segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Capítulo seis


“Ouçam o que estou dizendo, vocês não têm por que se preocupar!”, disse Phil, enquanto Violet e Sunny comiam carne com legumes. Era hora do jantar, porém Klaus ainda não voltara do consultório, e as jovens Baudelaire estavam aflitíssimas. Depois do trabalho, enquanto atravessavam o pátio de terra com os seus colegas, Violet e Sunny arriscaram uma espiada pelo portão e ficaram consternadas ao não ver nem sinal de Klaus. Quando chegaram ao dormitório, Violet e Sunny olharam pela janela à procura do irmão, e estavam tão ansiosas que levaram vários minutos para se dar conta de que a janela não era de verdade, mas apenas um rabisco feito com caneta esferográfica na parede. Deixaram, então, o cômodo e sentaram-se no degrau da soleira da porta, de olhos fixos no pátio vazio, até que Phil as chamou para conversar. Agora já estava ficando perto da hora de dormir, e além de Klaus ainda não ter voltado, Phil insistia em que elas não tinham por que se preocupar.
“Acho que não é bem assim, Phil”, disse Violet. “Acho que há razões para nos preocuparmos. Klaus esteve ausente a tarde inteira, e Sunny e eu estamos preocupadas; pode ter acontecido algo com ele. Algo horrível.”
“Becer!”, concordou Sunny.
“Sei que os médicos podem parecer assustadores para crianças pequenas”, disse Phil, “mas os médicos são amigos e são incapazes de fazer mal a vocês.”
Violet olhou para Phil e viu que a conversa deles não levaria a nada. “Você está certo”, ela disse com cansaço, embora ele estivesse bastante enganado. Como todo mundo que já foi a um médico sabe, nem todos os médicos são nossos amigos, como tampouco o são todos os carteiros que entregam nossa correspondência, ou os açougueiros, ou os técnicos que chamamos para consertar a geladeira. O médico é uma pessoa que tem a função de nos fazer sentir melhor, e pronto; e se você já tomou uma injeção sabe que a afirmação “os médicos são incapazes de fazer mal a vocês” é simplesmente absurda. É claro que Violet e Sunny estavam preocupadas com uma possível ligação de Orwell com o conde Olaf, e não a possibilidade de que Klaus tomasse uma injeção, mas era inútil tentar explicar essas coisas a um otimista. Assim elas se limitaram a comer a carne com legumes e esperar pelo irmão até a hora de dormir.
“Dr. Orwell deve estar atrasado nas consultas”, disse Phil, enquanto Violet e Sunny se acomodavam na cama de baixo do beliche. “A sala de espera dele deve estar coalhada de clientes.”
“Suski”, disse Sunny com tristeza, o que significava: “Espero que sim, Phil”, ou algo do gênero.
Phil sorriu para as duas Baudelaire e apagou as luzes do dormitório. Os empregados sussurraram por alguns minutos, depois ficaram em silêncio e não demorou muito para que Violet e Sunny se vissem rodeadas por uma orquestra de roncos. As crianças não dormiram, é claro; ficaram de olhos abertos na escuridão, com um sentimento crescente de ansiedade. Sunny emitiu um som de tristeza que era meio gemido meio rangido, como o som de uma porta se fechando, e Violet pegou nos dedos da irmã, machucados de tanto fazer nós o dia inteiro, e soprou neles delicadamente. Entretanto, ainda que isso aliviasse os dedos da Baudelaire caçula, o mesmo efeito não se estendia ao estado de espírito das irmãs. Deitadas juntas no beliche, tentavam imaginar onde Klaus poderia estar, e o que lhe estaria acontecendo. No entanto, os procedimentos do conde Olaf são tão abomináveis que fica impossível imaginar qual será o seu próximo golpe. O conde Olaf tinha sido capaz de feitos tão horríveis, todos com o objetivo de meter a mão na fortuna dos Baudelaire, que Violet e Sunny mal suportavam imaginar o que poderia estar acontecendo a seu irmão. A medida que a noite avançava e foi ficando cada vez mais tarde, as duas irmãs se puseram a imaginar mais e mais coisas terríveis por que Klaus poderia estar passando, enquanto elas permaneciam deitadas no dormitório sem poder fazer nada.
“Stintamcunu”, sussurrou Sunny finalmente, e Violet concordou com a cabeça. Elas tinham que sair à procura dele.
A expressão “com um silêncio de pedra” talvez não se aplique aos movimentos de Violet e Sunny ao sair da cama e atravessar o dormitório, pois as pedras só são silenciosas enquanto permanecem imóveis; pedra que rola faz barulho. Mais apropriado seria dizer que elas se moveram “com um silêncio de mímicos”, porque os mímicos executam seus números teatrais sem emitir nenhum som. A mim os mímicos causam certo tédio e constrangimento por causa dos gestos exagerados, mas a expressão “com um silêncio de mímicos” descreve melhor a maneira como Violet e Sunny se levantaram da cama, atravessaram o dormitório na ponta dos pés e saíram para a noite.
Era uma noite de lua cheia, e as crianças detiveram-se um momento a olhar para o pátio. O luar tornava o chão de terra tão estranho e soturno como a superfície da própria Lua. Violet pegou Sunny no colo e as duas atravessaram o pátio em direção ao pesado portão de madeira da serraria. O único som era o dos passos suaves de Violet. As órfãs não se lembravam de ter estado antes num lugar tão quieto e parado, por isso, quando ouviram um rangido súbito, pularam de susto. O rangido era discreto mas audível, e parecia vir de algum lugar bem diante delas. Violet e Sunny arregalaram os olhos na escuridão; com outro rangido o portão de madeira se abriu de par em par, revelando o vulto de uma pessoa baixa que caminhava lentamente em direção a elas.
“Klaus!”, disse Sunny. Uma das poucas palavras que ela sabia falar num idioma inteligível era o nome do irmão. E, para seu alívio, Violet viu que de fato era Klaus quem vinha andando na direção das duas. Ele estava usando um par de óculos novos que era exatamente igual aos antigos, a não ser pelo fato de que eram tão novos que brilhavam ao luar. Ele sorriu para as irmãs de um modo pouco expressivo e distante, como se fossem pessoas que ele não conhecia tão bem.
“Klaus, estávamos tão preocupadas com você”, disse Violet, abraçando o irmão quando ele as alcançou. “Você se ausentou por tanto tempo. O que foi que aconteceu?”
“Não sei”, disse Klaus, falando tão baixinho que as irmãs precisaram curvar-se para a frente a fim de escutá-lo. “Não consigo me lembrar.”
“Você viu o conde Olaf?”, perguntou Violet. “Ele estava trabalhando no consultório? Eles fizeram alguma coisa com você?”
“Não sei”, disse Klaus, balançando a cabeça. “Lembro de ter quebrado meus óculos e de Charles ter me levado para a casa com a forma de olho. Mas não me lembro de mais nada. Não lembro sequer onde estou neste momento.”
“Klaus”, disse Violet com firmeza, “você está na Serraria Alto-Astral, em Paltryville. Claro que você se lembra disso.”
Klaus não respondeu. Limitou-se a encarar as irmãs com os olhos bem arregalados, como se estivesse diante de um aquário interessante ou de uma parada.
“Klaus?”, insistiu Violet. “Eu disse: você está na Serraria Alto-Astral.”
Klaus continuou sem responder.
“Ele deve estar muito cansado”, Violet disse para Sunny.
“Libu”, disse Sunny sem muita certeza.
“Melhor você ir para a cama, Klaus”, disse Violet. “Siga-me.”
Finalmente, Klaus falou. “Sim, senhor”, disse ele em voz baixa.
“Senhor?”, repetiu Violet. “Não sou nenhum senhor – sou sua irmã!”
Entretanto Klaus voltou ao silêncio e Violet desistiu. Fez o caminho de volta para o dormitório com Sunny nos braços e Klaus arrastando os passos atrás dela. A lua fazia os óculos novos do irmão brilharem, e a cada passo ele levantava pequenas nuvens de poeira mas não abria a boca para dizer uma única palavra. Com um silêncio de mímicos, os Baudelaire voltaram ao dormitório e, caminhando na ponta dos pés, dirigiram-se ao beliche. Diante da cama, Klaus permaneceu em pé, imóvel, e olhou para as duas irmãs como se tivesse esquecido o que deveria fazer.
“Deite-se, Klaus”, disse Violet delicadamente.
“Sim, senhor”, respondeu Klaus, e deitou-se na cama de baixo, sempre olhando fixo para as irmãs. Violet sentou-se à beira da cama e descalçou os sapatos de Klaus, que ele esquecera de tirar; mas parecia que ele nem sequer tinha notado o lapso.
“Amanhã a gente conversa”, sussurrou Violet. “Por hoje, Klaus, veja se consegue dormir um pouco.”
“Sim, senhor”, disse Klaus, e imediatamente cerrou as pálpebras. Num segundo estava ferrado no sono. Violet e Sunny viram sua boca estremecer, como sempre acontecia quando ele dormia, desde bebezinho. Sem dúvida era um alívio ter Klaus de volta junto a elas, mas as irmãs Baudelaire não se sentiram aliviadas, nem um pouco. Nunca haviam visto seu irmão agir de modo tão estranho. A noite toda Violet e Sunny ficaram abraçadas uma na outra, na cama de cima, vendo o irmão dormir. Quanto mais prestavam atenção nele, mais se reforçava aquela sensação de que o irmão não voltara para elas.

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