sábado, 27 de agosto de 2016

Capítulo quatro


“O quê?”, perguntou Hugo, esfregando os olhos. “O que foi que você disse?”
“Eu disse que o trailer dos presentes está quase sem estatuetas”, repetiu o homem de mãos de gancho detrás da porta. “Mas isso não é da sua conta. Já tem gente no parque, portanto vocês, aberrações, precisam se aprontar em quinze minutos.”
“Um momento, senhor!”, disse Violet, se lembrando a tempo de dizer com voz grave, enquanto ela e o irmão desciam da rede, ainda dentro da mesma calça. Sunny já estava no chão, excitada demais para se lembrar de que rosnava. “O senhor disse que um dos pais dos Baudelaire está vivo?”
A porta do trailer se abriu levemente, e as crianças viram a cara do homem de mãos de gancho, que as fitava desconfiado.
“Que diferença faz para vocês?”, perguntou ele.
“Bem”, concertou Klaus, “lemos sobre os Baudelaire em O Pundonor Diário e estamos muito interessados no caso daquelas crianças homicidas.”
“Bem”, disse o homem, “os pais dos pirralhos deveriam estar mortos, mas a madame Lulu viu na bola de cristal que um deles está vivo. É uma longa história, mas significa que estaremos todos muito ocupados hoje. O conde Olaf e a madame Lulu precisaram sair cedo numa missão importante, portanto eu estou encarregado da Casa dos Monstros, o que significa que mando em vocês. Andem logo e se aprontem para o espetáculo!”
“Grr!”, rosnou Sunny.
“Chabo já está pronta”, disse Violet, “e nós nos aprontamos num instante.”
“É bom mesmo”, disse o homem de mãos de gancho, e começou a fechar a porta, mas parou por um momento. “Engraçado”, disse ele. “Parece que uma de suas cicatrizes está borrada.”
“Elas costumam borrar à medida que vão sarando”, disse Klaus.
“Que pena”, respondeu o homem de mãos de gancho. “Isso deixa você com uma aparência menos bizarra.” Ele bateu a porta e se afastou do trailer.
“Tenho dó daquele homem”, comentou Colette, enquanto torcia o corpo para descer da rede e se contorcia no chão. “Toda vez que ele e o tal conde vêm fazer uma visita eu me sinto mal só de olhar para aqueles ganchos.”
“Ele está melhor do que eu”, disse Kevin, espreguiçando os braços ambidestros. “Pelo menos um dos ganchos é mais forte que o outro. Meus braços e pernas são exatamente iguais.”
“E as minhas são muito flexíveis”, disse Colette. “Bem, melhor fazer o que aquele sujeito disse, e se preparar para o espetáculo.”
“Vamos lá”, disse Hugo, procurando uma escova de dente numa gaveta de seu armário. “Madame Lulu sempre diz que precisamos dar às pessoas aquilo que elas querem, e aquele homem quer que nos aprontemos.”
“Aqui, Chabo”, disse Violet. “Vou ajudá-la a afiar os dentes.”
“Grr!”, concordou Sunny, e os Baudelaire mais velhos se inclinaram para baixo, ergueram Sunny e a levaram para um canto onde os três pudessem cochichar. Enquanto isso, Hugo, Colette e Kevin arrematavam seu vestuário, uma expressão que aqui significa “faziam as coisas necessárias para começar o dia como aberrações de parque de diversões”.
“O que você acha?”, perguntou Klaus. “Será realmente possível que um de nossos pais esteja vivo?”
“Não sei”, disse Violet. “É difícil acreditar que a bola de cristal tenha de fato alguma magia. Mas, por outro lado, ela sempre apontou ao conde Olaf onde nós estávamos. Não sei no que acreditar.”
“Barraca”, sussurrou Sunny.
“Acho que você tem razão, Sunny”, disse Klaus. “Se entrarmos sem que ninguém nos note na Barraca do Destino, talvez possamos descobrir alguma coisa sobre nós.”
“Vocês estão cochichando sobre mim, não é?”, gritou Kevin do outro lado do trailer. “Aposto que estão dizendo: ‘Que aberração é esse Kevin. Às vezes ele faz a barba com a mão esquerda, às vezes com a mão direita, mas não faz diferença, porque as mãos são exatamente iguais!’”.
“Não estávamos falando de você, Kevin”, disse Violet. “Falávamos do caso Baudelaire.”
“Nunca ouvi falar nesses Baudelaire”, disse Hugo, enquanto penteava o cabelo. “Será que ouvi você mencionar que eles são assassinos?”
“É o que diz O Pundonor Diário’, disse Klaus.
“Eu nunca leio o jornal”, disse Kevin. “Segurá-lo da mesma forma com as duas mãos me faz sentir uma aberração.”
“Você está melhor do que eu”, disse Colette. “Se me contorcer, posso até pegar um jornal com a língua. E você ainda vem dizer que é uma aberração...”
“É um dilema interessante”, disse Hugo ao escolher um dos casacos da arara, “mas somos todos aberrações do mesmo jeito. Agora vamos sair e apresentar um bom espetáculo!”
Os Baudelaire seguiram os colegas até a Casa dos Monstros, onde o homem de mãos de gancho aguardava impaciente, segurando uma coisa comprida e molhada num dos ganchos.
“Entrem e façam um bom espetáculo”, ordenou ele, indicando a entrada da barraca. “Madame Lulu disse que estou autorizado a usar este tagliatelle grande se vocês não derem ao público o que ele quer.”
“O que é um tagliatelle grande?”, perguntou Colette.
“É uma espécie de macarrão italiano”, explicou o homem de mãos de gancho, desenrolando o objeto comprido e molhado. “É um macarrãozão que um empregado do Parque Caligari cozinhou para mim esta manhã.” O capanga de Olaf chacoalhou o maço de macarrão acima da cabeça, produzindo um som flácido que lembrava uma enorme minhoca se arrastando. “Se vocês não fizerem o que eu digo”, continuou ele, “bato em vocês com o tagliatelle grande, e ouvi dizer que é uma experiência pegajosa.”
“Não se preocupe”, disse Hugo. “Nós somos profissionais.”
“Fico feliz em ouvir isso”, debochou o homem de mãos de gancho, e os acompanhou até a Casa dos Monstros.
A barraca parecia ainda maior por dentro, especialmente porque não havia muita coisa naquele espaço tão grande. Por cima do palco havia algumas cadeiras de dobrar e um estandarte pendurado, onde se lia CASA DOS MONSTROS em letras desleixadas. Havia também um pequeno quiosque onde uma das mulheres de cara branca vendia refrescos. E havia sete ou oito pessoas que já aguardavam impacientes pelo início do espetáculo. Madame Lulu mencionara que os negócios iam mal no Parque Caligari, mas ainda assim os irmãos esperavam que um pouco mais de gente fosse ver as aberrações do parque. Quando as crianças e os seus colegas se aproximaram do palco, o homem de mãos de gancho começou a falar como se estivesse diante de uma vasta multidão.
“Senhoras e senhores, meninos e meninas, adolescentes de ambos os sexos”, anunciou. “Corram para comprar os seus deliciosos refrescos, pois o espetáculo de aberrações da Casa dos Monstros já vai começar!”
“Olhem para aqueles monstros!”, disse alguém do público com uma risadinha. Era um homem de meia-idade, com várias espinhas no queixo. “Tem um com ganchos no lugar das mãos!”
“Eu não sou parte do espetáculo”, rosnou o capanga de Olaf. “Trabalho no parque!”
“Oh, desculpe”, disse o homem. “Mas, se me permite a sinceridade, ninguém o confundiria se você comprasse um belo par de mãos.”
“Comentar a aparência dos outros é falta de educação”, disse severamente o homem de mãos de gancho. “E agora, senhoras e senhores, contemplem horrorizados Hugo, o corcunda! No lugar das costas ele tem uma grande e monstruosa giba!”
“É verdade”, disse o homem das espinhas, que estava com vontade de rir. “Que monstro!”
O homem de mãos de gancho agitou o grande macarrão no ar como um lembrete flácido aos Baudelaire e seus colegas. “Hugo!”, latiu. “Vista o seu casaco!”
Enquanto o público abafava o riso, Hugo foi até a frente do palco e tentou vestir o casaco. Normalmente, quando alguém possui um corpo pouco usual, contrata um alfaiate para adaptar as roupas a seu corpo, mas quando Hugo começou a lutar com o casaco, ficou claro que nenhum alfaiate tinha sido contratado. À medida que ele fechava os botões de baixo para cima, a corcunda de Hugo enrugou, depois esticou, e por fim acabou rasgando a parte de trás do casaco. Poucos momentos depois, tudo o que restava do casaco eram pedaços de pano esfarrapado. Envergonhado, Hugo retirou-se para o fundo do palco e sentou-se numa cadeira de dobrar, enquanto as pessoas do minúsculo público uivavam de tanto rir.
“Não é hilário?”, disse o homem de mãos de gancho. “Ele não consegue nem vestir um casaco! Que pessoa monstruosa! Mas aguardem, senhoras e senhores, porque aí vem mais!” O comparsa de Olaf agitou mais uma vez o tagliatelle grande, enquanto, com o outro gancho, tirou do bolso uma espiga de milho que mostrou para a plateia. “Essa é uma simples espiga de milho”, anunciou. “É uma coisa que qualquer pessoa normal pode comer. Mas aqui no Parque Caligari nós não temos uma Casa das Pessoas Normais. Nós temos uma Casa dos Monstros, e é de lá que vem uma novíssima aberração que vai transformar essa espiga numa hilariante porcaria!”
Violet e Klaus suspiraram e foram até o centro do palco, e eu acho que não preciso me demorar muito na descrição daquele espetáculo deprimente. Sem dúvida você é capaz de adivinhar que os dois Baudelaire mais velhos foram forçados a comer aquela espiga de milho na frente de um pequeno grupo de pessoas que ria deles, e que Colette foi forçada a torcer o corpo em formas e posições inusitadas, e que Kevin teve de escrever seu nome com ambas as mãos, a esquerda e a direita, e que por fim a pobre Sunny foi forçada a rosnar para o público, muito embora não fosse uma pessoa feroz e preferisse dizer “oi” educadamente. E você pode imaginar como as pessoas reagiam quando o homem de mãos de gancho anunciava cada um deles e os forçava a fazer essas coisas. Os sete ou oito gatos-pingados do público riam, gritavam impropérios e faziam piadas de mau gosto, e uma mulher chegou a atirar o seu refresco em Kevin, com copo de papel e tudo, como se alguém que é destro e canhoto ao mesmo tempo merecesse ganhar manchas pegajosas na camisa. Mas o que talvez você não possa imaginar, a não ser que já tenha passado por isso, é o quanto foi humilhante participar de um espetáculo desses. Você pode achar que ser humilhado é como andar de bicicleta ou decifrar mensagens em código, coisas que ficam mais fáceis depois que você já passou por isso algumas vezes, mas aquela não era a primeira vez que insultavam os Baudelaire, e isso não tornou a experiência na Casa dos Monstros nem um pouco mais fácil. Violet lembrou-se de quando uma menina chamada Carmelita Spats rira dela e a xingara na época da Escola Preparatória Prufrock, mas mesmo assim ficou magoada quando o homem de mãos de gancho a anunciou como uma aberração hilariante. Klaus lembrou-se de quando Esmé Squalor o insultara na avenida Sombria, 667, mas mesmo assim ficou envergonhado quando o público começou a apontar com o dedo e rir a cada vez que a espiga de milho escorregava de suas mãos. E Sunny lembrou-se de todas as vezes em que o conde Olaf rira dos três Baudelaire e de suas desventuras, mas mesmo assim ficou magoada e um pouco enjoada quando a chamaram de “aberração lobal” . Os Baudelaire sabiam que não eram uma pessoa de duas cabeças e um bebê-lobo, mas mesmo assim, sentados com os colegas no trailer das aberrações, depois que o espetáculo terminara, sentiram-se humilhados como se de fato fossem tão monstruosos como todos pensavam.
“Não gosto deste lugar”, disse Violet a Kevin e Colette, enquanto Hugo preparava chocolate quente no fogão. Ela estava tão perturbada que quase se esqueceu de falar com a voz grave. “Não gosto que olhem para mim, não gosto que deem risada de mim. Se as pessoas acham engraçado alguém deixar uma espiga de milho cair no chão, que fiquem em casa e deixem elas mesmas a espiga cair.”
“Kiwoon!”, concordou Sunny, sem se lembrar de rosnar. Ela queria dizer alguma coisa como: “Pensei que ia chorar quando me chamaram de ‘monstro’“, mas por sorte só seus irmãos entenderam, portanto ela não revelou seu disfarce.
“Não se preocupem”, disse Klaus às irmãs. “Acho que não vamos continuar aqui por muito tempo. A Barraca do Destino está fechada porque hoje cedo o conde Olaf e a madame Lulu saíram numa missão importante.” O Baudelaire do meio não precisou acrescentar que era uma boa ocasião para entrar na barraca de Lulu e descobrir se a bola de cristal realmente tinha as respostas que eles procuravam.
“Que importa para você se a Barraca do Destino está fechada?”, perguntou Colette. “Você é uma aberração, e não um vidente.”
“E por que você não quer ficar aqui?”, perguntou Kevin. “O Parque Caligari não está no auge de sua popularidade, mas não existe nenhum outro lugar para onde uma aberração possa ir.”
“É claro que existe”, disse Violet. “Muitas pessoas são ambidestras, Kevin. Existem floristas, controladores de tráfego aéreo, e mais um monte de profissionais ambidestros.”
“Você acha?”, perguntou Kevin.
“É claro que acho”, disse Violet. “E a mesma coisa acontece com contorcionistas e corcundas. Todos poderíamos encontrar outro tipo de trabalho num lugar onde as pessoas não nos achassem monstruosos.”
“Não tenho muita certeza disso”, gritou Hugo lá do fogão. “Acho que uma pessoa de duas cabeças vai ser considerada um tanto monstruosa onde quer que seja.”
“E o mesmo deve acontecer com uma pessoa ambidestra”, disse Kevin com um suspiro.
“Vamos tentar esquecer nossos problemas e jogar dominó”, propôs Hugo, trazendo uma bandeja com seis canecas de chocolate quente. “Achei que as duas cabeças iriam preferir canecas separadas”, explicou com um sorriso, “especialmente porque esse chocolate quente está especial. Chabo acrescentou uma pitada de canela.”
“Chabo?”, perguntou Klaus surpreso, e Sunny rosnou modestamente.
“Sim”, disse Hugo. “No começo achei que era alguma receita aberrante de lobo, mas na verdade é bem gostoso.”
“Foi uma ideia inteligente, Chabo”, disse Klaus, e sorriu para a irmã, que até outro dia não sabia andar e de tão pequena cabia numa gaiola de passarinho. Agora Sunny já tinha seus próprios interesses e era grande o suficiente para se fazer de bebê-lobo.
“Você deve se orgulhar muito de si mesma, Chabo”, concordou Hugo. “Se você não fosse uma aberração, poderia ser uma excelente chefe de cozinha quando crescesse.”
“Mas ela pode ser chefe de cozinha”, disse Violet. “Elliot, você se importaria se tomássemos o nosso chocolate lá fora?”
“É uma boa ideia”, respondeu Klaus depressa. “Sempre achei que chocolate quente era uma bebida para se tomar ao ar livre, e eu gostaria de dar uma olhada no trailer dos presentes.”
“Grr”, rosnou Sunny, mas seus irmãos sabiam que ela queria dizer: “Vou com vocês”, e engatinhou até onde Violet e Klaus estavam tentando se levantar da cadeira juntos.
“Não demorem muito”, disse Colette. “Não temos permissão para passear no parque.”
“Vamos só tomar o chocolate quente e já voltamos”, prometeu Klaus.
“Espero que não se metam em encrenca”, disse Kevin. “Detesto pensar no tagliatelle grande atingindo suas duas cabeças.”
Os Baudelaire iam comentar que uma lambada do tagliatelle grande não devia doer nem um pouco, quando ouviram um ruído muito mais assustador que o de um macarrão girando no ar. Ainda dentro do trailer, as crianças ouviram o ruído alto e rangente que reconheciam da longa viagem pelo sertão.
“Deve ser aquele cavalheiro amigo da madame Lulu”, disse Hugo. “É o som do carro dele.”
“Também há um outro som”, disse Colette. “Escutem.”
As crianças prestaram atenção e puderam constatar que a contorcionista dissera a verdade. Acompanhando o barulho do motor, havia um outro rugido, que soava mais profundo e mais irado que o de qualquer automóvel. Os Baudelaire sabiam que não se pode julgar uma coisa pelo som, assim como não se pode julgar uma pessoa pela aparência, mas aquele rugido era tão alto e feroz que não podia ser um bom sinal.
Aqui devo interromper a história e contar uma outra, a fim de provar um ponto importante. Esta segunda história é fictícia, uma palavra que aqui significa “que alguém a inventou um dia”, contrapondo-se à história dos órfãos Baudelaire, que alguém meramente anotou, geralmente à noite. É chamada “A história da Rainha Debbie e seu namorado Tony”, e é mais ou menos assim:

A história da Rainha Debbie e seu namorado Tony

Era uma vez uma rainha fictícia chamada Rainha Debbie. Ela reinava sobre a terra onde se passa esta história, que também é fictícia. Nessa terra havia árvores de pirulitos por toda parte e camundongos cantores que faziam as tarefas domésticas. Havia também leões ferozes e fictícios que guardavam o palácio contra inimigos fictícios. A Rainha Debbie tinha um namorado chamado Tony, que vivia no fictício reino vizinho. Como suas casas eram distantes, Debbie e Tony não podiam se encontrar com muita frequência, mas de vez em quando saíam para jantar e ir ao cinema, ou fazer outras coisas fictícias juntos.
Quando chegou o dia do aniversário de Tony, a Rainha Debbie não pôde viajar para vê-lo, pois não podia faltar a seus régios compromissos, e enviou um bonito cartão e um pássaro mainá de presente para ele. Quando você ganha um presente, a coisa mais apropriada a fazer é escrever um bilhete de agradecimento, mas Tony não era exatamente uma pessoa apropriada, e telefonou para Debbie para reclamar.
“Debbie, aqui é o Tony”, disse. “Recebi o presente de aniversário que você mandou e não gostei nem um pouco.”
“Lamento, Tony”, disse a Rainha Debbie, colhendo um pirulito de uma árvore próxima. “Escolhi o pássaro mainá especialmente para você. Que espécie de presente prefere?”
“Um punhado de diamantes valiosos”, disse Tony, que era tão ganancioso quanto fictício.
“Diamantes?”, disse Debbie. “Mas o pássaro mainá pode alegrá-lo quando você estiver triste e, se ensiná-lo, pode pousar na sua mão, e até falar. “
“Eu quero diamantes”, disse Tony.
“Mas os diamantes são muito valiosos”, disse ela. “Se eu mandá-los pelo correio, é provável que sejam roubados pelo caminho, e aí é que você não terá nenhum presente de aniversário. “
“Eu quero diamantes”, insistiu Tony, que já estava começando a ficar chato.
“Já sei o que fazer”, disse a Rainha Debbie com um leve sorriso. “Farei os meus régios leões comerem os diamantes, e depois os mandarei para o seu reino. Ninguém ousaria atacar um bando de leões ferozes, portanto é certeza que os diamantes chegarão em segurança”.
“Ande logo”, disse Tony. “hoje deveria ser o meu dia especial”.
Foi fácil para a Rainha Debbie andar logo, pois os camundongos cantores do palácio ajeitaram tudo o que foi necessário. Ela só precisou de alguns minutos para dar de comer aos seus leões um atum recheado de diamantes, uma manobra para que os leões concordassem em comer pedras preciosas. Então ela instruiu os animais a viajar até o reino vizinho e entregar o presente a Tony.
Impaciente, Tony passou o resto do dia do lado de fora de casa, chateando o pássaro mainá e comendo todo o sorvete e o bolo de aniversário, até que na hora do pôr-do-sol ele viu os leões se aproximarem no horizonte e saiu correndo para pegar o presente.
“Me entreguem os diamantes, leões idiotas!”, gritou Tony, e nem é preciso contar o resto da história, que tem uma moral um tanto óbvia: “A leão dado não se olha a boca”. O ponto é que há momentos em que a chegada de um bando de leões é uma boa-nova, especialmente numa história fictícia, onde os leões são régios mas não são reais, e por isso é provável que não te façam mal. No caso da Rainha Debbie e seu namorado, Tony, a chegada dos leões significa apenas que a história está prestes a ficar muito melhor.
Mas lamento dizer que o caso dos órfãos Baudelaire não é um desses casos. Sua história não se passa numa terra fictícia onde pirulito dá em árvore e camundongos cantores fazem tarefas domésticas. A história dos Baudelaire se passa num mundo muito real, onde se costuma rir de pessoas incomuns e onde crianças podem acabar totalmente sozinhas, lutando para entender o mistério sinistro que as rodeia, e nesse mundo a chegada dos leões significa que a história está prestes a ficar muito pior, por isso, se você não tem estômago para uma história dessas – assim como os leões não têm estômago para diamantes que não sejam o recheio de um atum –, é melhor você dar meia-volta agora mesmo e sair correndo, como os Baudelaire gostariam de poder fazer quando saíram do trailer e viram o que o conde Olaf trouxera de sua missão.
Olaf passou com o seu automóvel preto por entre os trailers, quase atropelando os visitantes do parque, e parou bem na frente da Casa dos Monstros, onde finalmente desligou o motor cujo barulho as crianças tinham reconhecido. Mas o outro rugido, ainda mais nervoso que o do motor, continuou depois que o conde Olaf desceu do carro, seguido de madame Lulu, e apontou com um floreio para o reboque atrelado ao automóvel. O reboque mais se parecia com uma jaula sobre rodas, e através das barras dessa jaula os Baudelaire entreviram o que o vilão apontava.
A jaula estava cheia de leões, tão lotada que não era possível dizer exatamente quantos havia lá. Os leões estavam irritados por viajar em acomodações tão exíguas, e demonstravam sua irritação arranhando a jaula e ameaçando uns aos outros com seus longos dentes e rugidos. Alguns dos capangas do conde Olaf e diversos visitantes do parque se reuniram em volta da jaula para ver o que se passava, e Olaf bem que tentou dizer alguma coisa, mas ninguém pôde ouvi-lo em meio aos rugidos. Contrariado, o vilão tirou um chicote do bolso e fustigou os leões através da jaula. Assim como as pessoas, os leões também sentem medo, e provavelmente farão tudo o que você mandar se os chicotear o suficiente para isso, e assim os leões se aquietaram e Olaf pôde finalmente fazer o seu comunicado.
“Senhoras e senhores”, disse, “meninos e meninas, aberrações e pessoas normais, o Parque Caligari se orgulha de anunciar a chegada de leões ferozes, os quais participarão de um novo espetáculo.”
“Que boa notícia”, disse alguém na multidão, “porque os suvenires do trailer de presentes são realmente desprezíveis.”
“Muito boas notícias”, concordou rispidamente o conde Olaf, e virou-se de frente para os Baudelaire. Seus olhos brilhavam muito quando ele olhou para as crianças, e depois para a multidão que se juntava, e disse: “As coisas estão prestes a ficar muito melhores por aqui”.
Os órfãos Baudelaire perceberam que aquilo era algo tão fictício quanto qualquer coisa que eles fossem capazes de imaginar.

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