segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Capítulo quatro


Todos vocês sabem, tenho certeza disso, que se houver um espelho por perto é quase impossível alguém não se olhar nele por pelo menos um instante. Apesar de estarmos fartos de conhecer nossa aparência, gostamos de simplesmente dar uma olhada em nosso reflexo, nem que seja só para conferir se estamos bem. Enquanto esperavam do lado de fora do escritório o encontro com seu novo tutor, os órfãos Baudelaire viram-se num espelho pendurado na parede do hall e perceberam de imediato que não estavam tão bem. Pareciam cansados e famintos. O cabelo de Violet achava-se todo coberto de pedacinhos de casca de árvore. Os óculos de Klaus estavam tortos, mal posicionados, expressão que aqui quer dizer “tombados para um lado por ele ter passado a manhã inteira inclinado sobre as toras”. E havia pedacinhos de madeira presos entre os quatro dentes de Sunny por ela os ter usado como decorticadores. Por trás deles, refletida no espelho, havia uma pintura de uma praia; o quadro, que estava pendurado na parede oposta, só contribuiu para piorar o mal-estar deles, porque praia sempre lhes trazia à lembrança aquele dia terrível em que os três irmãos foram se divertir à beira-mar e de repente receberam do sr. Poe a notícia de que seus pais haviam morrido. As crianças olharam para os seus próprios reflexos no espelho, depois para a paisagem de praia por trás delas, e foi quase insuportável pensar em tudo o que lhes acontecera desde então.
“Se naquele dia na praia alguém tivesse me dito”, falou Violet, “que em pouco tempo eu estaria morando na Serraria Alto-Astral, eu diria que essa pessoa estava maluca.”
“Se naquele dia alguém tivesse me dito”, falou Klaus, “que em pouco tempo eu me veria perseguido por uma criatura gananciosa e perversa chamada conde Olaf, eu diria que essa pessoa era doida varrida.”
“Wora”, falou Sunny, querendo dizer algo como: “Se naquele dia alguém tivesse me dito que em pouco tempo eu estaria usando meus dentes para descascar árvores, eu diria que essa pessoa era psico-neuroticamente perturbada”.
Os órfãos olharam consternados para seus reflexos, e seus reflexos consternados lhes retribuíram o olhar. Os Baudelaire passaram alguns momentos pensando nos misteriosos caminhos que suas vidas estavam tomando, e estavam tão profundamente mergulhados em seus pensamentos que chegaram a dar um pequeno salto quando alguém falou.
“Vocês devem ser Violet, Klaus e Sunny Baudelaire”, disse esse alguém, e as crianças se voltaram para o lugar de onde vinha a voz e depararam com um homem muito alto de cabelos bem curtos. Ele vestia um colete azul-claro e segurava um pêssego. Sorriu e caminhou em direção aos irmãos, mas franziu a testa ao chegar mais perto. “Ei, vocês estão cobertos de lascas de casca de árvore”, disse. “Espero que não tenham se aproximado da serraria. É um lugar muito perigoso para crianças pequenas.”
Violet olhou para o pêssego e ficou na dúvida se teria coragem de pedir uma mordida. “Estivemos trabalhando lá a manhã toda”, disse.
O homem fechou a cara. “Trabalhando lá?”
Klaus olhou para o pêssego e teve que se conter para não arrancá-lo da mão do fulano. “Sim”, disse. “Recebemos suas instruções e pegamos direto no trabalho. Hoje foi justamente o dia de trabalhar com toras.”
O homem coçou a cabeça. “Instruções?”, perguntou. “Do que é que vocês estão falando?”
Sunny olhou para o pêssego e o máximo de autodomínio que conseguiu foi se conter para não dar um bote e enfiar os dentes na fruta. “Molub!”, gritou, o que provavelmente significava: “Estamos falando do bilhete datilografado que nos mandou ir trabalhar na serraria!”, ou algo parecido.
“Bem, não entendo como três pessoas tão jovens como vocês foram parar na serraria, mas peço que aceitem minhas desculpas; e permitam-me dizer que isso não acontecerá de novo. Gente, vocês são crianças, pelo amor de Deus! Serão tratados como membros da família!”
Os órfãos se entreolharam. Será que as horríveis experiências em Paltryville não teriam passado de um equívoco? “O senhor quer dizer que não vamos mais precisar descascar troncos de árvores?”, perguntou Violet.
“Claro que não”, disse o homem. “Não posso acreditar que tenham sequer deixado vocês entrarem lá. Vou falar sobre isso com o novo tutor de vocês, imediatamente.”
“Não é o senhor o nosso novo tutor?”, perguntou Klaus.
“Não”, disse o homem. “Peço desculpas por não me ter apresentado. Meu nome é Charles, e é um prazer ter vocês três aqui na Serraria Alto-Astral.”
“O prazer é nosso em estar aqui”, mentiu Violet educadamente.
“Acho difícil acreditar nisso”, disse Charles, “sabendo como vocês foram forçados a trabalhar na serraria, mas deixemos isso para trás. Ficou no passado e nós vamos começar do presente. Que tal um pêssego?”
“Eles já almoçaram!”, exclamou uma voz tonitruante; os órfãos fizeram um rápido giro de cento e oitenta graus e encararam fixamente o dono da voz. Era bem baixo, mais baixo do que Klaus, e vestia um terno de um tecido verde-escuro brilhante que o deixava mais parecido com um réptil do que com uma pessoa. O que mais atraíra o olhar deles, entretanto, fora o rosto – ou melhor, a nuvem de fumaça que estava cobrindo o rosto daquele homem. Ele fumava um charuto cuja fumaça cobria-lhe toda a cabeça. A nuvem de fumaça deixou os Baudelaire na maior curiosidade; queriam saber como era o rosto dele, e talvez vocês tenham a mesma curiosidade, mas terão que levar essa curiosidade para o túmulo, pois vou lhes dizer agora, antes de prosseguir esta narrativa, que os Baudelaire jamais viram o rosto desse homem, e eu tampouco, e vocês também ficarão sem o ver.
“Oh, como está, senhor?”, disse Charles. “Acabei de conhecer os meninos Baudelaire. O senhor sabia que eles haviam chegado?”
“Claro que sabia que eles haviam chegado”, disse o homem com rosto de fumaça. “Não sou nenhum idiota.”
“Não, claro que não”, disse Charles. “Mas o senhor foi informado de que os puseram de serviço na serraria? E logo hoje, dia de trabalhar com toras! Eu estava acabando de explicar-lhes que foi um terrível equívoco...”
“Não foi um equívoco”, disse o homem. “Não cometo equívocos, Charles. Não sou nenhum idiota.” Ele se virou de tal modo que a nuvem de fumaça ficou bem à frente das crianças. “Olá, órfãos Baudelaire. Achei que devíamos nos ver, vocês e eu.”
“Batex!”, gritou Sunny, o que provavelmente significava: “Mas nós não estamos nos vendo!”.
“Não tenho tempo para discutir isso”, disse o homem. “Então vocês já conheceram Charles. Ele é meu sócio. Dividimos tudo meio a meio, o que me parece justo. Vocês não acham?”
“Acho que sim”, disse Klaus. “Não entendo muito do negócio de serraria.”
“É justo, sim, não resta dúvida”, disse Charles.
“Pois bem”, disse o homem, “também quero dar a vocês três um trato justo. Soube do que aconteceu a seus pais, foi realmente um horror. E também soube tudo sobre o tal conde Olaf, que tem jeito de ser um estúpido de marca maior, e sobre aquelas pessoas esquisitas que trabalham para ele. Por isso, quando o sr. Poe entrou em contato comigo, pensei numa solução: tentarei assegurar que o conde Olaf e seus comparsas jamais cheguem perto de vocês, e vocês trabalharão na minha serraria até atingirem a maioridade e tiverem a posse de todo aquele dinheiro. É ou não é um trato justo?”
Os órfãos Baudelaire não responderam, porque lhes pareceu que a resposta era óbvia. Num trato justo, como todo mundo sabe, as duas partes oferecem uma à outra algo que tenha mais ou menos o mesmo valor. Se você estivesse chateado de brincar com seu kit de química e o oferecesse a seu irmão em troca do carrinho de bombeiros dele, seria um trato justo. Se alguém me oferecesse sair clandestinamente do país num barco a vela em troca de ingressos gratuitos para um show de patinação no gelo, seria um trato justo. Mas trabalhar durante anos numa serraria em troca de o proprietário tentar manter o conde Olaf à distância é um trato extremamente injusto, e as três crianças sabiam muito bem disso.
“Ora, senhor”, disse Charles, com um sorriso nervoso para os Baudelaire. “O senhor não pode estar falando sério. Serraria não é lugar para crianças pequenas trabalharem.”
“Claro que é”, disse o homem. Levou uma das mãos para dentro da fumaça a fim de aliviar uma coceira em alguma parte de seu rosto. “É um modo de ensinar-lhes responsabilidade. Ensinar-lhes o valor do trabalho. Ensinar-lhes como fazer tábuas bem aplainadas com a madeira das árvores.”
“Bem, o senhor deve estar certo”, disse Charles, dando de ombros.
“Poderíamos ler sobre todas essas coisas”, disse Klaus, “e aprender tudo isso nos livros.”
“Isso é verdade”, disse Charles. “Eles poderiam estudar na biblioteca. Parecem muito bem comportados, e estou certo de que não criariam nenhum problema.”
“Essa sua biblioteca!”, disse o homem rispidamente. “Um absurdo! Não deem atenção ao Charles, crianças. Meu sócio insistiu em que criássemos uma biblioteca para os empregados, e eu deixei. Mas não é algo que substitua o trabalho esforçado.”
“Por favor, senhor”, pediu Violet, “ao menos deixe que nossa irmãzinha fique no dormitório. Ela ainda é um bebê.”
“Propus a vocês um acordo muito bom”, disse o homem. “Garanto que, enquanto ficarem do lado de dentro do portão, esse conde Olaf não chegará perto de vocês. E lembrem-se que estou dando de lambuja um lugar onde dormir, um jantar quentinho e uma goma de mascar no almoço. Tudo o que vocês precisam dar em troca são uns poucos anos de trabalho. Parece-me um acordo muito bom. Bem, foi um prazer conhecê-los. A menos que vocês tenham alguma pergunta a fazer, vou me retirar agora. Minha pizza está esfriando, e se há uma coisa que eu detesto é comer o almoço frio.”
“Tenho uma pergunta”, disse Violet, embora na verdade ela tivesse muitas perguntas. A maioria começava com “Como o senhor pode...” Como o senhor pode obrigar crianças pequenas a trabalhar numa serraria? era uma delas. Como o senhor pode tratar-nos de forma tão horrível, depois de tudo por que passamos? era outra. E ainda Como o senhor pode pagar seus empregados com tíquetes em vez de dinheiro? E Como o senhor pode nos dar só um chiclete para almoço? e Como o senhor pode aguentar ter uma nuvem de fumaça a cobrir o seu rosto?. Porém não parecia conveniente fazer nenhuma dessas perguntas, pelo menos não em voz alta. Violet então encarou o seu tutor, fixando o olhar na nuvem, e perguntou: “Qual é o seu nome?”.
“Não se preocupe com meu nome”, disse o homem. “De qualquer forma, ninguém é capaz de pronunciá-lo. Chame-me simplesmente de Senhor.”
“Levarei as crianças até a porta, Senhor”, disse Charles rapidamente, e despedindo-se com um aceno de mão o proprietário da Serraria Alto-Astral retirou-se. Nervoso, Charles esperou um momento para ter certeza de que Senhor já se afastara o suficiente. Voltou-se então para os garotos e estendeu-lhes o pêssego. “Não liguem para o que ele disse sobre vocês já terem almoçado”, falou. “Tomem este pêssego.”
“Oh, obrigado”, disse Klaus, e mais que depressa dividiu o pêssego com suas irmãs, dando o pedaço maior para Sunny porque ela nem ao menos se servira do chiclete. Os Baudelaire devoraram o pêssego; e em circunstâncias normais não teria sido educado comer algo tão depressa e tão ruidosamente, sobretudo diante de alguém que eles mal conheciam. No entanto, a presente circunstância nada tinha de normal, de forma que até um perito em boas maneiras haveria de desculpá-los pela voracidade.
“Querem saber de uma coisa?”, disse Charles. “Por me parecerem ser crianças tão legais, e porque trabalharam tão pesado hoje, vou fazer algo para vocês. Adivinhem o quê?”
“Falar com Senhor”, disse Violet, enxugando o sumo do pêssego que grudara no seu queixo, “e convencê-lo de que não deveríamos trabalhar na serraria.”
“Não é bem isso”, admitiu Charles. “Não adiantaria nada. Ele não me atenderia.”
“Mas você é sócio dele”, assinalou Klaus.
“Isso não importa”, respondeu Charles. “Uma vez que Senhor toma uma decisão, a decisão está tomada. Sei que às vezes ele é um pouco mesquinho, mas vocês têm que desculpá-lo. Passou uma infância terrível. Entendem?”
Violet olhou para o quadro da praia e tornou a pensar naquele dia pavoroso do passeio à beira-mar. “Entendo, sim”, suspirou ela. “Entendo muito bem. Acho que eu também estou vivendo uma infância terrível.”
“Bem, sei o que vai fazer vocês se sentirem melhor”, disse Charles, “pelo menos um pouquinho que seja. Deixem-me mostrar a biblioteca antes de vocês voltarem ao trabalho. Depois podem visitá-la sempre que quiserem. Venham comigo, fica no fundo do corredor.”
Charles seguiu à frente dos Baudelaire e atravessou o corredor; ainda que logo fossem voltar ao trabalho, e ainda que lhes tivessem oferecido o menos justo dos acordos já oferecidos a crianças, os três irmãos se sentiram um pouco melhor. As bibliotecas sempre tinham esse efeito de fazê-los se sentir melhor, fosse a biblioteca do tio Monty com livros sobre répteis, ou a biblioteca da tia Josephine com livros de gramática, ou a da juíza Strauss com livros jurídicos, ou, e sobretudo, a biblioteca de seus pais com toda a sorte de livros – hoje todos queimados, desgraçadamente. Saber que poderiam ler algo já foi bastante para que os órfãos Baudelaire sentissem que poderia haver uma luz em suas vidas tenebrosas. No final do corredor ficava uma portinha; Charles parou ao chegar a ela, sorriu para os garotos e abriu-a.
A biblioteca era uma sala ampla, arrumada com elegantes estantes de madeira e sofás que pareciam confortáveis, onde as pessoas podiam sentar-se para desfrutar a leitura. Numa das paredes tinha uma série de janelas através das quais entrava luz bastante para a leitura, e em outra parede estavam enfileiradas pinturas de paisagens, ideais para descanso dos olhos. Ao entrar na sala, os Baudelaire fizeram um exame do que havia à sua volta. Mas não se sentiram melhor de maneira alguma.
“Onde estão os livros?”, perguntou Klaus. “Todas essas estantes elegantes inteiramente vazias!...”
“Esse é o único defeito da biblioteca”, admitiu Charles. “Senhor não quis me dar dinheiro para comprar livros.”
“Você quer dizer que é uma biblioteca sem nenhum livro?”, perguntou Violet.
“Com apenas três”, disse Charles, e andou até a estante mais afastada. lá, na prateleira de baixo, viam-se três livros isolados. “Sem dinheiro, é claro, ficou difícil comprar livros, mas houve três doações. Senhor doou o seu livro A história da Serraria Alto-Astral. O prefeito de Paltryville doou seu livro A Constituição de Paltryville. E este aqui é Ciência ocular avançada, doado por uma figura bastante respeitada, Orwell, oftalmologista residente na cidade.”
Charles apanhou os três livros, para que os Baudelaire vissem cada um deles, e as crianças não despregaram os olhos dos volumes, demonstrando aflição e medo. Na capa de A história da Serraria Alto-Astral tinha, um retrato de Senhor, com uma nuvem de fumaça cobrindo seu rosto. A Constituição de Paltryville tinha uma foto da agência dos correios de Paltryville, com o sapato velho pendurado no topo do mastro que ficava na fachada. Porém foi a capa de Ciência ocular avançada que deixou os Baudelaire de olhos esbugalhados.
Vocês já devem ter ouvido falar – muitas vezes, aposto – que não se deve julgar um livro pela capa. Mas assim como é difícil acreditar que um homem que não é médico usa uma máscara cirúrgica e uma peruca branca possa revelar-se uma pessoa encantadora, para os meninos era difícil acreditar que Ciência ocular avançada pudesse trazer-lhes algo além de problemas. A palavra “ocular”, talvez vocês não saibam, significa “relativo ao olho”, mas, mesmo que não soubessem, poderiam ter imaginado pela capa. Pois lá estava uma imagem que os meninos reconheceram de imediato. Reconheceram por tê-la visto em pesadelos e na vida real. Era a imagem de um olho, e os Baudelaire logo reconheceram que se tratava da marca do conde Olaf.

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