quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Capítulo quatro


Naquela noite, as crianças Baudelaire sentaram à mesa com tia Josephine e jantaram com um buraco frio no estômago. Metade do buraco se devia ao caldo de lima gelado preparado por tia Josephine. Mas a outra metade – se é que era apenas metade – se devia ao fato de saberem que o conde Olaf voltara a fazer parte da vida delas.
“Aquele capitão Sham é sem dúvida uma pessoa encantadora”, disse tia Josephine, pondo um pedaço de casca de lima na boca. “Deve se sentir muito só, tendo se mudado para uma nova cidade e depois perdendo uma perna. Poderíamos convidá-lo para um jantar.”
“Nós já lhe dissemos mais de uma vez, tia Josephine”, disse Violet. “Ele não é o capitão Sham. É o conde Olaf disfarçado.”
“Basta dessas asneiras”, disse tia Josephine. “O sr. Poe me contou que o conde Olaf tem uma tatuagem no tornozelo esquerdo e uma única sobrancelha acima dos olhos. O capitão Sham não tem o tornozelo esquerdo e só tem um olho. Não posso acreditar que vocês ousem duvidar de um homem com problemas na vista.”
“Eu tenho problemas na vista”, disse Klaus, apontando para os seus óculos, “e você está duvidando de mim.”
“Agradeceria se você não fosse impertinente”, disse tia Josephine, usando uma expressão que aqui quer dizer “ficasse me mostrando que estou errada, pois isso me aborrece”. “É muito aborrecido. Vocês têm que aceitar, de uma vez por todas, que o capitão Sham não é o conde Olaf.” Enfiou a mão no bolso e tirou o cartão. “Vejam este cartão. Aqui está escrito conde Olaf? Não. É capitão Sham que está escrito. Está certo que o cartão tem um erro ortográfico grave, mas não deixa de ser uma prova de que o capitão Sham é quem ele diz que é.”
Tia Josephine pôs o cartão na mesa de jantar, e os Baudelaire olharam para ele e suspiraram. Cartões evidentemente não provam coisa alguma. Qualquer um pode ir a uma gráfica e mandar imprimir cartões com os dizeres que bem entender. O rei da Dinamarca pode encomendar cartões onde esteja escrito que ele vende bolas de golfe. Sua dentista pode encomendar cartões onde esteja escrito que ela é sua avó. A fim de escapar do castelo de um inimigo meu, mandei imprimir certa vez cartões em que eu aparecia como almirante da marinha francesa. O fato de uma coisa estar impressa – ou em cartão, ou em jornal, ou em livro – não significa que essa coisa seja verdadeira. Os três irmãos não tinham a menor dúvida sobre isso, mas não encontravam palavras capazes de convencer tia Josephine. Assim, simplesmente olharam para ela, suspiraram, e em silêncio fingiram comer o prato que ela havia preparado.
O sossego era tão grande na sala de jantar que todos pularam – Violet, Klaus, Sunny e até mesmo tia Josephine – quando o telefone tocou.
“Meu Deus!”, disse tia Josephine. “Que faremos?”
“Minca!”, gritou Sunny, provavelmente querendo dizer: “Vamos atender, é claro!”.
Tia Josephine se levantou, mas não fez nenhum movimento, nem quando o telefone tocou uma segunda vez. “Talvez seja importante”, disse, “mas não sei se vale correr o risco de ser eletrocutada.”
“Se com isso você se sentir mais aliviada”, disse Violet, limpando os lábios com o guardanapo, “eu atendo o telefone.” Violet se levantou e andou até o telefone, ainda em tempo de atendê-lo no terceiro toque. “Alô?”, disse ela.
“É a sra. Anwhistle?”, perguntou uma voz ofegante.
“Não”, respondeu Violet. “Aqui fala Violet Baudelaire. Em que posso ajudá-lo?”
“Ponha a velha no aparelho, órfã”, disse a voz, e Violet ficou gelada ao perceber que era o capitão Sham. Mais que depressa, ela olhou para a tia Josephine, que agora observava Violet nervosamente.
“Sinto muito”, disse Violet no telefone. “Houve engano.”
“Não me venha com brincadeiras, sua infeliz...”, começou o capitão a dizer, mas Violet desligou o telefone, com o coração batendo, e se virou para tia Josephine.
“Era alguém que queria ligar para a Escola de Dança Hopalong”, disse ela, sem titubear na mentira.
“Que menina corajosa!”, murmurou tia Josephine. “Pegou o telefone sem hesitar!”
“Na verdade, é absolutamente seguro”, disse Violet.
“Você nunca atendeu o telefone, tia Josephine?”, perguntou Klaus.
“Belo quase sempre atendia”, disse tia Josephine, “e ele usava uma luva especial de segurança. Mas agora que vi sua irmã atender, posso fazer uma tentativa a próxima vez que alguém ligar.”
O telefone tocou, e tia Josephine tornou a pular. “Minha nossa!”, disse. “Não pensei que fosse tocar de novo tão cedo. Que noite mais cheia de aventuras!”
Violet olhou fixo para o telefone, sabendo que era o capitão Sham novamente. “Quer que eu atenda outra vez?”, perguntou.
“Não, não”, disse tia Josephine, caminhando na direção do aparelhinho sonante como se este fosse um Cachorrão a latir ameaçadoramente. “Eu disse que ia tentar, e é o que vou fazer.” Respirou fundo, estendeu uma das mãos, nervosa, e pegou o telefone. “Alô?”, disse ela. “Sim, é ela. Oh, olá, capitão Sham. Que prazer ouvir sua voz.” Tia Josephine ouviu por um momento, depois enrubesceu vivamente. “Ora, é muita delicadeza sua dizer isso, capitão Sham, mas... o quê? Oh, está bem. É muita delicadeza sua dizer isso, Julio. O quê? O quê? Ah! é uma ideia adorável. Espere um instante, por favor.” Tia Josephine tapou o fone e se dirigiu às três crianças. “Violet, Klaus, Sunny, vão para o seu quarto, por favor”, disse. “O capitão Sham, quero dizer, Julio – ele me pediu que o chamasse pelo primeiro nome –, está preparando uma surpresa para vocês, crianças, e quer conversar comigo sobre isso.”
“Nós não queremos uma surpresa”, disse Klaus.
“Claro que querem”, disse tia Josephine. “Saiam um pouco, para que eu possa conversar sobre o assunto sem vocês ficarem bisbilhotando.”
“Não estamos bisbilhotando”, disse Violet, “mas acho que seria melhor ficarmos aqui.”
“Talvez vocês estejam confundindo o sentido da palavra bisbilhotando”, disse tia Josephine. “Significa ‘escutando a conversa dos outros’. Se ficarem aqui, estarão bisbilhotando. Por favor, vão para o quarto.”
“Nós sabemos o que significa bisbilhotando”, disse Klaus, mas seguiu suas irmãs pelo corredor até o quarto.
Uma vez lá dentro, entreolharam-se em silenciosa frustração. Violet tirou da sua cama o trem de brinquedo que havia planejado examinar à noite, para que os três pudessem se deitar um ao lado do outro e franzir a testa para o teto.
“Pensei que estivéssemos em segurança aqui”, disse Violet melancolicamente. “Pensei que alguém que tem medo até de corretores fosse a última pessoa capaz de fazer amizade com o conde Olaf, qualquer que fosse o disfarce usado por ele.”
“Vocês acham que ele realmente deixou as sanguessugas arrancarem sua perna”, perguntou Klaus, estremecendo, “só para esconder a tatuagem?”
“Chói!”, gritou Sunny, o que provavelmente queria dizer: “Acho um pouco drástico demais, mesmo para o conde Olaf”.
“Concordo com Sunny”, disse Violet. “Acho que ele contou aquela história das sanguessugas só para a tia Josephine ficar com pena dele.”
“E funcionou”, disse Klaus com um suspiro. “Depois que ele contou para ela essa história de cortar o coração, ela mordeu a isca, com linha, anzol e tudo.”
“Pelo menos ela não é tão confiante quanto o tio Monty”, observou Violet. “Ele deixou que o conde Olaf se mudasse para dentro de casa.”
“Pelo menos assim nós podíamos ficar de olho nele”, replicou Klaus.
“Ôber!”, assinalou Sunny, querendo dizer: “Apesar de que nem assim tenhamos conseguido salvar o tio Monty”, ou algo do gênero.
“O que vocês acham que ele está querendo aprontar desta vez?”, perguntou Violet. “Talvez planeje sair conosco num de seus barcos e nos afogar no lago.”
“Talvez esteja querendo fazer esta casa inteira rolar morro abaixo”, disse Klaus; “ele empurra, e põe a culpa no Furacão Hermano.”
“Hatfu!”, disse Sunny, melancólica, provavelmente querendo dizer algo como: “Talvez ele queira pôr as sanguessugas do lago em nossas camas”.
“Talvez, talvez, talvez”, disse Violet. “Isso tudo não vai nos levar a parte alguma.”
“Poderíamos ligar para o sr. Poe e contar a ele que o conde Olaf está aqui”, disse Klaus. “Talvez ele viesse nos buscar.”
“Esse é o maior talvez de todos”, disse Violet. “É sempre impossível convencer o sr. Poe de qualquer coisa, e tia Josephine não acredita em nós, apesar de ter visto o conde Olaf com seus próprios olhos.”
“Ela nem sequer acha que viu o conde Olaf”, concordou Klaus tristemente. “Ela acha que viu o capitão Sham.”
Sunny mordiscou sem entusiasmo a cabeça da boneca Perfeita Fortuna e murmurou: “Poch!”, o que provavelmente queria dizer: “Você quer dizer Julio”.
“Então não sei o que podemos fazer”, disse Klaus, “a não ser ficarmos com os olhos e os ouvidos bem abertos.”
“Doma”, concordou Sunny.
“Vocês dois têm razão”, disse Violet. “Só nos resta ficar atentos, vigiando tudo.”
Os órfãos Baudelaire assentiram com a cabeça, solenemente, mas o buraco frio no estômago deles não havia desaparecido. Todos sentiam que ficar atento não era realmente um grande plano para se defender do capitão Sham, e, à medida que o tempo foi passando, sua preocupação aumentou cada vez mais. Violet prendeu o cabelo com uma fita, para não atrapalhar sua visão, como se estivesse inventando alguma coisa, mas pensou e pensou horas a fio, e nenhum outro plano lhe veio à cabeça. Klaus olhava para o teto em absoluta concentração, como se houvesse algo muito interessante escrito ali, mas não lhe ocorreu nenhuma ideia útil, e o tempo foi passando, passando... E Sunny mordeu a cabeça de Perfeita Fortuna uma porção de vezes, mas por mais que se demorasse em cada mordida, não conseguia encontrar solução para o pesadelo dos Baudelaire.
Tenho uma amiga chamada Gina-Sue que é socialista, e Gina-Sue tem um ditado favorito: “Casa arrombada, trancas à porta” (com o sentido crítico de “roubada ou arrombada a casa, é tarde demais para trancar a porta”). Às vezes o melhor dos planos pode nos ocorrer quando já é tarde demais. É o caso, lamento dizer, dos órfãos Baudelaire e seu plano de vigiar atentamente o capitão Sham, já que depois das muitas horas de preocupação ouviram um enorme estrondo de vidros se partindo e no mesmo instante se convenceram de que seu plano de vigilância não tinha sido satisfatório.
“Que barulho foi esse?”, disse Violet, levantando-se da cama.
“Pareciam vidros se quebrando”, disse Klaus, preocupado, indo para a porta do quarto.
“Vestu!”, gritou Sunny, mas seus irmãos não tiveram tempo para decifrar o que ela queria dizer, pois dispararam corredor afora.
“Tia Josephine! Tia Josephine!”, chamou Violet, mas não houve resposta. Ela percorreu o corredor de ponta a ponta, mas estava tudo em silêncio. “Tia Josephine” tornou a chamar. Violet foi na frente, seguida pelos dois outros órfãos, e os três entraram correndo na sala de jantar, mas sua tutora tampouco estava lá. As velas sobre a mesa continuavam acesas, lançando um brilho trêmulo sobre o cartão e as tigelas com o caldo de lima gelado.
“Tia Josephine!”, chamou Violet mais uma vez, e as crianças voltaram depressa para o corredor, seguindo em direção à porta da biblioteca. No meio da correria, Violet não pôde deixar de lembrar como ela e os irmãos haviam chamado pelo nome do tio Monty, certa manhã bem cedo, pouco antes de tomarem conhecimento da tragédia que lhe acontecera. “Tia Josephine!”, chamou. “Tia Josephine!” Não pôde deixar de lembrar de todas as vezes que acordara no meio da noite chamando pelos nomes de seus pais, sempre que sonhava com o terrível incêndio que acabara com eles. “Tia Josephine!”, disse, chegando à porta da biblioteca. Violet tinha medo de que tia Josephine já não pudesse ouvi-la chamar por seu nome.
“Olhe”, disse Klaus, e apontou para a porta. Um pedaço de papel, dobrado ao meio, estava pregado à madeira com uma tachinha. Klaus pegou o papel e o desdobrou.
“O que é?”, perguntou Violet, e Sunny esticou o pescocinho para ver.
“É um bilhete”, disse Klaus, e leu em voz alta:

Violet, Klaus e Sunny:
Quando vocês lerem este bilhete, minha vida terá chegado a seu própio fim. Meu coração está frio como Belo, e a vida para mim tornou-se repussiva. Sei que, como crianças, não podem compreender o coração urlulante de uma tristre viúva, pois não conhecem as razões que me levaram a um acto tão desesperado, mas saibam que me sinto muito mais feliz assim. Como minha última vontade, deixo vocês três sob a guarda do capitão Sham, homem honrado e de bom coração. Por favor, pensem em mim com carinho apesar de eu ter feito essa coisa terrível.
Sua tia Josephine

“Oh, não!”, disse Klaus em voz baixa, ao terminar a leitura. Depois examinou o papel várias vezes, como se o tivesse lido incorretamente, como se ali estivesse escrito algo diferente. “Oh, não!”, tornou a dizer, com a voz tão sumida que era como se ele nem sequer soubesse que falava em voz alta.
Sem dizer nada, Violet abriu a porta da biblioteca, e os Baudelaire entraram, sentindo-se tomados no mesmo instante por fortes calafrios. Na sala estava um frio de rachar, e um primeiro olhar bastou para que os órfãos compreendessem por quê. A ampla janela que dava para o lago se partira. A não ser por alguns fragmentos que ainda aderiam à moldura da janela, a enorme vidraça sumira, deixando um buraco vazio voltado para o imóvel negrume da noite.
O ar frio noturno entrava com ímpeto pelo buraco, causando um matraquear ininterrupto das folhas dos livros nas estantes e levando os Baudelaire a se abraçar para melhor resistir aos arrepios. Apesar do frio, os órfãos caminharam com cuidado até o espaço vazio onde antes era a janela e olharam para baixo. A noite estava tão negra que parecia não haver absolutamente nada do outro lado da janela. Violet, Klaus e Sunny ficaram ali em pé por um momento e lembraram do medo que sentiram, dias atrás, quando se achavam no mesmo lugar e na mesma posição. Agora constatavam que o medo deles tinha sido racional. Grudados uns nos outros, olhando na direção do abismo negro, os Baudelaire se convenceram de que seu plano de vigilância surgira tarde demais. Quando pensaram em trancar a porta, esta já havia sido arrombada e a pobre tia Josephine já se fora.

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