quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Capítulo seis


A parte da manhã é uma das melhores horas para se pensar. O momento em que uma pessoa acabou de acordar mas ainda não saiu da cama é perfeito para ficar olhando para o teto, refletindo sobre a vida e se perguntando o que o futuro irá trazer. Na manhã em que estou escrevendo este capítulo, me pergunto se o futuro trará alguma coisa que me possibilite serrar estas algemas e me arrastar para fora da janela de tranca dupla, mas no caso dos órfãos Baudelaire, quando o sol da manhã luziu através das oitocentas e quarenta e nove janelas do apartamento de cobertura dos Squalor, eles estavam se perguntando se o futuro iria permitir esclarecer as dificuldades que, sentiam, estavam fechando um círculo em volta deles. Violet ficou vendo os primeiros raios de sol iluminarem a sua bancada de trabalho reforçada e sem ferramentas enquanto tentava imaginar que espécie de plano deletério Gunther teria arquitetado. Klaus ficou vendo os raios do alvorecer criarem formas cambiantes na parede que separava o seu quarto da biblioteca dos Squalor, enquanto dava tratos à bola para descobrir que jeito Gunther teria dado para sumir sem deixar vestígio. E Sunny ficou vendo o sol emergente iluminar todos os brinquedos de bebê impossíveis de morder enquanto tentava imaginar se eles ainda tinham tempo para discutir a questão antes que os Squalor viessem acordá-los.
Esta última dúvida era razoavelmente fácil de esclarecer. A menorzinha dos Baudelaire engatinhou para fora do seu quarto, foi buscar o irmão e abriu a porta de Violet. Encontrou-a fora da cama, sentada à sua bancada de trabalho, com os cabelos presos por uma fita para evitar que caíssem nos olhos.
“Tageb”, disse Sunny.
“Bom dia”, respondeu Violet. “Achei que prender o cabelo me ajudaria a pensar e sentei à bancada, como se estivesse inventando alguma coisa. Mas ainda não consegui pensar em nada.”
“Já é suficientemente terrível que Olaf tenha aparecido de novo”, disse Klaus, “e que tenhamos de chamá-lo de Gunther. Mas não temos o menor indício do que ele está planejando.”
“Bem, ele quer pôr as mãos na nossa fortuna, isto é certo”, disse Violet.
“Clofi”, disse Sunny, querendo dizer “É claro. Mas como?”.
“Talvez tenha algo a ver com o Leilão In”, presumiu Klaus. “Por que ele haveria de se disfarçar de leiloeiro se isto não fosse parte do seu plano?”
Sunny bocejou e Violet abaixou-se e ergueu a irmã para sentá-la no seu colo. “Você acha que ele vai tentar nos leiloar?”, perguntou Violet enquanto Sunny se inclinava para a frente para mordiscar a bancada, pensativa. “Ele poderia mandar um daqueles seus terríveis assistentes para dar lances cada vez mais altos por nós até ganhar, e então estaríamos nas suas garras, exatamente como os pobres Quagmire.”
“Mas Esmé disse que é contra a lei leiloar crianças”, lembrou Klaus.
Sunny parou de mascar a bancada e olhou para os irmãos. “Nolano?”, perguntou ela, o que queria dizer algo como “Você acha que os Squalor estão trabalhando junto com Gunther?”.
“Não creio”, disse Violet. “Eles foram muito gentis conosco – bom, pelo menos Jerome – e, de qualquer modo, não precisam da fortuna dos Baudelaire. Eles já têm tanto dinheiro!”
“Mas não muito bom senso”, disse Klaus, infeliz. “Gunther os engambelou completamente, e tudo o que precisou foram umas botas pretas, um terno risca-de-giz e um monóculo.”
“E mais, ele os engambelou para pensarem que já tinha ido embora”, disse Violet, “mas o porteiro tinha certeza que não.”
“Gunther também me engambelou”, disse Klaus. “Como ele poderia ter ido embora sem que o porteiro percebesse?”
“Não sei”, disse Violet, infeliz. “A coisa toda parece um quebra-cabeça, mas estão faltando muitas peças para completar.”
“Será que ouvi alguém falar em quebra-cabeças?”, perguntou Jerome. “Se vocês estão atrás de uns quebra-cabeças, acho que há alguns no armário de uma das salas de visitas, ou talvez em uma das salas de estar, não me lembro qual.”
Os Baudelaire ergueram os olhos e viram o seu tutor na porta do quarto de Violet, com um sorriso na cara e uma bandeja de prata nas mãos.
“Bom dia, Jerome”, disse Klaus. “E obrigado, mas não estamos atrás de quebra-cabeças. Violet esta só usando uma expressão. Estamos tentando decifrar uma coisa.”
“Obrigada”, disse Violet. “É muito gentil da sua parte nos trazer o café-da-manhã.”
“Não tem de quê”, disse Jerome. “Hoje Esmé tem uma reunião importante com o Rei do Arizona, portanto teremos o dia inteiro para nós. Achei que poderíamos caminhar pela cidade até o Bairro do Vestuário e levar os seus ternos risca-de-giz a um bom alfaiate. Não adianta ter esses ternos se eles não estão bem ajustados.”
“Cniliu!”, gritou Sunny, o que queria dizer “É muito atencioso da sua parte”.
“Não sei o que significa ‘Cniliu!’“, disse Esmé, entrando no quarto, “e não me importa, mas vocês também não vão se importar quando ouvirem a notícia fantástica que acabei de receber pelo telefone! Os martínis aquosos estão out, e refrigerantes de salsa estão in!”
“Refrigerante de salsa?”, disse Jerome franzindo as sobrancelhas. “Isto me parece horrível. Acho que vou continuar com os martínis aquosos.”
“Você não está me escutando”, disse Esmé. “Agora, refrigerantes de salsa são in. Você vai ter de sair agora mesmo e comprar algumas caixas.”
“Mas eu ia levar os ternos das crianças para o alfaiate hoje”, disse Jerome.
“Então você vai ter de mudar os seus planos”, disse Esmé, impaciente. “As crianças já têm o que vestir, mas nós não temos nenhum refrigerante de salsa.”
“Bem, eu não quero discutir”, disse Jerome.
“Então não discuta”, retorquiu Esmé. “E também não leve as crianças com você. O Bairro das Bebidas não é lugar para gente jovem. Bem, é melhor irmos andando, Jerome. Não quero chegar atrasada ao encontro com Sua Alteza do Arizona.”
“Mas você não quer passar algum tempo com os Baudelaire antes de começar o dia de trabalho?”, perguntou Jerome.
“Não em especial”, disse Esmé, e deu uma olhada rápida no relógio. “Vou só dizer bom-dia a eles. Bom dia. Bem, vamos, Jerome.”
Jerome abriu a boca como se tivesse mais alguma coisa a dizer, mas Esmé já estava marchando para fora do quarto, portanto ele apenas encolheu os ombros. “Um bom dia para vocês”, disse ele às crianças. “Há comida em todas as nossas cozinhas, então vocês podem preparar o seu almoço sozinhos. Sinto muito que os nossos planos não tenham dado certo, afinal.”
“Depressa!”, gritou Esmé já no corredor, e Jerome correu para fora do quarto.
As crianças ouviram os passos do seu tutor irem ficando mais e mais distantes a caminho da porta da frente.
“Bem”, disse Klaus quando já não dava mais para ouvi-los, “o que vamos fazer hoje?”
“Vinfrei”, disse Sunny.
“Sunny tem razão”, disse Violet. “É melhor a gente passar o dia tentando descobrir o que Gunther está tramando.”
“Como podemos saber o que ele está tramando”, disse Klaus, “se não sabemos nem mesmo onde ele pode estar”.
“Bem, acho melhor descobrir”, disse Violet. “Ele já tinha a vantagem injusta do elemento surpresa, e nós não queremos que ele tenha também a vantagem injusta de um bom esconderijo.”
“Esta cobertura tem uma porção de bons esconderijos”, disse Klaus. “São tantos quartos e salas!”
“Coundix”, disse Sunny, o que quer dizer alguma coisa como “Mas ele não pode estar na cobertura. Esmé o viu sair”.
“Bem, talvez ele tenha entrado de novo sorrateiramente”, disse Violet, “e neste momento esteja à espreita por aí.”
Os Baudelaire se entreolharam e depois olharam para a porta de Violet, meio que esperando ver Gunther na soleira, olhando para eles com os seus olhos muito, muito brilhantes.
“Se ele estivesse à espreita por aí”, disse Klaus, “não teria nos agarrado no instante em que os Squalor saíram?”
“Talvez”, disse Violet. “Se fosse este o seu plano.”
Os Baudelaire olharam para a soleira vazia de novo.
“Estou com medo”, disse Klaus.
“Ecrifi”, concordou Sunny.
“Eu também estou com medo”, admitiu Violet, “mas se ele está aqui na cobertura, é melhor a gente descobrir. Vamos ter de procurar pelo apartamento inteiro para ver se o encontramos.”
“Eu não quero encontrá-lo”, disse Klaus. “Em vez disso, vamos correr para baixo e ligar para o sr. Poe.”
“O sr. Poe está em um helicóptero, procurando os trigêmeos Quagmire”, disse Violet. “Quando ele voltar, vai ser tarde demais. Temos de descobrir o que Gunther está tramando – não só por nós, mas por Isadora e Duncan.”
A menção dos trigêmeos Quagmire, todos os três Baudelaire sentiram a sua determinação se endurecer, uma expressão que aqui significa “deram-se conta de que teriam de vasculhar a cobertura atrás de Gunther, mesmo sendo uma coisa assustadora para se fazer”. As crianças se lembraram de como Duncan e Isadora tinham trabalhado para salvá-los das garras de Olaf na Escola Preparatória Prufrock, fazendo absolutamente tudo o que podiam para ajudar os Baudelaire a escapar do plano sinistro de Olaf. Os Quagmire tinham saído sorrateiramente no meio da noite e se colocado em grave perigo. Os Quagmire tinham vestido disfarces, arriscando suas vidas a fim de tentar engambelar Olaf. E os Quagmire tinham feito muitas pesquisas e descobriram o segredo de C.S.C. – muito embora tivessem sido sequestrados antes que pudessem revelar o segredo aos Baudelaire. Violet, Klaus e Sunny pensaram nos dois valentes e leais trigêmeos e perceberam que teriam de ser igualmente valentes e leais, agora que tinham uma oportunidade de salvar os amigos.
“Você tem razão”, disse Klaus a Violet, e Sunny concordou com um aceno de cabeça. “Temos de vasculhar a cobertura. Mas é um lugar tão complicado! Eu me perdi só de tentar encontrar o banheiro à noite. Como poderemos procurar sem nos perdermos?”
“Hansel!”, disse Sunny.
Os dois Baudelaire mais velhos se entreolharam. Era raro Sunny dizer alguma coisa que os irmãos não podiam entender, mas esta parecia ser uma daquelas vezes.
“Você quer dizer que temos de desenhar um mapa?”, perguntou Violet.
Sunny sacudiu a cabeça. “Gretel!”, disse ela.
“Já é a segunda vez que não entendemos o que você falou”, disse Klaus. “Hansel e Gretel? O que quer dizer isso?”
“Oh!”, exclamou Violet de repente. “Hansel e Gretel quer dizer Hansel e Gretel – você sabe, aquelas duas crianças pouco inteligentes, naquele conto de fadas.”
“É claro”, disse Klaus. “O irmão e a irmã que insistiam em ficar perambulando pelo bosque sozinhos.”
“Deixando uma trilha de migalhas de pão”, disse Violet, pegando um pedaço de torrada na bandeja de café-da-manhã que Jerome trouxera para eles, “para não se perderem. Vamos esmigalhar esta torrada e deixar algumas migalhas em cada sala, assim saberemos que naquela já procuramos. Bem pensado, Sunny.”
“Blized”, disse Sunny modestamente, o que queria dizer algo como “Isto não foi nada” ou algo do gênero, e lamento dizer que no fim ela estava certa. Porque quando as crianças saíram vagando do quarto para a sala de estar, e a sala de jantar, e a sala de café-da-manhã, e a sala de lanche, e a sala de sentar, e a sala de ficar em pé, e o salão de baile, e o banheiro, e a cozinha, e aquelas salas que pareciam não ter nenhuma serventia, e outra vez de volta, deixando trilhas de migalhas de torrada por onde passavam, não encontraram Gunther em lugar algum. Elas procuraram nos armários de cada quarto de dormir e de cada cozinha, e até puxaram a cortina do chuveiro em cada banheiro para ver se Gunther não estava escondido atrás. Elas viram prateleiras de roupas nos armários dos quartos, latas de comida nos armários da cozinha e frascos de creme rinse no chuveiro, mas quando acabou a manhã e a própria trilha de migalhas dos Baudelaire os levou de volta ao quarto de Violet, as crianças tiveram de admitir que não tinham encontrado nada.
“Onde será que o Gunther pode estar escondido?”, perguntou Klaus. “Já procuramos por toda parte.”
“Talvez ele estivesse em movimento”, disse Violet. “Poderia ter estado em uma sala atrás de nós o tempo todo, pulando para esconderijos que já tínhamos conferido.”
“Acho que não”, disse Klaus. “Com certeza o teríamos ouvido, se estivesse batendo os pés por aí com aquelas botas ridículas. Não acho que ele tenha estado nesta cobertura desde a noite passada. Esmé insiste que ele saiu do apartamento, mas o porteiro insiste que ele não saiu. Isto não faz sentido.”
“Eu estive pensando nisso”, disse Violet. “Acho que pode fazer sentido. Esmé insiste que ele saiu da cobertura. O porteiro insiste que ele não saiu do edifício. Isto significa que ele poderia estar em qualquer dos outros apartamentos da Avenida Sombria 667.”
“Você tem razão”, disse Klaus. “Talvez ele tenha alugado um dos apartamentos em outro andar, como quartel-general para o seu último plano.”
“Ou talvez um dos apartamentos pertença a alguém da sua trupe”, disse Violet, e contou nos dedos aquelas pessoas terríveis. “O homem com mão de gancho, ou o careca com nariz comprido, ou aquele que não parece nem homem nem mulher.”
“Ou talvez aquelas duas mulheres horrendas com as caras brancas – aquelas que ajudaram a raptar os Quagmire – morem juntas aqui”, disse Klaus.
“Co”, disse Sunny, o que queria dizer algo como “Ou talvez Gunther tenha conseguido enganar um dos outros residentes da Avenida Sombria 667 para deixá-lo entrar no apartamento, e então ele amarrou todo mundo e está lá sentado, escondido na cozinha” ou algo do gênero.
“Se encontrarmos Gunther no edifício”, disse Violet, “então, pelo menos, os Squalor vão saber que ele é um mentiroso. Mesmo se não acreditarem que ele na verdade é o conde Olaf, ficarão muito desconfiados caso seja pego se escondendo em outro apartamento.”
“Mas como vamos descobrir?”, perguntou Klaus. “Não podemos simplesmente ficar batendo nas portas e pedindo para ver cada apartamento.”
“Nós não precisamos ver cada apartamento”, disse Violet. “Podemos ouvir.
Klaus e Sunny olharam confusos para a irmã por um momento, e então começaram a arreganhar um sorriso.
“Você está certa!”, disse Klaus. “Se descermos as escadas e ouvirmos a cada porta, talvez consigamos saber se Gunther está lá dentro.”
“Lorigo!”, gritou Sunny, o que queria dizer “O que estamos esperando? Vamos logo!”.
“Não tão depressa”, disse Klaus. “Descer todas aquelas escadas é uma longa viagem, e a gente já teve uma boa dose de caminhada – ou engatinhada no seu caso, Sunny. É melhor calçar os sapatos mais resistentes que temos, e levar também alguns pares de meias sobressalentes. Assim evitaremos as bolhas.”
“E seria bom levar um pouco de água”, disse Violet, “para não ficarmos com sede.”
“Lanche!”, gritou Sunny, e os órfãos Baudelaire partiram para o trabalho, tirando os pijamas e vestindo uma indumentária apropriada para descer escadas, calçando os seus sapatos mais resistentes e enfiando pares de meias sobressalentes nos bolsos.
Depois que Violet e Klaus se certificaram de que Sunny tinha amarrado os sapatos direito, as crianças saíram dos seus quartos e foram seguindo as migalhas corredor abaixo, através de uma sala de estar, passando por dois quartos de dormir, descendo mais um corredor e entrando na cozinha mais próxima, mantendo-se bem juntos o tempo todo para não se perderem um do outro na enorme cobertura. Na cozinha, encontraram algumas uvas, uma caixa de biscoitos e um pote de manteiga de maca, além de uma garrafa d’água que os Squalor usavam para fazer martínis aquosos mas que os Baudelaire usariam para saciar a sede durante a longa descida. Finalmente, saíram do apartamento de cobertura, passaram as portas deslizantes de elevador e pararam no alto da escadaria curva, sentindo-se mais como se estivessem prestes a escalar uma montanha e não descer escadas.
“Teremos de descer na ponta dos pés”, disse Violet, “para que possamos ouvir Gunther mas ele não possa nos ouvir.”
“E provavelmente teremos de cochichar”, cochichou Klaus, “para que possamos bisbilhotar sem que as pessoas possam nos bisbilhotar.”
“Philavem”, disse Sunny, o que queria dizer “Vamos indo”, e os Baudelaire foram indo, descendo na ponta dos pés a primeira curva da escadaria e parando para escutar junto à porta do apartamento logo abaixo da cobertura. Nada ouviram durante alguns segundos, mas então, muito claramente, ouviram uma mulher falando ao telefone.
“Bem, esta não é Gunther”, cochichou Violet. “Ele não é mulher.”
Klaus e Sunny assentiram e as crianças desceram na ponta dos pés a curva seguinte até o andar de baixo. Assim que chegaram à próxima porta ela se abriu de repente revelando um homem muito baixo de terno risca-de-giz. “Até mais ver, Avery!”, exclamou ele e, com um aceno de cabeça para as crianças, fechou a porta e começou a descer as escadas.
“Este também não é Gunther”, cochichou Klaus. “Ele não é tão baixo e, no momento, não se chama Avery.”
Violet e Sunny concordaram, e as crianças desceram na ponta dos pés a curva seguinte até o andar de baixo do andar de baixo. Pararam e escutaram junto àquela porta, e ouviram uma voz de homem exclamando “Mãe, vou tomar uma ducha!” e Sunny sacudiu a cabeça.
“Mineac”, cochichou ela, o que queria dizer “Gunther jamais tomaria uma ducha. Ele é imundo”.
Violet e Klaus concordaram, e as crianças desceram na ponta dos pés a curva seguinte, depois a seguinte, e a seguinte, e muitas mais depois disto, escutando a cada porta, cochichando rapidamente entre si e seguindo adiante. À medida que iam descendo e descendo a escadaria, começaram a ficar cansadas, como sempre acontecia quando estavam indo para o apartamento dos Squalor, ou voltando dele, mas desta vez ainda tinham algumas novas tribulações. As pontas dos pés ficaram cansadas de tanto andar na ponta dos pés. As gargantas ficaram roucas de tanto cochichar. Os ouvidos doíam de tanto ficar escutando junto a todas aquelas portas, e os queixos caíram de tanto balançar a cabeça concordando que nada do que ouviram soava como sendo Gunther. A manhã foi passando, e os Baudelaire desciam na ponta dos pés e escutavam, cochichavam e concordavam, e quando chegaram ao saguão do edifício parecia que todos os aspectos físicos dos órfãos Baudelaire estavam sofrendo de algum modo por causa da longa descida.
“Isto foi exaustivo”, disse Violet, sentando-se no primeiro degrau e passando a garrafa d’água para os outros. “Exaustivo e infrutífero.”
“Uva!”, disse Sunny.
“Não, não, Sunny”, disse Violet. “Eu não quis dizer que nós não temos nenhuma fruta. Só quis dizer que não descobrimos nada. Vocês acham que deixamos passar alguma porta?”
“Não”, disse Klaus, sacudindo a cabeça e passando a caixa de biscoitos para os outros. “Eu me certifiquei. Até contei os andares desta vez, para que pudéssemos conferir de novo na volta. Não são quarenta e oito, nem oitenta e quatro. São sessenta e seis, que por coincidência é a média desses dois números. Sessenta e seis andares e sessenta e seis portas, e nem um pio de Gunther atrás de nenhuma delas.”
“Eu não entendo”, disse Violet, infeliz. “Se ele não está na cobertura, e não está em nenhum dos outros apartamentos, e não saiu do edifício, onde poderia estar?”
“Talvez ele esteja na cobertura”, disse Klaus, “e nós simplesmente não o localizamos.”
“Bichui”, disse Sunny, o que queria dizer “Talvez ele esteja em um dos outros apartamentos, e nós simplesmente não o ouvimos”.
“Ou talvez ele tenha saído do edifício”, disse Violet, passando manteiga de maçã em um biscoito e dando a Sunny. “Podemos perguntar ao porteiro. Aí está ele.”
De fato, o porteiro estava em seu posto costumeiro e acabava de reparar nas três crianças exaustas sentadas no primeiro degrau da escada. “Olá”, disse ele, andando na direção delas e sorrindo embaixo da aba larga do seu chapéu. Uma pequena estrela-do-mar esculpida em madeira e uma garrafa de cola projetavam-se para fora das suas longas mangas. “Eu estava indo aplicar esta decoração praiana quando pensei ter ouvido alguém descendo as escadas.”
“Nós só estávamos pensando em almoçar aqui no saguão”, disse Violet, não querendo admitir que ela e os irmãos estiveram escutando atrás das portas, “e depois subir de volta.”
“Me desculpem, mas isto significa que vocês não podem voltar para a cobertura”, disse o porteiro, e encolheu os ombros dentro do seu casaco grande demais. “Vocês vão ter de ficar aqui no saguão. Afinal, as minhas instruções foram muito claras: vocês não podem voltar à cobertura dos Squalor antes do convidado sair. Deixei vocês subirem ontem à noite porque o sr. Squalor disse que o seu convidado provavelmente estava descendo, mas ele estava errado, pois Gunther não chegou a aparecer no saguão.”
“Você quer dizer que Gunther ainda não saiu do edifício?”, perguntou Violet.
“Claro que não”, disse o porteiro. “Fiquei aqui o dia todo e a noite toda, e não o vi sair. Garanto para vocês que Gunther não chegou a passar por esta porta.”
“Quando você dorme?”, perguntou Klaus.
“Eu bebo muito café”, respondeu o porteiro.
“Isto não faz nenhum sentido”, disse Violet.
“É claro que faz”, disse o porteiro. “O café contém cafeína, que é um estimulante químico. Os estimulantes mantêm a pessoa acordada.”
“Eu não quis dizer a parte sobre café”, disse Violet. “Eu quis dizer a parte sobre Gunther. Esmé... isto é, a sra. Squalor, está segura de que ele saiu da cobertura ontem à noite, enquanto estávamos no restaurante. Mas você está igualmente seguro de que ele não saiu do edifício. É um problema que parece não ter solução.”
“Todo problema tem a sua solução”, disse o porteiro. “Pelo menos, é isto o que diz um parceiro muito chegado meu. Só que às vezes leva um bom tempo para achar a solução – mesmo que ela esteja bem diante do seu nariz.”
O porteiro sorriu para os Baudelaire, que ficaram olhando enquanto ele caminhava para as portas deslizantes do elevador. Ele abriu a garrafa de cola, que espalhou por uma pequena área formando uma nódoa globular sobre uma das portas, depois segurou a estrela-do-mar de madeira contra a cola a fim de fixá-la. Colar coisas em uma porta não é uma coisa muito emocionante de assistir, e depois de um momento Violet e Sunny voltaram a atenção de novo para o seu almoço e o problema do desaparecimento de Gunther. Somente Klaus ficou olhando na direção do porteiro enquanto ele continuava a decorar o saguão. O Baudelaire do meio ficou olhando, e olhando, e olhando, e continuou olhando até depois que a cola secou e o porteiro voltou ao seu posto junto à porta. Klaus ficou encarando a decoração praiana que estava agora firmemente afixada a uma das portas de elevador porque agora, depois daquela manhã cansativa vasculhando a cobertura e daquela tarde exaustiva bisbilhotando nas escadas, se dera conta de que o porteiro estava com a razão. Klaus não desviou o rosto nem um tiquinho porque se dera conta de que a solução estava, realmente, bem diante do seu nariz.

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