quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Capítulo seis


A Escola Preparatória Prufrock atualmente está fechada. Permanece fechada há muitos anos, desde que a sra. Bass foi presa por assalto a banco, e se vocês viessem visitá-la agora, encontrariam um local vazio e silencioso. Se caminhassem no gramado, não veriam nenhuma criança correndo, como no dia da chegada dos Baudelaire. Se passassem pelo prédio das salas de aula, não ouviriam a voz monótona do sr. Remora contando uma história, e se passassem pelo auditório, não ouviriam os rangidos e guinchos do vice-diretor Nero ao violino. Se vocês fossem à escola e se pusessem debaixo do arco da entrada, erguendo os olhos para as letras pretas do nome do colégio e seu lema austero (“austero” aqui significa “severo e rigoroso”), não ouviriam mais que o farfalhar da brisa perpassando na relva marrom e desigual.
Em suma, se hoje vocês fossem visitar a Escola Preparatória Prufrock, encontrariam o colégio mais ou menos como os Baudelaire o encontraram bem cedo na manhã seguinte ao concerto, quando acordaram e caminharam até o prédio administrativo para falar ao vice-diretor sobre o instrutor Genghis. As três crianças estavam tão ansiosas para falar com ele que se levantaram da cama cedíssimo, e enquanto atravessavam o gramado tinham a impressão de que todas as pessoas na Prep Prufrock haviam sumido de mansinho no meio da noite, deixando os órfãos sós entre os edifícios em forma de lápides. Era uma sensação lúgubre, por isso Violet e Sunny espantaram-se quando Klaus rompeu o silêncio com uma gargalhada repentina.
“Está rindo de quê?”, perguntou Violet.
“Acabo de pensar numa coisa”, disse Klaus. “É que estamos indo para o prédio administrativo sem entrevista marcada. Não vamos poder usar os talheres nas refeições.”
“Não vejo qual é a graça!”, disse Violet. “Imagine se nos derem mingau de aveia na primeira refeição. Vamos ter que comer com as mãos em concha.”
“Uht”, disse Sunny, querendo dizer: “Podem crer, não é assim tão difícil”, o que levou as duas irmãs a aderir à gargalhada de Klaus. Claro que não tinha a menor graça que Nero impusesse castigos terríveis como esse, mas a ideia de tomar mingau de aveia com as mãos provocou um risinho nos três.
“Ovos fritos, já pensou?”, disse Violet. “Já pensou se nos servem ovos fritos com a gema mole?”
“Ou panquecas com calda!”, disse Klaus.
“Sopa!”, gritou Sunny, e os três desataram a rir novamente.
“Vocês se lembram do piquenique?”, perguntou Violet. “Nós tínhamos resolvido fazer um piquenique no rio Rutabaga, e papai ficou tão empolgado com a comida que se esqueceu de levar talheres!”
“Claro que me lembro!”, disse Klaus. “Tivemos que comer toda aquela quantidade de camarão agri-doce com as mãos!”
“Grudento!”, disse Sunny com as mãos para o alto.
“Nem me fale”, concordou Violet. “Depois fomos lavar as mãos no rio e descobrimos um lugar perfeito para experimentar a vara de pesca que eu tinha inventado.”
“E eu fui colher amoras com mamãe”, disse Klaus.
“Iruoz”, disse Sunny, o que significava: “E eu fiquei roendo pedras”, ou algo do gênero.
As crianças então pararam de rir, ao lembrar-se daquele piquenique que, embora não tivesse acontecido tanto tempo antes, para elas parecia pertencer a um passado remoto. Depois do incêndio, as crianças souberam que seus pais tinham morrido, é claro, no entanto para eles parecia simplesmente que haviam partido para algum lugar e não demorariam a estar de volta. Agora, ao recordar a luz do sol se refletindo nas águas do rio Rutabaga e as risadas de seus pais diante da sujeira que resultou de comerem o camarão agridoce sem talheres, aquela tarde pareceu tão distante que eles então se deram conta de que os pais jamais voltariam.
“Quem sabe um dia a gente volta lá”, disse Violet baixando a voz. “Quem sabe um dia a gente volta para olhar o rio novamente, e pescar, e colher amoras.”
“Um dia, talvez”, disse Klaus; entretanto os Baudelaire todos sabiam que, ainda que algum dia voltassem ao rio Rutabaga – o que, diga-se de passagem, não fizeram –, não seria a mesma coisa. “Um dia, talvez, mas enquanto isso precisamos falar com Nero. Vamos, aí está o prédio administrativo.”
Os Baudelaire deram um suspiro e entraram no edifício, o que implicava renunciar ao uso dos talheres na Prep Prufrock. Subiram as escadas até o nono andar e bateram à porta de Nero, surpresos de não o ouvir ensaiando ao violino.
“Entrem, se necessário”, disse Nero, e os órfãos entraram. Nero estava de costas para a porta, olhando para o seu reflexo na vidraça enquanto prendia com um elástico um de seus tufos esparsos de cabelo. Quando terminou, pôs as mãos para o alto. “Senhoras e senhores, o vice-diretor Nero!”, anunciou, e as crianças começaram a aplaudir, em obediência. Nero voltou-se, num giro ultra-rápido. “Só esperava ouvir uma pessoa aplaudindo”, disse com severidade. “Violet e Klaus, vocês não têm licença para subir até aqui. Sabem muito bem disso.”
“Peço que nos desculpe, senhor”, disse Violet, “mas nós três temos uma coisa muito importante para discutir com o senhor.”
“Nós três temos uma coisa muito importante para discutir com o senhor”, arremedou Nero no tom hostil habitual. “Deve ser mesmo muito importante, para vocês sacrificarem o privilégio de usar talheres. Vamos, digam lá. Ainda preciso ensaiar bastante para o meu próximo concerto, não tenho tempo para desperdiçar.”
“É coisa rápida”, Klaus prometeu. Fez uma pausa antes de prosseguir, o que é sempre bom quando se têm que escolher as palavras com o máximo cuidado. “Estamos preocupados”, continuou, escolhendo as palavras com todo o cuidado, “com o fato de o conde Olaf ter, de alguma forma, conseguido entrar na Prep Prufrock.”
“Absurdo”, disse Nero. “Agora saiam e me deixem ensaiar ao violino.”
“Talvez não seja absurdo”, disse Violet. “Olaf é um mestre do disfarce. Ele poderia estar bem debaixo dos nossos narizes sem que percebêssemos.”
“A única coisa debaixo do meu nariz”, disse Nero, “é minha boca, e ela está mandando vocês se retirarem.”
“O conde Olaf poderia ser o sr. Remora”, disse Klaus. “Ou a sra. Bass.”
“O sr. Remora e a sra. Bass ensinam neste colégio há mais de quarenta e sete anos”, disse Nero com voz de pouco-caso. “Eu perceberia se um deles estivesse disfarçado.”
“E as pessoas que trabalham no refeitório?”, perguntou Violet. “Elas usam sempre aquelas máscaras de ferro.”
“Por motivos de segurança, não por disfarce”, disse Nero. “Vocês, seus pirralhos, andam cheios de ideias idiotas. Não demora muito, menina, você vai estar dizendo que o conde Olaf se disfarçou no seu namoradinho. Como se chama, o trigêmeo?”
Violet enrubesceu. “Duncan Quagmire não é meu namorado”, disse, “e tampouco é o conde Olaf.”
Mas Nero estava muito absorvido em fazer piadinhas bobas para prestar atenção no que ela dizia. “Quem sabe?”, ele perguntou e tornou a rir. “Hi, hi, hi. Talvez ele tenha se disfarçado em Carmelita Spats.”
“Ou em mim!”, ouviu-se uma voz que vinha da porta de entrada. Os Baudelaire viraram-se e deram com o instrutor Genghis ali parado, com uma rosa vermelha na mão e dirigindo-lhes um olhar feroz.
“Ou no senhor!”, disse Nero. “Hi, hi, hi. Imaginem esse tal de Olaf querendo se fazer passar pelo melhor professor de ginástica do país.”
Klaus olhou para o instrutor Genghis, e pensou em toda a confusão que ele havia causado, seja como Stefano, assistente do tio Monty, ou como capitão Sham, ou Shirley, ou qualquer uma das outras falsas identidades que usara. Klaus teve uma vontade louca de dizer: “Você é o conde Olaf!”, porém sabia que, se os Baudelaire fingissem estar sendo enganados pelo instrutor Genghis, as chances seriam maiores de que Olaf acabasse revelando seu plano, qualquer que fosse. Tratou então de engolir a língua (expressão que aqui significa que Klaus “segurou seus pensamentos e ficou quieto”), ou seja, não engoliu de verdade a língua, mas abriu a boca e riu. “Isso, sim, seria engraçado!”, disse hipocritamente. “Imagine só se o senhor fosse o conde Olaf! Não seria engraçado, instrutor Genghis? Então na verdade o seu turbante não passaria de um disfarce!”
“Meu turbante?”, disse o instrutor Genghis. Seu olhar feroz desarmou-se na mesma hora em que ele percebeu – incorretamente – que Klaus estava brincando. “Um disfarce? Ho, ho, ho!”
“Hi, hi, hu”, Nero riu.
Violet e Sunny logo compreenderam o que Klaus estava fazendo, e seguiram seu exemplo.
“É isso aí, Genghis”, exclamou Violet, como se estivesse brincando, “tire o seu turbante e nos mostre a sobrancelha única que você tem escondida! Ha, ha, ha!”
“Crianças, vocês três são mesmo muito engraçados!”, exclamou Nero. “Eu diria que parecem três comediantes profissionais!”
“Volasocks!”, gritou Sunny, mostrando os quatro dentes num sorriso hipócrita.
“Tem razão”, disse Klaus. “Sunny tem razão! Se o senhor de fato fosse Olaf disfarçado, então os tênis de corrida estariam tapando sua tatuagem!”
“Hi, hi, hi”, Nero riu. “Vocês, crianças, são como três palhaços!”
“Ho, ho, ho!”, aprovou o conde Olaf.
“Ha, ha, ha”, saiu de Violet, que já começava a sentir um certo mal-estar por estar fingindo todas aquelas risadas. Erguendo os olhos para Genghis, e forçando tanto um sorriso que seus dentes chegaram a doer, ela ficou na ponta dos pés e tentou alcançar o turbante. “Vou arrancar isso”, disse, sempre no mesmo tom de brincadeira, “e expor a sua enorme sobrancelha única!”
“Hi, hi, hi”, divertiu-se Nero, balançando com as risadas seus rabichos-de-cavalo. “Vocês parecem três macaquinhos amestrados!”
Klaus jogou-se ao chão e agarrou um dos pés de Genghis. “E eu vou arrancar seus tênis”, disse, como se também continuasse no mesmo tom de brincadeira, “e expor a sua tatuagem!”
“Hi, hi, hu”, divertia-se Nero. “Vocês são três...”
Os Baudelaire não chegaram a ouvir três o quê eles eram, porque o instrutor Genghis estendeu ambos os braços e segurou Klaus com uma das mãos e Violet com a outra. “Ho, ho, ho!”, riu, mas parou na mesma hora. “Evidentemente”, disse num tom de voz que de repente se tornou sério, “não posso tirar os tênis de corrida, porque estive me exercitando e meus pés suaram e estão cheirando mal, e não posso tirar meu turbante por motivos religiosos.”
“Hi, hi...”, Nero parou de rir e tornou-se, ele próprio, muito sério. “Ora, instrutor Genghis”, disse, “não lhe pediríamos que violasse suas crenças religiosas, e com toda a certeza não quero seus pés fedendo no meu gabinete.”
Violet debateu-se para alcançar o turbante e Klaus debateu-se para tirar um dos tênis do instrutor vilão, entretanto Genghis segurou-os firme.
“Droc!”, gritou Sunny.
“Acabou-se a brincadeira!”, anunciou Nero. “Obrigado por terem alegrado minha manhã, crianças. Até logo, e façam bom proveito de sua refeição matinal sem talheres! Bem, instrutor Genghis, em que lhe posso ser útil?”
“É o seguinte, Nero”, disse Genghis, “só queria lhe dar esta rosa – um pequeno presente de congratulações pelo maravilhoso concerto com que você nos brindou a noite passada!”
“Ora, obrigado”, disse Nero tomando a rosa da mão de Genghis e aspirando o seu perfume. “Eu estive maravilhoso, não?”
“Você estava perfeito!”, disse Genghis. “Na primeira vez que tocou sua sonata, comoveu-me profundamente. Na segunda, meus olhos se encheram de lágrimas. Na terceira, solucei incontidamente. Na quarta, sofri uma convulsão emocional. Na quinta...”
Os Baudelaire não ouviram o que se passou na quinta vez, porque a porta de Nero bateu e fechou-se atrás deles. Entreolharam-se desanimados. Os Baudelaire tinham chegado bastante perto de revelar o disfarce do instrutor Genghis, mas chegar perto não bastava. Saíram do prédio administrativo arrastando os passos em silêncio e assim seguiram até o refeitório. Era evidente que Nero já havia passado um recado para os empregados com máscaras de ferro, porque quando Violet e Klaus chegaram ao final da fila eles se recusaram a dar-lhes talheres. Naquele dia, a primeira refeição da Prep Prufrock não era mingau de aveia, porém Violet e Klaus sabiam que comer ovos mexidos com as mãos não ia ser muito agradável.
“Ah, não se preocupem com isso”, disse Isadora quando as crianças se sentaram melancólicas ao lado dos Quagmire. “Veja só, Klaus e eu nos revezaremos para usar os meus talheres, e você reveza com Duncan, Violet. Agora nos contem como foi tudo no gabinete de Nero.”
“Não foi muito bem”, reconheceu Violet. “O instrutor apareceu logo depois de nós, e não queríamos que ele percebesse que sabemos quem ele realmente é.”
Isadora puxou do bolso seu caderno e leu em voz alta para os amigos:

“Que sorte seria se Genghis, o vilão,
Fosse atropelado por um caminhão”.

“Este é o meu poema mais recente”, disse ela. “Sei que não ajuda, mas achei que, de qualquer modo, vocês poderiam gostar de ouvi-lo.”
“Pode crer que gostei”, disse Klaus. “E não resta dúvida que seria muita sorte se isso acontecesse. Mas é muito difícil.”
“Tudo bem, pensaremos num outro plano”, disse Duncan, passando o seu garfo para Violet.
“Assim espero”, disse Violet. “O conde Olaf não costuma demorar muito para pôr em execução seus projetos maléficos.”
“Cosbal!”, gritou Sunny.
“Sunny está querendo dizer 'Eu tenho um plano'?”, perguntou Isadora. “Estou tentando captar o código dela.”
“Acho que o sentido é mais próximo de ‘Aí vem Carmelita Spats'“, disse Klaus, apontando para um ponto próximo no refeitório. De fato, Carmelita Spats vinha caminhando na direção da mesa deles, com um grande sorriso presunçoso no rosto.
“Olá, bisbórrias!”, disse ela. “Tenho um recado do instrutor Genghis para vocês. Ele me escolheu como Mensageira Especial por ser a garota mais engraçadinha, mais bonitinha e mais simpática de todo o colégio.”
“Ora, pare de se gabar, Carmelita”, disse Duncan.
“Você está com ciúmes”, respondeu Carmelita, “só porque o instrutor Genghis gosta mais de mim que de você.”
“Estou pouco ligando para o instrutor Genghis”, disse Duncan. “Dê logo o seu recado e nos deixe em paz.”
“O recado é o seguinte”, disse Carmelita. “Os três órfãos Baudelaire devem comparecer ao gramado da frente, logo depois do jantar.”
“Depois do jantar?”, disse Violet. “Depois do jantar temos que ir ao recital de violino de Nero.”
“O recado é esse”, insistiu Carmelita. “Ele disse que, se vocês não aparecerem, vão ter sérios problemas, por isso eu, se fosse você, Violet...”
“Você não é Violet, graças a Deus”, interrompeu Duncan. Sei que não é educado interromper uma pessoa que está falando, mas às vezes, quando a pessoa é muito desagradável, não dá para a gente se conter. “Obrigado pelo recado. Passe bem.”
“A tradição”, disse Carmelita, “manda que o Mensageiro Especial receba uma gratificação depois que ele termina de dar o recado.”
“Se você não nos deixar em paz”, disse Isadora, “vamos gratificá-la despejando ovos mexidos na sua cabeça.”
“Você não passa de uma bisbórria ciumenta”, Carmelita resmungou, mas acabou deixando os Baudelaire e os Quagmire em paz.
“Não se preocupem”, disse Duncan quando se certificou de que Carmelita não poderia ouvi-lo. “Ainda é manhã. Temos o dia todo para pensar no que fazer. Coma outra colherada de ovos, Violet.”
“Não, obrigada”, disse Violet. “Não estou com muito apetite.” E era verdade. Nenhum dos Baudelaire estava com apetite. Ovos mexidos nunca foram o prato predileto dos irmãos, sobretudo de Sunny, que preferia comida em que pudesse fincar os dentes com vontade, porém a falta de apetite deles não tinha nada a ver com os ovos. Tinha a ver com o instrutor Genghis, é claro, e com o recado que ele lhes mandara. Tinha a ver com o encontro que deveriam ter com Genghis, depois do jantar, sozinhos. Duncan tinha razão, ainda era manhã e havia o dia todo para pensar no que fazer. Só que não dava a sensação de ser manhã. Sentados no refeitório, Violet, Klaus e Sunny não voltaram a tocar na refeição, e tinham a impressão de que o sol já havia se posto. Tinham a impressão de que a noite já caíra, e o instrutor Genghis já os estava esperando. Ainda era manhã, e os órfãos Baudelaire já se sentiam nas garras do conde Olaf.

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