sábado, 27 de agosto de 2016

Capítulo seis


Existem muitas coisas no mundo que são difíceis de esconder, mas um segredo não é uma delas. É difícil esconder um avião, por exemplo, porque você precisaria encontrar um buraco fundo ou um bom monte de feno, e depois enfiar o avião lá dentro na calada da noite, mas esconder um segredo sobre um avião é fácil, pois você pode escrevê-lo num pedacinho de papel e prendê-lo com fita adesiva debaixo do seu colchão. É difícil esconder uma orquestra sinfônica, porque você precisaria alugar uma sala com isolamento acústico e pedir emprestado o maior número de sacos de dormir que pudesse, mas esconder um segredo sobre uma orquestra sinfônica é fácil, pois você pode cochichá-lo para um amigo ou um crítico de arte confiável. E é difícil esconder a si mesmo, porque você às vezes precisa se enfiar no porta-malas de um carro ou usar um disfarce, mas esconder um segredo sobre si mesmo é fácil, pois você pode datilografá-lo no meio de um livro que esteja escrevendo e esperar que caia nas mãos certas. Minha querida irmã, se você estiver lendo isso, eu ainda estou vivo e rumando para o norte para tentar encontrá-la.
Caso os órfãos Baudelaire procurassem por um avião na Barraca do Destino e encontrassem a ponta de uma das asas debaixo da enorme toalha preta estampada com estrelas prateadas, estendida na mesa no centro da barraca, teriam entendido que se tratava de uma pista. Caso procurassem por uma orquestra sinfônica e tivessem escutado o som de pessoas tossindo ou colidindo com um oboé enquanto se escondiam nos cantos da barraca, atrás das pesadas cortinas, também teriam compreendido que se tratava de uma boa pista. Mas as crianças não estavam à procura de aeronaves ou músicos profissionais. Estavam à procura de segredos, e a barraca era tão grande que não sabiam por onde começar. Estariam as informações sobre os pais dos Baudelaire escondidas no armário? Haveria pistas sobre o paradeiro do dossiê Snicket no grande baú encostado num dos cantos? E seria possível desvendar o significado de C.S.C, com a ajuda daquela bola de cristal no centro da barraca? Violet, Klaus e Sunny olharam em volta, depois se entreolharam, e parecia que os segredos a respeito deles estavam escondidos em praticamente todos os cantos.
“Onde devemos procurar?”, perguntou Violet.
“Não sei”, respondeu Klaus, apertando os olhos. “Não sei nem o que procurar.”
“Bem, talvez nós devêssemos procurar respostas do mesmo modo que o conde Olaf faz”, disse Violet. “Ele contou direitinho como foi sua sessão de leitura da sorte.”
“Eu me lembro”, disse Klaus. “Primeiro ele entrou na Barraca do Destino. Isso nós já fizemos. Depois ele disse que as luzes foram apagadas.”
Os Baudelaire olharam para cima e notaram que o teto da barraca era cheio de luzinhas em forma de estrelas, como as da toalha da mesa.
“Liga!”, disse Sunny, e apontou para os interruptores afixados num dos mastros da barraca.
“Bom trabalho, Sunny”, disse Violet. “Klaus, ande comigo para eu dar uma olhada nos interruptores.”
Os dois Baudelaire mais velhos foram a passos aberrantes até o mastro da barraca, mas, quando viu de perto os interruptores, Violet sacudiu a cabeça.
“O que foi?”, perguntou Klaus.
“Eu queria ter uma fita para prender o cabelo”, disse Violet. “É difícil pensar com o cabelo caindo nos olhos. Mas a minha fita está em algum lugar do Hospital Heimlich...”
Sua voz foi sumindo, mas Klaus entendeu o motivo. Ela tinha enfiado a mão no bolso das calças de Olaf e agora tirava de lá uma fita exatamente igual à que ela perdera.
“Tua”, disse Sunny.
“Sim, é mesmo a minha”, disse Violet, examinando a fita. “O conde Olaf deve ter ficado com ela enquanto eu era preparada para a cirurgia.”
“Estou contente por você tê-la de volta”, disse Klaus, com a voz um pouco estremecida. “Não gosto de imaginar o conde Olaf com as mãos imundas nas nossas coisas. Você precisa de ajuda para prender o cabelo? Pode ser difícil só com uma das mãos, e não acho que seja seguro pôr a outra para fora da camisa. Não devemos estragar nosso disfarce.”
“Posso me virar com uma só”, disse Violet. “Ah, agora sim. Com o cabelo amarrado, já me sinto menos como uma aberração e mais como Violet Baudelaire. Agora, vejamos. Esses dois interruptores estão conectados a fios que sobem até o alto da barraca. Um deles obviamente controla as luzes, mas para que serve o outro?”
Os Baudelaire olharam outra vez para cima e viram que algo mais estava preso ao teto da barraca. No meio das luzes em forma de estrelas, havia um pedaço de metal que mantinha um pequeno espelho pendurado em um ângulo estranho. Presa ao metal, uma longa tira de borracha levava a um emaranhado de fios e engrenagens, o qual, por sua vez, estava ligado a outros espelhos dispostos em círculo.
“Quê?”, perguntou Sunny.
“Não sei”, disse Klaus. “Não se parece com nada que eu já tenha lido.”
“É algum tipo de invenção”, disse Violet, estudando a engenhoca. Ela apontava para diferentes partes do dispositivo, mas era como se falasse sozinha. “A tira de borracha deve ser uma correia de ventilador que transmite o torque de um motor de carro para resfriar o radiador. Mas por quê... ah, já sei, ela movimenta os outros espelhos em círculos, e... mas como poderia..., espera aí. Klaus, está vendo aquele buraquinho no canto de cima da barraca?”
“Não sem meus óculos”, disse ele.
“Bem, existe um pequeno rasgo ali”, disse Violet. “Se ficarmos de frente para aquele buraquinho, para que direção estaremos virados?”
“Deixe-me pensar”, disse Klaus. “Na noite passada, o sol estava se pondo quando saímos do carro.”
“Yirat”, disse Sunny, o que queria dizer: “Eu me lembro, o famoso crepúsculo do sertão”.
“E o carro está logo ali”, disse Klaus, e virou o corpo, arrastando a irmã mais velha consigo. “O oeste fica daquele lado, portanto o rasgo na barraca indica o leste.”
“Leste”, disse Violet, com um sorriso, “o lado em que nasce o sol.”
“Correto”, disse Klaus, “mas o que isso tem a ver?”
Violet não respondeu, apenas sorriu para os irmãos, e Klaus e Sunny sorriram de volta. Mesmo com as falsas cicatrizes no rosto, Violet sorria de um jeito que os outros Baudelaire conheciam bem. Era o sorriso de quando Violet descobria a solução de um problema difícil, geralmente relacionado a alguma invenção. Tinha sorrido assim quando eles estiveram na cadeia e ela descobrira que um jarro d’água poderia ajudá-los a escapar; tinha sorrido assim quando encontrara numa mala as evidências que poderiam convencer o sr. Poe de que o tio Monty tinha sido assassinado; e estava sorrindo assim agora, ao olhar para o estranho dispositivo no teto e os dois interruptores.
“Vejam”, disse ela, e ligou o primeiro interruptor. As engrenagens começaram a girar, a tira de borracha se moveu, e a roda de espelhos começou o seu ronronante movimento circular.
“Mas para que serve isso?”, disse Klaus.
“Escute”, disse Violet, e as crianças ouviram o zumbido murmurante do dispositivo. “Esse é o barulho de que o conde Olaf falou. Ele achou que vinha da bola de cristal, mas na verdade vinha desta máquina.”
“Bem que eu achei esse ‘zumbido mágico’ meio suspeito”, disse Klaus.
“Legror?”, perguntou Sunny, o que queria dizer: “Mas e os relâmpagos?”.
“Você reparou em que ângulo está posicionado o espelho maior?”, disse Violet. “Nessa posição ele pode refletir qualquer raio de luz que entre pelo buraquinho da barraca.”
“Mas não entra luz por ali”, disse Klaus.
“Não agora”, disse Violet, “porque o buraco está virado para o leste, e estamos no final da tarde. Mas de manhã, quando madame Lulu lê a sorte, o sol está nascendo, e nesse horário a luz incide diretamente sobre aquele espelho, que reflete para os outros, que por sua vez foram postos em movimento pela correia transmissora...”
“Espere”, disse Klaus. “Não estou entendendo.”
“Tudo bem”, disse Violet. “O conde Olaf também não entende. Quando ele entra na barraca pela manha, madame Lulu aciona o mecanismo e faz tudo se encher de luzes cintilantes. Vocês se lembram de quando usei a refração da luz para fazer um dispositivo sinalizador no Lago Lacrimoso? É a mesma coisa, mas Lulu diz a ele que são relâmpagos mágicos.”
“Mas você não acha que Olaf teria percebido que os relâmpagos não são mágicos?”
“Não se as luzes estivessem apagadas”, disse Violet, acionando o interruptor das luzes, e as estrelas se apagaram. A lona da barraca era tão grossa que não penetrava luz nenhuma em seu interior, e os Baudelaire se viram às escuras. Aquilo fez as crianças se lembrarem de quando escalaram o poço do elevador da avenida Sombria, 667, com a diferença de que então havia silêncio, e agora o zumbido da máquina os envolvia completamente.
“Buuuu”, disse Sunny.
“É mesmo fantasmagórico”, concordou Klaus.
“Não admira Olaf ter acreditado que era um zumbido mágico.”
“Agora imaginem se houvesse relâmpagos”, disse Violet. “É esse tipo de truque que faz as pessoas acreditarem em vidência.”
“Portanto madame Lulu é uma fraude”, disse Klaus.
Violet acionou os dois interruptores e as luzes se acenderam ao mesmo tempo que a invenção parou de funcionar.
“Sem dúvida ela é uma fraude”, disse. “Aposto que a bola de cristal é de vidro comum. Ela fez o conde Olaf acreditar que ela é vidente para que ele comprasse leões e turbantes novos para ela.”
“Chesro?”, perguntou Sunny, e ergueu os olhos para os irmãos. Com “Chesro?” Sunny queria dizer alguma coisa na linha de: “Mas se ela é uma fraude, como sabia que um dos nossos pais está vivo?”, e seus irmãos quase tiveram medo de responder.
“Ela não sabia, Sunny”, disse Violet com cuidado. “As informações da madame Lulu são tão falsas quanto os relâmpagos mágicos.”
Por trás da barba, Sunny deu um pequeno gemido que seus irmãos mal puderam ouvir, e ela abraçou as pernas de Violet e Klaus enquanto seu corpinho tremia de tanta tristeza. E de repente, era a vez de Sunny carregar o pesar dos Baudelaire, mas ela não precisou suportá-lo por muito tempo, pois Klaus teve uma ideia que os reanimou.
“Esperem um pouco”, disse Klaus. “Madame Lulu pode ser uma fraude, mas as informações podem ser verdadeiras. Afinal, ela sempre contou ao conde Olaf onde estávamos, e sempre acertou na mosca.”
“É verdade”, disse Violet. “Tinha me esquecido.”
“Afinal”, disse Klaus, com dificuldade para enfiar a mão no bolso, “a primeira vez que pensamos na hipótese de um de nossos pais estar vivo foi quando lemos isto aqui.” Ele tirou do bolso um pedaço de papel que logo suas irmãs identificaram como a décima terceira página do dossiê Snicket. Uma fotografia estava grampeada na página, e mostrava os pais dos Baudelaire ao lado de um homem que as crianças conheceram superficialmente na cidade de Cultores Solidários de Corvídeos, e mais um homem que as crianças não reconheceram. No pé da fotografia estava escrita uma frase que Klaus já tinha lido tantas vezes que a sabia de cor: “Devido às evidências discutidas na página nove, os peritos agora suspeitam que possa haver de fato um sobrevivente do incêndio, mas seu paradeiro é desconhecido”, recitou. “Talvez madame Lulu saiba disso.”
“Mas como?”, perguntou Violet.
“Bem, vejamos”, disse Klaus. “O conde Olaf disse que, depois do aparecimento dos relâmpagos mágicos, Lulu pediu que ele fechasse os olhos para ela se concentrar.”
“Lá!”, disse Sunny, apontando para a mesa onde ficava a bola de cristal.
“Não, Sunny!”, disse Violet. “A bola de cristal não poderia ter revelado nada. Ela não é mágica, lembra?”
“Lá!”, insistiu Sunny, e foi andando até a mesa. Desajeitados, Violet e Klaus a seguiram e puderam ver o que ela tinha apontado realmente. Debaixo da toalha da mesa, projetada para fora, havia alguma coisa branca. Os Baudelaire mais velhos se ajoelharam dentro de suas calças compartilhadas e entreviram a pontinha de um pedaço de papel.
“Que bom que você fica mais próxima do chão do que nós, Sunny”, disse Klaus. “Nunca teríamos notado isso.”
“Mas o que é?”, perguntou Violet, puxando o papel para fora.
Klaus enfiou a mão no bolso e tirou os seus óculos de lá. “Agora estou me sentindo menos como uma aberração e mais como eu mesmo”, disse com um sorriso, e começou a ler em voz alta. “‘Minha cara duquesa, o seu baile de máscaras promete ser uma noitada fantástica e mal posso aguardar pelo...’” Sua voz foi sumindo e ele correu os olhos pelo restante da página. “É só um bilhete sobre alguma festa”, disse ele.
“O que isso faz debaixo da toalha da mesa?”, perguntou Violet.
“Para mim não é importante”, considerou Klaus, “mas para madame Lulu era suficientemente importante para ser escondido.”
“Vamos ver o que mais ela esconde aqui”, disse Violet, e levantou a ponta da toalha. O que viram deixou os Baudelaire quase sem fôlego.
Pode parecer estranho saber que havia uma biblioteca debaixo da mesa de madame Lulu, mas como os órfãos Baudelaire sabiam, existem quase tantos tipos de biblioteca quanto de leitores. As crianças tinham encontrado uma biblioteca particular na casa da juíza Strauss, de quem sentiam muita falta, e uma biblioteca científica na casa do tio Monty, alguém que nunca mais veriam. Tinham visto uma biblioteca acadêmica na Escola Preparatória Prufrock, e uma biblioteca desfalcada na Serraria Alto-Astral, uma expressão que aqui significa “vazia, não fosse por três livros”. Existem bibliotecas públicas e bibliotecas médicas, bibliotecas secretas e bibliotecas proibidas, bibliotecas de registros e bibliotecas de catálogos de leilão, e existem bibliotecas de arquivos históricos, que é um termo sofisticado para se referir a uma coleção de pastas e documentos em vez de livros. As bibliotecas de arquivos históricos normalmente ficam em universidades, museus e outros lugares silenciosos – tais como embaixo de uma mesa – aonde as pessoas possam ir e examinar os papéis que desejarem para encontrar a informação de que precisam. Os Baudelaire examinaram demoradamente as enormes pilhas de papéis enfiados embaixo da mesa, e perceberam que madame Lulu tinha uma biblioteca de arquivos históricos que bem poderia conter as informações que eles procuravam.
“Olhem só para isso”, disse Violet. “Há artigos de jornal, revistas, cartas, pastas, fotografias, toda espécie de documentos. Acho que madame Lulu manda as pessoas fecharem os olhos e depois procura as informações nessa papelada.”
“E as pessoas não podem ouvi-la mexer nos papéis”, disse Klaus, “por causa do barulho dos relâmpagos.”
“É como fazer uma prova”, disse Violet, “tendo as respostas escondidas debaixo da carteira.”
“Trapaça!”, disse Sunny.
“Sim, é trapaça”, disse Klaus, “mas quem sabe a trapaça dela possa nos ajudar. Vejam, aqui está uma matéria de O Pundonor Diário.”
“’A cidade de cultores solidários de corvídeos participa de novo programa de tutoria’”, leu Violet, espiando a manchete por cima do ombro de Klaus.
“‘O Conselho dos Anciãos anunciou ontem que cuidará dos problemáticos órfãos Baudelaire’“, leu Klaus, ‘“como parte do novo programa da administração municipal, inspirado no aforismo É preciso uma cidade para educar uma criança.’”
“Foi assim que o conde Olaf nos encontrou!”, disse Violet. “Madame Lulu fingiu que a bola de cristal tinha revelado o nosso paradeiro, mas na verdade ela tinha lido no jornal!”
Klaus folheou uma outra pilha de papéis e encontrou o seu nome numa lista. “Vejam”, disse ele. “É uma lista com os nomes dos novos alunos da Escola Preparatória Prufrock. De algum modo a madame Lulu conseguiu pôr as mãos nela e passou a informação para Olaf.”
“Nós!”, disse Sunny, com uma fotografia nas mãos. A mais jovem dos Baudelaire tinha encontrado uma fotografia pequena e pouco nítida dos três Baudelaire sentados à beira do Cais de Dâmocles, onde iam ficar com a tia Josephine. Ao fundo, dava para ver o sr. Poe com a mão esticada para chamar um táxi e Violet, olhando taciturna para dentro de um saco de papel.
“Aquilo são as balas de hortelã que o sr. Poe nos deu”, disse Violet, baixinho. “Eu quase tinha me esquecido.”
“Mas quem tirou a foto?”, perguntou Klaus. “Quem estava nos observando?”
“Atrás”, disse Sunny, e virou a fotografia.
Alguém escrevera alguma coisa no verso, mas a caligrafia era tão desleixada que as crianças mal puderam ler.
“Acho que está escrito ‘Isto pode agradar’“, disse Klaus.
“Ou ‘ajudar’“, disse Violet. “‘Isto pode ajudar’. E está assinado com uma inicial, acho que é um R, ou talvez um K. Mas quem iria querer uma fotografia nossa?”
“Me dá calafrio pensar que alguém nos fotografou em segredo”, disse Klaus. “Isso significaria que alguém pode tirar fotografias nossas a qualquer momento.”
Os Baudelaire deram uma rápida olhada em volta, mas não viram nenhum fotógrafo à espreita.
“Vamos com calma”, disse Violet. “Vocês lembram quando nossos pais saíram para jantar e assistimos a um filme de terror que nos deixou assustados o resto da noite? Cada barulho que ouvíamos, achávamos que eram vampiros invadindo a casa.”
“Mas talvez alguém estivesse mesmo invadindo a casa para nos levar”, disse Klaus, e apontou para a fotografia. “Às vezes as coisas acontecem bem diante do seu nariz e você não percebe.”
“Siricotico”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como: “Vamos dar o fora daqui. Já estou arrepiada”.
“Eu também”, disse Violet, “mas vamos levar esses documentos conosco. Talvez possamos encontrar as informações que queremos.”
“Não podemos tirar esses papéis daqui”, disse Klaus. “São pilhas e pilhas. Seria o mesmo que retirar todos os livros de uma biblioteca só para encontrar aquele que você quer.”
“Vamos encher nossos bolsos”, disse Violet.
“Meus bolsos já estão cheios”, disse Klaus. “Tenho a página treze do dossiê Snicket e mais todos aqueles fragmentos dos cadernos dos Quagmire. Não dá para jogar isso fora, não tenho espaço para mais nada. É como se todos os segredos do mundo estivessem anotados em papel. Que segredos levaremos conosco?”
“Talvez possamos dar uma olhada aqui mesmo”, disse Violet, “e separar tudo o que cita nossos nomes.”
“Esse não é o melhor método de pesquisa que existe”, disse Klaus, “mas vai ter de funcionar. Ajude-me a erguer a toalha para visualizar melhor os papéis.”
Violet e Klaus começaram a erguer juntos a toalha da mesa, mas era muito difícil fazer isso dentro daquele disfarce. Assim como comer uma espiga de milho, erguer uma toalha de mesa compartilhando a mesma camisa era bastante complicado, e por mais que os Baudelaire lutassem contra ela, a toalha escorregava de um lado para o outro. Como você deve saber, se fizer uma toalha de mesa escorregar de um lado para o outro, as coisas que estão sobre ela vão escorregar também, e com a bola de cristal de madame Lulu não foi diferente.
“Revés”, disse Sunny.
“Sunny tem razão”, disse Violet. “Vamos tomar mais cuidado.”
“Certo”, disse Klaus. “Não queremos...”

Klaus não chegou a terminar a frase sobre o que eles não queriam, porque um tum! seguido de um sonoro crác! terminaram a frase por ele. Uma das coisas mais perturbadoras da vida é que aquilo que você quer ou deixa de querer não tem muito a ver com o que acontece ou deixa de acontecer. Você pode querer ser um escritor do tipo que trabalha calmamente em casa, por exemplo, mas pode acontecer alguma coisa que o leve a ser um escritor do tipo que trabalha freneticamente na casa dos outros, muitas vezes sem que eles saibam disso. Você pode querer se casar com alguém que ama demais, mas pode acontecer alguma coisa que o impeça para sempre de ver essa pessoa novamente. Você pode querer descobrir algo de importante sobre seus pais, mas pode acontecer alguma coisa que determine que você não vai descobrir nada tão cedo. E você pode querer, em determinado momento, que uma bola de cristal não caia de uma mesa e se estilhace em mil pedaços, e mesmo se a bola de cristal se estilhaçar, você pode querer que o barulho não atraia a atenção de ninguém. Mas a triste verdade é que a verdade é triste, e que aquilo que você quer não importa. Desventuras em série podem acontecer a qualquer um, pouco importa o que queira ou deixe de querer, e muito embora as três crianças não quisessem que a cortina da Barraca do Destino se abrisse, e não quisessem que madame Lulu entrasse bem naquela hora, quando a tarde se transformou em noite no Parque Caligari, aconteceu tudo o que os órfãos Baudelaire definitivamente não queriam que acontecesse.

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