domingo, 21 de agosto de 2016

Capítulo seis


Muito embora “pular para conclusões precipitadas” seja uma expressão e não uma atividade física, trata-se de algo tão perigoso quanto pular de um penhasco, pular na frente de um trem em movimento e pular de alegria. Se você pula de um penhasco, tem fortes probabilidades de vivenciar uma aterrissagem dolorosa a não ser que haja algo abaixo de você para amortecer a queda, como uma massa de água ou uma imensa pilha de lenços de papel. Se você pula na frente de um trem em movimento, tem fortes probabilidades de vivenciar uma viagem dolorosa a não ser que esteja usando algum tipo de roupa à prova de trens. E se você pula de alegria, tem fortes probabilidades de vivenciar um galo doloroso na cabeça a não ser que se certifique antes de estar em um lugar com pé-direito muito alto, coisa que as pessoas muito alegres raramente fazem. É claro que a solução para qualquer coisa que envolva pular é certificar-se de estar pulando para um lugar seguro, ou então não pular de todo.
Mas é difícil não pular de todo quando você está pulando para conclusões precipitadas, e é impossível se certificar de estar pulando para um lugar seguro, pois, quando está “pulando para conclusões precipitadas”, você simplesmente está acreditando que alguma coisa é verdade mesmo que de fato não saiba se é verdadeiramente verdade. Quando os órfãos Baudelaire ouviram das três mulheres do Conselho dos Anciãos de C.S.C. que o conde Olaf tinha sido capturado, eles ficaram tão alvoroçados que imediatamente pularam para a conclusão precipitada de que era verdade.
“É verdade”, disse uma das Anciãs, o que não ajudou em nada. “Chegou um homem à cidade esta manhã, com uma sobrancelha única e a tatuagem de um olho no tornozelo.”
“Só pode ser o conde Olaf”, disse Violet pulando para conclusões precipitadas.
“Claro que é”, disse a segunda mulher do Conselho. “Ele combinava com a descrição que o sr. Poe nos forneceu, portanto o prendemos imediatamente.”
“Então é verdade”, disse Klaus juntando-se à irmã no pulo. “Vocês realmente capturaram o conde Olaf.”
“Claro que é verdade”, disse impaciente a terceira mulher. “Nós até contatamos O Pundonor Diário, e eles vão publicar uma matéria sobre isso. Logo o mundo inteiro vai saber que o conde Olaf foi finalmente capturado.”
“Viva!”, gritou Sunny, a última Baudelaire a pular para conclusões precipitadas.
“O Conselho dos Anciãos convocou uma reunião especial”, disse a mulher que parecia ser a mais anciã das Anciãs. Seu chapéu de corvo bamboleava de excitação quando ela falava. “Todos os cidadãos devem comparecer imediatamente à Prefeitura, para discutir o que deverá ser feito com ele. Afinal, a Regra nº 19833 reza claramente que nenhum vilão será permitido dentro dos limites da cidade. A punição usual por quebrar a regra é ser queimado na fogueira.”
“Queimado na fogueira?”, disse Violet.
“É claro”, disse uma Anciã. “Sempre que capturamos alguém que quebra regras, amarramos em uma estaca de madeira e acendemos uma fogueira aos seus pés. Foi por isso que adverti vocês sobre o número de nozes no meu sundae com cobertura de chocolate. Seria uma pena ter de queimar vocês na fogueira.”
“Quer dizer que o castigo é o mesmo, não importa que regra você quebrou?”, perguntou Klaus.
“É claro”, respondeu outra Anciã. “A Regra nº 2 reza claramente que qualquer pessoa que quebre uma regra deve ser queimada na fogueira. Se nós não queimarmos na fogueira uma pessoa que quebra regras, estaríamos quebrando regras nós mesmos, e alguém teria de nos queimar na fogueira. Entenderam?”
“Mais ou menos”, disse Violet, embora na verdade não tivesse entendido nada. Nenhum dos Baudelaire entendeu. Embora desprezassem o conde Olaf, as crianças não gostaram da ideia de queimá-lo na fogueira. Queimar um vilão na fogueira mais parecia algo que um vilão faria, e não algo que fosse feito por cultores de corvídeos.
“Mas o conde Olaf não é só um violador de regras”, disse Klaus escolhendo as palavras com muito cuidado. “Ele cometeu toda sorte de crimes horríveis. Parece que seria melhor entregá-lo às autoridades, em vez de queimá-lo na fogueira.”
“Bem, eis aí algo sobre o que poderemos falar na reunião”, disse uma das mulheres do Conselho, “e é melhor nos apressarmos, senão chegaremos atrasados. Hector, desça dessa escada.”
Hector não respondeu, mas desceu da escada e afastou-se do Chafariz Corvídeo, seguindo as três mulheres do Conselho dos Anciãos, de olhos grudados no chão o tempo todo. Os Baudelaire seguiram Hector, com frio na barriga enquanto caminhavam através da cidade alta para a cidade baixa, onde os corvos estavam empoleirados como na véspera, quando as crianças chegaram em C.S.C. O frio na barriga era de alívio e excitação, pois acreditavam que o conde Olaf tinha sido capturado, mas também de nervosismo e medo, porque detestavam a ideia de que ele poderia ser queimado na fogueira. O castigo para quem quebrasse as regras de C.S.C. lembrava aos Baudelaire a morte de seus pais, e não lhes agradava a ideia de alguém ser incendiado, não importa o quão vil fosse a pessoa. Era desagradável sentir alívio, excitação, nervosismo e medo, tudo ao mesmo tempo, e quando eles chegaram à Prefeitura, as barrigas dos órfãos Baudelaire estavam tão alvoroçadas quanto os corvos, que crocitavam e se mexiam irrequietos, a perder de vista.
Quando o estômago de uma pessoa fica assim tão agitado, é bom fazer uma pequena pausa para se deitar e talvez bebericar alguma coisa efervescente, mas não havia tempo para essas coisas. As três mulheres do Conselho seguiram na frente mostrando o caminho para um grande salão da Prefeitura, decorado com retratos de corvos. O salão estava um pandemônio, expressão que aqui significa “cheio de Anciãos e cidadãos em pé discutindo por todos os lados”. Os Baudelaire perscrutaram o salão procurando algum sinal de Olaf, mas não era possível ver ninguém por cima das cabeças de corvo balouçantes.
“Temos de começar a reunião!”, gritou alguém do Conselho. “Anciãos, aos seus lugares no banco. Cidadãos, aos seus lugares nas cadeiras de dobrar.”
Os cidadãos pararam imediatamente de falar e se apressaram para os seus lugares, talvez com medo de ser queimados na fogueira se não se sentassem suficientemente depressa. Violet e Klaus sentaram-se ao lado de Hector, que ainda estava olhando para o chão em silêncio, e ergueram Sunny para que ela pudesse ver.
“Hector, ponha a oficial Luciana e o conde Olaf na plataforma para discussão”, ordenou um Ancião enquanto os últimos cidadãos se acomodavam.
“Não é preciso”, bradou uma voz arrogante vinda do fundo do salão, e as crianças se voltaram para ver a oficial Luciana, com um grande sorriso vermelho debaixo do visor do capacete. “Posso ir à plataforma sozinha. Afinal, sou a chefe de polícia.”
“Isto lá é verdade”, disse um outro Ancião, e várias outras pessoas no banco balançaram os seus chapéus de corvo concordando enquanto Luciana caminhava sem pressa até a plataforma, cada uma de suas botas pretas produzindo um forte ruído surdo ao bater no chão lustroso.
“Tenho o orgulho de dizer”, disse a oficial Luciana cheia de orgulho, “que já efetuei a primeira prisão da minha carreira como chefe de polícia. Não é mesmo estupendo?”
“Ouçam, ouçam!”, gritaram diversos cidadãos.
“E agora”, continuou Luciana, “vamos conhecer o homem que todos vocês estão doidinhos para queimar na fogueira – o conde Olaf!”
Com um gesto imponente, a oficial Luciana desceu da plataforma, andou até o fundo do salão batendo as botas pretas no chão lustroso com um ruído surdo, e arrancou de uma cadeira de dobrar um homem que parecia apavorado. Ele estava usando um terno amarrotado com um grande rasgão no ombro e um par de reluzentes abotoaduras de prata. Não estava usando sapatos nem meias, e quando a oficial Luciana o trouxe marchando para a plataforma, as crianças puderam ver que ele tinha um olho tatuado no tornozelo esquerdo, exatamente como o conde Olaf. E quando ele virou a cabeça e correu os olhos pelo salão, as crianças puderam ver que tinha uma única sobrancelha em vez de duas, exatamente como o conde Olaf. Mas as crianças também puderam ver que ele não era o conde Olaf. Não era alto como o conde Olaf, e não era tão magro, e não havia sujeira embaixo das suas unhas, e nem um detestável e ganancioso olhar nos seus olhos. Mas acima de tudo os Baudelaire puderam ver que ele não era o conde Olaf, do mesmo modo como você seria capaz de dizer que um estranho não é o seu tio, mesmo que ele esteja usando o mesmo casaco de bolinhas e a peruca encaracolada que o seu tio sempre usou. Os três irmãos se entreolharam, depois olharam para o homem que estava sendo arrastado para a plataforma, e se deram conta, com um sentimento de humilhação, de que tinham pulado para conclusões precipitadas quanto à captura de Olaf.
“Senhoras e senhores”, disse a oficial Luciana, “e órfãos, entrego-lhes o conde Olaf!”
“Mas eu não sou o conde Olaf!”, gritou o homem. “Meu nome é Jacques, e...”
“Silêncio!”, comandou um dos membros do Conselho dos Anciãos que tinha a aparência mais perversa. “A Regra nº 920 reza claramente que ninguém pode falar enquanto está na plataforma.”
“Vamos queimá-lo na fogueira!”, gritou uma voz, e as crianças se voltaram para ver o sr. Lesko em pé, apontando para o homem trêmulo na plataforma. “Há muito tempo que não queimamos ninguém na fogueira!”
Diversos membros do Conselho menearam as cabeças.
“Bem observado”, disse um deles.
“Ele é Olaf, sem dúvida”, bradou a sra. Morrow do outro lado do salão. “Ele tem uma sobrancelha só em vez de duas, e tem um olho tatuado no tornozelo.”
“Mas muita gente tem uma sobrancelha só”, gritou Jacques, “e esta tatuagem faz parte do meu trabalho.”
“E o seu trabalho é de vilão!”, bradou triunfante o sr. Lesko. “A Regra nº 19 833 reza claramente que nenhum vilão será permitido dentro dos limites da cidade, portanto vamos queimar você na fogueira!”
“Ouçam, ouçam!”, gritaram várias vozes, concordando.
“Eu não sou vilão!”, disse Jacques, frenético. “Trabalho para os voluntários...”
“Já basta!”, disse um dos Anciãos mais jovens. “Olaf, você já foi advertido quanto à Regra nº 920. Você não pode falar enquanto está na plataforma. Algum outro cidadão deseja falar antes de fixarmos a data em que Olaf será queimado na fogueira?”
Violet levantou-se, o que não é uma coisa fácil de fazer quando a sua cabeça ainda está girando, as suas pernas ainda estão bambeando e o seu corpo ainda está zunindo de perplexidade. “Eu quero falar”, disse ela. “A cidade de C.S.C. é minha tutora, portanto eu sou uma cidadã.”
Klaus, que estava segurando Sunny nos braços, levantou-se e tomou lugar ao lado da irmã. “Este homem”, ele disse apontando para Jacques, “não é o conde Olaf. A oficial Luciana cometeu um erro ao prendê-lo, e nós não queremos tornar as coisas ainda piores queimando um homem inocente na fogueira.”
Jacques deu um sorriso de gratidão para as crianças, mas a oficial Luciana voltou-se e foi batendo as botas pretas até onde estavam os Baudelaire. As crianças não podiam ver seus olhos, pois o visor do capacete ainda estava abaixado, mas os lábios vermelhos e brilhantes se torceram em um sorriso tenso.
“São vocês que estão tornando as coisas piores”, disse ela, e depois voltou-se para o Conselho dos Anciãos. “Obviamente, o choque de ver o conde Olaf deixou estas crianças confusas”, disse ela.
“É claro que deixou!”, concordou um Ancião. “Falando na qualidade de membro da cidade que serve como sua tutora legal, digo que estas crianças claramente precisam ser postas na cama. Agora, há algum adulto que queira falar?”
Os Baudelaire olharam para Hector, na esperança de que ele vencesse o seu nervosismo e se levantasse para falar. Certamente ele não acreditava que os três irmãos estavam confusos a ponto de não saber quem era o conde Olaf. Mas Hector não se portou à altura da situação, uma expressão que aqui significa “continuou sentado em sua cadeira de dobrar com os olhos fixos no chão”, e depois de um instante o Conselho dos Anciãos deu o assunto por encerrado.
“Neste ato, dou o assunto por encerrado”, disse um Ancião. “Hector, por favor, leve os Baudelaire para casa.”
“Sim!”, bradou alguém da família Verhoogen. “Ponham os órfãos na cama e queimem Olaf na fogueira!”
“Ouçam, ouçam!”, gritaram várias vozes.
Um dos Anciãos do Conselho sacudiu a cabeça. “É muito tarde para queimar alguém na fogueira hoje”, disse ele, e um murmúrio de desapontamento correu pelos cidadãos. “Vamos queimar o conde Olaf na fogueira logo depois do café-da-manhã”, continuou ele. “Todos os moradores da cidade alta deverão trazer tochas acesas, e todos os moradores da cidade baixa deverão trazer lenha para acender o fogo e algum tipo de lanche saudável. Vejo vocês amanhã.”
“E nesse meio-tempo”, anunciou a oficial Luciana, “vou mantê-lo na cadeia central, do outro lado do Chafariz Corvídeo.”
“Mas eu sou inocente!”, gritou o homem na plataforma. “Por favor, me escutem, eu imploro! Não sou o conde Olaf! Meu nome é Jacques!” Ele voltou-se para os três irmãos, que puderam notar que estava com lágrimas nos olhos. “Oh, Baudelaires”, disse ele, “estou tão aliviado em ver vocês vivos. Os seus pais...”
“Você já falou que chegue”, disse a oficial Luciana, tampando a boca de Jacques com a mão enluvada de branco.
“Pipit!”, gritou Sunny, o que queria dizer “Espere!”, mas a oficial Luciana não ouviu, ou não deu importância, e rapidamente arrastou Jacques porta afora antes que ele pudesse dizer outra palavra.
Os cidadãos se levantaram de suas cadeiras de dobrar para vê-lo sair, e então começaram a falar entre eles enquanto o Conselho dos Anciãos deixava o banco. Os Baudelaire viram o sr. Lesko compartilhar uma piada com a família Verhoogen, como se a noite inteira tivesse sido uma animada festa e não uma reunião em que um inocente tinha sido condenado à morte. “Pipit!”, gritou Sunny novamente, mas ninguém deu ouvidos. Com os olhos ainda fixos no chão, Hector pegou Violet e Klaus pela mão e os levou para fora da Prefeitura. O factótum não disse uma palavra, e nem os Baudelaire. Seus estômagos estavam agitados demais e seus corações estavam pesados demais até para abrir a boca. Quando saíram da reunião do Conselho sem mais nenhum vislumbre de Jacques e da oficial Luciana, eles sentiram uma dor ainda pior do que aquela de pular para conclusões precipitadas. As crianças se sentiram com se tivessem pulado de um penhasco, ou pulado na frente de um trem em movimento. Ao sair da Prefeitura para o ar tranquilo e silencioso da noite, os órfãos Baudelaire se sentiram como se nunca mais fossem pular de alegria.

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