o caderno roxo e folheou algumas páginas até chegar a uma pequena porém elegante reprodução da caverna, do Caminho Secundário das Chamas e do corredor em que estavam. “Como podem ver”, disse ele, correndo o dedo pelo desenho, “a passagem se ramifica em duas direções.”
“Esse mapa está muito bem traçado”, disse Violet.
“Obrigado”, retrucou o escoteiro. “Já me interessei por cartografia um tempo. Vejam, se formos para a esquerda encontraremos uma pequena área usada para armazenar trenós e agasalhos de neve, isso se o artigo de jornal que encontrei estiver certo. Mas se formos para a direita, chegaremos à porta com Cerramento Supravernacular Complexo, que deve levar à cozinha da base de operações. Poderemos dar de cara com a organização inteira tomando café-da-manhã.”
Os dois Baudelaire se entreolharam por trás das máscaras, e Violet pousou a mão no ombro de Klaus. Eles não se atreveram a verbalizar as esperanças que tinham de que um de seus pais pudesse estar logo depois da esquina.
“Vamos”, sussurrou Violet.
O escoteiro concordou em silêncio e seguiu na rente dos Baudelaire pelo corredor, que parecia cala vez mais frio. Àquela altura eles já estavam tão longe de Bruce e dos Escoteiros da Neve que não havia mais necessidade de cochichar, mas por causa de uma sensação muito comum transmitida pelos corredores do poder, as crianças se mantiveram caladas durante todo o percurso. Por fim chegaram a uma grande porta de metal com um dispositivo no lugar da maçaneta. O mecanismo lembrava um pouco uma aranha, com fios saindo em todas as direções, mas onde deveria ser a cabeça da aranha havia um teclado de máquina de escrever. Apesar da excitação por estar diante da base de operações, a mente inventiva de Violet se interessou imediatamente pelo estranho dispositivo, e ela se inclinou para observá-lo mais de perto.
“Espere”, disse o escoteiro de suéter, detendo-a com o braço. “Essa é uma fechadura codificada. Se não a manusearmos do jeito certo não conseguiremos entrar.”
“E como funciona?”, perguntou Violet, com um pouco de frio.
“Não tenho certeza”, admitiu o escoteiro, e pegou de novo o seu livro de lugar-comum. “O sistema é chamado de Cerramento Supravernacular Complexo, portanto...”
“Portanto opera com linguagem”, concluiu Klaus. “A palavra “vernacular’ quer dizer ‘uma linguagem local ou dialeto’. ‘Supravernacular’ deve indicar que vai além do vernacular. Mas ainda é um fechamento ‘complexo’, que é o mesmo que ‘complicado’.”
“E é complicado”, disse Violet. “Está vendo como os fios estão enrolados em volta das dobradiças da porta? Eles estão travados, a não ser que você digite a sequência certa de letras naquele teclado. Há mais letras do que números, portanto fica mais difícil alguém adivinhar a combinação da fechadura.”
“Foi isso mesmo que eu li”, confirmou o escoteiro, consultando uma página do seu caderno. “É preciso digitar três senhas específicas em sequência. As senhas mudam a cada estação, portanto os voluntários precisam ter um bocado de informações para abrir a porta. A primeira é o nome do cientista mais reconhecido como o descobridor da gravidade.”
“Isso é fácil”, disse Violet, e digitou S-I-R-I-S-A-A-C-N-E-W-T-O-N, o nome do físico que sempre admirou. Quando ela terminou de digitar, ouviram-se vários cliques abafados do teclado, como se o dispositivo estivesse esquentando.
“A segunda é o nome em latim dos detetives felinos conhecidos como Caçadores de Segredos Criminais”, disse o escoteiro. “Encontrei a resposta no livro Fenômenos notáveis das Montanhas de Mão-Morta. A resposta é panthera leo.” Ele se inclinou para a frente e digitou P-A-N-T-H-E-R-A-L-E-O. Um zumbido muito discreto do dispositivo foi ouvido, e as crianças viram que os fios nas dobradiças começavam a tremer.
“Está começando a destravar”, disse Violet. “Espero ter uma oportunidade de estudar essa máquina.”
“Mas antes vamos entrar na base de operações”, disse Klaus. “Qual é a terceira senha?”
O escoteiro suspirou e virou uma página do seu livro de lugares-comuns. “Não tenho certeza”, admitiu. “Outro voluntário me disse que era o tema central do romance de Leon Tolstoi, Ana Karenina, mas ainda não tive a oportunidade de lê-lo.”
Violet sabia que o seu irmão estava sorrindo, muito embora não pudesse ver seu rosto por trás da máscara. Ela estava se lembrando de um certo verão, muito tempo antes, em que Klaus era muito jovem e Sunny ainda não tinha nascido. A mãe dos Baudelaire costumava ler um livro muito grande a cada verão, e dizia brincando que erguer um grande romance era o único exercício adequado durante o calor. Naquele ano em que Violet estava pensando, a sra. Baudelaire escolhera Ana Karenina para ler, e Klaus sentava-se no colo da mãe por horas a fio enquanto ela lia. Ele aprendera a ler fazia pouco tempo, mas sua mãe o ajudava com as palavras difíceis e, de quando em quando, parava a leitura para contar o que estava acontecendo na história. Foi assim que Klaus e sua mãe leram a história de Ana Karenina, cujo namorado a tratava tão mal que ela acabou se jogando embaixo de um trem. Embora Violet tenha passado a maior parte daquele verão entre as leis da termodinâmica e a construção de uma miniatura de helicóptero com as peças de uma batedeira e fios de cobre, sabia que Klaus se lembraria do tema central de Ana Karenina.
“O tema central do livro”, disse ele, “é que uma vida rural e simples, a despeito da monotonia, é um tipo de narrativa pessoal preferível a uma vida audaciosa de paixão impulsiva, que só pode levar à tragédia.”
“Esse tema está muito comprido”, disse o escoteiro.
“O livro é muito comprido”, retrucou Klaus. “Mas posso andar mais rápido. Uma vez eu e minhas irmãs conseguimos transmitir um telegrama comprido num instante.”
“Pena que o telegrama nunca tenha chegado”, disse baixinho o escoteiro, mas o Baudelaire do meio já estava apertando as teclas da porta com Cerramento Supravernacular Complexo. Ao digitar as palavras “uma vida rural”, expressão que aqui significa “viver na roça”, os fios começaram a se enrolar e desenrolar muito depressa, como minhocas numa calçada depois da chuva, e quando Klaus estava digitando “um tipo de narrativa pessoal preferível”, uma frase que aqui significa “um jeito de viver a sua vida”, a porta inteira tremeu como se estivesse tão nervosa quanto os Baudelaire. Por fim Klaus digitou “T-R-A-G-É-D-I-A”, e as três crianças deram um passo atrás. Mas em vez de se abrir, a porta parou de tremer, os fios pararam de se mexer e o corredor ficou em silêncio total.
“Não funcionou”, disse Violet. “Talvez esse não seja o tema central de Ana Karenina de Leon Tolstoi.”
“Parecia estar funcionando, até a última palavra”, disse o escoteiro.
“Talvez o mecanismo esteja meio emperrado”, disse Violet.
“Ou talvez uma vida audaciosa de paixão impulsiva leve a alguma outra coisa que não à tragédia”, disse o escoteiro, e em certos casos aquela misteriosa pessoa tinha razão. Levar uma vida audaciosa de paixão impulsiva é uma expressão que se refere a pessoas que seguem os impulsos do coração, e que, assim como as pessoas que preferem seguir a razão, os conselhos de outras pessoas, ou um homem misterioso de capa de chuva azul-escura, acabam fazendo toda sorte de coisas. Por exemplo, se um dia você ler A Bíblia sagrada, irá se deparar com a história de Adão e Eva, cuja vida audaciosa de paixão impulsiva os levou a vestir roupas pela primeira vez na vida a fim de abandonar o jardim infestado de cobras onde viviam. Bonnie e Clyde, um outro casal famoso que vivia uma vida audaciosa de paixão impulsiva, descobriu que ela os levava a uma bem-sucedida, embora breve, carreira de assaltos a bancos. E no meu próprio caso, nos poucos momentos em que vivi uma vida audaciosa de paixão impulsiva, ela me trouxe toda sorte de problemas, desde falsas acusações de incêndio criminoso até uma abotoadura quebrada que jamais poderei consertar. Mas nesse caso, enquanto os Baudelaire estavam diante da porta com Cerramento Supravernacular Complexo, a qual tinham que transpor para chegar à base de operações de C.S.C, resgatar a irmã e verificar se um de seus pais estava vivo, quem tinha razão não era o escoteiro de suéter, mas os dois Baudelaire, porque em Ana Karenina, de Leon Tolstoi, uma vida audaciosa de paixão impulsiva só pode levar à tragédia, como dissera Klaus; e como dissera Violet, o mecanismo estava meio emperrado, pois alguns segundos mais tarde a porta se escancarou com um lento e sinistro rangido. As crianças atravessaram a porta, piscando os olhos por causa da luz repentina, e ficaram paralisadas. Se você já leu a deplorável história dos Baudelaire até aqui, já sabe que a base de operações de C.S.C, nas Montanhas de Mão-Morta não existia mais, porém Violet e Klaus não estavam lendo a sua própria história, e por isso ainda não sabiam. Estavam dentro da própria história, e essa foi a parte da história em que ficaram tão chocados diante do que viram que sentiram náuseas.
A porta com Cerramento Supravernacular Complexo não se abria para uma cozinha. Não mais. Quando os Baudelaire acompanharam o misterioso escoteiro porta adentro, viram-se diante do que parecia ser um vasto campo coberto por uma plantação preta e arruinada em um vale tão frio e ventoso quanto o seu nome. Mas pouco a pouco os remanescentes carbonizados do grande e imponente edifício onde estariam agora, não fosse o fogo, começaram a aparecer. Ali perto havia um punhado de talheres de prata espalhados na frente dos restos de um fogão; ao lado, uma geladeira ainda em pé, como se estivesse ali para proteger os escombros do resto da cozinha. Do outro lado havia uma pilha de madeira queimada que devia ter sido a mesa de jantar, com um candelabro meio derretido espetado no topo, como uma árvore anã. Mais afastadas, as três crianças puderam ver as formas misteriosas de outros objetos sobreviventes do incêndio – um trombone, um pêndulo de relógio antigo, algo parecido com um periscópio ou uma luneta de espião, uma colher de sorvete abandonada sobre uma pilha de cinzas e uma placa de ferro com as palavras “Biblioteca C.S.C.” inscritas. Mas além da placa não havia nada a não ser pilhas e pilhas de destroços carbonizados. Era uma visão devastadora, que fez Violet e Klaus se sentirem totalmente sozinhos em um mundo arrasado. A única coisa visível que parecia preservada era uma imensa parede branca que se erguia até o alto, por trás da geladeira. Os Baudelaire precisaram de alguns momentos até perceber que se tratava de uma queda d’água congelada, erguendo-se como um escorregador de gelo na direção da nascente do Arroio Enamorado sobre o Monte Fraught, no Cume das Aflições. Era tão reluzente e branco que fazia as ruínas da base de operações parecerem ainda mais escuras.
“Aqui deve ter sido um lugar lindo”, disse o escoteiro de suéter, e caminhou até a queda d’água, fazendo subir poeira preta a cada passo. “Li que aqui havia uma grande janela”, disse, fazendo um gesto no ar como se ela ainda estivesse lá. “Quando era a sua vez de cozinhar, você podia olhar para a queda d’água lá fora enquanto picava legumes ou fervia um molho. Dizem que era muito tranquilo. E havia um mecanismo bem do lado de fora da janela que captava um pouco de água da lagoa e a transformava em vapor. O vapor subia e cobria a base de operações com uma manta de névoa, o que garantia a invisibilidade da base.”
Os Baudelaire caminharam até o lugar onde estava o escoteiro e olharam para a lagoa congelada ao pé da queda d’água. Ela se ramificava em dois afluentes, uma palavra que aqui significa “duas subdivisões de um rio ou curso d’água, cada qual seguindo em uma direção, ultrapassando as ruínas da base de operações e se curvando em volta das Montanhas de Mão-Morta até desaparecer de vista”. Violet e Klaus olharam com tristeza para os redemoinhos escuros que tinham notado quando estavam caminhando ao longo do Arroio Enamorado.
“Eram cinzas do incêndio”, disse Klaus. “As cinzas caíram ao pé da queda d’água e a correnteza as levou rio abaixo.”
Violet achou mais fácil se concentrar em alguma coisa pequena e específica, em vez de pensar no seu desapontamento. “Mas a lagoa está congelada”, disse ela. “A correnteza não poderia ter levado as cinzas para baixo.”
“Ela não devia estar congelada quando isso aconteceu”, retrucou Klaus. “O calor do incêndio deve ter degelado a lagoa.”
“Deve ter sido uma coisa horrível de ver”, disse o escoteiro de suéter. Violet e Klaus concordaram, e começaram a imaginar o mar de chamas que assolou aquele lugar, uma expressão que aqui significa “o incêndio descomunal que destruiu a base de operações secreta no alto das montanhas”. Eles quase podiam ouvir o ruído dos vidros se estilhaçando e o crepitar do fogo consumindo tudo. Eles quase podiam sentir o cheiro da fumaça preta flutuando para cima, e quase conseguiram ver os livros da biblioteca caindo em chamas das estantes e se desfazendo em cinzas. A única coisa que não foram capazes de imaginar foi quem teria estado na base de operações quando o fogo começou.
“Você acha”, disse Violet, “que algum dos voluntários...”
“Não há indícios de que houvesse alguém aqui”, disse depressa o escoteiro.
“Mas como podemos ter certeza?”, perguntou Klaus. “Pode haver um sobrevivente em algum lugar agora mesmo.”
“Olá!”, gritou Violet, correndo os olhos pelos destroços em volta. “Olá?” Ela percebeu que seus olhos se enchiam de lágrimas ao chamar pelas pessoas que, sabia, não estariam em nenhum lugar por ali. A mais velha Baudelaire sentiu-se como se chamasse por aquelas pessoas desde o terrível dia na praia, e teve a sensação de que se gritasse por elas com insistência, elas poderiam reaparecer. Pensou em todas as vezes em que as chamara, quando ainda morava na mansão Baudelaire. Às vezes chamava por essas pessoas quando queria mostrar algo que inventara. Às vezes chamava por elas quando acabara de chegar em casa. E às vezes chamava simplesmente porque queria saber onde estavam. Violet apenas queria vê-las e sentir que estaria segura enquanto elas estivessem por perto. “Mamãe!”, gritou Violet. “Papai!”
Não houve resposta.
“Mãe!”, gritou Klaus. “Pai!”
Ninguém respondeu, a não ser as quatro correntezas que sopram constantes no vale e a porta com Cerramento Supravernacular Complexo que se fechara empurrada pelo vento. As crianças notaram que a porta tinha sido planejada para se confundir com a encosta da montanha, por isso não podiam ver de onde tinham vindo nem qual o caminho de volta. Agora estavam verdadeiramente sós.
“Sei que todos nós tínhamos esperanças de encontrar pessoas na base de operações”, disse gentilmente o escoteiro de suéter, “mas não creio que haja ninguém aqui. Agora estamos abandonados a nossa própria sorte.”
“Isso é impossível!exclamou Klaus, e Violet ouviu-o soluçar. Ele procurou em seu bolso pela página treze do dossiê Snicket, que vinha carregando consigo desde que os Baudelaire a encontraram no Hospital Heimlich. Ali havia uma fotografia de seus pais ao lado de Jacques Snicket e um outro homem e uma frase que Klaus memorizara após ler tantas vezes. “‘Devido às evidências discutidas na página nove’“, recitou ele entre lágrimas, “‘os peritos agora suspeitam que possa haver de fato um sobrevivente do incêndio, mas seu paradeiro é desconhecido’.” Foi até o escoteiro e sacudiu a página na cara dele. “Nós pensávamos que o sobrevivente estivesse aqui”, disse.
“Eu penso que o sobrevivente está aqui”, disse o escoteiro, e finalmente removeu a máscara para revelar o seu rosto. “Sou Quigley Quagmire”, disse. “Sobrevivi ao incêndio que destruiu o meu lar, e tinha esperança de encontrar meus irmãos.”

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